Imagens e mensagens guarani mbyá para a cidade durante a pandemia de COVID-19

por Ana Letícia Meira Schweig
30 Junho 2021
Nota de Pesquisa


    O intuito desta nota é apresentar algumas reflexões sobre produções audiovisuais durante a pandemia a partir do projeto Mborayvu: Imagens e Mensagens Indígenas para a Cidade. A produção reuniu cineastas do povo Guarani Mbyá, de diferentes territórios do Rio Grande do Sul, para realizar produções audiovisuais endereçadas aos não indígenas que moram nas cidades através de projeções em prédios de Porto Alegre, além de uma live.

      O texto também visa contribuir para a visibilidade das articulações e iniciativas indígenas durante a pandemia. Participei do projeto como produtora junto a outro pesquisador guarani mbyá da PARI-c, Ariel Kuaray Ortega, cineasta que através de suas imagens nos oportuniza conhecer outras possibilidades de existir e imaginar um futuro conjunto. O coletivo de antropólogos Tela Indígena, do qual faço parte e é responsável pela produção do projeto, conversou com os cineastas sobre seus filmes, a pandemia de COVID-19, suas lutas pela demarcação de terra e o papel do cinema nesse contexto. Trechos dessas conversas serão apresentados ao longo da nota.

Pandemia e editais emergenciais de cultura

     Mborayvu é uma palavra guarani mbyá que expressa “amor e generosidade”, num sentido de desprendimento de desejos materiais e de nos doarmos uns aos outros. Ela foi escolhida para descrever os sentimentos que guiavam os cineastas ao pensar em mensagens para as cidades: doando um pouco de seus cotidianos nos territórios para que os não indígenas possam conhecer suas realidades.

     O projeto foi realizado através de uma parceria entre o coletivo Tela Indígena, 12 realizadores Guarani Mbyá, e o coletivo de projecionistas Projetores pela Cultura. Os realizadores que dirigiram os filmes foram Gerson Gomes, Vherá Xunu, Pará Reté e o Coletivo Mbyá-Guarani de Cinema, formado por Patrícia Ferreira Pará Yxapy, Ariel Kuaray Ortega e Aldo Kuaray Ferreira. Os cineastas receberam equipamentos para gravar as imagens que gostariam de enviar aos remetentes juruá (não indígenas) que moram na cidade de Porto Alegre.


Mapa das Terras Indígenas (TI) dos cineastas envolvidos no projeto (Tekoa Pindó Mirim, Tekoa Koenju, Tekoa Jataí'ty e Tekoa Takua Hovy).

     O projeto Mborayvu foi financiado pela Lei Aldir Blanc,  que destina recursos para profissionais da área da cultura que tiveram seus trabalhos impactados pela pandemia de COVID-19 – como é o caso de muitos indígenas no Rio Grande do Sul, que têm a venda de artesanato nos centros urbanos como sua principal fonte de renda. Com as medidas de isolamento, muitos Mbyá tiveram possibilidades restritas de conseguir recursos financeiros. Assim como outros editais emergenciais de cultura, o texto propunha uma inscrição simplificada com o intuito de ampliar a participação de diversas categorias, incluindo “culturas populares e tradicionais”. No entanto, indígenas relataram dificuldade para inscrever projetos, seja pelo acesso à internet limitado ou pela linguagem do edital. Outros tiveram suas inscrições invalidadas por erros de documentação, entre outras situações.

Mensagens indígenas para as cidades

     A região sul é historicamente marcada por uma colonização intensa, com sucessivas tentativas de expropriação de povos indígenas. A presença dos Guarani Mbyá, Kaingang, Laklaño/Xokleng e Charrua é incessantemente invisibilizada por políticas públicas, pela educação formal e pelo senso comum. Durante uma das lives, conversamos com a cineasta Patrícia Ferreira Yxapy, que mora em Tekoa Koenju, território próximo às Ruínas de São Miguel das Missões, sítio arqueológico que traz as marcas das tentativas de catequização de indígenas por padres jesuítas. Ela sente necessidade de falar aos juruá que os Guarani sempre estiveram ali, pois o intenso turismo do local ainda trata a presença indígena como algo do passado:

Foi uma grande oportunidade passar mensagem para as pessoas de Porto Alegre que a gente está aqui, vivendo da nossa maneira, da nossa cultura. Enfrentando a pandemia como qualquer outra pessoa, mas também de outra forma. [...] A gente escuta muito que os índios não fazem nada, que a gente não trabalha, então para mostrar essa questão, ao contrário do que as pessoas falam, que a gente busca trabalhar para poder sobreviver como qualquer outra pessoa.

     Assim como em São Miguel das Missões, na região metropolitana de Porto Alegre muitas famílias saem de seus territórios para vender artesanatos no centro da cidade. A maioria dos territórios indígenas do Sul do país é cercada por monoculturas ou foi sucessivamente invadida pela ocupação urbana, com boa parte das florestas do entorno já derrubadas. Vherá Xunu, cineasta que mora na região, aborda essa questão em seu filme Teko Mbaraete:

Meu filme é sobre o fortalecimento da vida. Com essa pandemia, a gente tem que olhar também o que está acontecendo na aldeia, o que nos fortalece. [...] Quem vive de artesanato teve dificuldade de sair para a cidade. Eu queria mostrar o que as pessoas estão passando. Era essa mensagem que eu queria passar para a cidade. [...] Muitos indígenas que vão para a cidade ganham preconceito. Então eu acho que é importante mostrar nossos filmes na cidade. Espero que as pessoas vejam e sintam no coração que os indígenas estão sempre presentes e podem estar ocupando o lugar que a gente quiser. [...] Agora na pandemia a gente precisa de doações de alimentos, muitos dependiam das vendas e diminuiu a ida para cidade.

Trecho do filme Teko Mbaraete. Foto de Vherá Xunu. 

Projetores pela Cultura

      Desde que a pandemia foi declarada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), no início de 2020, inúmeras reportagens e pesquisas vêm reiterando a vulnerabilidade dos povos indígenas frente à COVID-19. Uma das principais formas de combate ao vírus foi a restrição da circulação dos indígenas para fora de seus territórios. Isso afetou muitas famílias que dependem das vendas de artesanato, o que fez com que vissem a abertura de editais de cultura com entusiasmo. O projeto Mboravyu se propôs a pensar uma forma em que a arte guarani mbyá pudesse continuar presente nas cidades, além de gerar renda dentro dos territórios. Gerson Gomes, diretor do filme Jêguá (Nossa Resistência) comenta sobre essa questão:

Hoje a gente pensa que estava no caminho certo com nosso povo, que a gente tem nossas medicinas tradicionais. [...] A gente faz resistência com esse trabalho, com essa linguagem. Nesse caso foi com a pintura, é uma cultura que foi afetada com isso também. Foi uma quebra financeiramente para as pessoas que trabalham com artesanato, pessoas que tão na beira da estrada, então esse encontro que a gente teve foi muito importante também, esse impacto.


Fotos: Projetores pela Cultura


Fotos: Projetores pela Cultura


Fotos: Projetores pela Cultura

O primeiro caso de COVID-19 em território indígena do estado do Rio Grande do Sul foi registrado em abril de 2020, a partir de trabalhadores de frigoríficos. Muitos indígenas dependem de trabalhos temporários relacionados ao agronegócio, em frigoríficos ou colheitas. Esse trabalho sazonal é registrado pelo olhar de Aldo Ferreira no filme Minha Aldeia, Minha Vida/ Yvy Poty Rã/ Uva Po'oa Kuery que mostra como esses deslocamentos não pararam durante a pandemia ao abordar a colheita da uva, na serra gaúcha.


Trecho do filme Minha Aldeia, Minha Vida / Yvy Poty Rã / Uva Po'oa Kuery, do Coletivo Mbyá Guarani de Cinema.


Projetores pela Cultura

      Durante as projeções, quem passava pelas ruas se sentia convidado a parar. As imagens estampadas nas paredes dos prédios mostravam um contraste de ritmos. Os filmes traziam o amanhecer, os rios, as plantações. Crianças brincando livremente coloriam os edifícios cinzentos, cenário onde habitam a maioria das crianças da cidade. O isolamento social evidencia diferenças e o quanto os não indígenas já estavam separados das florestas. Os carros em movimento, as pessoas correndo para pegar o ônibus, afastadas e com suas máscaras, faziam parecer que os filmes eram de lugares ainda mais distantes.

Fotos: Projetores pela Cultura

Fotos: Projetores pela Cultura

Diego Luís e Para Reté são realizadores do filme Kyringue Reko Vy'a (O Modo de Ser Felizes das Crianças), gravado na região metropolitana de Porto Alegre. A proximidade do território à cidade pode nos fazer pensar que há dificuldade de implementar o distanciamento social, principal medida de combate à pandemia. No entanto, Diego quis mostrar o quanto os Guarani sempre viveram em isolamento. Apesar da ideia de distanciamento não ser novidade, a pandemia parece intensificar as diferenças entre a vida citadina e nas tekoa, conforme enuncia Diego:

Nessa pandemia, nós Guarani já não sentíamos muito esse isolamento. Nós queríamos mostrar, por exemplo, que a gente não pode sair livremente na cidade. Vivemos na aldeia, mas com medo de sair, com vergonha. Então, desde o começo da chegada dos não índios a gente já sentia. [...] Para nós Guarani isso não aconteceu há um ano, mas já faz tempo.


Fotos de Pará Reté


Fotos de Pará Reté

      As imagens refletem sobre a cidade, o entorno, as diferenças entre cotidianos e outras maneiras de existir. Mostram também a possibilidade de conversa entre mundos que às vezes parecem tão distantes. Ariel Kuaray Ortega, do Coletivo Mbyá-Guarani de Cinema e pesquisador da PARI-c, falou sobre o filme em um vídeo gravado pelo cineasta para a divulgação do projeto:

Quisemos passar um pouco do dia a dia das crianças aqui da aldeia e como estamos enfrentando a pandemia. Poder passar um pouco dessa liberdade que a gente tem na aldeia, da importância de estar bem com a natureza. Que existe também uma outra realidade que não é a realidade da cidade. Que existem também outras pessoas, com outra cultura, outra maneira de estar nesse planeta e que está enfrentando de outra forma. Porque, de alguma maneira, essa pandemia está diretamente ligada à natureza. Isso está acontecendo porque o ser humano começou a se desligar muito da boa convivência com a natureza e com a terra principalmente, e através das imagens a gente quer passar um pouco isso para as pessoas que estão fechadas nos seus apartamentos, nas suas casas na cidade, que é uma realidade totalmente diferente.

Foto: Projetores pela Cultura

Demarcando terras, demarcando telas

     Um homem branco finca estacas em meio ao território da Tekoa Pindó Poty, próximo a um novo barraco construído na mesma área. De acordo com o relato de Roberto Liebgott, coordenador do CIMI-Sul (Conselho Indigenista Missionário), no dia 15 de abril de 2021: “Indaguei se ele sabia que aquela terra era indígena. Calmamente, me respondeu que sabia".

A Tekoa Pindó Poty é um território guarani mbyá localizado em Porto Alegre e que aguarda sua demarcação pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI) desde 2012. Os 7 hectares de terra da tekoa ficam próximos à Reserva Biológica do Lami José Lutzenberger, na beira de uma estrada. O desmatamento da área para construção do barraco não foi um fato pontual. Duas semanas mais tarde, enquanto as lideranças indígenas se reuniam com o Ministério Público Federal para entrar com um pedido de reintegração de posse, invasores desmataram um lote ainda maior. Como resposta, os Mbyá derrubaram as cercas e barracos, em um movimento de autodemarcação da área.

Em abril de 2020, o relatório Vulnerabilidades, Impactos e o Enfrentamento à COVID-19 no Contexto dos Povos Indígenas produzido Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) e pelo Observatório COVID-19 da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) apontava para o risco de intensificação da violência e apropriação de territórios indígenas durante a pandemia. Historicamente, epidemias de doenças infecciosas acompanharam essas práticas de exploração territorial. Um ano depois do relatório, violências como invasões, contaminações e assassinatos vêm sendo denunciadas por diversos povos, em todo o território nacional. O relatório da APIB Nossa Luta é pela Vida: Manifesto pela Solidariedade com os Povos Indígenas no Brasil confirma a previsão do ano anterior e aponta para o agravamento dessas violências.

A denúncia ocorreu na mesma semana de exibição dos filmes do Mboravyu e em que houve um aumento no número de hospitalizações e mortes por COVID-19 no estado. Enquanto a mensagem de Ariel, que convidava os juruá a conhecer uma forma de viver sem destruir a própria terra, projetava-se na cidade, invasores seguiam adentrando o território guarani do Lami e derrubando parte da mata.

Participantes de coletivos de comunicação Guarani também foram até o local para acompanhar a situação, como o Coletivo Cine na Tekoa, a Comissão Guarani Yvyrupa e o Coletivo Comunicação Kuery. Gerson Gomes, integrante da Comunicação Kuery comenta sobre o papel das ferramentas audiovisuais nas lutas:

A gente tem essas questões de luta, a gente tem essas ferramentas hoje como um meio de defesa. [...] A gente vem perdendo lideranças mais fortes de luta também, então de que forma a gente pode ajudar eles nas questões de luta política?


Foto: Gerson Gomes

      No mesmo mês, aconteceu o Acampamento Terra Livre além do 1° Encontro de Comunicadores Indígenas, ambos de forma virtual, o que reforça a importância da comunicação e de ferramentas audiovisuais para dar visibilidade às lutas dos povos indígenas. Uma das principais frases veiculadas durante o evento foi “é hora de demarcar as telas”. Assim, com a pandemia e as medidas de isolamento dela decorrentes, intensificou-se a quantidade de eventos, campanhas de doação e denúncias nas redes sociais. O papel de comunicadores e cineastas indígenas tem sido indispensável, conforme comenta Patrícia Yxapy sobre as filmagens:

A ideia sempre foi de passar a mensagem para os não indígenas, justamente para diminuir o preconceito que existe desde sempre. [...] Acho que a gente foi entendendo que a gente precisa ocupar qualquer espaço que nos deem. [...] É importante esse tipo de ferramenta justamente para denunciar esse tipo de ataque [invasão no Lami] que acontece o tempo inteiro nas nossas aldeias. Trabalhar com audiovisual é nossa oportunidade de mostrar esses ataques para as pessoas, porque muitos não têm esse conhecimento de como a gente enfrenta a invasão, desde que começou a primeira invasão aqui na América. Nunca terminou essa invasão. [...] A gente sofre invasão das aldeias, a gente sofre quando vai na cidade, a gente circula na cidade não porque a gente quer, mas porque as cidades estão invadindo nossas aldeias.


Foto: Vherá Xunu

      “Mesmo que o Guarani tenha essas perseguições do lado branco, sempre as crianças têm nos motivado com sorrisos e com alegria” – foi o que Pará Reté nos falou em uma das lives sobre o tema de seu filme. Yxapy também comenta sobre essa questão:

A gente está enfrentando através dos sorrisos das crianças com meio ambiente, porque a gente sabe que nas grandes cidades isso é totalmente inalcançável. Então, a gente queria passar essa mensagem principalmente para os jovens, crianças, e pais como que as crianças aqui na aldeia estão bem. Ao mesmo tempo passando essa dificuldade, sem deixar de se divertir, vivendo essa fase de criança, tendo oportunidade de viver ainda com a natureza – com o pouquinho que restou – porque a gente vive rodeado de plantação de soja, a gente sabe disso, mas os pouquinhos [de natureza] que sobraram a gente tenta manter isso intacto.


Projetores pela Cultura.


Projetores pela Cultura.


Renata Hilal

      Comunidades indígenas lutam diariamente por seus territórios, pelos sorrisos das crianças, por seus modos de viver que implicam o cuidado com outros seres. Se assistir aos filmes na cidade evidencia contrastes e diferenças, é através das mesmas imagens que tentamos dialogar e criar relações mais próximas entre os mundos. A distância e o isolamento não são exclusivos do período pandêmico, como apontou Diego Luís.

      "Os prédios estão mais felizes” ao receberem os filmes do Mborayvu: Imagens e Mensagens Indígenas para a Cidade, disse Patrícia numa conversa informal. As mensagens nos alertam sobre as consequências das nossas ações destrutivas, mas nos presenteiam com possibilidades de sonhar, de conhecer outros mundos possíveis, de ver a vida através dos sorrisos das crianças e de repensar nossa forma de ver a vida.

Com a colaboração de Patrícia Yxapy Ferreira, Vherá Xunu, Pará Reté, Ariel Kuaray Ortega, Diego Luis Sanches, Gerson Gomes e a equipe Tela Indígena formada por Eduardo Santos Schaan, Georgia Macedo e Marcus Wittmann.

Revisada e editorada por Daniela Perutti

 

Como citar: Schweig, Ana Letícia Meira. Imagens e mensagens guarani mbyá para a cidade durante a pandemia de COVID-19. Plataforma de Antropologia e Respostas Indígenas à COVID-19, vol. 1, n. 5, jun. 2021. Disponível em www.pari-c.org. Acesso em dd/mm/aaaa.