Notas sobre a força dos remédios indígenas no Alto Rio Negro, Amazonas

por Francineia Bitencourt Fontes
31 Maio 2021
Nota de Pesquisa

            Na região do Alto Rio Negro, vivemos ao longo de rios e igarapés, percorremos as águas por vários dias e semanas para chegar às últimas comunidades das calhas dos rios. A floresta tem seus encantos e seus perigos; nós somos protegidos pela nossa floresta, e é nela que está o mistério da nossa cura, a nossa farmácia e o nosso hospital: os remédios (tapé em língua Baniwa). Desde esse lugar, em minha pesquisa de doutorado, escrevo sobre como nós, mulheres Baniwa, temos buscado nossos conhecimentos para nos proteger da COVID-19. E, como mulher Baniwa filha dessa região, com essa pesquisa vejo a importância do registro oral, isso me inspira a ter outros olhares a partir da minha própria realidade. Olhar para as mulheres como pesquisadora e como antropóloga me faz repensar a riqueza do conhecimento que nós temos, que as mulheres rionegrinas têm, por sermos detentoras dessa sabedoria, do fazer, do preparar, do contato com a natureza e do poder da relação com as plantas.

            Esta nota recupera a perspectiva de mulheres Baniwa da comunidade de Assunção, no rio Içana, suas falas e depoimentos sobre o combate à COVID-19, pautando a importância dos remédios indígenas. A pesquisa permite que eu acompanhe diretamente as mulheres na roça, no quintal e na floresta, na hora de tirar os remédios, até a fase final de preparo, enfim, todo o processo. Cada povo rionegrino tem seus próprios conhecimentos, mas, nesse momento da pandemia, compartilhamos nossos saberes com outros povos, conversando sobre receitas e processos de preparo. Muitos desses conhecimentos são amplamente compartilhados pelas mulheres indígenas da região, mas cada família produz o seu próprio, e cada um tem os seus modos de preparar os remédios.

            O Ñanpirikoli, criador do mundo e da humanidade, era o saber da nossa existência, segundo a narrativa Baniwa. Ñanpirikoli, sentado em seu banco no final de um longo dia de trabalho (nessa época não havia noite), fez o cigarro e o pôs na boca para fumar; do seu cigarro caíram as cinzas, e dessas cinzas surgiram todos os tipos de plantas de cura, de prevenção e de proteção. Assim, todos os tipos de remédios que existem no mundo surgiram das cinzas do cigarro do Ñanpirikoli. Os remédios que usamos hoje em dia para combater qualquer tipo de doença existem desde o início do mundo e são usados pelos nossos criadores e pelos nossos ancestrais. E hoje continuamos usando os mesmos remédios para nos proteger de todos os tipos de doenças, sejam desse mundo ou de outras camadas de mundos invisíveis.

            O meu pai, um homem Baniwa nascido e criado na comunidade de Ucuqui Cachoeira, disse: “Já acordei para este mundo sabendo do uso destes remédios, quando meu finado pai falava sobre a importância dos remédios e ele usava para se curar de uma doença”. Assim relata o meu pai, que é madzero (benzedor), conhecedor, sábio e cantor de danças tradicionais. Desde o tempo de nossos antepassados, quando ouvem uma notícia sobre a chegada de uma doença, os mais experientes da comunidade, ou seja, os nossos pais benzedores, as parteiras e as conhecedoras de remédios, imediatamente vão pegar o remédio no mato para nos proteger.

            Em abril de 2020, tivemos o primeiro caso confirmado de COVID-19 em São Gabriel da Cachoeira (no centro urbano do município), e a primeira pessoa que faleceu foi um professor Baniwa. Logo em seguida, soubemos que a doença havia chegado em algumas comunidades Baniwa no rio Içana. A comunidade de Assunção do Içana decidiu em uma reunião que as famílias iriam se isolar em seus sítios (lugares de origem mais para interior da floresta, afastados da comunidade na beira do rio). Mesmo com todas as providências tomadas pela comunidade para não haver deslocamentos para a cidade, alguns foram e, quando vimos, a COVID-19 já havia chegado na comunidade de Assunção (com casos confirmados por testes rápidos). Nessas viagens ao centro urbano do município, contraíram a doença e, em seu retorno à comunidade, ela rapidamente se espalhou. Somente aqueles que ficaram por mais tempo nos sítios no interior da floresta não pegaram a doença.

            O movimento indígena (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro – FOIRN), junto com as instituições parceiras, fizeram cartilhas e áudios em línguas indígenas falando sobre os sintomas da COVID-19, e isso facilitou para a comunidade compreender a chegada da doença. Nossas mães, pais, tias e tios, começaram a se proteger de todas as formas e logo foram pegar esses remédios, que já usávamos há muito tempo. O início de 2020 foi um tempo de muito medo, pois os noticiários falavam de uma doença muito forte e sem cura. Esse conhecimento dos remédios foi fonte de esperança e resistência diante de uma doença desconhecida. Como a doença tinha sintomas iniciais parecidos com os de uma gripe, foram pegar os remédios para combater sintomas como tosse, asma, dor de cabeça, febre e dor de corpo. No entanto, as pessoas tiveram sintomas variados: para alguns a doença era, inclusive, assintomática; para outros, os sintomas eram muito fortes. Então as mulheres buscavam proteção de acordo com o modo com que a doença se manifestava e a sua intensidade.

            Depois da chegada da COVID-19, a rotina das mulheres na comunidade mudou, pois deram início a uma intensa troca de receitas de remédios para combater sintomas parecidos com os da gripe, reforçando com outros recomendados para problemas intestinais, ou ainda, quadros inflamatórios e respiratórios mais graves, como falta de ar. As mulheres têm muitos tipos de plantas, mas no início, elas não sabiam quais eram apropriadas para os sintomas da COVID-19 e, como conhecedoras, foram testando os remédios. Vendo os efeitos, compartilharam por vários meios de comunicação tais como radiofonia, mensagem, WhatsApp ou recados pessoais, tornando-se a referência no preparo de toElas vão em busca de folhas, raízes, caules, cascas de árvore, formigas, frutas, grelos de algumas plantas e sementes. Seu grande segredo é o “respeito pela planta”: elas conversam com as plantas na hora de tirar as folhas, raízes e caules. A minha mãe e minhas tias falam o seguinte: “semãnha, apurandú nerumu, ayuka arãma neráwa, amukatú arãma sembira itá, asui seamã itá. Aputai rekuasá, amukatú arã aintá kua mansí suí. Kuetakú reté semanhã, pusanga itá rupí, kaá asui sapú itá rupí” (“Peço licença, minha mãe Terra, para retirar suas folhas, para me curar, curar meus filhos e curar pessoas que amo. Quero toda a sua energia de purificação e proteção contra essa doença do mal. Gratidão, minha mãe, pelas folhas e raízes”).  Essa conversa é muito importante porque precisamos pedir licença à mãe Terra, à floresta e às plantas, pois elas têm vida. Nós Baniwa, antes de passarmos por um lugar sagrado, pedimos autorização. Quando levamos uma criança recém-nascida pela primeira vez, lavamos o rosto da criança, pedimos autorização e apresentamos a criança àquele lugar sagrado. E, para retirar as plantas, temos o mesmo respeito da medicação.

            O momento ideal para tirar os remédios é de manhã bem cedo, antes do sol nascer, pois nesse momento ainda estão puros e limpos, sem nenhuma contaminação. É nessa primeira hora da manhã que as folhas têm maior poder de cura, pois ainda estão cobertas pelo sereno. As mulheres retiram os remédios que estão no quintal e os que estão na roça, já os homens vão retirar os remédios que estão na terra firme (lugar muito longe, para dentro da floresta, onde há árvores enormes, na mata virgem, um lugar para caça). Para tirar os remédios para combater a COVID-19, precisamos ter esse respeito também. Mas, como é uma doença dos não-indígenas (yalanawi na língua Baniwa), fizemos os preparos e os tratamentos sem seguir as restrições necessárias para outros tipos de doença. Se fosse para combater uma doença causada por seres invisíveis, teríamos que observar várias regras durante o processo de tratamento, principalmente com relação à alimentação: por exemplo, não comer pimenta e certos tipos de peixe ou de caça.

            Para todo tipo de doença, é possível intervir por meio de plantas e benzimentos, pois Ñanpirikoli já havia previsto tudo que poderia acontecer com seus filhos.  Há plantas que são remédios de proteção e cura, e há também as plantas voltadas para fazer o mal. Ele fez o benzimento (nhãpakatí, falas xamânicas) para a cura e o benzimento para o mal, e assim entregou para seus filhos neste mundo. É por isso que hoje temos as plantas que usamos para combater a COVID-19. A minha mãe, tias e avós foram e são protagonistas desta fala: “Tudo que sabemos passamos para as outras. O que sabemos vamos te falar, como usar e como se faz, agora põe no papel para o mundo saber como nos protegemos e como protegemos os outros”, disseram-me.

            O conhecimento está nas famílias. Cada família prepara o seu chá, acompanhado de benzimento para reforçar a proteção e a cura, e o troca com o de outra família. Todos os remédios tradicionais que foram e continuam sendo usados já existiam há muito tempo, mas a visibilidade e a importância desses saberes ganharam força com a chegada da COVID-19. Esses conhecimentos, que são usados desde sempre, foram, ao longo dos meses de pandemia, aperfeiçoados em suas técnicas de uso, com a implementação de mais ingredientes. Hoje o mundo sabe dos poderes que temos guardados e cuidados dentro dos quintais e da floresta.

            Na primeira e na segunda ondas da pandemia (primeiro semestre de 2020 e janeiro de 2021, respectivamente), usamos remédios para proteger o corpo: ervas e plantas cujo aroma forte impede que a doença chegue ao corpo. Certas plantas servem como “anticorpos”, fazendo o corpo ficar forte. Utilizamos compostos de folhas, raízes, caules, grelos, sementes e formigas, que servem para fazer chá, surtindo efeito imediato de combate à tosse, febre, dor de cabeça, dor de garganta e mal-estar. Usamos também plantas, ervas, folhas e raízes para controlar vômito, diarreia com sangue e dor no peito. Por fim, fazemos o benzimento desses elementos da floresta e chás.

         O benzedor, além de usar o cigarro para benzer os elementos, viaja por todos os lugares de transformação (casas míticas que Ñanpirikoli passou em seu caminho na transformação da humanidade), onde tudo começou muitos anos atrás. O benzedor faz o mesmo percurso que os seres míticos fizeram, seja para proteger o corpo, seja para curar o doente, protegendo a casa da doença. Aos olhos da doença (COVID-19), a casa cercada pelo benzimento tem um enorme muro que a dificulta passar, ficando do lado de fora. Através dos benzimentos, aos olhos da COVID-19, é como se estivéssemos dentro de uma bolha de sabão: a doença pode nos olhar, mas não consegue entrar para dentro da casa e do corpo. Com isso nós nos defumamos todo final de tarde no tempo da pandemia.

            Todos os remédios são para proteger o corpo da doença e o deixam forte, afastando a COVID-19, não permitindo que ela entre no corpo.  Dona Bibiana Fontes, mulher Baniwa, moradora da comunidade de Assunção do Içana, disse: “não foi essa doença que fez com que usássemos os remédios hoje, esses remédios usamos desde sempre, desde muito tempo”. Ela ainda falou: “estamos usando esse remédio hoje para combater a doença, usamos os nossos remédios para não deixar a doença encostar no nosso corpo, para nos proteger. Quando tivemos a notícia da chegada dessa doença, fomos logo recorrendo aos nossos remédios indígenas, pelos sintomas da doença, fomos pegar os remédios que pudessem nos ajudar na prevenção, na proteção e na cura contra a doença”.

            Na comunidade de Assunção, há 73 famílias, aproximadamente 500 pessoas. A Agente Indígena de Saúde (AIS) da comunidade estima que, até o mês de abril de 2021, cerca de 300 pessoas pegaram COVID-19, alguns desses casos foram confirmados com testes rápidos (doados pela Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) de Manaus em parceria com a FOIRN), outros são considerados apenas pelos sintomas apresentados (importante destacar que estes não são dados oficiais da Secretaria Especial de Saúde Indígena – SESAI). Desses, dez ficaram em estado grave, sendo internados no ambulatório hospitalar da comunidade. Somente duas pessoas foram removidas para o hospital de São Gabriel da Cachoeira e ambas, depois de dois meses internadas, voltaram para casa recuperadas. O ambulatório hospitalar da comunidade recebeu doações da ONG Expedicionários da Saúde, em parceria com a FOIRN, equipando-o com quatro tanques de oxigênio, quatro nebulizadores, cinco redes apropriadas, colchões e remédios para o atendimento das pessoas da comunidade e de outras do Içana, sendo uma referência no tratamento à COVID-19 na região. A AIS ressaltou também a importância dos chás e benzimentos para o tratamento dos pacientes, dando suporte e assistência para os parentes. A população toda ficou exposta de alguma forma à COVID-19, mas o fato de todos estarem se cuidando, tomando remédios, chás, e proteções xamânicas fez com que seus corpos ficassem mais fortes para combater a doença.

            Em meio à pandemia, as mulheres rionegrinas são verdadeiras guardiãs da sabedoria, mestras no preparo de vários tipos de remédios encontrados em diferentes partes da floresta ou nos quintais agroflorestais das comunidades. A COVID-19 é uma doença silenciosa que veio para causar muita dor em famílias pelas perdas, mas a combatemos com nosso conhecimento indígena e com o apoio da rede de saúde.

            Enfim, as mulheres são protagonistas pelo empenho e dedicação em cuidar de sua família, e muitas vezes em cuidar também de parentes indígenas de outros povos. Cuidar do outro é uma das características que temos como indígenas, compartilhando nossos saberes. E com a nossa sabedoria salvamos muitas vidas, que hoje estão presentes. Outras se foram, mas estão eternizadas na nossa memória. Nossas plantas são nossa força, nossa proteção e nossa vida.

Revisada e editorada por Daniela Perutti

 

Como citar: Fontes, Francineia Bitencourt. 2021. Notas sobre a força dos remédios indígenas no Alto Rio Negro, Amazonas. Plataforma de Antropologia e Respostas Indígenas à COVID-19, vol. 1, n. 4. Disponível em www.pari-c.org. Acesso em dd/mm/aaaa.