Reflexões guarani acerca da COVID-19: tecnologias de cuidados tradicionais e vacinação nas tekoha

por Sandra Benites, Paulina Martines, Geni Nuñez, Renan Pinna
30 Junho 2021
Nota de Pesquisa

 
    Esta nota toma como base narrativas de interlocutores indígenas situados nas tekoha guarani no sul do Brasil. O intuito é o de entender, a partir de suas perspectivas, o atual momento de atenção ao crescimento de contágios por COVID-19 e do processo de vacinação, iniciado em janeiro de 2021. Destacamos que tais narrativas estão em constante atualização, seja porque os entendimentos guarani vão mudando e não são unívocos, seja porque o contexto da pandemia se altera. Ao abordarmos um tema delicado e complexo como o da vacinação e da escolha de alguns por não se vacinar, ressaltamos que as reflexões guarani que embasam o texto não devem ser confundidas com o movimento antivacina que circula entre setores conservadores brasileiros. Embora também afetadas por notícias falsas que desacreditam o conhecimento científico, as narrativas de nossos interlocutores guarani se situam principalmente sobre bases cosmológicas indígenas e de um intrincado mundo de experiências de genocídio e etnocídio.

A origem do vírus

      As epidemias não são novidade para os povos indígenas. Em algumas conversas com nossos interlocutores guarani, nos foi contado que o contexto atual serviu aos idosos para rememorar as experiências epidêmicas passadas vividas pelos chamõi e chary'i (anciões e anciãs) e que continuam vivas na memória, sendo a mais comum a epidemia de sarampo que atingiu várias comunidades guarani décadas passadas. Tais experiências também mobilizam saberes tradicionais de como lidar com tais contextos em que a saúde se vê ameaçada. De todo modo, o novo coronavírus é visto como um produto da relação com o mundo dos brancos e uma consequência direta de sua forma destrutiva de viver, a qual se evidencia principalmente na destruição das florestas, segundo falas dos chamõi e chary'i. Tal reflexão recai na identificação desse vírus como "uma doença dos brancos", e por isso atingiria principalmente os não indígenas. Tal afirmação nos leva à categorização de doenças nas perspectivas dos Guarani Mbya proposta por Carolina Remorini: 1) doenças leves/doenças graves; 2) doenças do corpo/doenças do espírito; 3) doenças de “dentro do corpo” (vísceras)/doenças externas; 4) doenças que se curam com plantas medicinais/doenças que se curam com tabaco e orações; 5) doenças próprias dos Mbyá/doenças dos juruá (brancos). Nesse caso, o vírus estaria dentro do escopo de doenças dos juruá, o que não significa que não atinja os Guarani também. Ao discutir sobre o contexto da pandemia no mundo, os Guarani não reagem com surpresa; ao contrário, afirmam que o que está acontecendo já era previsto por seus chamõi e chary'i, os quais alertavam quanto ao futuro colapso da terra com a propagação de doenças contagiosas que se alastraram e tornaram a fertilidade da vida cada vez mais ameaçada.

      Para o povo Guarani, as doenças existentes no mundo, independentemente de serem provocadas pelos juruá ou pelos próprios Guarani, são advindas do vento, trazidas pelos jará kuery, os espíritos que são donos dos domínios terrestres, e que portam as doenças maléficas e as espalham pelo vento como resposta às ações que consideram desrespeitosas, no caso dos Guarani, ou destrutivas, no caso dos brancos. A terra em que vivemos já sofreu muitas modificações pela ação destrutiva dos brancos, desmatamento das florestas, desvio de rios para a construção de hidrelétricas, extração de minerais do solo, caça desenfreada de animais, além de uso do solo da terra sem descanso com a manipulação de agrotóxicos e venenos que contaminam os rios e o solo da terra, sendo a causa de muitas das doenças.

     Desse modo, doenças que se espalham rapidamente como a COVID-19 poderiam ser evitadas com a manutenção das florestas, que servem como barreiras. Já em uma paisagem dominada pela monocultura, os ventos são bem mais abundantes, proliferando doenças emitidas pela ação dos jará kuery e as que surgem da emissão de agrotóxicos.

A alteração do cotidiano nas aldeias

      No momento em que o vírus se espalhou pelo território brasileiro e ameaçou as comunidades indígenas, muitas entraram em isolamento espontâneo, principalmente as que estão próximas ou mesmo dentro das cidades. Mas o isolamento não aconteceu somente da aldeia em relação à cidade. Muitas famílias guarani passaram a se distanciar umas das outras e a se fechar dentro dos seus espaços domésticos, como foi possível notar em algumas comunidades. Com isso, as rezas que aconteciam todas as noites na casa de reza (opy) passaram a ser realizadas dentro de casa. Entretanto, as casas guarani não são espaços domésticos limitados à família nuclear tal como as não indígenas, podendo abrigar núcleos familiares extensos, o que torna a concepção guarani de isolamento distinta da juruá.

      Ao realizarem o distanciamento sob orientação dos juruá, deixaram de ir cotidianamente à casa de reza, o que os fez se sentirem mais vulneráveis. O mesmo afastamento que se deu nas práticas religiosas se deu nos trabalhos comunitários nas roças, com os mutirões reduzidos a grupos menores. No entanto, isso não prejudicou os plantios e, ao estarem mais voltados para a aldeia, o que se viu foi que as roças se tornaram ainda mais abundantes nas comunidades que têm uma boa quantidade de terra disponível.

     Para fortalecerem seus corpos, muitas comunidades avá-guarani no oeste do Paraná também estabeleceram barreiras sanitárias que impunham higienização e cuidados para evitar o contágio nas aldeias. Por isso, dizem que, enquanto muitos não indígenas estavam morrendo nas cidades, em algumas tekoha foi possível retardar a entrada do vírus em até quatro meses em relação à sua presença nas cidades mais próximas, caso das tekoha localizadas no oeste do Paraná e no litoral de Santa Catarina. Tais iniciativas são ditas com orgulho pelos indígenas, que indicam terem conseguido se articular de modo autônomo nas comunidades. Desse modo, os Guarani fazem questão de frisar que as rezas, os cantos, os plantios, os remédios do mato e os aconselhamentos dos chamõi e chary'i podem ser compreendidos como tecnologias indígenas de cuidado que, apesar de não servirem à imunização, são ferramentas importantes frente à propagação do vírus nas aldeias.

A vacinação como questão 

      Devido ao passado colonizador e ao trauma colonial postulado por Frantz Fanon em Pele Negra, Máscaras Brancas, que ainda se atualiza no presente, o sentimento indígena de desconfiança em relação à vacina parece se apresentar como um alerta em relação ao que chega dos juruá. A família de uma de nossas pesquisadoras, uma chary'i de 71 anos, esteve bastante desconfiada da vacina. Casos semelhantes se repetiram em diversas tekoha, onde se instalou uma certa tensão em relação à vacinação, uma resistência das pessoas se vacinarem em um primeiro momento. Essa chary'i nos contou que teve medo da vacina ser um plano dos juruá para o extermínio dos indígenas. À essa memória ancestral carregada de traumas, soma-se a propagação de notícias falsas em redes sociais e a influência de determinados setores evangélicos questionando a segurança das vacinas, que contribuíram para que muitos indígenas a recusassem inicialmente. Para reverter esse sentimento e convencer os indígenas a se vacinarem, foi necessária uma mobilização por parte das lideranças indígenas e de parentes mais próximos.

     Um dos argumentos usados por uma de nossas interlocutoras para convencer os parentes a se vacinarem consistiu em colocar os remédios do mato como importantes conhecimentos dos ancestrais que serviram às pesquisas da comunidade científica dos juruá, possibilitando conhecer a potência farmacológica de certas plantas para a produção de insumos para algumas vacinas.

      Os indígenas que vivem nas cidades se fizeram importantes aliados neste convencimento, já que tiveram a vacinação negada por não morarem em Terra Indígena, o que fez com que os parentes das aldeias notassem a importância da vacinação. No entanto, a vacinação indígena com base no autorreconhecimento se consolidou como um direito conquistado pelo movimento indígena, pois se fosse pela gestão atual do governo, os povos indígenas não seriam prioridade. Como consta no manifesto divulgado pela APIB para denunciar a situação delicada dos povos indígenas em relação à saúde, a organização  teve que recorrer ao STF para garantir a vacinação indiscriminada dos indígenas. Isso porque, segundo proposta do governo federal, os indígenas que vivem em áreas urbanas, retomadas, e terras indígenas em processo de demarcação estariam excluídos do plano de imunização.

      Os Guarani concebem seus corpos como distintos dos corpos dos não indígenas. Tendo isso em vista, os argumentos de resistência à vacina para COVID-19 mobilizados por parte de alguns deles são variados, e a complexidade do tema certamente requer mais tempo para um debate. Sublinhamos alguns mais constantes, que parecem estar diretamente ligados à prevalência de práticas rituais e utilização de "remédios do mato" para manter os corpos saudáveis. Em algumas narrativas, foi argumentado que a vacinação seria um modo de enfraquecimento do corpo, podendo até mesmo levar à uma transformação corporal indesejada e descontrolada. Muitos viram a vacinação como uma estratégia política do Estado contra os povos indígenas, almejando sua aniquilação para se apropriarem de seus territórios tradicionais. Além disso, outro receio dos Guarani em relação aos possíveis efeitos da vacinação no corpo diz respeito ao medo da morte, principalmente entre os idosos.

      No rol de discursos "antivacinação" promovidos por setores conservadores, uma declaração do presidente Jair Bolsonaro, na qual sugeria a possibilidade de se transformar em "jacaré" caso se tomasse a vacina, se disseminou. Muitos a consideraram cômica, mas outros se encheram de receio de uma possível transformação corporal, por mais que fizessem brincadeiras com essa possibilidade também. No modo guarani de se relacionar, são feitas brincadeiras em torno de certos assuntos sérios, e isso se constitui como uma tecnologia de cuidado, pois na perspectiva guarani não devemos tratar com tanta seriedade os assuntos sérios pois, ao fazer isso, corremos o risco de adoecer, o que colocaria os nossos corpos em um estado de maior vulnerabilidade. No entanto, há uma diferença entre assuntos sérios de temas sociais e assuntos sérios de temas sagrados, como são os mobilizados nas casas de rezas, em que se tem outra importância. Nesse caso, o argumento de se transformar em animal, por mais que tenha sido mobilizado de modo jocoso pelos Guarani, não exclui sua implicância de ter motivado preocupação, e até outras relações, como a de se "tornar monstro", como aparece em alguns relatos.

      Nessa direção, um outro argumento ancorado em fake news e mobilizado por atores ligados à igreja pentecostal nas comunidades indígenas remete à instalação de um chip diabólico no corpo por meio da vacina de origem chinesa. Tais argumentos, que colocam o corpo em primeiro plano, nos provoca a uma reflexão sobre as causas de terem ganhado força nas tekoha. Faz-se importante pensar como as narrativas da vacinação e da resistência a ela podem estar relacionadas à cosmologia dos Guarani. Tanto relatos de eventos nos tempos primordiais como casos recentes de jepota – a transformação de uma pessoa por ter sido seduzida por um dono extra-humano – tratam da possibilidade de transformação do corpo, de modo que a vacina pode ser associada a esse perigo.

      A "vulnerabilidade" é conceituada pelos Guarani de modo diferente dos parâmetros científicos dos brancos. A alegria (vy’a) é a base do bem-estar em que se articulam corpo e espírito. Um dos principais sinais de adoecimento se encontra no desânimo, que seria um sinal de afastamento da alma, deixando o corpo mais suscetível ao adoecimento espiritual. Durante o isolamento social, práticas de trazer alegria foram interrompidas pelo fechamento da casa de reza, gerando maior instabilidade e vulnerabilidade. Os corpos dos Guarani estão ligados a essa terra através de uma corda espiritual que os mantêm conectados às moradas das divindades. Para sustentar essa ligação, é preciso vivenciar o cotidiano da casa de reza, que faz os espíritos alegres e fortalecidos para continuarem a viver. Ao entendermos tais práticas nas tekoha como tecnologias de cuidado à saúde, podemos ampliar o nosso entendimento sobre saúde e doença na perspectiva guarani e como isso evidencia o modo atento e sensível deste povo se relacionar com os seres humanos e não-humanos neste mundo em que vivemos.

      Importante salientar que as atitudes por parte de alguns indígenas ou mesmo comunidades em resistência à vacinação compreendem muitas variantes contextuais, tendo como denominador comum o receio em relação à alteridade potencialmente patogênica dos brancos. Tais atitudes são casos isolados e não devem ser lidas como sinônimos dos movimentos antivacina e negacionistas de setores não indígenas, fundamentados em outras premissas. Particularmente, a falta de confiança em relação ao Estado se agravou quando os indígenas foram indicados como grupo prioritário na vacinação. Alguns se viram como possíveis "cobaias" de um experimento sobre o qual pouco sabiam, em uma repetição de histórias do passado. Tal desconfiança foi reforçada pela ausência de campanhas de esclarecimento e incentivo à vacinação por parte do governo federal. A alegação de maior vulnerabilidade das comunidades indígenas não convenceu a todos, que consideravam serem os brancos os mais vulneráveis, justamente pela incidência que acreditam ser maior de mortes por COVID-19 entre os não indígenas.

      Ao que parece, há duas questões relevantes, mas não explícitas, que podem ser observadas nas narrativas indígenas relacionadas à vacinação nas comunidades. Uma delas recai sobre a ineficiência do Estado em lidar com as demandas indígenas, de modo que a preocupação em relação à saúde mobilizada agora, deveria ser direcionada também para os problemas e reivindicações anteriores à pandemia, como no reconhecimento do direito ao território tradicional. Uma outra questão, não menos importante, é que suas tecnologias de cuidado ancestrais sempre constituíram práticas eficazes, não devendo ser negligenciadas em favor das medidas dos brancos, mas podendo estabelecer uma aliança com elas. Nesse sentido, a despeito da desconfiança em relação à vacina, a maioria dos indígenas aceitou e lutou pela vacinação, sendo a sua classificação como grupo prioritário uma conquista dos movimentos indígenas. Portanto, à vacina, soma-se a força das tecnologias de cuidado tradicionais no combate à COVID-19, que resistem ao racismo, ao etnocídio, à misoginia e a todas as demais opressões que enfraquecem diariamente o corpo-espírito dos Guarani. De acordo com a liderança Timóteo Verá Tupã Popygua, a “natureza é o começo, o meio e o fim” de tudo que existe. Nesse sentido, ao desconfiarem da vacinação, o fazem em grande parte por já terem sido e ainda serem afetados duramente pelas ações dos brancos.

O que podemos esperar do futuro

      Os chamõi e chary'i alertam que o contexto de pandemia pelo qual estamos passando se trata apenas de uma amostra do que ainda está para nos acontecer. Nesse sentido, não haveria segurança de viver em um mundo saudável com as mesmas práticas que continuam apostando no esgotamento da natureza e no modo destrutivo dos juruá de viver no mundo. Segundo os chamõi e chary'i, o que podemos esperar não é nada bom para toda a humanidade, pois os juruá não entendem que seu modo destrutivo de viver, amparado no consumo de coisas perecíveis a partir da expropriação e destruição da natureza, se trata da causa verdadeira da destruição de todos. Na perspectiva dos Guarani tudo está interligado, de modo que a cura está presente na terra e se faz da terra, pois todos são parte dela. Assim, o povo Guarani espera continuar sua missão dada por Nhanderu e Nhandecy de uma convivência gentil com a “natureza” apesar de todas as “pandemias” biológicas, sociais e políticas que se atravessam pelos caminhos nessa Terra imperfeita pela qual lutam e tentam coletivamente cuidar.

      O livro mencionado pelos autores é Pele negra, máscaras brancas, de Frantz Fanon, de 1963 e publicado pela Editora da Universidade Federal da Bahia em 2008.

Revisada e editorada por Daniela Perutti

 

Como citar: Benites, Sandra; Martines, Paulina; Nuñez, Geni e Pinna, Renan. Reflexões guarani acerca da COVID-19:  tecnologias de cuidados tradicionais e vacinação nas tekoha. Plataforma de Antropologia e Respostas Indígenas à COVID-19, vol. 1, n. 5, jun. 2021. Disponível em www.pari-c.org. Acesso em dd/mm/aaaa.