Sonhos, cinzas, cantos e outros cuidados no parto

por Pará Yry (Lurdes Benites Carlota), Valéria Macedo, Amanda Signori, Ataide Vilharve
30 Junho 2021
Nota de Pesquisa

 
     Esta nota busca contribuir com o estudo de caso da PARI-c “Parto e cuidado durante a pandemia”, reunindo nossos aprendizados com Pará Yry, ou, para os jurua (não indígenas), Lurdes Benites Carlota. Guarani Mbya nascida em uma aldeia em Chapecó (SC), ela passou sua infância na Ilha da Cotinga, em Paranaguá (PR) e, aos nove anos, veio com sua família para a Serra do Mar. Até os 18 anos, viveu na aldeia de Sapukai, no bairro do Brakui, em Angra dos Reis (RJ). Quando estava grávida de seu primeiro filho, mudou-se para a aldeia do Rio Silveira (SP), em Boracéia, onde Valéria a conheceu anos depois. As palavras reunidas a seguir são uma edição da conversa que Pará e Valéria tiveram no dia 15 de maio de 2021, pela câmera do celular. Pará compartilhou experiências de seu nascimento e de seus filhos, cuidados e conhecimentos das xejaryi [as avós, ou mais velhas conhecedoras], além de uma ponderação sobre a COVID-19.

Cuidados e palavras de Pará Yry – Lurdes Benites Carlota

Eu nasci lá no Chapecó, lá em Santa Catarina. A minha mãe fala que meu pai estava fora da aldeia, trabalhando no sítio de um jurua. Ele foi trabalhar, ficou uma semana, e minha mãe estava grávida. Minha tia não morava perto, mas chegou à tarde e minha mãe falou para ela: “eu quero que você fique pelo menos uma noite aqui”. Minha tia fez reza e depois falou assim: “Acho que dessa noite não vai passar, essa noite vai nascer”. Minha mãe já estava sentindo dor do parto desde cedo. Minha tia colocou a mão, rezando, e eu nasci nove horas da noite.

Isso já faz 40 anos. Hoje tenho sete filhos, o mais velho tem 20 anos e o mais novinho tem sete. São três meninas e quatro meninos. Eu tinha 18 anos quando tive o primeiro. Três crianças nasceram aqui na aldeia e quatro no hospital. Mas é mais difícil ganhar neném na cidade. O primeiro eu ganhei na cidade, o segundo eu ganhei aqui na aldeia. Quando as xejaryi kuery estão com a gente, rezando, é bem diferente. Elas respeitam. Mas lá na cidade não respeitam, colocam a mão, ou o dedo lá no fundo. Mesmo assim, a maioria das moças hoje tem filhos no hospital. Mas desde a chegada dessa doença do Covid já teve bastante criança que nasceu na aldeia.

Meu primeiro parto na aldeia quem fez foi a xejaryi Rosa. Ela não é minha parente de sangue, mas a respeito muito, então fui lá procurar por ela. Desde os quatro meses de gestação, ela já começou a rezar; fazia conversa com a criança. Depois, no outro parto, ela não estava na aldeia e então eu chamei Kunhã Tata, minha sogra. Desde que começou a gravidez, minha sogra já falou para não usar colar, pulseira... artesanato desse tipo ela não deixava mais fazer nem usar até os quatro meses de gravidez. Ela falava que podia enrolar e machucar o bebê na barriga ou demorar mais para nascer. Mas ela dizia que eu devia trabalhar, não podia ficar sentada: “tem que levantar, fazer alguma coisa, tem que plantar, tem que fazer isso…”. Se no começo da gravidez você fica lá deitada, com muita preguiça, a criança vai ficar com preguiça para sair, então vai demorar muito para nascer, tudo isso a xejaryi fala.

Quando eu estava grávida do meu primeiro filho, eu estava com medo, estava preocupada, tive até pesadelo. Em um sonho eu estava muito ruim, com uns quatro meses e com dor do parto, aí um médico falou assim: “Ah, esse menino não vai nascer, ele está morrendo aí dentro…”. Eu levei um susto mesmo quando acordei e contei para a xejaryi. Mas ela falou que não, “não é verdade o que você sonhou, é que quando tem muito medo você sonha muito forte”. Ela falou assim: “tem que conversar com a criança também, pra ela nascer bem de saúde”. Então a xejaryi fez reza, e me ensinou a conversar com a criança também. Eu aprendi muito com xejaryi. E também com minha mãe, que fez meu outro parto, lá na aldeia do Brakui.

Depois que tive meu primeiro filho no hospital, tive outro sonho. Quando ele acabou de nascer eram sete horas da manhã, deram banho em mim, aí eu dormi. Dali a pouco sonhei que Kunhã Tata trouxe a criança na minha mão e falou: “Pará, esse é o seu filho, o nome dele vai ser Karai, ele vai dar mbaraete [força] pra você”. Depois xeramõi Wera Mirim confirmou, lá na aldeia Brakui: era Karai Mirim. Desde novinho ele tem dois nomes, um Guarani, Karai Mirim, e outro Tupi, que é Jeguaka Mirim. Só que na língua Tupi esse Jeguaka é Karai também. Um quem batizou foi o xeramõi Wera Mirim [líder espiritual Guarani Mbya no Brakuí] e outro foi xeramõi Jejoko [líder espiritual Tupi-Nhandewa no Rio Silveira].

No primeiro ano de vida, esse meu primeiro filho ficou muito doente, bem magrinho, bem magrinho. Quando ele tinha nove meses de idade, eu sonhei que estava grávida, e eu nem esperava ainda. Uma xejaryi que eu não conhecia falou: “Pará, eu vim avisar que você está esperando uma criança, e essa criança está vindo pra dar mbaraete para o seu filho mais velho e para você”. Eu estava grávida mesmo.

Meu filho ficou doente porque a gente, mulher, quando tem um problema no nosso casamento, a gente passa para a criança. Passa, passa. Qualquer briga pode atrapalhar muito, muito. O pai e a mãe da criança, na gravidez, não podem ficar muito bravos, não pode muito ciúme. Se você está grávida e um espírito mal quer pegar o espírito da criança, isso pode acontecer, a gente vê. Aí, quando a criança nasce, fica doente, em vez de ficar com saúde, fica doente. Algumas vezes, morre… tudo isso acontece. Mas namorar com o marido pode. Para nós é bom, para a criança também, até os oito meses. Depois de nascida a criança, quando completar quatro meses, já pode namorar de novo.

Minha mãe e minha avó já tinham preparação para o parto desde os 11, 12 anos. Os Guarani mais antigos fazem remédio para preparar a moça para não sentir dor no parto, desde os 11 anos eles dão chá para isso. Então quando é para nascer o filho, não precisava tomar chá nem nada, quando vem doendo para nascer, já sai logo. Antigamente também se preparava o menino desde cedo, para ele saber qual remédio dar para a sua mulher quando fosse ter dor de parto.

O parto na cultura guarani é sentado. Mas algumas vezes, a gente se deita, a gente não aguenta ficar sentada esperando também. Pode ser dos dois jeitos. A parteira faz assim: coloca a mão na barriga, conversa com a criança e conversa com o anjinho (nhe’e) da criança, e com Nhanderu também conversa. Daqui a pouco, nasce. Tem algumas que falam que a criança está com preguiça, então tem que mexer um pouquinho na barriga, para virar…

Pode fazer reza, tarova, só três pessoas só, ou só a parteira. Quando é um parto difícil, chama também xeramõiMarido também pode ajudar. A reza é pra Tupã, pra Jakaira, para todo mundo, pedindo proteção para a mulher que está na dor do parto, e para a criança também. Para dar mbaraete para a mãe e para a criança. Petyngua, petyn, é sagrado também na hora do parto. Essa fumaça que não vai deixar chegar espírito mal. Então sempre xejaryi pita, reza. Ou alguém pita, porque pode até ter mais parteiras para ajudar.

A melhor coisa é ganhar filho na aldeia, porque as xejaryi têm sabedoria. Quando eu ganhei lá no Brakui, a minha mãe e outra que é parteira também, elas cuidavam do sangue, porque não pode nem um pouquinho ficar com sangue na casa. Aí coloca cinzas, sai um pouquinho sangue e então coloca cinzas no chão, vai esparramando tudo as cinzas. É proteção para a criança e para a mãe também. Sangue para nós é muito sagrado, não pode cair pingando, deixando, jogando fora. A gente também coloca cinzas na roupa com sangue e deixa na água parada, não lava com água corrente.

Quando a criança nasce, não pode cortar o cordão com faca, corta com um pedacinho de bambu. Corta o bambu, limpa direitinho e depois corta o cordão. A parteira que corta, depois pega cinza de tata [fogo] e coloca no buraquinho do umbigo. Para a placenta, pega também cinza de tata, faz reza e enterra no quintal. Não pode jogar no lixo, tem que enterrar. Se joga no lixo, como fazem no hospital, vai vir doença para a criança porque o espírito vai ficar triste. A xejaryi sempre fala assim.

Depois do nascimento, os mais velhos pegam um pedacinho de pano, aí faz tipo trouxinha, coloca um pedaço do umbigo junto e amarra para pendurar no pescoço como colar. Bota na criança para não pegar doença. Ela carrega essa proteção até os quatro anos de idade. 

A parteira dá banho, coloca a roupinha e conversa com a criança: “agora você vai ficar com a sua mãe”. Aí entrega para a mãe e dá conselho: “Pará, você não pode ficar muito brava, não pode ficar muito com preguiça, não pode dormir muito…”. O pai também não pode ficar bravo, não pode dormir muito e não pode caçar até os dois meses porque o espírito do bicho vai mexer com a criança e com ele.

Depois, vem a comida: “Pará, você não pode comer carne, não pode comer salgado, não pode comer doce…”. A melhor comida para a mãe é canjica e sopa de fubá. Só esse que podia antigamente. E pode comer arroz, mas sem óleo nem sal. Feijão, carne, esse tipo nem pensar. Precisa aguentar para não comer vários tipos de carne, não comer manteiga, leite, mortadela, queijo, tem que tirar tudo. Pelo menos um mês, dois meses. 

Essa proteção não é para a criança, é para a mãe. Por isso que agora tem muita doença de pressão alta, esse tipo não existia antigamente, quando tudo tinha regra. Mas agora a gente ganha no hospital, fica morrendo de fome, come carne. Com tudo isso, agora vem doença. Dá dor de cabeça, tontura, até veio doença de diabetes, esse tipo, vem tudo. 

A gente, mulher, quando a criança acabou de nascer, não pode ficar lavando louça, lavando roupa, até um mês, dois meses. Não pode colocar sua mão em água gelada, tem que tomar banho com água morna até dois meses. Mas uma vez eu estava muito preocupada com a criança, então fui ao mercado mesmo na chuva, quando eu voltei, já passei mal. A criança tinha só quinze dias. Senti muito frio no pé, na perna, tudo. Xejaryi fala que foi doença que aconteceu de eu andar na chuva. 

Para a gente, indígena Guarani, a sabedoria dos xeramõi vai vindo para as mulheres também, vem lá de cima mesmo. O xeramõi no Brakuí falava sempre assim: “respeita a mulher, respeita muito, porque Nhanderu ama as mulheres mais que os homens”. Sempre foi assim, porque antes era só homem só que existia, depois foi que Nhanderu criou mulher. Mas mulher não quis se levantar, levou três dias pra se levantar na Terra. Então a gente tem muita força espiritual, mas a gente pensa que é fraca. Não! Reza pra Nhanderu que vai dar tudo certo. É de lá de cima mesmo que eu conheço tudo, eu sonho, Nhanderu me dá força, me dá sabedoria, sozinha. Só as ervas que eu conheci com a minha vó e com a minha mãe. Elas que foram me ensinando, mas não é qualquer uma que aprende, vem de lá de cima. 

Sobre essa doença de covid, eu tomei a vacina. Teve gente que ficou com medo de tomar, mas eu não. A gente não pegou muito porque Guarani não tem costume de abraçar, beijar, já para proteger de doença mesmo. A gente olha, fala bom dia, se senta, conversa, brinca, mas não é de perto. Desde criança, aprendemos a ficar longe. No Silveira teve só uma pessoa que foi para o hospital por causa da doença, deve ter 70 anos, ficou cinco dias e recuperou. Essa doença afeta mais jurua, mas pode afetar todo mundo, só não vai afetar as crianças. A doença veio para a gente acreditar mais em Nhanderu. No conhecimento dos Guarani, se vem doença, se vem do ar, então vem para fortalecer, para nós é uma provação, tekoa’ã.

Transcrição do depoimento:  Camila Aparecida Gomes Padilha

Revisada e editorada por Daniela Perutti

 

Como citar: Pará Yry, Lurdes Benites Carlota; Macedo, Valéria; Signori, Amanda; Vilharve, Ataide. Sonhos, cinzas, cantos e outros cuidados no parto. Plataforma de Antropologia e Respostas Indígenas à COVID-19, vol. 1, n. 5, jun. 2021. Disponível em www.pari-c.org. Acesso em dd/mm/aaaa.