Proteção e vigilância territorial em tempos de COVID-19: relatos dos Guardiões da Floresta dos povos Guajajara e Ka’apor (Maranhão)

por Taynara Caragiu Guajajara, Lirian Monteiro, João Reis Guajajara
30 Abril 2021
Nota de Pesquisa


         Esta nota de pesquisa reúne relatos dos Guajajara das Terras Indígenas (TIs) Rio Pindaré e Caru além dos Ka’apor da Terra Indígena (TI) Alto Turiaçu, refletindo sobre a situação enfrentada por eles no cotidiano de vigilância e proteção das TIs frente às invasões historicamente sofridas por esses povos no estado do Maranhão.

      Desde o início da pandemia de COVID-19, as invasões nas três TIs seguiram seu curso, potencializando os riscos de vida às populações indígenas locais. Como elas não cessaram nesse período, os Guajajara e Ka’apor se viram em um dilema: deixar de fazer a vigilância territorial para se proteger do vírus ou seguir com o trabalho de proteção na tentativa de garantir a continuidade de seu povo? No Maranhão, há aproximadamente 17 grupos de Guardiões da Floresta que realizam o trabalho de vigilância e proteção territorial, enfrentando ameaças, inclusive de morte. Nas TIs Alto Turiaçú, Caru e Rio Pindaré, os Guardiões da Floresta existem há aproximadamente sete anos, trabalhando de forma voluntária e de acordo com a organização interna de cada Terra Indígena.

         Segundo os Guajajara e Ka’apor, as invasões em seus territórios são feitas por madeireiros e outros moradores do entorno para caçar, pescar ou coletar frutas. Há também relatos de invasão de traficantes, sobretudo nas TIs Caru e Alto Turiaçu, para o plantio de maconha em larga escala. Em 2020, em plena pandemia, o país acompanhou o noticiário envolvendo a morte de um indígena Ka’apor, vítima de suposta vingança de traficantes de drogas após a destruição de uma plantação de maconha na Terra Indígena.

          A seguir, serão apresentadas as transcrições de quatro depoimentos orais dos Guardiões da Floresta e lideranças indígenas sobre as ações de vigilância e proteção territorial em plena pandemia. Segundo dados reunidos pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), já foram registradas 70 mortes de indígenas no Maranhão associadas à COVID-19, sendo 37 Guajajara e três Ka’apor.

Depoimento do Bruno Caragiu Guajajara, da TI Rio Pindaré, povo Guajajara

      Nesse contexto de pandemia, em relação à proteção territorial, foi bem conturbado em relação ao contágio. Tivemos que parar as atividades de vigilância para a gente não ter contato com o invasor. A gente voltou para as aldeias, e também fez ali umas barreiras junto com as lideranças caciques e, no entanto, a gente não conseguiu evitar a contaminação da COVID-19. Com isso, a gente precisou ficar parado na aldeia, mas, com as atividades suspensas, a invasão aumentou muito. Desde a caça, a pesca ilegal, até a retirada de madeira. E a gente se segurou até um certo período, mas logo depois também a gente foi forçado pela situação das invasões a voltarmos para a atividade, e até agora a gente não parou. Alguns Guardiões ficaram contaminados, mas a ideia foi não parar mais as atividades. Com pandemia ou sem pandemia, a gente tinha que continuar fazendo a vigilância dentro do território. Também mantendo os cuidados, usando máscara, álcool em gel e mantendo o distanciamento.

       A Terra Indígena Rio Pindaré é um território pequeno, de 15 mil hectares, no entanto ela tem muita invasão. E a gente tem uma problemática que é do Lago da Bolívia, que está com mais de 30 anos em conflito entre índio e assentados, então a região está muito perigosa. E a gente espera que essa situação se resolva logo.

Depoimento do Cacique Pistola, da aldeia Maçaranduba, TI Caru, povo Guajajara

      Assim que a gente ouviu falar dessa doença, que ela vinha se alastrando muito rápido, a gente se reuniu aqui na aldeia e conversamos como que a gente faria na questão da proteção territorial. E aí a gente decidiu que o trabalho de vigilância não tinha que parar, pois a invasão só iria aumentar se nós parássemos também. Houve momentos que a gente teve que buscar solução: usar nossos remédios, casca de quina, de jatobá para que a gente pudesse fazer as vigilâncias com segurança. Mesmo não tendo vacina, no ano passado, a gente encarou assim mesmo, com cuidado. Claro que também não se aproximando muito dos invasores: se a gente avistasse alguns, a gente não se aproximava muito. E assim estamos fazendo até agora – inclusive a gente chegou de uma atividade agora, está com três dias, e foi um sucesso também.

      A gente sempre está fazendo reunião no centro de trabalho, que é o local onde a gente mora, a gente está sempre andando e fazendo as reuniões, pedindo para os parentes não atravessarem os rios para ir ao povoado. A gente, quando encontra também um karaiu [não indígena], a gente avisa para ele não atravessar para o nosso lado. E na aldeia aqui, na aldeia sede, a gente fez uma grande reunião, junto com os Guardiões, brigada e tudo mais, e a gente avisou, passou as informações para todo mundo de que, a partir daquela data, a aldeia estava fechada e todos os centros de trabalho, para que nenhum branco ou indígena possa entrar e sair. Foi assim que a gente fez e está fazendo até agora.

      O maior problema diante da pandemia, na verdade, é segurar isso tudo, fazer com que todo mundo cumpra essa regra. Você sabe como é parente. Parente da gente, a gente tem que estar na frente pedindo, dizendo: parentes, vocês não saiam, vocês não vão, a situação não está boa ainda. E até agora está dando certo. A aldeia está fechada, mas a gente está aqui de olho e alertando todo mundo também, e dessa forma que a gente está fazendo, o maior desafio nosso é dessa forma.

      O trabalho de vigilância do nosso território é frequente, diretamente – todos os meses, na verdade. A gente tem um calendário de atividades, e aí a gente bota em prática essas atividades. Acho que em 2020 não teve um mês em que a gente deixou de fazer, em todos os meses foi feito. E agora, nesse ano de 2021, também a gente está fazendo da mesma forma e está dando resultado, muito mesmo. As invasões no rio Caru e no rio Pindaré até esse momento não estão tendo, então para nós é um momento muito importante e muito gratificante, porque está dando resultado o trabalho de vigilância. Tivemos também nesse período o apoio da FUNAI, o pessoal da Polícia Ambiental. Tivemos outras ajudas também, mas nós tivemos, sim, eu acredito que isso fez com que o trabalho de proteção territorial alcançasse os nossos objetivos bem certinhos, sem ter nenhum problema de conflito. Várias vezes que a gente fez a vigilância, a FUNAI estava presente, fazendo a parte da fiscalização, na questão da destruição do pé de droga, uma roça de maconha que a gente destruiu.

      Eu acredito que, por conta da pandemia, aumentou mais a pressão do lado dos karaiu. Ou seja, a fome, eu acredito que faz com que eles não tenham outra escolha a não ser tentar buscar caça, entrar para caçar, entrar para buscar fruta que agora é uma época muito grande de fruta para cá. Tem bacuri, bacaba, cupuaçu, enfim. Eu acredito que o nosso maior problema, durante esses tempos em que estamos enfrentando essas invasões, são os pescadores. Essa é uma das questões que a gente não conseguiu ainda acabar, porque eles acabam colocando rede de pesca no nosso lado, nos nossos lagos, mas o nosso foco principal mesmo é não deixar eles invadirem para derrubar árvores, caçar, esse tipo de coisa. O nosso maior problema, que a gente ainda encontra, é isso, os caçadores e esses tipos de ilícitos.

Depoimento de Claudio José da Silva, Coordenador dos Guardiões da Floresta, aldeia Maçaranduba, TI Caru, povo Guajajara

      Nossa maior dificuldade na pandemia, em primeiro lugar, é a gente conseguir dar continuidade ao nosso trabalho de vigilância e de proteção territorial, até por conta dos apoios, dos parceiros também. A própria FUNAI estabeleceu aquela lei em que não poderia entrar ninguém, nem polícia, aí foi uma das maiores dificuldades na pandemia. Mesmo assim nós continuamos nosso trabalho internamente, fazendo essa vigilância, e está surtindo efeito. Nós mesmos fazendo, os indígenas, com muita dificuldade, com precaução também. Mas, estamos vencendo. Mesmo com a pandemia, nosso trabalho não parou.

      O nosso grupo de Guardiões, junto com o cacique, Guerreiras da Floresta e comunidade em geral, fez umas barreiras sanitárias para evitar que esse vírus entrasse na aldeia. Graças a Deus lá em nossa sede, aldeia Maçaranduba, não teve nenhum caso realmente confirmado, por conta dessa precaução, de impedir o fluxo de estranhos em nossa aldeia, até dos próprios indígenas estarem saindo e entrando. Não foi fácil. Sempre tem aquelas pessoas que não entendem mas, mesmo assim, com muita dificuldade, essa barreira funcionou também para evitar que o vírus entrasse na Maçaranduba.

      Outro problema que a gente vem enfrentando é a falta de apoio dos parceiros. Nós temos uns projetos, e essas questões, para resolver tudo online, reuniões remotas, isso também dificultou o nosso trabalho. Mas, como já disse, nós não paramos, o grupo de Guardiões, das Guerreiras, a brigada [de incêndio] também, desde o início da pandemia está todo o mundo junto, então acho que a comunidade da TI Caru está de parabéns, mesmo com as dificuldades. E agora, ainda continua essa pandemia com uma tal de variante aí, nós estamos com medo.

     Nós, os Guardiões da Floresta, atuamos para evitar ou diminuir a invasão em nosso território, fazendo um trabalho há mais de sete anos. Trabalhamos na conscientização da população da aldeia, da população do entorno, falando dos invasores. Às vezes, quando a gente se depara com alguma infração, um ilícito que já aconteceu, a gente conversa com eles, os invasores, explicando que ali é uma Terra Indígena, ali é uma área proibida, usamos o diálogo com eles. Nessa pandemia, tivemos que fazer esse trabalho também, mas procuramos conversar distanciados do invasor. Não andamos pegando em coisas deles, que estão lá na invasão, que eles deixam dentro da Terra Indígena. Acontece muito de a gente ver os pertences deles, como rede, roupa, bota, equipamentos como motosserra, outras ferramentas que eles usam para destruir a floresta. E nós vamos no diálogo, explicando para eles como que é, como funciona o trabalho dos Guardiões. Não usamos da violência, usamos o diálogo, conversando. Às vezes funciona, às vezes não. Acontece de pegar, ver os invasores por uma, duas ou mais vezes dentro da Terra Indígena. Mas nós estamos dessa forma, no diálogo.

       Agora, um dos problemas mais sérios de invasão nessa pandemia foi o tráfico. Na Terra Indígena Caru, foi muito tráfico de drogas, caçadores, essas são coisas que nós estamos lutando para evitar. Muitos invasores também com roças, botando roças dentro da TI, tanto de maconha, como roça de produção, como mandioca e arroz. Nessa pandemia, mesmo com dificuldades, a FUNAI esteve presente com o Plano Básico Ambiental (PBA). Conseguimos destruir umas seis roças de maconha, dentro da Terra Indígena Caru, nessa pandemia, com toda a precaução do PBA, FUNAI e Guardiões. Ainda tem, ainda continua, mas nós estamos na luta para combater tudo isso.

      Então houve apoio governamental, não foi 100%, mas houve sim o apoio da FUNAI, do PBA também, o Estado esteve presente, e algumas ONGs também apoiaram. Fizeram barreira sanitária e, assim, aproveitamos e fizemos esse trabalho de vigilância juntos. Nosso grupo de Guardiões deu apoio com transporte para que acontecesse esses combates aos ilícitos. A FUNAI não tinha como manter o PBA, mas nós conseguimos transporte, combustível, tudo para que eles nos apoiassem mais ainda. Teve o apoio do governo, através da própria FUNAI, nessas atividades. Esperamos que em breve tenhamos mais apoio.

      Enfim, somos um grupo de 32 Guardiões e estamos na luta, vamos que vamos. Não vamos desistir. Espero que todos os guerreiros, Guardiões, continuem nessa luta.

Depoimento de Iracadju Ka’apor,  TI Alto Turiaçu, povo Ka’apor

      Sou Iracadju Ka’apor e gostaria muito de colocar aqui sobre o nosso dia a dia dentro de nossa comunidade, dentro do nosso território Alto Turiaçu. Nesse período de pandemia, invasores aproveitaram para atacar mais o nosso território, principalmente a TI Awa. Os invasores estão incomodando muito nós. Os madeireiros, os caçadores e tudo mais, gados, estão se aproveitando do nosso território, principalmente no lado da TI Awa.

      Os Guardiões Ka’apor fazem bom trabalho no nosso território, fazemos monitoramento, vigilância. Criamos mais uma área de proteção dentro do nosso território, que nós chamamos Nova Aldeia, chamada Iwerá. Essa nova aldeia que nós criamos fica perto da nossa aldeia [onde moramos] e por ali tem madeireiro derrubando árvores da TI Awa. Isso está incomodando muito nós e, na verdade, depois da Semana Santa, nós estamos nos mobilizando para poder fazer uma entrada, para a gente não deixar mais o madeireiro entrar na TI Awá. O governo federal é muito ausente nesse contexto. A parte de operação e a FUNAI também estão muito ausentes no nosso território, quem protege nosso povo é a gente mesmo, Guardiões da Floresta, junto com o apoio da nossa associação já fizemos muita vigilância em nosso território. A gente vai continuar fazendo nosso trabalho, porque a gente não vai ficar parado, porque o madeireiro não para. Ele não dorme não. Agora está chovendo, mas ele não para não. Estaqueiro [madeireiro que faz o corte da madeira no local de extração] não para não.

      Agora nós estamos conversando para buscar mais apoio apaziguado. Este ano a gente quer se equipar mais para poder trabalhar no monitoramento do nosso território, porque só nós podemos fazer alguma coisa para defender o nosso território. Se a gente esperar o Estado, ele não vai fazer a proteção do nosso território. Sempre a gente discute na nossa reunião sobre isso. Hoje com a pandemia a gente fica mais isolado lá dentro, mas enfim, claro que a gente não está podendo sair, mas dentro do nosso território a gente é livre para fazer vigilância e dar proteção para todos os nossos filhos. Então é isso, hoje o desmatamento, pela mídia que a gente está acompanhando, acelera muito, então a gente está fazendo a nossa parte por aqui. A gente vai continuar sempre.

Guardião da Floresta - Fotografia Genilson Guajajara.
Guardião da Floresta - Fotografia Genilson Guajajara.
Guardião da Floresta no Lago da Bolívia - TI Rio Pindare - Foto Genilson Guajajara
Guardião da Floresta recolhe rede de pesca ilegal no Território Indígena Rio Pindaré. Foto Bruno Caragiu Guajajara
Guardiões da Floresta flagram pesca ilegal no Território Indígena Rio Pindaré. Foto Bruno Caragiu Guajajara
Invasão e Desmatamento - Terra Indígena Caru - Imagem extraída de Drone
Plantação Ilegal de Maconha na TI Caro - Foto Extraída de Drone
Território. Nosso Corpo. Nosso Espírito. Foto Genilson Guajajara
Vigilância Territorial no Lago da Bolívia - TI Rio Pindaré - Foto Bruno Caragiu Guajajara

 

 

 

 

 

 

Revisada e editorada por Spensy Pimentel e Daniela Perutti

Como citar: Caragiu Guajajara, Taynara; Monteiro, Lirian; Reis Guajajara, João. “Com pandemia ou sem pandemia, a gente tinha que continuar”. Proteção e vigilância territorial em tempo de COVID-19: relatos dos Guardiões da Floresta dos povos Guajajara e Ka’apor (Maranhão). Plataforma de Antropologia e Respostas Indígenas à COVID-19 - PARI-c, vol. 1, n. 3, abr. 2021. Disponível em www.pari-c.org. Acesso em dd/mm/aaaa.