A chegada da COVID-19 a aldeias A’uwe, Kawaiwete e Apinajé

por Rodrigo Brusco, Sheila Baxy Pereira de Castro Apinajé, Paulo Dumhiwe, Eduardo Monteiro, Odilon Morais, Júlio Kamêr Ribeiro Apinajé, Amanda Horta
31 Março 2021
Nota de Pesquisa

           Passou-se pouco mais de um ano da declaração de emergência sanitária pela Organização Mundial da Saúde (OMS) diante da pandemia de COVID-19, em janeiro de 2020. Desde então, o novo coronavírus varreu o território brasileiro mas, como sabemos, a expansão do contágio não é uniforme. Entre as mais de 300 etnias indígenas no Brasil, a velocidade da transmissão da doença, das ações de saúde pública, das discussões comunitárias e das respostas à pandemia variam não só devido a questões sociais, econômicas e políticas, mas também em função dos pressupostos cosmológicos que fundamentam a existência desses povos.

            Nesta nota de campo, exploramos as experiências com a COVID-19 entre três grupos indígenas que vivenciaram o estouro dos casos em dois momentos diferentes. Entre os A’uwe (conhecidos também como Xavante), a doença teve seu ápice entre maio e junho de 2020, levando-os ao triste posto de maior índice de letalidade entre povos indígenas no Brasil. Entre os Kawaiwete (outrora conhecidos como Kaiabi) e os Apinajé, por sua vez, o novo coronavírus chegou mais tarde. Tendo assistido, meses antes, à propagação do vírus entre outros povos indígenas, esses dois grupos tomaram diversos cuidados para evitar e se preparar para a doença em seus territórios. Ainda assim, no final do ano passado, a COVID-19 os atingiu em cheio.

A’uwe

            Com 68 óbitos registrados pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), os A’uwe, com uma população de mais de 22 mil pessoas, foi o povo mais impactado pela COVID-19, quando considerado o número absoluto de mortes. Hoje, é incomum encontrar alguém que, durante o período de pandemia, não tenha vivenciado processos de luto por seus parentes atingidos pela doença, uma indicação da densidade das redes de parentesco que interligam a população espalhada em nove terras indígenas (TI) do leste mato-grossense.

            A chegada da COVID-19 nas aldeias A’uwe foi atravessada por narrativas concorrentes a respeito da natureza e das origens da doença. A doença foi inicialmente entendida por alguns como um “castigo aos waradzu [não indígenas]”, segundo Oscar Urebeté, professor residente na TI São Marcos; por outros, como uma “doença inventada” em laboratório pelos próprios waradzu, conta Paulo Dumhiwe, pesquisador indígena da PARI-c. Em ambos os casos, era algo que infligiria exclusivamente os não indígenas. Contudo, a escalada de casos tornou patente que os A’uwe também estavam suscetíveis à doença. Ainda assim, as controvérsias a respeito do vírus continuavam intensas, como relata Indiana Petsirei'õ:

“O povo já sabia da doença, mas não acreditava. Não acredita até agora, por mais que tenha perdido um membro da família, irmão, irmã, tios, eu ouvi muito que o pessoal da saúde waradzu está se aproveitando para dar um fim [nos Xavante], para que os indígenas pudessem morrer”.

         Servidora da Funai e residente na TI Parabubure, Indiana teve COVID-19 duas vezes. Perdeu sobrinhos, tios e irmã e atualmente está com a mãe internada por conta da doença. Sua experiência com a pandemia representa a profunda dor e sofrimento dos A’uwe durante o ano passado. O uso recorrente do cabelo raspado, sinal mais aparente do luto a’uwe, evidencia essa condição. Em apenas uma semana de junho, treze pessoas de diferentes terras indígenas a’uwe faleceram. O Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Xavante contabiliza, até o momento, 904 casos confirmados de COVID-19.

            Contudo, muitos consideram que a situação atual é bastante distinta daquela enfrentada em 2020. Afirmam que é nas cidades dos waradzu que a situação está mais complicada, onde a COVID-19 “pegou mais”. Segundo os A’uwe, parece não haver uma segunda onda de casos nas aldeias até o momento. Entre o grupo, a doença estaria sob controle. Paulo Dumhiwe reitera esse posicionamento, refletindo sobre a agência a’uwe no trato com a doença, pelo estabelecimento de relações de cura obtidas em plantas e outros seres não humanos:

“Nós ainda conservamos as raízes, os usos, a crença. Pedimos mais vontade ao Danhimité, que é o Deus para os Xavante. Sabíamos que Deus existia há muitos anos, antes da chegada dos católicos e evangélicos. Deus andava com os Xavante, Deus não fica parado. [..] Ele é nosso Danhimité, ele não deixa acontecer mais como aconteceu em 1966, onde os Xavante morreram com epidemia de sarampo. Hoje morreu menos, muitos se salvaram, muitos resistiram, porque usaram tantos sucos e raízes, tantos paus especiais, que espantam através da fumaça esse vírus”.

         Por enquanto, os boletins recentes do DSEI parecem confirmar o quadro esboçado nos relatos indígenas, indicando que os números de casos e óbitos registrados nos últimos meses se mantiveram relativamente baixos quando comparados ao pico de contágio registrado em meados de 2020. O boletim de 17 de fevereiro de 2021 aponta que há 26 casos de infectados atuais, nenhum deles na TI Sangradouro, onde a aldeia de Paulo Dumhiwe está situada. O número de casos atuais, ainda que crescente se comparado com os registros das últimas semanas, é sensivelmente distante daqueles de meados de 2020, quando uma situação catastrófica assolava o povo A’uwe.

Kawaiwete

            Diferente foi a experiência kawaiwete do Território Indígena do Xingu (TIX). Quando a COVID-19 chegou ao Brasil, o grupo procurou se fechar em suas aldeias, evitando a circulação pelas cidades do entorno do TIX. Para se abastecerem de mercadorias fundamentais – roupas, instrumentos de caça e pesca, produtos de higiene pessoal etc. –, realizaram iniciativas como a abertura de pequenos mercados em algumas aldeias e a encomenda de produtos da cidade com freteiros. Ademais, conjugaram as medidas sanitárias dos não indígenas com iniciativas de saúde kawaiwete: a alimentação com produtos da roça e do mato, o uso de folhas cheirosas para a desinfecção de corpos e objetos além do consumo de ervas e chás medicinais.

         A junção dessas estratégias fez com que os Kawaiwete enfrentassem os primeiros meses da pandemia com certo êxito. Sua população de 2.242 pessoas está espalhada por três terras indígenas, mas cerca de 75% dela vive nas mais de quarenta aldeias kawaiwete do TIX. Mesmo conformando a maior população desta TI, até o final de outubro os Kawaiwete registraram três mortes, sendo duas de pessoas que habitavam a cidade de Sinop (MT). Já alguns povos vizinhos aos Kawaiwete, da região do TIX conhecida como "Alto Xingu", viveram, entre junho e agosto de 2020, uma explosão de casos de COVID-19, marcada por alta letalidade.

             Certos da eficácia de suas estratégias, os Kawaiwete não esperavam o aumento substancial dos casos de COVID-19 em seu território, ocorrido a partir de outubro. Não são claras as razões para esse crescimento, que ocorreu também entre os Yudjá, povo que habita a região do TIX chamada de Baixo Xingu, junto dos Kawaiwete. Na maior aldeia yudjá, Tuba Tuba, há relatos de que uma cauinagem (preparação da bebida fermentada conhecida como cauim) teria desencadeado a contaminação de dezenas de pessoas. Como a doença teria entrado na aldeia tampouco é evidente, visto que os Yudjá adotaram medidas ainda mais restritivas do que os Kawaiwete, como a abertura de acampamentos no mato. A situação os pegou de surpresa, a tal ponto que a Unidade de Atendimento Primário Indígena (UAPI) instalada em Tuba Tuba não pôde atender, em um primeiro momento, os pacientes que necessitavam de concentradores de oxigênio. O motivo foi banal: não havia fiação para conectar o gerador recém-adquirido.

               As eleições municipais devem ter colaborado para a disseminação do vírus entre os Kawaiwete e os Yudjá. Ainda que a FUNAI tenha conseguido, junto à Justiça Eleitoral, implementar um sistema de urnas móveis no Baixo Xingu, diminuindo aglomerações no dia das eleições, os eventos que antecederam o pleito podem ter tido consequências importantes. Um funcionário indígena da saúde relatou que, fazendo uma visita a outra aldeia justamente para orientar contra a entrada de candidatos nas aldeias, se contaminou e levou a doença para a sua própria comunidade.

         Outro interlocutor ressaltou que, com o passar dos meses, seus parentes Kawaiwete foram “perdendo o medo” da pandemia. Se antes muitos evitavam as saídas para a cidade, nos últimos meses de 2020 essas visitas se intensificaram. As festas de fim de ano também foram realizadas em algumas localidades, mesmo diante do aumento exponencial dos casos de COVID-19 em todo o TIX.

            Nesse contexto, assim como os A’uwe, os Kawaiwete confiam em sua medicina tradicional para evitar complicações da doença. Um importante raizeiro tem circulado por todo o território oferecendo raízes que ajudam no combate à doença. Mas nem sempre essa estratégia é eficaz: quando um grande cacique kawaiwete, Kamita’i, adoeceu com COVID-19, em dezembro de 2020, o tratamento chegou tarde demais. Kamita’i faleceu cercado de seus parentes poucos minutos após o raizeiro chegar em sua aldeia. O falecimento de Kamita’i, que acompanhou o genocídio sofrido pelos Kawaiwete quando ainda habitavam a região do rio Telles Pires, trouxe imensa tristeza e o fim daquele que contava importantes relatos sobre o duro passado do grupo.

           Em fevereiro de 2021, os casos de COVID-19 entre os Kawaiwete não param de crescer. Os dados do DSEI-Xingu indicam que, de novembro de 2020 a janeiro de 2021, o número de casos confirmados no Polo Diauarum, que atende a imensa maioria da população kawaiwete no TIX, subiu de 57 para estrondosos 247. Os mesmos dados apontam duas mortes por COVID-19 entre os Kawaiwete no mesmo período, indicando que o aumento de casos não foi acompanhado por uma explosão nas taxas de mortalidade, algo que os Kawaiwete atribuem ao uso de seus remédios do mato.

Apinajé

               O mesmo ocorreu entre os Apinajé do extremo norte do Tocantins, uma população de 2.736 pessoas que vive em pouco mais de cinquenta aldeias na Terra Indígena Apinayé. Quando a propagação do vírus havia atingido todos os povos indígenas do estado do Tocantins, em agosto de 2020, os Apinajé, mesmo cercados por cidades com altos índices de contaminação, conseguiram controlar e monitorar os dois casos confirmados da doença.

              A mobilização para a instalação de barreiras sanitárias autônomas em pontos estratégicos da TI Apinayé foi fundamental para que as comunidades permanecessem saudáveis. A primeira delas foi instalada na entrada da aldeia Prata, no limite sul da TI. O local se articula a um conjunto de aldeias que mantém vínculos políticos, cerimoniais e de parentesco, conhecido como região da aldeia mãe São José. A região concentra pouco mais da metade da população apinajé. A outra metade vive na região da aldeia mãe Mariazinha, cujas aldeias estão próximas à TO-126, rodovia estadual não pavimentada, paralela ao rio Tocantins. Nessa região foram implantadas duas barreiras sanitárias: a primeira, próxima à aldeia Recanto, na divisa com o município de Tocantinópolis; a segunda próxima à aldeia Botica, na divisa com o município de Maurilândia.

           A medida para conter o avanço da pandemia foi tratada no artigo de Sheila Apinajé, uma das autoras dessa nota, cujos argumentos recuperamos brevemente aqui. Desde as primeiras notícias da pandemia, os Apinajé passaram a viver uma espécie de “surto psicológico” da doença, pois outras doenças não indígenas que mataram muitos Apinajé no passado fazem parte da memória desse povo. Para anciãs e anciões apinajé, tais doenças são comparáveis àquela trazida pelo macaco guariba, conhecida pelo nome kupyt kak, cujos sintomas são gripe forte, febre alta e a rápida letalidade. Além de conter o avanço da COVID-19, as barreiras também protegem o território contra invasores que caçam e pescam ilegalmente. Assim, é possível proteger o Cerrado e evitar novas doenças.

        Os Apinajé receberam, ao longo dos seis primeiros meses de atuação nas barreiras, apoios importantes das prefeituras de Tocantinópolis e Maurilândia. A primeira contratou agentes epidemiológicos para atuar nas barreiras, em parceria com a vigilância protagonizada pelos jovens da comunidade. Além disso, a mesma prefeitura garantiu alimentação e combustível para abastecimento e troca de plantões. Outros parceiros — como o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), a Universidade Federal do Tocantins (UFT) e o Ministério Público Estadual do Tocantins (MP-TO) — enviaram cestas básicas e equipamentos de proteção individual. No final de novembro de 2020, alegando a falta de apoio efetivo do DSEI-TO e da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), a prefeitura de Tocantinópolis retirou o apoio para as barreiras, exonerando também os profissionais de saúde contratados. Sem o apoio efetivo das prefeituras após o término do pleito eleitoral municipal, os Apinajé deixaram de realizar algumas barreiras e, desde então, os casos de COVID-19 aumentaram rapidamente. Segundo dados do DSEI-TO, em janeiro de 2021, dos 63 casos confirmados entre povos indígenas no Tocantins, 58 são de pessoas Apinajé.

             As barreiras funcionaram bem até novembro de 2020. Além disso, lideranças Apinajé buscaram aconselhar as pessoas para evitarem as festas de forró e aniversário, jogos e torneios de futebol. Conseguiram, portanto, diminuir a intensidade da vida social apinajé. A rica vida cerimonial do grupo foi interrompida e os importantes ritos de fim de luto, o Pàrkapê e o Me õkrepõx runhti, que já estavam programados, foram simplificados ou suspensos ao longo desses meses. Chegado o auge da estiagem na região, entre os meses de agosto e setembro, contudo, vários tipos de encontros voltaram a ser realizados.

             A desmobilização de algumas das barreiras levou ao contágio dos Apinajé, que desde dezembro de 2020 passaram a registrar casos assintomáticos e leves de COVID-19. Desde então, o grupo vem tomando muito remédio tradicional para prevenir ou tratar a doença. Foi o que contou a idosa Maria Ire Apinajé, da aldeia Botica que, embora tenha manifestado sintomas de gripe e perda de olfato, não apresentou febre. Ao sentir os primeiros sinais da doença, ela providenciou medicamentos tradicionais para toda a família, realizando o tratamento por uma semana. Quando a equipe do Polo Base de saúde passou a acompanhar o caso, fizeram os testes, quase todos positivos. Mas já não tinham sintomas ou agravamentos clínicos.

         Até o fechamento desta nota, segundo os dados disponibilizados pelo DSEI-TO, no início de fevereiro de 2021, havia entre os Apinajé apenas seis casos confirmados com sintomas leves, e nenhum caso grave.

* * *

           As experiências atuais entre os A’uwe encontram paralelos em outras comunidades indígenas, onde muitos afirmam já terem vencido a pandemia. Tendo vivido o pico da doença ainda no primeiro semestre de 2020 e se engajado, a partir de então, em ações autônomas de prevenção, os A’uwe têm mantido um relativo controle do novo coronavírus em suas aldeias. A experiência precoce da doença pode ter contribuído para a gravidade da situação enfrentada no último ano, e ouvimos com preocupação relatos sobre a relutância destes indígenas diante da vacinação, que começou a chegar às aldeias em fevereiro de 2021.

            Entre os Kawaiete e Apinajé, por sua vez, a COVID-19 chegou meses mais tarde, quando vizinhos próximos haviam sido acometidos pela doença e ações de prevenção já estavam em pleno funcionamento. Para muitos Apinajé, a ausência de óbitos indica o sucesso de suas estratégias de prevenção. Atualmente, vemos uma ampla aceitação da vacinação em suas aldeias, fruto do trabalho de convencimento por parte das lideranças, ressaltando a importância da imunização. Entre os Kawaiwete, grande parte da população tem aceitado a imunização e as poucas recusas são atribuídas à eficácia de seus remédios do mato. Não parece descabido imaginar que a entrada da COVID-19 nas aldeias kawaiwete e apinajé somente após as experiências de contaminação de muitos de seus vizinhos os capacitou a enfrentar a doença de forma eficaz. Seguiremos investigando as percepções desses povos indígenas sobre o aumento de casos e a pandemia de COVID-19.

Revisada e editorada por Daniela Perutti

Como citar: Brusco, Rodrigo; Castro; Apinajé, Sheila Baxy Pereira de; Dumhiwe, Paulo; Monteiro, Eduardo; Morais, Odilon; Ribeiro Apinajé, Júlio Kamêr; Horta, Amanda. 2021. A chegada da COVID-19 a aldeias A’uwe, Kawaiwete e Apinajé. Plataforma de Antropologia e Respostas Indígenas à COVID-19, vol. 1, n. 2, mar. 2021. Disponível em www.pari-c.org. Acesso em dd/mm/aaaa.