A música e os caminhos da cura: o mba’epu mbya

por Ariel Ortega, Bruno Nascimento Huyer
31 Março 2021
Nota de Pesquisa


      Quando os riscos da pandemia de coronavírus começaram a surgir, as aldeias guarani mbya buscaram fortalecer ainda mais seus cuidados com saúde. Por meio dos rituais de batismo das sementes (nhemongarai), de novos mutirões para plantação de milho, e, principalmente, através das músicas, cantos e rezas na opy (casa de reza/rituais) – buscaram alegrar seus espíritos (nhe’e) e conectar-se com os saberes divinos a fim de se protegerem da doença cada vez mais próxima. 

         Isso porque, para os Guarani mbya do sul do Brasil, nem só de fármacos depende uma boa saúde. Um dos elementos centrais da saúde e dos cuidados mbya, é a busca por uma espécie de sinergia entre o espírito das pessoas (nhe’e) e os planos superiores, onde vivem as divindades (nhe’e ru ete kuery – os pais dos espíritos). Nesse sentido, a música adquire um lugar de destaque nos processos de cuidado e saúde, pois ela é capaz de estabelecer uma ligação dos seres humanos com os deuses. É isso que a conversa a seguir esboça quando conversamos sobre o mba’epu jae'o, um tipo de rabeca, tradicional dos Guarani mbya. 

Sugerimos que o escutem ao entardecer, assim que o Sol começar a se pôr.

Transcrição do diálogo entre Ariel Ortega e Bruno Nascimento Huyer sobre o mba’epu mbyá

Karai: “Aguyjevete pave’i

Ariel: “Estávamos escutando esse mba’epu no finalzinho da tarde, para nos conectarmos, nos inspirarmos. É muito bom, nos tranquiliza muito.”

Bruno: “Nossa muito bom, muito lindo. Impressionante como mesmo não sendo mbya a gente sente essa música”

Ariel: “É muito poderoso mesmo, o mba’epu te leva além. É muito, muito bom.”

Bruno: “É muito lindo, muito poderoso mesmo. Acho que fui além também.”

Ariel: “Esse mba’epu, na verdade, é o som dos espíritos. Ele, na verdade, é o que nos permite a conexão com o outro lado, com o mundo espiritual, e por isso a afinação é muito importante. Por isso que a afinação é diferente da afinação dos instrumentos ocidentais. A afinação é diferente. Existe uma afinação exata que abre nossa mente, nosso espírito mesmo, para a conexão com o espiritual. Por isso que a afinação é muito importante. E as músicas, elas são tão profundas, as músicas Mbya, né? O mba’epu mbya.

Ariel: “Porque o mba’epu para nós, Guarani mbya, não é somente uma música que alegra nossos ouvidos, é também um tipo de cura espiritual. Porque nosso nhe’e precisa ouvir essas músicas para poder dançar e, através disso, curar tanto as doenças físicas como as espirituais. É uma cura, na verdade, uma cura profunda. Muitas vezes só temos os nossos próprios nhe’e. Nosso espírito precisa dessa música, ele necessita.

Bruno: “E como foi agora na pandemia? Conseguiram cantar e tocar nesses tempos sombrios? ”

Ariel: “Sim, agora, esses dias, em [aldeia] Koenju, tá continuando bastante. Foi na pandemia que foi construída uma nova casa de reza. Esses dias também aconteceu um ritual de nomeação, que também serviu para meditar sobre essa pandemia. Levamos erva-mate, folhas de ervas, mel e as mulheres levaram bolo de milho. Tá direto, na verdade. Acho que depois da pandemia estão frequentando mais a casa de reza novamente, em todas as aldeias. E principalmente as mulheres estão se fortalecendo nessa pandemia.”

Bruno: “Interessante Kuaray, muito legal. O que tu achas de botar essa música lá no site da pesquisa, para o pessoal escutar um pouquinho e ouvir o som do sul do Brasil? ”

Ariel: “Acho que seria importante colocar lá no site, escutar a música Guarani, esse som espiritual.”

Revisada e editorada por Daniela Perutti

Como citar: Ortega, Ariel; Huyer, Bruno Nascimento. 2021. A música e os caminhos da cura: o mba’epu mbyá. Plataforma de Antropologia e Respostas Indígenas à COVID-19, vol. 1, n. 2, mar. 2021. Disponível em www.pari-c.org. Acesso em dd/mm/aaaa.