Os rituais da mandiocaba e do moqueado do povo Guajajara da Terra Indígena Rio Pindaré (MA)

por Taynara Caragiu Guajajara and Lirian Ribeiro Monteiro
30 Junho 2021
Nota de Pesquisa


       A presente nota faz referência à mandiocaba e ao moqueado, importantes rituais de passagem para a vida guajajara que anunciam o caminho do bem viver de acordo com sua cosmologia. Ocorrem quando a menina se torna moça a partir da menarca, e o menino, rapaz com a mudança de voz. O ritual ocorre dentro dos princípios culturais do povo Tentehar Guajajara e marca a transição ontológica de uma fase emblemática e substancial na vida de meninos e meninas desse povo.

      Trata-se de um momento simbólico de reafirmação identitária, marcado pelas cantorias, danças e manifestações de agências que podem ser vistas ou não, numa forma de representação material e imaterial que exprime aos Guajajara a essência originária de um ritual repassado de geração em geração. A carne de caça moqueada e a pintura corporal com jenipapo são elementos fundamentais para a realização da festa, que se inicia na sexta à noite e tem seu término no domingo pela manhã. Durante todo esse período de festa ritual, a cantoria guajajara, puxada pelos mestres cantores sob a marcação dos maracás, faz-se onipresente na aldeia.

      O maior desafio para o povo Tentehar Guajajara da Terra Indígena (TI) Rio Pindaré vem sendo, em certa medida, deixar de realizar o ritual no período da pandemia de COVID-19, pelo fato de serem momentos de significativa aglomeração. Sendo assim, encontra-se em um grande dilema: fazer o ritual para manter o povo e o território fortalecidos, vivos e com saúde ou evitar a realização do ritual para manter o povo e o território mais protegidos da pandemia?

O ritual da mandiocaba na Terra Indígena Rio Pindaré – Norte do Maranhão

     O ritual da mandiocaba é realizado alguns meses após a segunda pintura corporal da menina, na primeira menstruação, a chamada menarca. Um dia antes, os pais e familiares das moças dividem as responsabilidades. Uns vão para a roça tirar a mandiocaba, que é um tipo de mandioca que o povo Guajajara utiliza para esse ritual. Outros vão para a mata pegar os caranguejos a serem cozidos para que, com a carne, se façam angus, os quais, misturados com a farinha, serão distribuídos no término do ritual.

     É importante que as moças participem de todo o processo, ralando a mandiocaba, retirando o seu líquido, coando e levando-a ao fogo. Com a parte sólida da coagem é feita a tapioca que será posteriormente acrescida ao mingau. 

     O mingau de mandiocaba, cujo preparo é acompanhado por cantos específicos para o momento, é feito de arroz, abóbora e da própria tapioca. Ao mesmo tempo, as moças são pintadas, e as anciãs ajudam a ralar a mandiocaba. Com jenipapo, duas pinturas são feitas no corpo da menina: uma em forma de blusa, e outra, facial. Como adereço se usa um colar feito de miçanga, com várias voltas.

      Durante o ritual, as meninas têm que esquentar a barriga para que, mais tarde, não tenham complicações de saúde. Após os procedimentos, elas dividem o mingau e o angu feito com as carnes retiradas do caranguejo e oferecem o alimento aos convidados da festa. A carne retirada do caranguejo também será passada nas articulações do corpo das meninas para que tenham saúde. Já a sua casca é colocada sobre a cabeça das meninas para que não tenham dores de cabeça.

Kuzàtei wyra’u haw: o ritual da menina moça entre os Guajajara das TIs Rio Pindaré e Caru

      Wyra’u haw, também conhecida como festa do moqueado ou ritual da menina moça, é um rito realizado por indígenas da etnia Guajajara das TIs Rio Pindaré e Caru que marca a passagem da adolescência para a fase adulta. Ele tem início cerca de dois meses após o ritual da mandiocaba, com uma  caçada. Primeiro, os pais e familiares das moças seguem para a mata. A jovem, dona do moqueado, também os acompanha, pois ali começa um novo ciclo para o início do ritual. Durante a caçada, regras devem ser seguidas sob responsabilidade dos anciões, que estão sempre presentes durante as caçadas. Ao adentrar a mata, é essencial que os Tentehar tenham ali uma permissão dos espíritos das florestas e principalmente dos donos dos animais para que eles possam ofertar boas caças para a realização da festa. As caças, depois de mortas, serão moqueadas ali mesmo, na mata. Após 15 dias caçando, todos retornam para a aldeia, onde passam mais uma semana moqueando as caças em casa, todos os dias pela manhã ou à tarde, como forma de mantê-las conservadas para o dia do ritual.

      A partir daí, inicia-se a festa, com duração de três dias. No primeiro dia, as moças e os rapazes são pintados por completo com jenipapo, e nesse momento a carne é partida e colocada na panela. Todo esse processo é feito em conjunto, é importante que tudo seja feito ao mesmo tempo. As moças usam saias, e os rapazes, calções de tecido. As moças são orientadas pelas mães e anciãos acerca do ritual e das regras que devem ser seguidas durante e após a sua realização.

      Cada canto é entoado de acordo com o momento: há os cantos da manhã, da tarde e da noite. Ao longo da cantoria, os animais que foram abatidos, como paca, macaco e cutia, são cozidos de modo que, no dia seguinte, a carne já esteja pronta para se fazer o angu com farinha. As carnes das caças são misturadas com farinha e batidas em pilão, no caldo da própria carne, assim formando o angu, que será servido ao final da festa para os participantes convidados. Dentre essas caças, há a carne de um pássaro, o Nambu, que é muito importante, pois serve para, após moqueada, ser friccionada nas juntas e na parte posterior das pernas, nas axilas das moças e dos rapazes, para que eles não fiquem com mau cheiro e para não criar manchas pretas no corpo da menina moça. Todos esses ritos são considerados um processo de saúde e proteção para o povo Tentehar.

      Durante esse processo, as meninas moças cantam e brincam durante os cantos, e todos ficam animados, pois é um momento muito importante para toda a comunidade. Logo após a festa, são realizados os rituais de proteção, tais como: colocar beiju na cabeça da menina moça para não cair cabelo, não envelhecer rapidamente; esquentar o estômago com beiju; colocar os pés em cima do cará, para não ficar com os pés rachados. Assim segue o processo com todas as comidas que antes elas não comiam, mas que agora passarão a comer diariamente.

O Ritual da resistência de Háir Guajajara em tempos de COVID-19 – Depoimento de Taynara Caragiu Guajajara

Hoje, venho contar para vocês sobre o ritual em tempos de pandemia, e vou falar do início do ritual da minha filha Háir Guajajara, que em português significa Mel.

No início de agosto de 2020, passamos momentos difíceis. No auge da pandemia da COVID-19, contaminações em massa ocorreram na TI Rio Pindaré, localizada no município de Bom Jardim, região norte do Maranhão, onde vivemos em vulnerabilidades, cercados de cidades e cortados pela [rodovia] BR-316. Em 2020, tivemos 99 casos de COVID-19, e minha família foi uma das acometidas pelo vírus. Difícil falar, pois vivenciamos momentos de terror e enfrentamos algo desconhecido. Foi como se tudo que meus antepassados viveram no passado, nós estivéssemos vivendo e, na realidade, foi bem isso. Então, isso trouxe uma carga psicológica muito pesada para nós. Foi como se o massacre de epidemias passadas, que dizimou a metade do meu povo, estivesse ali presente novamente.

Em meio à pandemia, minha filha foi atingida pelo vírus. Ficamos em isolamento, tomando nossa medicação tradicional como chás e lambedores, feitos de ervas tradicionais e ywyraro, que é casca de uma árvore. Ao mesmo tempo, fomos acompanhadas pela equipe de saúde indígena do Polo Base de Saúde Indígena de Santa Inês (DSEI-MA).

Logo após, tivemos uma surpresa muito especial e muito importante: minha filha teve sua menarca, a primeira menstruação, e o início do ritual da menina moça, em que ela foi mantida durante mais ou menos oito dias no quarto, isolada, seguindo todas as orientações dos anciões acerca do ritual que hoje representa nossa resistência. Fazer esse ritual em período de pandemia tem sido um desafio para nós Tentehar, pois nossos rituais são sempre bem aglomerados, sendo que é um rito que conecta nossos vínculos com a Mãe Terra e também representa nossa resistência enquanto povo, fortalecendo nosso vínculo coletivo.

Foi muito árduo e ainda está sendo um doloroso desafio. Tentamos seguir as práticas, porém com muitas dificuldades, pois nós, Guajajara, não podemos deixar o tempo do ritual muito para depois, acreditamos que isso pode gerar complicações para a vida da jovem, principalmente em relação à saúde.

A pandemia tem trazido consigo mais essa preocupação para os povos indígenas, para fazer nossos rituais e poder praticar a cultura. Temos o nosso modo de viver e costumes praticados há séculos, e não poder fazer de uma forma que seja satisfatória para nós, e principalmente para os donos do ritual, que são os Maíra, pode trazer complicações sérias à saúde da comunidade inteira e afetar negativamente as relações dos Tentehar com seu território.

Revisada e editorada por Daniela Perutti

 

Como citar: Caragiu Guajajara, Taynara e Monteiro, Lirian Ribeiro. Os rituais da mandiocaba e do moqueado do povo Guajajara da Terra Indígena Rio Pindaré (MA). Plataforma de Antropologia e Respostas Indígenas à COVID-19, vol. 1, n. 5, jun. 2021. Disponível em www.pari-c.org. Acesso em dd/mm/aaaa.