Mulheres do rio Negro e seus Cestos de Conhecimento durante a pandemia de COVID-19

por Elizângela da Silva Costa
30 Junho 2021
Nota de Pesquisa

 
      Nós, mulheres indígenas do rio Negro, temos muitas histórias e conhecimentos para compartilhar. E a chegada da pandemia de COVID-19 mostrou que somos compostas por diversos Cestos de Conhecimento. Meu objetivo nesta nota é o de compartilhar como vemos e fazemos nossos Cestos e, também, como os utilizamos para o enfrentamento coletivo à pandemia.

      A ideia de Cesto de Conhecimento, associada ao enfrentamento da pandemia de COVID-19, vem da minha reflexão sobre um ritual coletivo realizado com o acompanhamento dos pajés, parentes próximos e amigas (mulheres já casadas). Este ritual é muito praticado no rio Negro com o intuito de formar as crianças, nesse caso, as meninas que estão se tornando adultas. Os meninos também passam pelo ritual; no entanto, ele acontece de forma diferente e sem que as mulheres tenham acesso ao que ocorre, os detentores desse momento são somente os homens. Este ritual é conhecido como kariamã em yegatu — uma das línguas cooficiais de São Gabriel da Cachoeira, interior do Amazonas. Trata-se de um ritual indígena realizado pelos povos da família linguística arawak na região, do qual nós Baré fazemos parte.

      Kariamã é um termo muito complexo e amplo, que não tem uma tradução para o português, mas que pode ser entendido como o ritual da moça nova, que ocorre quando a moça tem sua primeira menstruação. São múltiplos os conhecimentos repassados à menina durante o ritual, e o Cesto de Conhecimento, colocado em prática com o surgimento da pandemia em São Gabriel da Cachoeira, é uma pequena fatia do que nele se aprende.

      O ritual do kariamã é um processo de formação, como se fosse uma escola. Eu o chamo de escola informal rionegrina. Antigamente, esse ritual durava cerca de um mês ou, no mínimo, 15 dias. Atualmente, dura no máximo uma semana, mas depende muito de cada comunidade, de cada família e se a família mora na cidade ou na comunidade. Inclusive, na minha região apenas a comunidade Iabí, de indígenas Baré, localizada na calha do rio Negro, na Terra Indígena (TI) Alto Rio Negro, pratica de forma mais rigorosa esse conhecimento. Para compreendermos um pouco mais sobre o funcionamento do kariamã e do que chamo de Cesto de Conhecimento, irei apresentar o relato de uma amiga da etnia Baré, de 71 anos de idade e que vive no Baixo rio Içana, na comunidade de Assunção do Içana, sobre a sua experiência de acompanhar o kariamã de uma jovem na calha do rio Negro, comunidade Cue-Cue da TI Cue-Cue Marabitana.

      Ela iniciou o relato contando que, quando a menina menstrua pela primeira vez, é separada de seus familiares. No caso que acompanhou, não havia um quarto separado para a menina ficar; dessa forma, o pai da menina fez um cerco (quarto pequeno) para isolá-la dos demais membros da família. Os parentes da menina avisaram o pajé, mas a presença da mãe naquele momento era o mais importante, porque foi ela quem ensinou a filha, orientando-a sobre como seria sua vida a partir de então. Este tempo de aprendizado e resguardo teve duração de cinco dias. Resguardo, aliás, é uma palavra muito importante aqui, e se refere a situações de isolamento domiciliar que é feito inclusive por pessoa que pega alguma doença e precisa ficar em casa seguindo orientações do profissional de saúde ou do benzedor. Durante a pandemia de COVID-19, a campanha Rio Negro, nós cuidamos! promoveu, justamente, o resguardo em casas, comunidades e sítios, para se proteger da doença e não espalhar o vírus. 

      Minha amiga Baré seguiu contando que a mãe separou o caribé (beiju de mandioca com água fervida), o cigarro feito de tabaco, o urucum (planta que possui sementes que soltam uma cor vermelha), a resina de xicanta (árvore gigante que solta uma resina como se fosse uma cola grudenta), o balaio e dois banquinhos para a filha e o pajé se sentarem. Antes do caribé ser consumido pela menina, o pajé fez o seu benzimento, em seguida, benzeu o cigarro e produziu a defumação com a resina de xicanta. Esses procedimentos ocorriam uma vez por dia, no final da tarde, para que o espírito da menina pudesse ser cercado (protegido) dos encantamentos, das doenças e das coisas ruins.

      Ao longo dos três primeiros dias de isolamento, na madrugada, a menina aprendeu com a mãe a tecer a fibra de tucum (palmeira cheia de espinhos) e a fazer cordas, redes, cestos, todos materiais utilizados no cotidiano de uma mulher indígena. Ao anoitecer, a mãe orientou sobre a posição que ela iria se deitar na rede (posição reta), para que essa menina pudesse ter uma vida longa; se ela encolhesse na rede durante o resguardo, morreria muito cedo. 

      No quarto dia, a mãe foi para a roça arrancar mandioca. Ao retornar, ela chamou outras senhoras para ajudá-la no preparo e, posteriormente, chamou a sua filha para a casa de forno (local utilizado para torrar mandioca a fim de produzir farinha).  Nesse momento, a mãe deu conselhos e repassou seus conhecimentos de como se cuida da roça e dos seus derivados, também sobre os nomes das manivas (haste da mandioca), das frutas, das medicinas encontradas na floresta e, por fim, as localizações das plantas – quais são plantas da mata virgem, plantas da capoeira (roças que tiveram um tipo de plantação, mas que agora têm apenas bambus), plantas do igapó ou plantas que ficam nas margens dos rios. Nesse momento, a mãe da menina compartilhou os seus conhecimentos com a filha, sempre lembrando que ela não é mais uma menina, mas uma moça preparada para construir sua família.

      Ao terminar de ralar a mandioca, a menina retornou para o quarto de resguardo e, ao anoitecer, todos da comunidade se resguardaram em suas casas enquanto a mãe e a filha dançaram ao som das flautas sagradas tocadas secretamente pelos homens. Quando as flautas pararam, pintadas de urucum, a mãe e a menina saíram para o terreiro e o pajé se aproximou das duas para a retirada de saruãsa (qualquer tipo de doença) da mãe e, depois, da filha. Ao terminar, a mãe, a filha e o pajé entraram novamente no quarto de resguardo para o benzimento final do ritual. O pajé buscou um balaio e o pai da menina trouxe um darapí (panela de barro específica) cheio de pimenta misturada com peixe, caça e aves, para fazer o benzimento da filha. A menina ficou sentada no banquinho acompanhando a fala do pajé.

      Ao amanhecer, a mãe da menina cortou o cabelo da filha e pediu para que ela se banhasse. Pegou um cipó e o amarrou na cintura de sua filha. Em seguida, aconteceu o ritual da surra (yamusereu kaximafo, em yegatu), do qual toda a comunidade pôde participar. Nele, a menina leva uma surra com adabí (vara de uma árvore a qual apenas os homens que já passaram pelo ritual do kariamã têm acesso, e as mulheres, não). Nesse momento, a criança passa a ter corpo de adulto e, no caso das moças, elas adquirem conhecimentos que antes não tinham e passam a fazer coisas que antes não podiam. Esse ritual de surra é a marca a partir da qual a comunidade considera que ganhou uma moça.

      Depois da surra com adabí, o pajé pediu para a menina lamber a pimenta que estava no darapí e começou a dar-lhe conselhos perante a comunidade e os pais, dizendo que a partir daquele momento ela estava preparada para receber visitas em sua casa. Ele explicou que quando alguém chegasse à sua casa, ela poderia oferecer um banco para se sentar e o xibé (farinha com água ou açaí) para o consumo. Disse ainda que, dessa forma, ela iria dominar os ensinamentos que lhe foram repassados. Por fim, toda a comunidade compartilhou com a família a alegria de ter uma moça na comunidade oferecendo alimentos como beiju, kinhampira, mujeca, mingau de goma, mingau de farinha. Esse foi o relato que minha amiga da etnia Baré me contou.

      Apesar de eu ter menstruado pela primeira vez na cidade e não na comunidade, como a menina do relato, eu também tive o meu ritual de kariamã. Minha mãe me ensinou a fazer beiju, farinha, tapioca, tratar peixes, caças, capinar a roça, conhecer remédios, escolher maniva e frutas para plantar. Minha mãe contava que tudo que me ensinava havia aprendido com minha avó quando elas iam para a roça. Ela aprendeu quais eram os remédios para feridas, mordidas de cobras, coceiras e os nomes das manivas.

      Foi relacionando essa experiência do kariamã com a nossa forma de responder à pandemia de COVID-19, que cheguei na ideia de Cesto de Conhecimento. Durante a pandemia, pudemos aprender e colocar em prática os ensinamentos sobre o uso das plantas medicinais. Essa fatia de conhecimento advinda do kariamã, juntamente com os benzimentos e a defumação com resinas, foram fundamentais para as mulheres do rio Negro se resguardarem e cuidarem do resguardo de suas famílias e comunidades. Os Cestos de Conhecimento no rio Negro são diversificados, compartilhados entre diversas mulheres de diferentes etnias. São conhecimentos ligados às pessoas mais velhas como pajés, parteiras, artesãos, conhecedoras das plantas medicinais, entre outros. Por isso, nós povos do rio Negro valorizamos as existências desses anciões e anciãs, porque eles são os detentores dos conhecimentos diversificados. 

      Com a chegada repentina da pandemia em nossas famílias, comunidades e territórios, pude observar o desenvolvimento das mulheres em busca de cura e proteção, e entendo isso como derivação e parte do kariamã. Aprendemos como se faz o resguardo, como nos proteger além de como e quando devemos fazer uso desses ensinamentos.

      Já o Cesto de Conhecimento se apropria de um dos ensinamentos aprendidos durante o ritual do kariamã, especificamente sobre as plantas medicinais e o momento do resguardo. O Cesto é, portanto, parte do kariamã. Com a chegada da pandemia, esse Cesto ganhou vida, ganhou proteção, ganhou a prática e o uso do conhecimento para o cuidado de nossas famílias, conhecidos e parentes. Além disso, o cesto — recipiente que é tecido por nós, onde guardamos e transportamos coisas — é a arte mais utilizada pelas mulheres rionegrinas. E o ato de tecer juntas é um momento muito importante para nos encontrar, conversar, resolver conflitos, como também tem sido falado do trabalho que fazemos para enfrentar as violências contra nós. Desde crianças, ao nascer, na hora do benzimento, começamos a formar o nosso Cesto e aos poucos ele vai aumentando para assim ser repassado para as próximas mulheres; igual a uma árvore que nasce, cresce e se reproduz, esses conhecimentos são reproduzidos. No rio Negro, nós, mulheres indígenas, lutamos para deixar a nossa cultura viva e fortalecida, como as nossas línguas, mitos, artes, danças e conhecimentos.

      Nós, mulheres do rio Negro, além de sermos promotoras da vida, somos a semente mais regável da cultura indígena. Somos responsáveis por cuidar, multiplicar, replicar, resguardar; somos guardiãs da existência de um determinado povo. Atualmente, mostramos ao mundo que somos doutoras de conhecimentos. Somos a composição da existência das florestas. As nossas almas e as nossas estratégias são como as cachoeiras que há em nossos rios; as montanhas são os lugares sagrados onde podemos ir alimentar a nossa alma para continuar defendendo a mãe terra.

      Esses ensinamentos vêm dos nossos antepassados. E eles não se formaram em universidades, mas por meio do universo, das estrelas, da lua e do sol, onde as nossas linhagens brilham e possuem vida como nós, os humanos. Por isso, os povos originários têm esse conhecimento chamado de “tradicional”, e com ele vêm perpassando anos na luta de resistir ao domínio da sociedade “civilizada”. Para além disso, fomos obrigados a caminhar com conhecimentos diversos e, com o passar do tempo, somos hoje dominadores de infinitos conhecimentos. Principalmente, fomos nos acostumando com outros modos de vida e dominando línguas para além das nossas. A pandemia evidenciou, em particular, a força das mulheres rionegrinas, os domínios que temos. Sei que cada mulher do rio Negro reviveu o ensinamento de seus antepassados, praticando os aprendizados adquiridos nas oralidades. Como outra amiga Baré, de 51 anos, me disse: “a sabedoria das mulheres indígenas está espalhada como raízes de árvores deixadas pelos nossos avós”.

      As mulheres indígenas que moram na cidade de São Gabriel da Cachoeira fizeram as suas estratégias de cuidados com as plantas retiradas dos quintais e mel de abelha; enquanto aquelas das comunidades (aldeias) utilizaram as plantas da terra firme e da beira dos rios. O mais utilizado foi a abelha com ferrão retirada da natureza, para a defumação, fazer chá e passar a cera pelo corpo.  No decorrer dos dias, as mulheres da cidade passaram a saber sobre os remédios que estavam sendo utilizados por seus pais e parentes nas comunidades e, então, pediram para que as enviassem para que elas também pudessem usar na proteção de si e de suas famílias na cidade. Assim, o Cesto de Conhecimento, que depende das nossas formas de conhecimento e dos nossos territórios, foi sendo utilizado e compartilhado pelas mulheres do rio Negro. Com as muitas trocas, as plantas tiveram novos donos e foram utilizadas de diferentes formas para poder alcançar o objetivo de salvar vidas.

      Atualmente, muitas mulheres não querem mais saber sobre esses conhecimentos. Muitas mães do povo Baré e de outros povos já não vêm mais praticando o kariamã com as suas filhas. Não devemos deixar que os Cestos das nossas filhas se tornem vazios. Precisamos continuar lutando por elas e repassando o que foi ensinado a nós mulheres, para que um dia elas possam procurar nos seus Cestinhos os ensinamentos de seu povo e, assim, salvar a vida de sua família, como foi feito durante a pandemia de COVID-19. Nesse tempo, muitas mulheres retornaram para os seus Cestos e lá estava tudo o que um dia sua avó, mãe, tias e primas ensinaram. Por isso, precisamos sempre repassar os nossos ensinamentos para a nova geração, para que assim possamos continuar existindo conforme a nossa cultura e o nosso território de existência.

Colaboradores: Dulce Meire Mendes Morais e  José Miguel Nieto Olivar

Revisada e editorada por Daniela Perutti

 

Como citar: Costa, Elizângela da Silva. Mulheres do rio Negro e seus Cestos de Conhecimento durante a pandemia de COVID-19. Plataforma de Antropologia e Respostas Indígenas à COVID-19, vol. 1, n. 5, jun. 2021. Disponível em www.pari-c.org. Acesso em dd/mm/aaaa.