Que mundos acabam quando a COVID-19 chega? Sentidos de vulnerabilidade e recomeço entre os Guarani Mbya do Sul do Brasil e Argentina

por Maria Paula Prates, Bruno Huyer, Ariel Ortega, Christine McCourt
30 Abril 2021
Nota de Pesquisa


Esta nota de pesquisa é uma versão reduzida de trabalho apresentado no Congresso Britânico de Antropologia, no início de abril de 2021.

      Vulnerabilidade é um termo polissêmico, usualmente casado com o de risco, e que pode variar a depender do que pretende indicar. Pessoas, povos ou situações consideradas em situação de vulnerabilidade estão invariavelmente atreladas ao risco que correm. Ou, seu contrário, se consideradas em “risco” são compulsoriamente consideradas “vulneráveis”. Tão logo a pandemia do novo coronavírus chegou ao Brasil, o entendimento de que os coletivos indígenas seriam mais vulneráveis à nova doença ganhou coro. Vulnerabilidade e risco são marcadores de abordagens no campo da saúde e da administração, por exemplo, e fazem parte de um repertório de biossegurança sempre em aberto.

      A PARI-c surgiu de uma inquietação compartilhada entre muitos pesquisadores e ativistas sociais quanto aos possíveis impactos que a atual pandemia poderia acarretar aos mais de 300 coletivos indígenas vivendo em território brasileiro. O receio de que a COVID-19 fosse ainda mais letal entre os indígenas, considerando a atual política de Estado em relação à saúde e às crises permanentes vivenciadas pelos povos indígenas, como restrição de acesso a territórios sustentáveis e carência de uma alimentação adequada, foi uma das principais motivações para a elaboração da PARI-c. Em outras palavras, também partimos do pressuposto de que os coletivos indígenas estavam em “risco” e eram sim “população vulnerável”. No entanto, tão logo demos início às conversas com pesquisadores indígenas da PARI-c, sobretudo com pesquisadores guarani mbya, nos deparamos com uma porosidade de entendimentos sobre risco e vulnerabilidade.

O entendimento de que povos indígenas estão em risco face à COVID-19

      Em um estudo publicado em 2020 na Lancet Global Health, Victora et al. afirmam ter encontrado prevalência de 6,4% dos anticorpos de SARS-CoV-2 entre as populações indígenas frente à 1,4% entre os não indígenas, demonstrando que, em outubro de 2020, os indígenas eram os mais afetados, especialmente no Amazonas. Em uma análise realizada pelo Instituto Socioambiental (ISA), constatou-se que, tanto em aldeias com grandes territórios, com abundância de recursos ambientais e baixo risco de contágio; como em aldeias pequenas, próximas de grandes centros urbanos, contando com alto risco de contágio, há relevante vulnerabilidade dos povos indígenas. Isso porque, se as aldeias grandes estavam mais isoladas das cidades e do contágio, a distância de leitos de UTI ou de atendimentos mais básicos de saúde agravaria a situação em caso de contaminação. O que sucederia de forma oposta em aldeias próximas a centros urbanos que, embora expostas a uma grande e rápida probabilidade de contaminação, contam com boa disponibilidade de atendimento à saúde.

      Entre os médicos, o entendimento de uma maior vulnerabilidade dos povos indígenas à pandemia de COVID-19 também se difundiu. Por exemplo, o epidemiologista Wildo Navegantes, professor da Universidade de Brasília (UnB), em entrevista ao jornal Correio Braziliense, argumentou que "a população indígena" é “historicamente mais sensível às doenças respiratórias”, e que "morrem facilmente", logo, deveriam ser vacinadas tão logo as vacinas estivessem disponíveis. No entanto, por mais que tais análises sejam de fato importantes na avaliação dos riscos a que estão submetidos os povos indígenas, assim como se fazem necessárias para um planejamento de políticas públicas diferenciadas, por vezes reificam uma série de pressupostos negativos a respeito dos povos indígenas. Além de reforçarem o estereótipo de que o modo de vida urbano e ocidental seria aquele mais preparado para as adversidades do mundo contemporâneo, fortalecem ações de intervenção biomédica nas aldeias à revelia dos entendimentos e interesses indígenas.

      A partir de uma perspectiva mbya, o início da pandemia ensejou um outro diagnóstico. Com força, passaram a identificar causas da nova doença, assim como medidas para combatê-la. A cosmologia guarani mbya, e de coletivos indígenas das terras baixas sul-americanas de modo geral, têm uma abertura bastante fértil à ideia de que o mundo terreno, no qual ora vivemos, colapsa ou encontra-se em risco de colapsar constantemente. Nesse sentido, um evento pandêmico não é de todo modo assustador, mas a confirmação do que já antecipavam.

      Viver é estar vulnerável a ataques constantes de seres visíveis e invisíveis. A antecipação de um futuro catastrófico sempre iminente parece não encontrar reforço nos mesmos termos de um híbrido saúde-segurança, tal como os pressupostos de medidas de biossegurança. A centralidade de corpos feitos para a vida entre parentes, que precisa de investimentos para se tornar humano diferenciando-se de corpos de animais e plantas, emerge como conexão entre humanos-parentes e divindades. Uma relação mediada pelos - (donos) é a base de uma relação instável e que requer investimento constante no fortalecimento de corpos-pessoas e pessoas-divindades.

Sob o signo da multiplicidade

      Para os Guarani Mbya, estamos imersos no teko axy – um plano terrestre marcado pela morte onde tudo estraga, escasseia e se deteriora. Ao contrário de nós, os deuses vivem em planos celestes marcados pela abundância e pela eterna madurez dos frutos e das plantações – o teko porã, onde há milhos que nascem por si, sem precisarem ser plantados, e que jamais perecem.

      O teko axy, reflexo perecível do teko porã, é permeado por uma multiplicidade de seres, das mais variadas formas, humanas e mais que humanas. A maior parte desses seres são conhecidos como -já e está conectada com cada animal, cada espécie botânica, cada afloramento geográfico que existe. Desempenham um papel de proteção, como uma entidade zeladora ou “dona” de cada um. Por exemplo, existem os xivija, donos das onças, os yvyraja, dono das árvores, os itaja, das pedras, e assim por diante. Ou seja, embora invisíveis aos “nossos” olhos, os -ja formam verdadeiras multidões pelo planeta, na medida em que uma simples pescaria em um rio nos obriga a entrar em relação com inúmeros deles. Causar qualquer distúrbio aos -ja produz consequências diretas, pois eles se vingam lançando doenças dos mais variados tipos aos humanos que os perturbam, ou que não respeitem os seres que zelam, de tal modo que a saúde passa, invariavelmente, pela prática de uma boa diplomacia com eles.

      Segundo os Mbya, o surgimento do coronavírus tem relação direta com a maneira pela qual os não indígenas ignoram a existência e a relação com os -ja. É interessante lembrar que, embora ainda esteja sob debate, o surgimento do coronavírus em humanos foi primeiramente atribuído ao consumo da carne de animais silvestres através dos mercados de Wuhan, na China – o primeiro epicentro da epidemia. Apontava-se para os morcegos e pangolins como aqueles que teriam servido de primeiros transmissores da COVID-19 para humanos. Essas especulações rapidamente entraram em ressonância com a cosmologia mbya, indicando que o consumo de carnes interditas, como a dos morcegos, ou mesmo comestíveis, como o pangolim, mas realizado sem o devido respeito aos -ja de tais animais, teria sido o causador principal da pandemia.

      A hipótese mbya parte do entendimento de que os -ja, incomodados com as relações humano-animais desencadeadas pelos não indígenas, teriam lançado o coronavírus como resposta aos distúrbios sofridos por eles. Dessa forma, a vulnerabilidade de princípio, estabelecida pela condição humana no teko axy – esse plano terrestre onde tudo tem fim, é acompanhada de uma vulnerabilidade reativa – a ação destrutiva dos não indígenas na relação com os animais.


Vídeo gravado por Ariel em um amanhecer de abril enquanto preparava o mate. A fogueira faz Ariel lembrar de seu avô, que dizia ser à beira do fogo que as belas palavras surgiam. Em várias dessas conversas, Ariel aprendeu a importância do fogo e da fumaça na evitação de doenças. As cinzas, por exemplo, são muito importantes para cuidar de mulheres e homens no período que sucede o nascimento de uma criança.

Mundos que colapsam

      Contam os Mbya que esta é a segunda Terra, surgida após o colapso da primeira. O primeiro mundo, habitado por diversos seres, colapsou a partir de um grande dilúvio que tornou a terra "encharcada". O motivo principal que levou ao fim desta primeira plataforma terrestre, foi um grande descontentamento divino em relação às condutas humanas na Terra. Grosso modo, é como se as condutas daquele tempo tivessem falhado por não serem divinas o suficiente. O descontentamento das divindades foi tão grande que elas tiveram que ser convencidas a "deitarem" uma nova plataforma para que os humanos tivessem mais uma chance.

      Como os mitos estão a todo momento sofrendo digressão, a fim de melhor elucidar os eventos do presente e, sobretudo, do futuro, se um primeiro descontentamento divino levou ao “fim do mundo”, nada impede que isso ocorra novamente, fazendo existir um novo mundo. Além de tal dedução, é através de danças, cantos e rituais, assim como de sonhos, que os Mbya tentam entender o que os deuses estão reservando para a humanidade.

      Ralf Verá Poty, por exemplo, contou bastante assustado sobre um sonho com um possível cataclisma. Relatou que caía sobre a Terra um grande incêndio que avançava sobre as aldeias guarani mbya. As mulheres corriam com seus filhos no colo, enrolados em panos, mas à medida que elas corriam os filhos iam sumindo de seus braços. O cenário era o de uma catástrofe geral, com homens bebendo em excesso e desrespeitando todos os aconselhamentos divinos. O desaparecimento das crianças dos colos das mulheres seria o maior indicativo de que as divindades estariam abandonando a humanidade, desistindo de manter a Terra. As crianças guarani mbya são consideradas um dos elos entre a humanidade e as divindades, e tirá-las dos braços humanos é resgatá-las para o plano divino, descontinuando a conexão entre o plano divino e o teko axy.

      Este sonho descreve um dos cenários possíveis do esperado cataclisma (teko nhemondyi). A pandemia que hoje vivenciamos pode ser interpretada como outro destes cenários, pois parece conectar as especulações sobre o fim do mundo com o modo de vida atual dos não indígenas. Se o discurso mítico sobre a escatologia que normalmente aparece na etnologia discorre sobre a agência dos deuses tanto para criar a Terra quanto para destruí-la, a COVID-19 parece trazer o impacto da agência dos não indígenas que desrespeitam os seres do mundo atual e que, em decorrência disso, podem provocar a fúria dos deuses, que por sua vez podem destruir ou limpar essa superfície terrestre. A pandemia como prelúdio e agente complementar do fim.

      Estamos, portanto, diante de um evento mitológico que funde o passado ao futuro em consequência da ação dos não indígenas. Antes de pensarem apenas nas características do vírus, os Mbya preferiram pensar sobre as relações humano-animais que desencadearam um ataque da “natureza” contra a humanidade em geral e contra os brancos em particular.

Vivendo apesar de estar em um mundo que acaba

      Os parâmetros mbya de vulnerabilidade estão calcados na constante ameaça de um desequilíbrio de relações entre mundos visíveis e invisíveis, como vimos. A vulnerabilidade é uma condição humana inerente à vida no plano terrestre, o teko axy, agravada pelo modo de relação humano-animal colocado em prática pelos não indígenas. A partir do retrato esboçado acima, aqueles mais vulneráveis aos ataques dos -ja e, logo, à pandemia de COVID-19, são os próprios não indígenas. São eles que não respeitam as restrições necessárias para uma relação diplomática com outros seres mais que humanos, assim como são eles que não percebem a insatisfação das divindades que pode dar fim a este planeta.

      Por outro lado, o que leva os Guarani Mbya, assim como os demais coletivos indígenas, a serem considerados vulneráveis pelas agências de saúde e a área biomédica, de modo geral, parte de uma outra premissa. Seus corpos são considerados vulneráveis por sua composição biológica, desprovida de anticorpos. O atravessamento de condições consideradas "sociais", que excluem o mundo invisível, também é considerado importante para justificar uma maior agilidade na proteção dos povos indígenas. Temas como insegurança alimentar, violência ocasionada pelo garimpo e destruição de florestas por madeireiros, políticas de um genocídio (in)direto causado pelo atual governo brasileiro foram motivo de também considerar uma maior vulnerabilidade dos povos indígenas à pandemia.

      Em linhas gerais, os cenários apontam para fragilidades inerentes ao existir enquanto indígena: se antes eram vulneráveis porque viviam nas florestas e não tinham acesso às tecnologias do mundo do branco, hoje são frequentemente considerados vulneráveis porque vivem em territórios urbanizados exíguos e em relação direta com o mundo não indígena. A atual situação pandêmica destoa de outras situações, é certo, mas destiná-los ao lugar de vulnerável é recorrente desde os primeiros contatos. O índio ingênuo, o bom selvagem, o que necessita de ajuda para continuar a ser e viver como indígena é de alguma forma parte de um imaginário que os coloca nesse lugar.

      Até o momento, os Guarani Mbya foram pouco afetados pela pandemia. Em nossa rede de relações do sul do Brasil e da Argentina, até a conclusão desta nota, nenhuma morte causada pelo coronavírus nos foi informada. Desde que algumas iniciativas pontuais de isolamento começaram a ocorrer (no Brasil não houve lockdown nacional), nossos amigos guarani mbya passaram a evitar se deslocar entre as aldeias e os centros urbanos. Investiram muito em suas hortas e têm conseguido cultivar alimentos de forma regular. Por certo que há uma diversidade de situações e em aldeias da Argentina há relatos de uma maior escassez de alimentos, causada pela impossibilidade de plantio e caça em territórios reduzidos e uma maior dependência de produtos industrializados, mas isso por sua vez tem acionado uma rede de apoio entre as famílias mbya. Recentemente Yva, que vive na aldeia Pará Roke, na fronteira sul entre o Brasil e o Uruguai, viajou para a região de Misiones na Argentina com um carregamento de alimentos e roupas. Durante algumas semanas, preparou duas malas de milho, feijão, erva, tabaco, dois cobertores, ervas medicinais (poã, “remédio do mato”), roupas e calçados. Permaneceu algumas semanas no Tekoa Pipiri a fim de cuidar e ser cuidada pelos parentes. A mala de artefatos é uma oportunidade de rever os parentes e de também receber tratamento xamânico por parte do Karaí Verá (xamã). A pandemia só pode ser enfrentada, no seu entender, se os Guarani Mbya continuarem a existir tal como o esperado que existam por Nhanderu (divindade): comendo juntos, ficando alegres e usando “remédio do mato”. Yva diz que os Guarani Mbya não ficam doentes de coronavírus porque eles já sabiam qual o melhor remédio para tratar esse tipo de doença. O coronavírus não é propriamente uma novidade – nem em termos mitológicos, tampouco em relação aos remédios a serem utilizados em seu tratamento. A novidade é que os brancos não sabem tratar a doença com os remédios “fortes” que possuem. Os Guarani Mbya veem nisso um motivo para acreditar que o alvo do -ja do coronavírus são os não indígenas. Esta tem sido uma narrativa diária, somada ao entendimento de que existe uma profunda diferença entre os corpos guarani mbya e os corpos de não indígenas. A COVID-19 não funciona do mesmo jeito porque os corpos não são iguais.

      Falar do futuro, mesmo que seja para anunciar o fim do mundo, é uma constância na retórica Mbya. Falar de experiências passadas com qualquer interlocutor guarani Mbya é sempre um desafio. Eventos trágicos, mortes de parentes, situações de violência são silêncios corporificados. A memória triste enfraquece o corpo-pessoa. O futuro, por sua vez, mesmo que mirando um mundo que terminará para recomeçar, causa um maior interesse e mobiliza conversas e especulações constantes. O futuro, no caso do fim do mundo, é um passado revigorado. Ele já aconteceu, está acontecendo de novo. Um mundo que nasce depois de um fim do mundo também já aconteceu. O que os Guarani Mbya estão testemunhando é a vulnerabilidade do Juruá (não indígena). Enquanto os Mbya estiverem rodeados de parentes, com crianças nascendo e com hortas fartas, a garantia de um novo começo estará sempre no horizonte.

Revisada e editorada por Daniela Perutti

Como citar: Prates, Maria Paula; Huyer, Bruno; Ortega, Ariel; McCourt, Christine. 2021. Que mundos acabam quando a COVID-19 chega? Sentidos de vulnerabilidade e recomeço entre os Guarani Mbya do Sul do Brasil e Argentina. Plataforma de Antropologia e Respostas Indígenas à COVID-19, vol. 1, n. 3, abr. 2021. Disponível em www.pari-c.org. Acesso em dd/mm/aaaa.