“Nossa proteção é através dessa reza”: os cantos-rezas que fortalecem os Kaiowá contra a COVID-19

por Clara Barbosa de Almeida, Tatiane Maíra Klein
31 Maio 2021
Nota de Pesquisa

 

            Os sons que se ouvem no áudio acima foram gravados no início do ano de 2019, a pedido do rezador Jairo Barbosa, do povo indígena Kaiowá. É o som de um jerosy puku, o canto longo do batismo do milho branco, durante uma festa que aconteceu na aldeia Guyra Kambiy, em Douradina, sul de Mato Grosso do Sul.         

            Também chamada de avati kyry ou avati ñemongarai, essa festa costuma ser feita após a colheita do milho branco, reunindo dezenas de pessoas na ogapysy, casa de reza, da comunidade anfitriã. Os convidados costumam chegar alguns dias antes, com seus cantos e o milho de suas roças para a preparação do kagui – bebida fermentada pelas mulheres e consumida em grandes quantidades durante os três dias de cantos e danças.

            Após o início da pandemia, os convidados não indígenas não puderam mais participar dessas festas, que são um chamado ao guardião do milho branco e dos cultivares, Jakaira. Mas a cerimônia, que é anual, continuou acontecendo, mesmo restrita aos moradores das aldeias, com uma série de novos cuidados que foram somados às práticas preexistentes, como o mbojegua, o pintar dos rostos com urucum.

            No começo de março de 2021, um novo batismo do milho foi realizado, dessa vez na aldeia Ita’y Ka’aguyrusu, e quem pôde participar foi a pesquisadora Clara Barbosa de Almeida, uma das autoras desta nota, que é Kaiowá e sobrinha de Jairo Barbosa, o cantador principal da reza feita para o milho. Ela já acompanhou por muitos anos essa cerimônia e se animou em registrar e escrever algumas reflexões iniciais sobre a experiência de um jerosy puku na pandemia de COVID-19. Então, na noite do dia 9 de março, Clara conversou com Tatiane, pesquisadora que também assina esta nota, pelo WhatsApp para informar sobre a festa e sobre a gravação:

– Oi Tati! Eu não estou conseguindo gravar o vídeo, mas eu estou tentando gravar o áudio – disse a Clara, num áudio dominado pelo som dos chocalhos mbaraka.
– Obrigada por mandar a gravação, Clara! Amanhã a gente se fala então. Manda um abraço para todo mundo aí. – respondeu Tatiane, enquanto assistia ao noticiário.
– Que bom que você gostou! Daqui a pouco eu estou voltando.

            Nessa conversa, era possível ouvir a voz forte das rezadoras e dos rezadores puxando o canto longo que leva mais ou menos 10 horas para terminar e é acompanhado em coro por todos os presentes, munidos de seus chocalhos mbaraka e bastões de ritmo takua. Esse canto que marca a primeira noite é também uma grande dança, uma caminhada circular, e, nos outros dias de festa, dá lugar aos cantos guahu e kotyhu, descritos pelo historiador kaiowá Izaque João em suas pesquisas sobre o jerosy puku.

            No dia seguinte, Clara relatou à Tatiane que sua mãe, dona Emiliana Barbosa, tinha ficado a noite toda na aldeia Ita’y e que, ao fim, o rezador principal tinha feito uma reza adicional por conta da pandemia.

Relato de campo de Clara Barbosa de Almeida

Esse ano, foi muito diferente a cerimônia do batismo de milho por causa da COVID-19. Fomos obrigados a usar máscara e álcool em gel, de acordo com as recomendações do pessoal da saúde. Foi muito estranho não podermos nos cumprimentar e termos que manter distância uns dos outros. Mesmo assim, não deixamos de realizar a cerimônia, porque a reza do batismo também invoca o encantamento do milho e as nossas proteções kaiowá e guarani contra a COVID-19.

Quando a aldeia realiza um jerosy puku, cumpre com seu objetivo principal. Ita’y é uma área retomada e o objetivo da retomada é ter de volta o estudo do Grupo de Trabalho (GT) [para regularização fundiária do território pela FUNAI] o mais rápido possível, por isso resolveram realizar o batismo no meio da pandemia para fazer andar de novo o relatório de demarcação do tekoha.

Jerosy puku é uma reza que invoca o guardião do milho para agradecer e abençoar a colheita e a produção. É também para devolver o encanto do milho saboró: para que ele continue nascendo e crescendo bem no próximo ano.

Jerosy puku não é uma reza qualquer: ela é específica para o batismo do milho. Também não é qualquer pessoa que pode rezar; só uma pessoa a quem alguém repassou a reza, deixando na mão da pessoa que se comprometeu a cumprir todas as regras deixadas pela anterior. A pessoa que resolveu ser mborahei járy, dono da reza da cerimônia do batismo, deve cumprir todas as regras da cerimônia. Não pode deixar de realizar a cerimônia por todo o resto de sua vida. Quando é convocada, ela sempre tem que comparecer no dia do batismo após a confirmação da pessoa que vai realizar o batismo ou o convite oficial, jovia, com a presença do futuro dono da cerimônia.

Quando a pessoa anuncia que vai fazer jeroky puku, não pode mais adiar ou desistir de fazer, sob o risco de sofrer consequências. Isso porque o guardião do milho já está presente no local para ser cultuado em forma de reza, invocando todas as espiritualidades dos seres invisíveis. Por causa disso, não se pode adiar ou desistir de fazer: porque os seres invisíveis podem desejar algo ruim para a pessoa no futuro.

Com o jerosy não se pode brincar, porque o guardião não é invocado imitando a reza do jerosy ou na brincadeira. A pessoa que faz esse tipo de brincadeira está correndo o risco de ter um grande tumor no seu corpo. Porque quem comanda a germinação do milho, para nascer e crescer, para tornar a espiga boa, é somente Jakaira – divindade que tem o encantamento de tornar alimentos saudáveis para os Kaiowá e Guarani.

Antes da cerimônia, não se pode comer nada do milho verde porque ainda não está batizado pelo rezador. Pode fazer mal à saúde, por exemplo, dar dor de barriga e azia. Primeiramente, o milho tem que ser batizado para que se possa consumi-lo, assim como a pamonha, o curau, enfim, as muitas coisas boas do milho. Depois, parte-se para fazer a festa do batismo, realizada anualmente, entre março e abril. Já janeiro e fevereiro são os meses de preparação para o batismo. Pessoas de muitas aldeias são convidadas para estarem na festa. Muitas já chegam um dia antes da cerimônia para ajudar o dono da casa e acompanhar a chegada dos parentes. Mas esse ano as pessoas compareceram muito pouco por causa da doença, a pandemia de COVID-19, que atingiu também os povos indígenas em geral.

A COVID-19 é uma doença que os rezadores já previam há muito tempo que iria vir como uma doença incurável, porque a humanidade não respeita mais os mandamentos de Ñanderu Vusu, o criador. Segundo os rezadores, a humanidade deixou a desejar em muitas coisas que o criador deu ordem para serem cumpridas, não para descumprirem. Em vez de cumprir os mandamentos de Ñanderu Vusu, vivem desobedecendo e confrontando, querendo disputar poder com ele. Hoje, cada um de nós está sentindo a consequência dos próprios erros. A doença veio como uma prova: quem respeita de verdade o conhecimento de Ñanderu Vusu, vai resistir à doença. Ai de quem não quiser assumir o erro terrestre! A humanidade está sendo amaldiçoada por quem nos deu a vida para cumprir os mandamentos dele, de acordo com o que foi deixado por ele.

Estou apenas transcrevendo a fala do meu pai, que é um grande rezador. A cerimônia do batismo continuará até a consumação do mundo. Enquanto houver um rezador kaiowá ou pai tavyterã, até lá vamos continuar cultuando Jakaira que é o dono das plantas cultivadas, segundo meu pai Olímpio Almeida, o rezador do tekoha Aguety Ka’aguy Rusu Laranjeira Nhanderu, no município de Rio Brilhante (MS).

Aguyje, agradeço.

            Nós já sabíamos que as rezas estavam sendo muito usadas durante a pandemia pelos Kaiowá. No primeiro semestre do ano passado, uma rede de pesquisadores sul-mato-grossense fez um levantamento rápido sobre a situação enfrentada pelos Kaiowá e Guarani em várias aldeias daquela região e um dos dados que chamou mais a atenção é que, mesmo seguindo medidas de distanciamento social e usando máscaras, a COVID-19 não tinha impedido que os opuraheiva, aqueles que cantam, continuassem fazendo suas sessões de cantos, rezas e danças, que eles chamam de jeroky. Na verdade, em vários lugares, os jeroky não só continuaram, como aumentaram. Foi o caso, por exemplo, da própria aldeia onde vive Clara. O lugar se chama Laranjeira Ñanderu em homenagem a um grande rezador do passado e, logo que começou a pandemia, os rezadores Emiliana e Olímpio Barbosa de Almeida, pais de Clara, começaram uma rotina de rezas para afastar essa mba’asy guasu ou grande doença, como se diz em Guarani. As rezas são sempre feitas e ensinadas às crianças pelos Kaiowá, porque são um legado de seu protetor, Ñanderu vusu.

            Em aldeias maiores, as lideranças das comunidades criaram em 2020 as chamadas barreiras sanitárias, nas quais professores, agentes de saúde e voluntários orientavam as pessoas para o uso da máscara e barravam a circulação de não indígenas. Logo começaram a circular pelos grupos de WhatsApp fotos e vídeos de rezadores trabalhando também nas barreiras, de máscara, com seus chocalhos mbaraka e seus cantos-rezas. Eles estavam ali para fortalecer os grupos e afastar a doença.

          No início da pandemia, Marilda Duarte, uma rezadora que vive na aldeia de Dourados, explicou, em uma entrevista por telefone, que para a COVID-19 não existia remédio, mas que era importante usar máscaras, álcool em gel e se valer dos cantos e rezas, porque eles ajudavam a afastar a doença das aldeias, como registraram Eliel Benites e Tatiane Klein em um artigo publicado no livro Fica na aldeia, parente. Na perspectiva dos Kaiowá, sem cantar e dançar é impossível afastar qualquer doença que seja e os usos terapêuticos das rezas são muito difundidos.

            Foi por isso que tivemos a ideia de entrevistar as rezadoras e os rezadores da família de Clara sobre algumas dessas rezas, como é o caso do jehovasa – uma série palavras e movimentos corporais feita em diferentes situações pelos Kaiowá, inclusive ao final do jerosy puku, antes do consumo do milho saboró. Clara registrou e conversou sobre a prática com sua tia Neca Barbosa:

Essa reza é da minha tia Neca; ela quem fez esse jehovasa para mim – comentou a Clara, antes de mostrar o som da reza e emendar uma explicação sobre ela.

Então, esse jehovasa é a nossa proteção diária. Na aldeia, por onde a gente vai. Quando a gente vai para a cidade, a gente faz esse jehovasa, a gente canta essa reza e aí é que vamos. Sem perigo de a gente voltar com a doença, porque a gente já tem proteção. E toda vez quando a gente sente alguma coisa assim, ameaça de coisas invisíveis, essa reza protege você. Então eu também falei com ela: que proteção que a gente tem para a gente ir sem medo na cidade, no meio das pessoas desconhecidas? Então ela me falou que essa reza, realmente, é a nossa proteção diária. Eu posso usar em qualquer momento; dia a dia, à noite, de dia, não importa o lugar. Essa reza é para uso diário. Então, assim que ela contou. Então a nossa proteção é através dessa reza.

            Tatiane ficou com a tarefa de telefonar para o senhor Jairo Barbosa, também conhecido como Luis Anguja, e perguntar por que era importante batizar o milho para proteger as pessoas das doenças. Depois de conversarmos um pouco sobre a pesquisa que estávamos fazendo, ele deu algumas explicações sobre o papel do jerosy puku e do áry rovai, outra reza fundamental para os Kaiowá, na prevenção da COVID-19. É com as palavras desse opuraheiva, cantador, que finalizamos esse texto:

Então eu já vou falando um pouco. É o seguinte. Meu nome é Jairo Barbosa, eu sou apresentador dos cânticos, da cultura indígena. O jerosy puku significa assim: jerosy puku é mais importante, porque onde tem o jerosy puku não existe aquela doença perigosa, que atinge a pessoa, mais terrível. Então o jerosy puku, vamos dizer, a maioria é para o milho. É o batismo de milho. E esse jerosy puku pertence à saúde também, para todas as partes do Brasil inteiro, não é só dentro de um local só, não.[...] Sempre a gente tem cada ano, cada ano, para a gente ter a defesa sobre todas as doenças que vierem, ele não vai... Podem existir sim [doenças] dentro daquele local onde tem jerosy puku, mas não é tanto, do jeito que está acontecendo, surgindo essa pandemia, esse tal de corona. Eu ouvi falar. Mas isso aí, o corona que veio, a doença, já vem pelo ar.

Mas se fizer jerosy puku, onde tem jerosy puku, na aldeia, não existe a doença. Justamente, já é para a defesa de todos. É totalmente para a saúde: para criança, para as sementes, para a gente mesmo. Dentro dos espíritos não vai existir a doença perigosa. É mais importante, é por isso que sempre, a cada ano, tem o jerosy puku: para evitar! Para evitar todo o risco que vier para a saúde. É isso que dentro da aldeia existe ainda. Então tem outro detalhe que eu quero passar também: não é só jerosy puku que evita não! Nós fazemos jerosy puku, nós fazemos mbojegua na nossa residência, nosso distrito – e, depois, os indígenas mais idosos, que o povo ouve falar pajé, que fala, então, eles fazem áry rovai, que é uma coisa bem pior do que jerosy puku. Jerosy puku que é mínimo. Então o áry rovai é bem mais importante do que o jerosy puku. Então é por isso que eu vou falar, agora que você me perguntou, já falo isso aí: é o áry rovai que é o nosso protetor de reza, nosso. Nossa vacina, vamos falar assim.

Então, [...] essa pandemia, que na fala do português fala pandemia, mas nós falamos mba’asy, então nós falamos mba’e rasy. Essa pandemia que falam é muito invisível, porque ela não é doença que vem sozinha não, ela vem e já vem o elemento mesmo que faz espalhar essa doença. Então somente áry rovai e jerosy puku. Álcool em gel? Somente é provisório. A máscara também é provisória. Não tem fé não... porque tem fé somente no áry rovai e o jerosy puku, onde que ombojegua amba. Aí é real! Esse é o verdadeiro!

Revisada e editorada por Daniela Perutti
Este texto é uma adaptação do roteiro e das transcrições da nota de pesquisa em áudio; agradecemos a colaboração da pesquisadora Karina Manzano.

 

Como citar: Almeida, Clara e Klein, Tatiane. 2021. “Nossa proteção é através dessa reza”: os cantos-rezas que fortalecem os Kaiowá contra a COVID-19. Plataforma de Antropologia e Respostas Indígenas à COVID-19 - PARI-c, vol. 1, n. 4, abr. 2021. Disponível em www.pari-c.org. Acesso em dd/mm/aaaa.