O espírito do covid e a força dos encontros na Terra Indígena Guarani do Jaraguá

por Para Mirim - Jaciara Augusto Martim, Valéria Macedo, Amanda Signori
31 Maio 2021
Nota de Pesquisa

            Em nossos aprendizados com os Guarani, particularmente no que nossas amigas e amigos nas aldeias vêm compartilhando conosco de suas experiências com a COVID-19, a alta incidência de casos na Terra Indígena (TI) Jaraguá, localizada na cidade de São Paulo, nos mobilizou intensamente. Tanto o adensamento urbano no entorno dessa TI, como sua densidade populacional em comparação com outras comunidades Guarani, somados às articulações de seus moradores em defesa de seus direitos, fizeram toda diferença no modo como a COVID-19 se fez presente e como foi ali enfrentada. A vulnerabilidade guarani em decorrência do confinamento crescente imposto pelo crescimento da cidade só evidencia a força de resistência dessa comunidade em suas lutas anteriores e durante a pandemia.

            Essa força está impressa nas palavras de Para Mirim, cujo apelido jurua é Jaciara, que é assistente social da Unidade Básica de Saúde (UBS) e moradora da TI Jaraguá. Antes de chegarmos a suas palavras, contudo, faremos uma breve introdução dessa comunidade.

            A cidade de São Paulo conta com duas Terras Indígenas do povo Guarani (em sua maioria Mbya). No extremo-sul do município está a TI Tenonde Porã, onde vivem cerca de 1.600 pessoas e onde foram registrados 928 casos de COVID-19. Já na região noroeste fica a TI Jaraguá, que hoje conta com seis tekoa, onde vivem cerca de 700 pessoas. A terra está homologada com apenas 1,7 hectare, mas a ampliação de seus limites está em processo de reconhecimento pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI) e foi declarada em 532 hectares. Jaciara vive no tekoa Pyau, onde se encontra o Centro de Educação e Cultura Indígena (CECI), que é uma instituição municipal voltada para a educação infantil que foi convertida em centro de acolhimento e isolamento das pessoas com COVID-19 durante a pandemia. A comunidade é vizinha ao Parque Estadual do Jaraguá, onde os Guarani atualmente têm acesso restrito, e está cercada por três rodovias. Desde a década de 1980, a população não indígena do distrito do Jaraguá vem aumentando exponencialmente, contando hoje com mais de 200 mil habitantes numa área de 27,6 quilômetros.

            Desde o início da pandemia, a venda de artesanato e as visitações às aldeias foram interrompidas, de modo que os moradores perderam essa importante fonte de renda. Mas a comunidade organizou campanhas de arrecadação de alimentos e itens de proteção, como máscaras e álcool em gel. O primeiro caso de COVID-19 na TI Jaraguá foi registrado em 22 de abril de 2020 e, desde então, foram registrados 297 casos. Em 2021, teve início a vacinação da comunidade e, segundo estimativa de Jaciara, mais de 90% dos moradores acima de 18 anos foram vacinados. Como parte da comunidade e da equipe de saúde, Jaciara acompanhou todo esse processo e compartilhou no depoimento a seguir (transcrição adaptada de depoimento oral) algumas de suas experiências, reflexões e aprendizados.


Portão da Tekoa Pyau – TI Jaraguá, março de 2020.

 

Cuidados e palavras de Para Mirim – Jaciara

            Eu moro aqui na aldeia desde pequena. Trabalhei muito tempo como professora e atualmente estou como assistente social na UBS, mas trabalhei um tempo na CASAI [Casa de Apoio à Saúde Indígena] de São Paulo. Para os Guarani, a saúde tem um significado maior do que a ausência de doenças físicas, pois a questão espiritual intervém. Antes de uma doença física, existe uma doença espiritual. Então o cuidado tem muito a ver com a questão do humanismo. Se você está doente e precisa de um tratamento com uma rotina de consultas e exames, dependendo de como você é recebido nesses locais, em vez de te ajudar, isso pode piorar. Esse é um entendimento que os Guarani têm. 

            Por isso aqui na UBS a gente pensa muito na questão do humanismo: conversar com o paciente, saber o que ele está entendendo, o que tem por trás da doença, antes de ficar buscando um tratamento. Se a pessoa passa por um sofrimento, acaba adoecendo, por isso a gente precisa ir muito além dos sintomas. Daí a importância do bem-viver Guarani, o nhandereko. Só que o nosso nhandereko tem ficado prejudicado porque a gente está morando muito próximo à cidade e tem um espaço físico muito reduzido. Então a gente não tem aquele contato com a natureza como gostaríamos de ter. Antigamente, a gente podia dormir uma noite tranquila, no silêncio, agora escutamos barulho dos carros e dos cachorros que largam aqui na aldeia o tempo todo. A mudança do modo de viver não foi por escolha, mas por imposição, e isso influencia muito na questão da saúde.

            O modo como a covid [COVID-19] entrou aqui e se espalhou tão rápido tem muito a ver com a questão do modo de viver Guarani. A gente teve muitos, muitos, muitos casos de teste positivo inicialmente, e alguns jurua pensaram “ah... os indígenas todos saíram para a rua e pegaram covid”. Mas na verdade foram só algumas famílias que saíram para ir à feira, ou   ao mercado. Escutando o relato das pessoas, “ah, eu fiquei o dia inteiro na cama, com febre...”, a gente tem a sensação de que o covid [a COVID-19] veio bem antes do primeiro resultado oficial de positivo dentro da comunidade. Mas a gente nunca saiu dessa rotina de viver nos núcleos familiares, então o que acontecia era que uma família ou uma pessoa pegava o covid, mas continuava com a rotina de jogar bola, ir para a casa de reza, ir ao outro núcleo familiar tomar chimarrão, fumar cachimbo...

            O Guarani tem esse convívio muito forte, então a gente precisou segurar um pouco e abrir um centro de isolamento para as pessoas que davam positivo no teste de covid. A gente fez esse centro no CECI, trabalhando junto com a SPDM [Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina, organização social responsável pela gestão da UBS] e a SESAI [Secretaria Especial de Saúde Indígena]. Esse local foi importante para atender pessoas durante o período de tratamento, não contaminar as outras pessoas e, principalmente, para ter um acompanhamento adequado. 

            No início, a gente fez muita visita domiciliar, o que fez muita diferença. A gente na equipe de saúde ia de casa em casa para saber os sintomas e fazer as orientações. Quando começaram os exames, a gente conseguiu ver os casos que deram positivo e descartar os que eram só suspeitos, então a gente conseguia fazer o acompanhamento mais de perto, mesmo quando a pessoa não ia para a área de isolamento.

            No começo, muitos aqui na comunidade pensavam: “ah, essa doença não é para a gente, é pros não indígenas”. Só que acabou chegando na aldeia. Mas o xamõi fala que o covid é uma doença que tem espírito, então ele não ataca todo mundo igual, tem gente mais aberta, mais vulnerável. Por isso, teve famílias inteiras que pegaram covid e ficaram em contato próximo com outra família, mas ninguém ali pegou covid. E teve família em que todos pegaram covid e só uma pessoa não teve nem contato. Essas coisas a gente não consegue explicar. Então, quando o xamõi fala que o covid é uma doença que tem espírito, isso para mim faz muito sentido porque alguns são mais afetados que outros.

            Na minha casa eu peguei, a família toda pegou. Depois achei que tinha pegado uma segunda vez, porque meu filho testou positivo. Eu fui à casa de reza, e quando fumei o petyngua, senti uma falta de ar, um cansaço muito maior do que o que eu costumava sentir. De manhã eu sempre sinto o cheiro e o gosto do café, aí eu lembro que eu tomei um copo e não senti nada, aí eu fechei meus olhos e pensei “não é covid, não é covid, Nhanderu Ete”, apertei a boca assim e comecei a sentir o gosto, aí pensei "então não é covid!”. Eu lutei contra os sintomas e, quando eu fui passar no médico, ele nem achou necessário fazer o exame.

            Quando eu chego em casa depois do trabalho na UBS, a primeira coisa que eu faço é pegar o meu petyngua e ir para a casa de reza para descarregar tudo de durante o dia, agradecer, isso faz parte da minha rotina e me dá força para voltar para casa bem. É difícil ficar bem na pandemia, e os problemas de saúde mental aumentaram muito na sociedade não indígena por causa do isolamento e do luto. Mas, para os Guarani, o cuidado do isolamento dentro da comunidade em relação à cidade sempre existiu. Então isso não fez tanta diferença, mas a pandemia afetou a questão espiritual. Como já disse, o xamõi fala que o covid é uma doença que tem espírito e que pega as pessoas pelo medo. Por causa dessas mortes terríveis, com muitas pessoas e muitas famílias sofrendo, o mundo fica mais pesado. A gente não teve óbito aqui na comunidade por covid, mas temos buscado nos fortalecer porque a gente sente uma tristeza que não sabe da onde vem. O xamõi fala muito dessa questão espiritual, da gente ser afetado pelo que está ao redor. Isso afeta a comunidade e a gente tem buscado fortalecer o nhandereko, indo para a casa de reza e fortalecendo o espírito. Mesmo passando por tantas dificuldades, essa pandemia fez com que a comunidade se aproximasse mais para enfrentar momentos em que doenças espirituais estão vindo.

            As lideranças têm buscado momentos de fortalecimento organizando pelo menos três vezes por semana, ou dia sim, dia não, encontros dos xondaro e das xondaria. Isso faz parte da rotina Guarani desde antigamente, a dança das mulheres, o tangará, e a dança dos homens, o xondaro, que é uma forma de fortalecimento espiritual. É algo que a gente tem buscado fortalecer novamente, retomando essa rotina de dança Assim, teve anos em que a gente teve muito mais tentativa de suicídio do que durante a pandemia. Em 2020 a gente não teve nenhuma, e em 2021 a gente teve uma tentativa de suicídio, mas foi devido a uma pessoa ter perdido alguém da família por outra doença, não foi pelo covid, então a pessoa está passando por um momento de luto e é possível entender por que ela quis partir. 

            É importante que as pessoas entendam o nosso modo de viver para que não olhem os indígenas como preguiçosos, como vagabundos. Tem muitos indígenas que vivem da venda do artesanato. Só que se alguém chega e fala assim: “eu quero dez colares desse aqui e dez brincos daquele outro tipo” e dá um prazo para entregar, a indígena vai fazer o que for possível, mas não vai acordar às 8 horas da manhã, tomar café, deixar os filhos de lado, o marido de lado, e fazer as peças que ela tem que entregar. Ela vai fazer conforme o tempo dela.

            Assim, se uma empresa vem interessada em comprar artesanato em grande quantidade, o Guarani não vai deixar de fazer uma dança tradicional para fazer o artesanato, ainda mais nesse momento que a gente tem buscado se fortalecer. Também não vai deixar de participar de uma reunião, que é uma forma de desabafo da comunidade, de falar o que acontece, por exemplo, uma família que está se desentendendo com outra, ou falar sobre a questão dos jovens que estão saindo muito para a cidade. As reuniões são uma forma que a comunidade tem de resolver seus problemas internos. Aí aparece alguém dizendo: “ó, eu quero que você me entregue daqui a uma hora dez pulseiras”, mas a mulher Guarani vai preferir participar da reunião do que fazer as pulseiras, mesmo ela precisando, mesmo ela passando dificuldade, porque para ela faz muito mais sentido do que fazer algo para ganhar dinheiro.

            Quando eu comecei a fazer a faculdade, para mim foi muito difícil por ter que sair da rotina da aldeia. Apesar da gente estar morando muito próximo da cidade, eu só saía para fazer uma compra no mercado, para ir à feira, não tinha envolvimento social. Os jovens já têm outro tipo de relacionamento com as pessoas não indígenas da vizinhança. Mas entre os mais velhos, eu via que eles não tomavam banho para ir à cidade como os jovens, eles iam do jeito que estavam e, quando eles voltavam da cidade, aí sim eles tomavam banho, porque eles se sentiam sujos.

            Se a gente vivesse a nossa vida tradicional, estaria menos doente, nosso corpo e nosso espírito. A gente tem bastante jovens com problema de alcoolismo, de droga, e tem a questão do dinheiro também. A gente não tinha doença mental. Havia doenças espirituais, e é o que a gente vê até hoje: a doença espiritual não é mesma coisa que a mental, pois envolve o espírito da pessoa e outros espíritos. Quando eu saí para fazer o curso de serviço social, eu via que era preciso mudanças por causa da falta de entendimento do não indígena quando ofereciam serviços para a comunidade. Então eu queria colaborar nesse serviço diferenciado, que respeitasse a dimensão espiritual.

            Antigamente, o indígena tinha que ir para uma UBS fora porque não existia dentro da aldeia. Eu estudei fora e sofri muito preconceito, e quem precisa de serviços fora da aldeia também sofre. Por isso foi importante a construção da UBS e da escola dentro da comunidade, para a gente ter atendimento diferenciado. Mesmo a escola tirando a rotina do viver Guarani, ela ensina como se defender da sociedade não indígena, como fortalecer os professores indígenas e a fala dos mais velhos. E na UBS as pessoas podem procurar um médico, mas depois de passar com um xamõi e fazer o tratamento espiritual.

            Mesmo assim, sofri muito na CASAI e aqui na UBS em relação ao trabalho. Porque, entre nós Guarani, por mais que a gente tenha conflitos e diferenças de opiniões, estamos juntos na mesma luta, e entre os trabalhadores não indígenas tem muito individualismo. Quando acontece uma situação em que um profissional pode fazer algo que traga benefício para um paciente, ou para uma comunidade, e o profissional fala assim: "ah, mas esse não era o meu papel, era o papel do médico, ou era o papel da enfermeira, ou era o papel do técnico”, isso para a gente é muito estranho, porque o papel é ajudar a comunidade, não importa o cargo. E eu vejo que entre os não indígenas existe muito essa divisão de trabalho: “você vai fazer isso, você vai fazer aquilo, isso não faz parte do seu trabalho então não faça, não se mete”. Entre os Guarani já não existe isso, todo mundo tem o direito de opinar, é claro que diante de seus conhecimentos.

            Quando eu fiz serviço social na PUC, antes eu fui à casa de reza e perguntei a Nhanderu qual seria o melhor caminho para eu trazer algo para a comunidade. Quando o não indígena sai para fazer uma faculdade, em grande parte é inspirado por alguém da família, ou inspirado pela questão financeira mesmo, no mercado de trabalho. Mas para mim e para outros indígenas que se formaram, a gente escolhe um conhecimento que possa retornar à comunidade. E quando um guarani vai procurar um trabalho, ele quer trabalhar dentro da comunidade. Quem trabalha fora da comunidade adoece, não aguenta. Fora da comunidade não faz sentido. A gente precisa de um meio de sobrevivência, mas não nos moldes do não indígena, de trabalhar todo dia no mesmo horário.

            Na relação com os não indígenas, os Guarani gostam de se apresentar com o coral. A gente tem orgulho de mostrar o quanto a gente gosta de cantar para Nhanderu Ete, o quanto gostamos de ir para a casa de reza, o quanto sabemos falar a língua materna. Assim a gente pode mostrar para a comunidade não indígena que, mesmo com tantas questões, mesmo usando roupa, mesmo falando português, mesmo a cidade tão próxima, fortalecemos nosso nhandereko

Revisada e editorada por Daniela Perutti
Transcrição do depoimento: Camila Padilha Gomes 

 

Como citar: Martim, Jaciara Augusto; Macedo, Valéria; Signori, Amanda. O espírito do covid e a força dos encontros na Terra Indígena Guarani do Jaraguá. 2021. Plataforma de Antropologia e Respostas Indígenas à COVID-19, vol. 1, n. 4, mai. 2021. Disponível em www.pari-c.org.