Gravidez e parto durante a situação pandêmica

por Maria Paula Prates, Aline Regitano, Gicele Sucupira, Araci da Silva, Arthemiza Puruborá, Iamony Mehinako
31 Maio 2021
Nota de Pesquisa

            A primeira nota de pesquisa publicada na PARI-c versou sobre parto e protagonismo de indígenas mulheres no enfrentamento à pandemia de COVID-19. A presente nota dá continuidade a algumas das questões nela levantadas e apresenta novos dados da pesquisa para a elaboração do estudo de caso “Parto e cuidado em tempos de COVID-19”, a ser divulgado no segundo semestre de 2021. Escrevemos esta nota co-laborativamente a partir de diferentes inserções e modos de produzir conhecimento. Araci, indígena mbya, vem trabalhando diretamente com Maria Paula, enquanto Aline com Iamony Mehinako e Gicele com Arthemiza Puruborá.

O parto de Odete e os filhos que ficam

Gicele e Arthemiza

            Há menos de dez anos, o parto hospitalar se tornou uma possibilidade para as mulheres indígenas atendidas pelo polo de Saúde Indígena de Guajará-Mirim, cidade situada no norte de Rondônia, quando o transporte até a cidade passou a ser viabilizado pela SESAI. Atualmente, o polo atende quase 6 mil indígenas, em torno de 52% são mulheres, de mais de 20 etnias que vivem em 53 aldeias, das quais 32 têm acesso exclusivamente fluvial, o que dificulta o atendimento às emergências médicas. Por conta da distância, da quantidade de barcos disponíveis e do combustível, nos últimos anos, as mulheres grávidas são levadas à cidade muito antes da 40ª semana de gestação. Algumas chegam a passar mais de dois meses na Casa de Apoio à Saúde Indígena (CASAI), principalmente se apresentam anemia, infecção ou outras doenças.

            Permanecer na CASAI, longe da família, foi um problema que se agravou durante a pandemia, momento em que se restringiu ainda mais a quantidade de acompanhantes. Em abril de 2021, um novo prédio da CASAI local foi inaugurado, substituindo o anterior, um antigo hotel alugado e usado para internações. Foi em um desses quartos estreitos da antiga sede da CASAI que Odete Arikapú Jabuti e outra gestante se contaminaram com COVID-19 em julho de 2020, quando a enfermeira plantonista colocou uma paciente com sintomas no mesmo quarto em que estavam internadas.

            Quando Odete, que completava a 40ª semana de gravidez, passou a ter dificuldades para respirar e sua saturação baixou, foi encaminhada a Porto Velho com o objetivo de fazer um parto cirúrgico para salvar a criança e melhorar a sua condição respiratória.  Na cidade de Guajará-Mirim, os hospitais não aceitaram internar Odete, tampouco fazer o parto. “O nosso município não está preparado para receber gestantes com COVID-19”, lamentou a profissional da saúde indígena.

            Por complicações nos rins e pulmões causadas pela COVID-19, Odete faleceu aos 38 anos de idade em 25 de agosto de 2020, três semanas após parir o seu nono filho, no Hospital de Base da cidade de Porto Velho. O bebê, primeiro filho homem muito aguardado por Odete, permaneceu internado por mais uma semana para ganhar peso até a tia paterna levá-lo de volta à aldeia Sotério, na Terra Indígena Pacaás-Novas, onde Odete vivia com o esposo da etnia Oro Nao e mais oito filhos. Odete sequer voltou à aldeia de origem, e seu corpo foi enterrado na aldeia da Linha 8, a mais próxima da Terra Indígena.

            Para transportar o corpo de Porto Velho até Guajará-Mirim e apurar a causa da sua contaminação por COVID-19, lideranças e parentes acionaram o Conselho Distrital de Saúde Indígena (CONDISI) e o Ministério Público Federal (MPF), por entenderem que a morte de Odete foi causada por um “erro do branco” e “não aceitarem” que uma mulher jovem como ela, que estava saudável quando saiu da aldeia com a equipe de saúde para fazer os exames pré-natais na cidade, não tenha sobrevivido.

            A morte de Odete causou muita dor, indignação e medo de ir para a cidade e não voltar mais à aldeia. Após o episódio, quando alguém fica doente, os indígenas não deixam levar para a cidade, tratam na própria aldeia. Segundo uma profissional da saúde indígena, as narima, mulher na língua txapakura falada nas aldeias da região, têm optado por assinar um termo de recusa ao atendimento hospitalar para parir os seus filhos nas aldeias, o que não ocorria antes. Já as mães têm recomendado às filhas que não engravidem nesse momento de pandemia porque “estão correndo muito risco”. 

            Na aldeia de Odete, os parentes recordaram com tristeza de uma mãe que faleceu de câncer logo após parir. Seu filho, que nasceu prematuro aos oito meses, foi cuidado pela tia como se fosse seu filho, tal como está fazendo, aos 16 anos, a filha mais velha de Odete que hoje é a “irmã-mãe”. A COVID-19, assim como o câncer, é considerada uma doença que veio dos brancos para acabar com os indígenas. As mortes por COVID-19, a desconfiança a respeito da atuação de profissionais da saúde e o fato de o presidente do Brasil fomentar dúvidas em torno da vacina, propiciando ainda mais desconfiança, levaram as comunidades indígenas da região de Guajará-Mirim a recusarem as vacinas. No final de abril, a vacinação mal havia alcançado 50% da população de mais de 18 anos nas aldeias locais. Isso só foi possível depois de muitas palestras e campanhas apoiadas pelas lideranças. 

Os muitos riscos de estar grávida entre as Mehinako

Aline e Iamony

            As mulheres mehinako deixaram de parir em suas casas já há quase duas décadas. Foram vários os eventos que tornaram o parto no hospital um caminho comum para as xinguanas, como a aproximação do “mundo dos brancos” e com ela a valorização da biomedicina, seus discursos, procedimentos e aparatos. Via de regra, enfermeiras/os e médicas/os que atuam na área indígena mehinako recomendam o parto hospitalar por justificativas biomédicas, que envolvem uma gestão de “riscos”. Entre tais justificativas, encontra-se a possibilidade de que a parturiente tenha uma complicação durante o parto em casa e, com isso, não haja tempo hábil de deslocá-la até o hospital para uma cesariana de emergência. Mulheres com mais de quarenta anos, independentemente de terem parido várias crianças ao longo da vida e que se encontrem com saúde, são automaticamente classificadas como “em risco” quando grávidas. O mesmo em relação às mães de primeira viagem, consideradas “muito jovens”. Em resumo, a patologização da gravidez e do parto pelas equipes biomédicas de saúde é uma constante, e afeta também as Mehinako. Além disso, é relevante ressaltar que entendimentos de “risco”, mesmo quando amparados em dados estatísticos e epidemiológicos, são apenas estimativas, cujos entendimentos nativos são usualmente desconsiderados.

        É através do acompanhamento diário dos Agentes Indígenas de Saúde (AISs), que moram nas aldeias e compartilham todas as manhãs boletins sobre a comunidade, que são feitas as recomendações para o deslocamento de pacientes para a cidade, entre eles as gestantes. A “saúde indígena”, para usar a linguagem mehinako, é responsável pela saída e retorno da paciente, deslocamento que pode prever uma viagem fluvial, terrestre e/ou aérea. Com a pandemia, a justificativa de “segurança” frente aos "riscos" iminentes do parto se torna no mínimo paradoxal, uma vez que é sabido que os hospitais são fonte de contaminação pelo novo coronavírus. Propiciar que mulheres que vivem nas aldeias circulem nas cidades, seguindo a mesma cartilha de riscos anteriores à pandemia, é incompatível com as medidas de isolamento social e fechamento das aldeias que têm se mostrado mais eficazes na contenção da COVID-19.

            Ainda assim, em contraste com as mulheres indígenas do Baixo Xingu, onde se vê um movimento de florescimento, de retomada de saberes e práticas tradicionais, como as relacionadas ao parto em casa, as Mehinako continuam parindo no hospital, apesar dos perigos de ir para a cidade nesse momento. Como medidas preventivas para se evitar a contaminação, nas cidades do entorno do TIX, como Canarana (MT) e Gaúcha do Norte (MT), as CASAI foram divididas em duas, sendo uma delas a destinada a pessoas infectadas pelo novo coronavírus. No hospital, contudo, não parece haver estrutura que garanta o isolamento de pacientes infectadas e parturientes infectadas e não infectadas.

            Entre fevereiro de 2020 e abril de 2021, todos os partos de mulheres mehinako foram hospitalares. As justificativas são várias e seguem o discurso de patologização da gravidez e do parto, muito presente na área biomédica no Brasil, que entende os corpos de mulheres como defeituosos ou incompetentes para o ato de parir. Em um dos casos, a gestante, mãe de seu terceiro filho, com um histórico de cesarianas justificadas por ter “a bacia muito estreita”, foi deslocada para parir no hospital. Em outro, a parturiente tentou ter seu bebê na aldeia, mas o trabalho de parto teria estacionado o ritmo de desenvolvimento, e por isso ela teve que ser removida de avião para o hospital mais próximo a fim de ser submetida a uma cesariana. O fato de existir um tempo considerado “normal” na literatura científica, com base em estudos que estipulam uma média de duração para o trabalho de parto é um dos principais pontos de inflexão entre saberes indígenas e biomédicos.

        Em um terceiro evento, uma gestante que foi à cidade para se tratar de uma doença que não a COVID-19 foi impedida de retornar à aldeia por receio da equipe de saúde de que estivesse contaminada pelo novo coronavírus, e por isso passou o restante da gravidez até o parto na cidade. Em vez de a testarem e apoiarem seu retorno à aldeia, foi mantida na cidade, longe dos parentes e com um risco real de se contaminar pela COVID-19. Como se mensuram “riscos” em um contexto de patologização consolidada do ciclo gravidez-parto-puerpério e infecção por COVID-19? A COVID-19, no caso das Mehinako, é um “risco” a mais entre tantas potenciais enfermidades associadas, e muitas vezes partilhado entre profissionais de saúde não indígenas e indígenas, à gravidez e ao parto.

Cuidando mulheres, fortalecendo parteiras entre as Mbya

Maria Paula e Araci

            Parir no hospital, antes da pandemia, se apresentava como um horizonte certeiro para muitas guarani mbya mulheres. Fatores como viver perto de centros urbanos, orientações impositivas das equipes multidisciplinares de saúde e não poder contar com uma mulher experiente na arte de cuidar outras mulheres a parir em suas aldeias são algumas das razões que resultavam e ainda resultam em partos hospitalares em vez de partos entre parentes. 

            O que parece ocorrer durante a pandemia, por sua vez, é um movimento contrário: o de um crescimento do número de partos entre parentes. E, de modo geral, uma maior recusa em “chamar a ambulância” para ir parir no hospital. A COVID-19, entre as guarani mbya mulheres, parece ser algo que preocupa mas não é o principal motivo para não parir no hospital. Seguimos na linha da nota de pesquisa 01, na qual pensamos que a pandemia tem sido uma possibilidade, uma quase-oportunidade, para evitar o parto hospitalar entre alguns coletivos indígenas. Esse evitar o hospital se acentua quando a mulher grávida pode contar com uma mitã jaryi (“parteira”). 

            Ao longo das últimas semanas, Araci conversou pessoalmente com algumas mulheres de sua rede de parentesco, e Maria Paula trocou mensagens de áudio com Araci e Yva. Além da situação pandêmica em si, outras questões emergiram tais como “fortalecer parteiras tradicionais”, “o corte” (episiotomia) e o parto hospitalar como sendo “desumanos”. As aspas se referem às palavras ditas em português tanto por pesquisadoras indígenas quanto por interlocutoras de pesquisa. 

            Recentemente, Kerexu pariu no Tekoa Pará Roke e foi cuidada pela mãe, Yva. Este foi o terceiro filho parido por Kerexu, mas o primeiro que nasceu entre parentes, já que os dois primeiros nasceram no hospital. Enquanto as contrações de Kerexu se intensificavam e a possibilidade de ter que “chamar a ambulância” era aventada, Yva perguntou diretamente a Kerexu: “tu não confias em mim?” Yva estava segura de que o tempo e ritmo do processo de parir estavam seguindo um curso considerado “normal” e que não havia necessidade de contar com ajuda externa aos saberes e técnicas de que ela dispunha. Kerexu “confiou” em sua mãe Yva, parteira de longa data e muito experiente, e pariu seu filho aos cuidados dela. 

            Yva tem se “fortalecido” para cuidar de mulheres grávidas antes, durante e após o parto. Esse fortalecimento se dá com rezas e cantos na opy (casa de cerimônias), com o uso de petyngua (cachimbo que acondiciona tabaco) e emprego de ervas medicinais. Ela também tem sido “fortalecida” pelas mulheres que confiam em suas palavras e em seus saberes. De modo frequente, em nossas interlocuções de pesquisa, tem se ouvido de guarani mbya homens e mulheres que é preciso “fortalecer as parteiras” (nhamombaraete mitã jaryi kuery). Esse fortalecimento não está relacionado unicamente a um lugar político e de disputa frente aos conhecimentos juruá (não indígenas). Trata-se de um fortalecimento de mão dupla, entre saberes, técnicas, mas também de feitio de corpos imbricados em afetos e relações com as divindades. São imbricamentos que culminam em partos de crianças saudáveis, bem como em pais e mães também fortalecidos para fazerem seus filhos crescerem com saúde. Fortalecer e ser fortalecido reverbera na saúde e bem-estar do coletivo de parentes.

            Logo depois do parto de Kerexu, nos perguntamos quais teriam sido os micro acontecimentos e relações que mudaram a configuração de um histórico de partos hospitalares para um parto entre parentes. A presença de Yva nos primeiros sinais do trabalho de parto e uma equipe multidisciplinar de saúde menos invasiva e diretiva no atendimento pré-natal de guarani mbyá mulheres parecem ter contribuído para o desfecho. No momento, existem duas Guarani Mbyá grávidas, Pará e Ará, na mesma comunidade onde vivem Yva e Kerexu, e que dizem não querer ir para o hospital. Ambas querem parir aos cuidados de Yva, entre parentes. Vamos acompanhá-las ao longo das semanas, conversando com ambas e com Yva.

            Em uma das conversas entre Maria Paula e Araci, o primeiro parto de Yva Mirim, outra filha de Yva, foi pauta de conversa. Yva Mirim conta que gostaria de ter parido sua primeira filha aos cuidados da mãe, mas que por recomendação da própria Yva, recorreu ao parto hospitalar. Ao notar que Yva Mirim estava “fraca”, com pouca energia para ter o bebê entre parentes, Yva avaliou serem necessárias técnicas e conhecimentos juruá para complementarem o que vinha sendo investido por ela como cuidado. O primeiro bebê de Yva Mirim, então, nasceu no hospital. Tudo correu bem, mas parece haver um consenso entre as guarani mbya mulheres de que o parto no hospital é “desumano”. A própria Yva conta que não quis entrar na sala de parto do hospital para acompanhar de perto Yva Mirim, preferindo ficar na sala de espera. Ela evitou testemunhar as intervenções e tecnologias de cuidado de médicas e enfermeiras juruá. Embora a mãe soubesse que naquele momento precisava contar com algumas técnicas e saberes estrangeiros ao conhecimento que dispunha, a fim de resguardar a saúde de sua filha, era doloroso ver o que se passava. 

            Mesmo que o nascimento da primeira filha de Yva Mirim tenha ocorrido anos atrás, quando a COVID-19 ainda era desconhecida, as memórias e marcas no corpo de um parto hospitalar reacendem quando o tema gira em torno de gravidez e cuidados. Yva Mirim recorda do “corte” (episiotomia) que sofreu e do quanto isso lhe causou dor, sofrimento e dificuldade de retornar às atividades cotidianas. Para Yva, é “desumano” o modo como os partos e nascimentos se desenrolam em salas de parto hospitalares. Tanto Kerexu quanto Yva Mirim concordam com o que Yva diz.

Considerações finais

            Os três contextos de pesquisa apresentados ao longo desta nota são bastante diferentes entre si. Abarcam coletivos indígenas com línguas, histórico e modo de relação com os brancos distintos e que têm respondido à COVID-19 a partir de lugares e entendimentos plurais. A política das relações e orquestrações de cuidados variam, como pudemos ver, mas a forma como se dá o atendimento biomédico de pré-natal e parto implicam definitivamente no modo como é possível parir e fazer nascer, seja em tempos de COVID-19 ou não. O que temos notado é que enquanto cuidar é intervir em termos biomédicos, para muitas parteiras indígenas, cuidar é observar atentamente

Revisada e editorada por Daniela Perutti
Para Iamony, uma das autoras desta nota, que faleceu no dia 25 de maio de 2021 em consequência de complicações da COVID-19

 

Como citar: Prates, Maria Paula; Regitano, Aline; Sucupira, Gicele; Silva, Araci da; Puruborá, Arthemiza e Mehinako, Iamony. 2021. Gravidez e parto durante a situação pandêmica. Plataforma de Antropologia e Respostas Indígenas à COVID-19, vol. 1, n. 4, mai. 2021. Disponível em www.pari-c.org. Acesso em dd/mm/aaaa.