O que passou, ou o que ainda é? As muitas “sequelas” da COVID-19 entre povos indígenas no Brasil

por Aline Regitano, Welitânia Oliveira, Gicele Sucupira, Arthemiza Puruborá, Sheila Apinajé, Elivar Karitiana, Amanda Horta
30 Junho 2021
Nota de Pesquisa


Para mim, o meu cabelo sempre foi a minha maior vaidade. Eu sempre gostei muito dele. É bem cacheadinho, mas solto e com várias tonalidades. É mais escuro, fica marrom, vermelho e depois loiro. Nunca quis alisar. Teve essa onda de cabelo alisado, chapado. Sempre recebi muitas críticas por causa do meu cabelo. Todo mundo queria que eu alisasse, mas eu não. O cabelo é meu. Eu faço o que eu quiser. Uso como eu quiser. Eu tinha o maior orgulho do meu cabelo. Quando criança eu apanhava porque eu tinha cabelo ruim. Eu chorava porque eu não podia cuidar do meu cabelo e minha mãe cortava bem curtinho. Hoje, ver o meu cabelo bem curtinho de novo é difícil, me lembra muito a minha infância que foi difícil e complicada. Parecia que eu estava perdendo tudo quando eu passava a mão e via meu cabelo caindo. Foi assustador. O meu cabelo é a minha história.
(Eline, 2021)

      O cabelo curtinho de que fala Eline Evangelista Moreira, liderança da etnia Puruborá, residente na cidade de Guajará-Mirim (RO), é uma dentre muitas das decorrências, visíveis no corpo ou não, da COVID-19. São vozes como a de Eline que buscamos trazer neste texto para compreender as implicações da doença nos corpos e nas vidas de sujeitos e grupos indígenas, destacando sua temporalidade. Para isso, acompanhamos pessoas apinajé, karitiana, mehinako e puruborá. Escrever esse texto nos apresentou um desafio à parte no fazer pesquisa digital em tempos de pandemia, porque muitas das nossas interlocutoras e interlocutores que têm muito a dizer sobre o tema, não estão bem. Precisamos seguir o ritmo de nossas colaboradoras, respeitar suas dores e dificuldades, bem como acompanhar suas melhoras. O termo “sequela”, frequentemente mobilizado por profissionais da saúde como uma espécie de cicatriz de um evento individual que já está no passado, chega até nós, nas reuniões e conversas com pesquisadoras e interlocutoras indígenas, como uma referência às marcas das mudanças que afetam as comunidades como um todo no presente e que, portanto, ainda está em seus corpos. A experiência da pandemia não impactou apenas os doentes e, por isso, as “sequelas” não são exclusividade dos que se contaminaram. Falamos “sequelas” entre aspas porque não queremos tomar o termo como dado, mas sim explorar seu rendimento, chamar atenção para seus múltiplos sentidos, em uma reflexão sobre a temporalidade da COVID-19.

      Em que se baseiam o governo federal e as agências locais de saúde indígena ao definirem uma pessoa como “recuperada” e incluí-la nos dados estatísticos oficiais propagandeados? Trazemos histórias de pessoas que nunca chegaram a se recuperar totalmente e que vivem os sintomas da COVID-19, em seus corpos e suas vidas, de modo prolongado. As informações sobre a doença, disponíveis na televisão e nas redes sociais, pouco dizem sobre os sintomas a longo prazo, sobre as feridas que a contaminação abre. É de conhecimento geral que a COVID-19 compromete sobretudo rins e pulmões. De fato, as queixas de falta de ar, de dificuldade para falar e realizar atividades por causa de cansaço excessivo são frequentes nos discursos de pessoas acometidas pela doença. Ainda assim, existem consequências físicas menos divulgadas, mas presentes nas falas de nossas interlocutoras, que vão desde a perda progressiva do cabelo, problemas na visão, até a perda da memória.

      Em nossas reuniões virtuais, pesquisadoras e pesquisadores indígenas frequentemente relatam as consequências físicas da doença (a falta de ar, o cansaço, o esquecimento) em continuidade com os efeitos sociais, “emocionais”, como conta Eline, ou “psicológicos” como afirma Sheila Apinajé, pesquisadora PARI-c. É difícil dissociar o que é “físico”, “social”, “emocional” e “psicológico”, pois ainda que essas classificações apareçam nos discursos indígenas, muitas vezes encontram-se imbricadas, como sendo uma coisa só.

      Como nos mostra Eline com o trecho que abre a nota, a perda do cabelo não é apenas um dano físico. Seus cabelos representam sua história. São raízes, são memórias materializadas. Os cabelos curtos da infância voltam a ser curtos depois de, por muito tempo, serem volumosos. Quando infectada, recuperando-se da doença, acompanhou de perto o estado crítico do companheiro de vida e luta, Orowao Parandran Canoé Urumbone, que faleceu após um período internado no Centro de Terapia Intensiva (CTI) por COVID-19. “Quando eu vi meu esposo lutando pela vida na UTI, acho que o emocional abalou muito e eles [os meus cabelos] começaram a cair muito. Eu encaro a viuvez como sequela do covid. Eu tinha muita força… Eu estava sempre no pique, a todo vapor. Depois da COVID-19, eu não tenho mais essa energia. Fico cansada muito fácil.”


Fotos enviadas por Eline para retratar as “sequelas” da COVID-19.

      As “sequelas” físicas e as “sequelas emocionais”, como formulou Eline nessa mesma conversa, se misturam. Durante os 40 dias de internação, Eline viu muitos parentes indígenas serem internados no Hospital de Guajará-Mirim (RO) por conta da doença. Um deles foi o seu tio Eliezer, de quem era muito próxima e com quem aprendia sobre o seu povo Puruborá. Na tarde em que Eline teve alta, o tio faleceu na ambulância a caminho de Porto Velho, já que a cidade não tem leitos de tratamento intensivo. Junto da perda dos cabelos, do companheiro, do tio, da força física e do vigor que tinha, nos tempos precedentes à pandemia, ela teve que aprender a viver a viuvez e a solidão, as quais nomeia de “sequelas da COVID-19”.

      Elivar Karitiana, pesquisador da PARI-c e um dos autores desta nota, nos contou em reunião sobre as “sequelas” de seu tio: “não é mais a mesma pessoa”, disse ele. Ouvimos a mesma expressão de outros Karitiana que contraíram a COVID-19 há mais de um ano. Não podem caçar, correr atrás da caça, pescar, roçar, não podem andar para muito longe e viver como antes. Não podem mais fazer esforço como estavam habituados. A fraqueza e o cansaço são “sequelas” comuns a vários povos indígenas em Rondônia, tais como os Karitiana, os Puruborá, os Paiter-Suruí, os Tupari e os Aikanã.

      Jeferson Tupari, morador da aldeia Ricardo Franco em Guajará-Mirim, onde vivem indígenas de mais de 12 etnias diferentes, conta que em sua aldeia muitos anciãos “reclamam de fraqueza nas vistas, porque as coisas de longe já não quase vê”. Ainda no estado de Rondônia, na Terra Indígena (TI) Karipuna, um ancião karipuna de 78 anos também vive as duras “sequelas” da doença. Antes da COVID-19 ele estava bem, andava e cumprimentava as pessoas que se aproximavam. Poucos meses após ter feito o tratamento da doença e retornado à aldeia, sua aparência mudou, os olhos ficaram cobertos por uma pele branca. Ele também “não é mais a mesma pessoa”, como dizem ele e seus parentes. Ele fica de olhos abertos, mas não enxerga ninguém e precisa da ajuda da esposa, também idosa, para se locomover e fazer atividades que antes fazia sozinho e sem dificuldades. Cego dos dois olhos, o ancião atualmente usa uma cadeira de rodas.

      Nas falas das alto-xinguanas que habitam a porção sul do Território Indígena do Xingu (TIX), no estado de Mato Grosso, é possível identificar a face social das decorrências da COVID-19. Para muitas e muitos, a doença provocou a necessidade de reaprender tudo, até as funções mais básicas como andar, comer, falar, recordar. A chegada da COVID-19 em solos alto-xinguanos aconteceu em junho de 2020, logo se disseminou por muitas aldeias e não tardou a fazer vítimas. A primeira delas, um bebê. Com o luto pelas mortes, veio o distanciamento das roças, dos rios e do pátio central. O luto requer um resguardo que traz demandas específicas para esses povos.

      As “sequelas”, portanto, também distanciam as pessoas do trabalho. Diante de tantos relatos sobre o assunto, perguntamos: como se define que alguém está recuperado da doença? O resultado negativo do teste sorológico, indicando a inatividade do vírus, é suficiente para isso? Para pessoas xinguanas (assim como para grande parte dos povos indígenas no Brasil), corpos saudáveis e ativos são feitos com grande empenho. Há uma relação direta entre passividade e vulnerabilidade, de modo que corpos em repouso demasiado ou são corpos doentes, ou resguardados em função de eventos como puberdade e parto. Para esses povos, um corpo não é saudável se sofre de dores constantes, se não pode caminhar ou trabalhar sem se cansar rapidamente, bem como se o gosto ou o cheiro estão ausentes dos sentidos. Nos deparamos, assim, com entendimentos diversos do que é um “recuperado(a)”, do que é um ser saudável e da noção temporal desta doença. Quando ela termina, senão com a morte?

      Uma querida amiga mehinako e colega de pesquisa da PARI-c, grande pajé, ceramista e liderança das mulheres contou-nos como a COVID-19 afetava seu cotidiano. Já não podia mais fazer cerâmica sentada no quintal, tampouco ficar muito tempo de pé, pois, segundo ela, “ele” (o “vírus”) não gostava e, quando contrariado, causava dor de cabeça, enjoo, tontura. Uma vontade própria que se manifesta, pois é no corpo que esse princípio patogênico habita. Não tivemos a chance de conversar a fundo sobre a materialidade dessa doença, não houve tempo para isso. Iamony se foi em uma terça-feira de outono, no Brasil, depois de lutar bravamente contra uma reinfecção por COVID-19. Ela foi uma das duas pessoas que o povo mehinako perdeu para a doença em menos de um mês, em consequência de uma nova onda que encontrou as comunidades ainda muito fragilizadas por conta do primeiro período crítico de infecção generalizada.

      As “sequelas”, as decorrências daquilo que foi e que ainda é, são inúmeras. Para um povo cuja alimentação de base depende de sua força de trabalho nos rios e nas roças, a COVID-19 é cruel porque impacta a soberania alimentar que sempre – ou quase sempre – vivenciaram. Ela pesa o corpo, dificulta o respirar, afeta o paladar. Essa situação de vulnerabilidade alimentar é uma realidade não só dos Mehinako e dos Karitiana, como de muitos povos indígenas no Brasil que têm que enfrentar, além da doença, a fome.

      As “sequelas” ou as consequências da COVID-19 são expressivas desde o início da pandemia também entre os Apinajé, povo que habita a região norte do estado do Tocantins, na microrregião conhecida como Bico do Papagaio. As barreiras sanitárias organizadas pelos Apinajé, principal estratégia adotada para conter a infecção causada pelo vírus, permitiram que, durante o ano de 2020, não tivessem registros de infecção. Em janeiro de 2021 foram registrados os primeiros casos. A história das barreiras sanitárias será contada, em detalhe, no Estudo de Caso 04 - Luta, vida e pandemia na terra Apinajé (Equipe Brasil Central e Amazônia Meridional). Por ora, cabe destacar que, mesmo com baixos índices de contaminação, os pesquisadores indígenas e seus parentes têm relatado que adoecer por COVID-19 não é condição para sentir as “sequelas”, uma vez que a pandemia trouxe, e traz ainda, consequências para todos, infectados ou não.

      Sheila Apinajé, pesquisadora PARI-c e uma das autoras desta nota, realizou conversas e entrevistas em sua aldeia (Botica), sobre as “sequelas” do novo coronavírus. 

Mas realmente, a pandemia está causando muito problema, não só a doença em si, atinge muito o lado psicológico das pessoas, o medo, a angústia. O medo de ficar doente, o medo de perder um amigo. Todo dia a gente escuta uma notícia nova, e o resultado a gente não pode nem avaliar porque cada um tem o seu, a sua opinião sobre essa questão. E é difícil porque a gente não pode se reunir para conversar. Eu estou aqui no Cocalinho [aldeia] e a maioria das lideranças estão na região de São José, Mariazinha, e fica difícil para a gente. [...] O prefeito no final do ano passado falou que não ia mais apoiar as barreiras, porque os Apinajé tinham perdido o medo da doença. Essa é a avaliação do prefeito, é conversa do prefeito. Mas o que eu escuto é que o povo tem medo, que o povo, e principalmente os mais idosos, tem essa preocupação mesmo. Medo de ficar doente, e isso gera um impacto também no modo de pensar, de agir. (Antônio Veríssimo, 2021)

     Em nossas reuniões, Sheila sempre se refere ao medo como uma “sequela” da COVID-19. Como destacou Antônio Veríssimo, liderança apinajé e ativista dos direitos ambientais, o medo traz também uma série de efeitos, que infletem os pensamentos e as ações apinajé. As “sequelas” se desdobram no tempo, gerando outras “sequelas”. De fato, como conta Sheila, que é também técnica de enfermagem, o medo é uma queixa diária nos atendimentos do Polo-Base de saúde indígena. É o medo de contrair a doença, é o medo de perder um parente, é o medo provocado pela incerteza, como acompanhamos na fala de Antônio Veríssimo.

      Além do medo, a pandemia afetou a comunicação entre parentes, já que circular entre as aldeias e se reunir pessoalmente para conversar é prática constitutiva do fazer política local. Afetou também as crianças, uma vez que as aulas nas aldeias apinajé foram todas suspensas. Sem compreender o motivo de estarem por tanto tempo afastadas da escola, as crianças ficaram inquietas, manifestando “sequelas psicológicas”, conta Sheila.

      Cada um desses relatos, fragmentos de conversas e entrevistas, trazem à tona o fato de que, desde a perspectiva indígena, as “sequelas” da COVID-19 extrapolam, por um lado, aquilo que as agências de saúde divulgam como efeito da doença; por outro, os sentidos da definição biomédica do termo. “Sequelas”, nas palavras dos pesquisadores e interlocutores indígenas que produziram e colaboraram com essa nota, são os muitos efeitos negativos que acometem os corpos daqueles que adoeceram por COVID-19, mas também os de seus parentes, como vimos no relato de Eline, da etnia Puruborá, sobre suas “sequelas de viuvez”. As “sequelas” também se desdobram gerando, elas mesmas, novos efeitos, como no caso do resguardo pelo luto entre os alto-xinguanos, que distancia as pessoas do trabalho. Como nos contou em outra conversa Antônio Veríssimo, o ancião apinajé, a ausência dos encontros e atividades rotineiras “entristece a alma do povo e intensifica o medo”. A tristeza e o medo afetam, hoje, adultos e crianças apinajé, mesmo que poucos deles tenham contraído a doença. Tais relatos e experiências indígenas ensinam sobre a multiplicidade das “sequelas” trazidas pelo novo coronavírus, que se perpetuam no tempo e nos corpos daqueles que viveram, das mais distintas maneiras, a pandemia de COVID-19.   

Revisada e editorada por Daniela Perutti

 

Como citar: Regitano, Aline; Oliveira, Welitânia; Sucupira, Gicele; Puruborá, Arthemiza; Apinajé, Sheila; Karitiana, Elivar; Horta, Amanda. O que passou, ou o que ainda é? As muitas “sequelas” da COVID-19 entre povos indígenas no Brasil. Plataforma de Antropologia e Respostas Indígenas à COVID-19, vol. 1, n. 5, jun. 2021. Disponível em www.pari-c.org. Acesso em dd/mm/aaaa.