Turismo Comunitário, impactos e estratégias de resistência entre os Jenipapo-Kanindé da Lagoa Encantada/Aquiraz e os Tremembé de Almofala/Itarema (Ceará)

por Alexandre Gomes, Antônia Santos e Janiel Marques
30 Junho 2021
Nota de Pesquisa

 
       A partir da década de 1980, iniciou-se a construção de uma vigorosa estrutura de apoio público ao setor de turismo no Ceará, tornando o estado apto a receber diferentes investimentos internacionais, modificando a configuração geográfico-espacial de um litoral com 573 quilômetros de extensão, caracterizado por belas praias, dunas e falésias, impactando modos de vida e relações sociais. A capital, Fortaleza, cidade à beira-mar nascida sob as dunas e oriunda da antiga Vila do Forte (1726), firmou-se como um dos principais destinos turísticos do Brasil, destacando-se na Região Nordeste como um importante polo empresarial e de serviços, com forte presença de capital e investimentos estrangeiros. Em vista disso, tornou-se uma das primeiras metrópoles brasileiras onde a COVID-19 se espalhou e, desde os bairros “nobres” da cidade – especialmente os de maior fluxo turístico –, atingiu diferentes pontos da urbe e migrou para o interior do estado e municípios situados ao longo de sua vasta costa.

      É sob esse contexto social, político e econômico que analisamos, a partir de dados etnográficos produzidos por meios virtuais e presenciais, a problemática relação entre turismo e pandemia entre dois povos indígenas que habitam o litoral cearense: os Jenipapo-Kanindé, da Terra Indígena (TI) Lagoa Encantada, e os Tremembé, da TI Tremembé de Almofala.

Os Jenipapo-Kanindé de Lagoa Encantada

      Os Jenipapo-Kanindé possuem mecanismos próprios de gestão das atividades de turismo comunitário em seu território, vinculados à sua organização social e às mobilizações étnicas constituídas como parte de sua resistência à especulação imobiliária e ao turismo predatório. Em tempos de livre circulação de pessoas, é frequente a realização de visitas guiadas de grupos diversos, com destaque para estudantes e professores das redes pública e privada de ensino de escolas, além de universidades federais e estaduais.

      Com o início da pandemia no Brasil, em março de 2020, o povo tem sofrido os impactos sociais, culturais e econômicos gerados pela rápida disseminação da doença. Todas as atividades relacionadas ao turismo comunitário, as quais os Jenipapo-Kanindé se dedicam há cerca de 15 anos, foram suspensas por tempo indeterminado, seguindo as orientações das instâncias municipais e estaduais, os protocolos de saúde da Organização Mundial de Saúde (OMS) e as recomendações da Associação das Mulheres Indígenas Jenipapo-Kanindé (AMIJK), com os objetivos de prevenir e combater a doença em seu território. Além disso, foram suspensas as atividades presenciais na Escola Indígena Jenipapo-Kanindé, a realização de festas tradicionais e eventos públicos.

      Havendo poucas opções de empregos fixos na aldeia, eles sofreram de modo imediato as consequências da paralisação do turismo comunitário. As pessoas que trabalhavam diretamente com essa atividade viram-se em uma situação de maior vulnerabilidade, com a interrupção de seu principal meio de renda. A circulação econômica foi reduzida, já que os recursos advindos da presença de visitantes alimentavam uma diversificada cadeia produtiva local, fomentando a compra de alimentos em bodegas ou diretamente de agricultores(as) e pescadores(as); o atendimento e a hospedagem na pousada comunitária; a venda de artesanatos; e a visita guiada ao museu, com a opção pela realização de trilhas no território. Todas essas ações promoviam uma maior divisão dos recursos financeiros provenientes do turismo comunitário entre as famílias.

      Desde o início da pandemia, os indígenas priorizaram atividades educativas e de conscientização sobre o que era a nova doença, divulgando informações sobre como prevenir e impedir a sua disseminação. Isso para que pudessem enfrentá-la adequadamente por meio da associação entre suas formas tradicionais de cura e o modelo biomédico, que acessam por meio das políticas públicas de saúde diferenciadas. As pessoas foram orientadas a se resguardar em suas residências, evitando ao máximo as costumeiras conversas nas casas dos mais velhos, nas calçadas, nos quintais e terreiros bem como a realização de momentos coletivos que promovessem aglomeração e presença de público externo.

      Diante do isolamento ocorrido nos primeiros meses de pandemia, os Jenipapo-Kanindé sofreram certo assédio para a reabertura das atividades de turismo. Muitos visitantes procuraram reiteradamente os gestores de turismo comunitário tentando agendar visitação e hospedagens; entretanto, tais pedidos foram negados, apesar da notável falta que os recursos financeiros faziam no cotidiano de muitas pessoas.

      Uma rede de solidariedade interna foi acionada para auxiliar as famílias mais carentes, que passaram a ser apoiadas economicamente e através da doação de alimentos. Por meio de campanhas de arrecadação capitaneadas pela Federação dos Povos e Organizações Indígenas do Ceará (FEPOINCE), em parceria com outras organizações indígenas e indigenistas, foram doados ao povo Equipamentos de Proteção Individual (EPI’s), especialmente álcool em gel e máscaras protetoras, além de cestas básicas para reduzir a insegurança alimentar que se abateu na TI Lagoa Encantada. Um auxílio emergencial concedido pelo governo federal às pessoas de baixa renda também foi fundamental para minimizar os índices de vulnerabilidade econômica.

      Entre setembro e outubro de 2020, dada a diminuição do número de contaminados no Ceará, foi possível certa abertura e a rápida flexibilização na circulação de pessoas. Desse modo, os indígenas permitiram o reinício das atividades de turismo comunitário, com a entrada controlada para fins de visitação. No período, alguns grupos de visitantes foram recebidos respeitando-se as normas de segurança em saúde – higienização das mãos e distanciamento social, principalmente. Isso possibilitou a entrada de algum recurso financeiro na aldeia. Entretanto, o movimento crescente de pessoas gerou o aumento do número de infectados e o grupo reestabeleceu o isolamento no interior do território – fato semelhante ao que aconteceu em todo o país –, que experimentou uma queda no ritmo de disseminação da COVID-19 próximo ao fim do ano de 2020.

      Assim, entre novembro de 2020 e janeiro de 2021, a realização de atividades irregulares de turismo no território moveu os Jenipapo-Kanindé a mobilizações contínuas de impedimento à entrada de pessoas estranhas na aldeia Lagoa Encantada, fato que vinha acontecendo sem a consulta às lideranças e o atendimento mínimo às normas de segurança. Nesse momento, mais precisamente no início de 2021, surgiu o que ficou conhecido como “movimento da corda”, protagonizado pelos jovens e lideranças tradicionais.

      A ação consistia na colocação de uma corda e de uma faixa de sinalização informando a proibição da entrada de não indígenas. O fato é que o “movimento da corda” passou a designar, de forma mais abrangente, as diversas mobilizações que resultaram no erguimento de uma barreira sanitária no dia 25 de janeiro de 2021. Em 13 de fevereiro, os indígenas realizaram o bloqueio e a interdição dos dois principais acessos para o interior do território. Vários desses fatos ficaram registrados no perfil do povo Jenipapo-Kanindé na rede social Instagram.

      Por conta dos impactos psicológicos decorrentes da situação de isolamento social e da interrupção de suas práticas sagradas, a juventude Jenipapo-Kanindé decidiu manter a realização de duas importantes festividades do povo. Assim, no dia 20 de novembro de 2020 aconteceu a IV Festa do Mocororó e, em 09 de abril de 2021, a XXI Festa do Marco Vivo de Y-burana, consideradas momentos de fortalecimento espiritual, mantendo acesa a celebração e a tradicionalidade do povo. Ambas foram fechadas ao público externo e aconteceram de acordo com os protocolos de saúde, contando com transmissão ao vivo pela internet.

      O município de Aquiraz, onde está localizada a TI Lagoa Encantada, conforme Boletim Epidemiológico de 07 de abril de 2021, registrou 2.856 casos confirmados e 95 óbitos por COVID-19. Segundo o Informe Epidemiológico Diário de 6 de abril de 2021 realizado pelo Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Ceará, o Polo Aquiraz registrou, entre abril de 2020 e abril de 2021, um total de dois casos confirmados, já recuperados, entre os Jenipapo-Kanindé. Foram descartados 16 casos, sendo que na data de publicação deste boletim não há registro de casos suspeitos ou mortes por COVID-19 entre o povo. Até 15 de março de 2021, haviam sido vacinadas 255 pessoas (95,9%) com a 1ª dose e 241 pessoas (90,6%) com a 2ª dose, de um total de 266 pessoas adultas na TI.

      Até a conclusão desta nota, visitas guiadas, hospedagens, entrevistas, pesquisas, aulas e todas as ações presenciais se encontram suspensas na aldeia, sendo realizadas apenas atividades remotas, sem perspectiva de retomada do turismo comunitário. A escola, a pousada, o museu e a sede da AMIJK estão todos fechados. Um movimento mais recente e que resultou na entrada de recursos financeiros aconteceu por conta da aprovação de dois projetos culturais junto à Secretaria de Cultura do Ceará (SECULT-CE), por meio da Lei Aldir Blanc. Foram realizadas as obras de reforma do espaço físico do museu e da pousada comunitária, conjuntamente com a adaptação das trilhas ecológicas para a criação de um percurso que contará com mecanismos de acessibilidade para pessoas com necessidades diferenciadas de locomoção.

Os Tremembé da praia de Almofala

      Os Tremembé habitam três municípios localizados no litoral norte do Ceará: Itarema (onde está a praia de Almofala), Acaraú e Itapipoca, perfazendo situações etno-históricas e territoriais distintas, sob um passado comum que remonta a registros do século XVI que retratam o povo habitando uma vasta região da costa entre os atuais estados do Ceará e do Pará.

      Os Tremembé de Almofala mantêm perfis nas redes sociais Instagram e Facebook para divulgar o turismo comunitário que praticam. Segundo o Cacique João Venâncio, trata-se de um “turismo cultural” centrado em três expressões do povo: cultura, culinária e modo de viver. Os Tremembé não querem o “turismo capitalista” e empresarial, que em sua opinião atrai uma série de problemas sociais, como a prostituição e o uso de drogas. Optaram por um turismo feito do seu próprio jeito. Já para sua irmã, Maria de Jesus Sobrinho (Dijé Tremembé), parteira e agente de saúde indígena, o turismo convencional impacta de muitas formas a vida do povo, seu cotidiano, o meio ambiente e a própria saúde coletiva. Em sua visão, com o crescimento do turismo de massa, a tendência é de “fechamento” da praia para os indígenas, limitando o acesso ao mar, ao rio e ao mangue, fontes de subsistência, a partir das práticas tradicionais de pesca, coleta, caça e extração, prejudicando suas formas básicas de sobrevivência.

      Com a pandemia, o povo decidiu pelo fechamento da aldeia, mas sem o uso de placas indicativas ou medidas similares. A Escola Maria Venância teve suas atividades paralisadas. Mesmo quando grupos de pessoas entravam em contato com o grupo de turismo comunitário e/ou lideranças com a intenção de irem a Almofala, a tendência foi a de não marcarem visitação.

      Um dos primeiros desafios foi o controle do fluxo de pessoas na Aldeia da Praia – principal e mais conhecida localidade tremembé. As mudanças de hábitos tiveram que ser adotadas rápida e cotidianamente. Os próprios Tremembé passaram a evitar fazer visitas nas casas dos parentes no interior da área indígena, seja para uma simples conversa, seja para tomar um café ou fazer refeições em família. Esses momentos, quando realizados, passaram a acontecer com uma série de precauções e por meio de muita conversa para a compreensão dos perigos e cuidados advindos da situação. Isso revela o quanto a questão do “distanciamento” é complexa entre os indígenas, mesmo na área das próprias aldeias, por conta da existência de diversificadas noções de “isolamento”, de composições específicas dos núcleos domésticos, relações de parentesco e afinidade, dinâmicas territoriais, entre outras causas.

      Para Dijé, o turismo comunitário entre eles possui a importante e estratégica função de potencializar o reconhecimento do povo, evidenciando aspectos de sua cultura, costumes e tradições. A apresentação da realidade desde a ótica tremembé, além de possibilitar o conhecimento do território da comunidade em suas várias particularidades, que só eles podem demonstrar, gera uma fonte de renda extra para a juventude, responsável pela condução das atividades. Há um grupo de jovens que passou por formações em turismo comunitário, em parceria com organizações não-governamentais e entidades indigenistas. Eles acompanham os(as) visitantes no aldeamento, levando-os para conhecerem praias, lagoas e matas, locais que abrigam as práticas, memórias, saberes e conhecimentos ancestrais. Além disso, conduzem os visitantes às casas de lideranças para ouvir os “troncos velhos” contando as histórias do povo, como o Cacique João Venâncio e o Pajé Luís Caboclo. Com a interrupção no fluxo de turistas durante a pandemia, o grupo deixou de realizar essas ações.

      Segundo o cacique João Venâncio, a pandemia pouco impactou o fluxo do turismo convencional em Almofala. Não houve uma grande paralisação e, geralmente, as praias e os bares estão sempre lotados, com muita gente de fora. Para ele, com exceção dos Tremembé, os demais nunca tiveram essa consciência. Na percepção do cacique, alguns dos principais impactos no povo referem-se a dois fatos preponderantes: o primeiro deles é a questão do isolamento e da paralisação das atividades sociais e políticas, de turismo comunitário e das trocas e intercâmbios com amigos, parentes, além das ações do movimento indígena e no espaço escolar, que possuem um intenso calendário anual de atividades. O segundo impacto refere-se à existência de uma significativa quantidade de “troncos velhos” dentro do aldeamento, as pessoas mais idosas, com as quais há preocupação redobrada frente à ameaça de morte.

      O município de Itarema, do qual Almofala faz parte, registrou 2.612 casos confirmados de COVID-19, com 35 óbitos. Segundo o DSEI-CE, no município de Itarema, onde estão os Tremembé de Almofala, até o momento, foram confirmados 196 casos, com 7 infectados e 189 recuperados, com nenhum óbito registrado.

      Até o dia 15 de março de 2021, haviam sido vacinadas 1.746 pessoas (78,3%) com a 1ª dose, e 1.279 pessoas (57,4%) com a 2ª dose, de uma meta de 2.230 pessoas. O que chama mais atenção nesses números é a quantidade de pessoas que se recusaram a tomar a vacina, a mais alta em termos absolutos e percentuais dentre os povos indígenas no Ceará: 204 pessoas (de um total de 456 que se negaram em todo o estado até então).

      Atualmente, os Tremembé estão envolvidos em uma grande discussão interna: a divisão do povo em relação à adesão à vacinação contra o novo coronavírus. Segundo Dijé:

Uma parte do povo, tomando vacina, se vacinando, se protegendo. Outra parte do povo não, não porque são Tremembé, é porque tem religiões diferentes. Que fique bem claro isso, não é porque são Tremembé, não é porque não têm conhecimento. Têm conhecimento sim! É porque não conseguem sair duma religião, não é uma crença em Deus, não é um acreditar em Deus! É uma religião! Eu acredito no Pastor, eu acredito no Padre. Mas num Deus, eu não acredito?! Essa é a realidade dos Tremembé hoje.

      Segundo as lideranças, a polêmica em relação à vacinação se dá também devido à influência das igrejas evangélicas. A gravidade do fato é maior ainda em razão da disseminação de falsas notícias, dentre as quais sobre os efeitos colaterais vinculados ao ato de tomar a vacina que, principalmente, seriam de dois tipos: as pessoas que tomassem se transformariam em um jacaré (notícia bastante disseminada nas redes sociais a partir de uma declaração do presidente Jair Bolsonaro); e que, ao se tomar a vacina, inocula-se, por meio do líquido da mesma, um “chip” do demônio, o Satanás. 

Revisada e editorada por Daniela Perutti e Spensy Pimentel

 

Como citar: Gomes, Alexandre; Santos, Antonia e Marques, Janiel. Turismo Comunitário, impactos e estratégias de resistência entre os Jenipapo-Kanindé da Lagoa Encantada/Aquiraz e os Tremembé de Almofala/Itarema (Ceará). Plataforma de Antropologia e Respostas Indígenas à COVID-19, vol. 1, n. 5, jun. 2021. Disponível em www.pari-c.org. Acesso em dd/mm/aaaa.