Notícias de um ritual a’uwe: a iniciação dos wapté na TI Sangradouro

por Paulo Dumhiwe, Eduardo Monteiro, Amanda Horta, Maíra Taquiguthi
30 Junho 2021
Nota de Pesquisa


      Em março de 2021, a aldeia São José, localizada na Terra Indígena (TI) Sangradouro, estado de Mato Grosso, realizou, junto com outras aldeias da região, o ritual wapteb’ro do povo A’uwe. Este ritual prepara crianças e jovens para a vida adulta e os conduz ao hö, a casa dos solteiros. A força dos rituais, aliada ao uso de remédios tradicionais, têm papel importante na formação de pessoas saudáveis e atualmente ajudam os A’uwe a afastarem a COVID-19. Paulo Dumhiwe, pesquisador PARI-c, participou, fotografou e filmou a cerimônia em seus diferentes momentos, além de entrevistar anciãos, investigando de que modo o ritual dos wapté, jovens ainda não iniciados, contribui para a construção coletiva de corpos fortes, corpos a’uwe de verdade. Nesta nota, apresentamos alguns comentários sobre o ritual, acompanhados por fotografias.

      Conhecidos pelos não indígenas como Xavante, os A’uwe se organizam em metades exogâmicas, nas quais pessoas de uma metade devem se casar com as da outra metade. Também chamadas de clãs, elas são atravessadas por diferentes grupos etários. As relações de rivalidade e de cooperação entre essas diferentes divisões a’uwe são parte fundamental de vários eventos rituais que compõem o wapteb’ro, como a luta com bordunas oi’ó; o momento de entrega de enfeites rituais darõ e a corrida de toras de buriti chamada ubdö’warã. Todos esses eventos são muito importantes para fortalecer os wapté em iniciação.

      No ritual wapteb’ro, participam também grupos etários de homens mais velhos, que já passaram pela iniciação dos wapté anos atrás. Eles estão presentes nos vídeos e na fotografia desta nota de pesquisa. Os A’uwe se dividem em oito grupos etários comuns a ambas as metades exogâmicas. Os homens formados no último ritual de iniciação formam um grupo chamado Anarowa, que compete com os wapté na corrida de toras. Já o grupo anterior a este, mais maduro, chamado Nodzo’u, são os “padrinhos” (danhohui’wa) dos wapté, responsáveis por auxiliá-los e orientá-los. Ainda mais velhos, o grupo Abare’u tornou-se, no ritual passado, “padrinho” dos Anarowa, então jovens iniciandos, e agora se colocam como grupo oposto aos dos jovens wapté. Por fim, há também o grupo Etepá, que apadrinhou os Nodzo’u e participa do ritual do mesmo lado que os wapté. Essa estrutura se estende ao longo das gerações: grupos etários consecutivos rivalizam entre si nos rituais; grupos etários alternados, cooperam e apadrinham-se.

      Logo de manhã, a luta de oi’ó colocou em confronto duplas de jovens e crianças dos dois clãs a’uwe, chamados Poredza’õno e Öwawe.


Jovens do clã Poredza’õno caminham em direção ao centro da aldeia para lutar com as bordunas Oi'ó.

      Carregando bordunas feitas com a raiz dura da planta chamada oi’ó, os wapté lutaram contra os jovens adversários do outro clã, incentivados por todos em volta.

      Mais tarde aconteceu o momento ritual darõ, onde os membros do grupo Etepá, pintados com mesmo padrão usado pelos wapté, se apresentaram junto a embrulhos de fios de algodão, chamados de abadzi, e flechas. Estes são bens valiosos dos wapté. A flecha remete à caça e à guerra, já o algodão é usado para produzir ornamentos rituais.

     Após o darõ, o ritual seguiu com a corrida ubdö’warã, que trouxe grande movimentação e animação de todos os participantes, que se revezaram no carregamento de duas grandes toras feitas de tronco de buriti. Os wapté, seus padrinhos, e outras pessoas destes grupos etários, se uniram no grupo chamado Tsa’daro. Seus oponentes foram o grupo etário formado no último ritual de iniciação, Anarowa, que correram junto ao grupo etário de seus próprios padrinhos.

 


Corrida de toras de buriti ubdö’warã.

      No vídeo, vemos que cada tora está identificada por grandes letras, “Ts” de Tsa’daro, e “A” de Anarowa. Segundo os A’uwe, em momentos como esse, mesmo se perder a corrida, o grupo tem que ficar feliz, tem que cantar e se preparar mais para a próxima corrida de toras. Depois que a corrida acabou, foram realizados os cantos e danças das toras. Em seguida, as famílias dos wapté entregaram bolos tradicionais para os padrinhos, em agradecimento à sua participação no ritual. Os anciãos destacaram que deve haver harmonia para aquecer o corpo e espantar as doenças. Este é o conhecimento do povo A’uwe, do povo passado e do povo que ainda está vivendo, que faz ainda hoje esse ritual antigo.

      Assim aconteceu a iniciação dos wapté no mês de março, conforme conhecimento do povo A’uwe. Como contaram os anciãos da comunidade, a COVID-19 não mudou o ritual. Ele foi feito pensando na força do danhimité [Deus], benzendo para espantar essa doença que atrapalhou a vida normal de cada povo, não só no Brasil, mas em toda a América do Sul, na Europa, em todos os continentes. Assim, os A’uwe de Sangradouro fizeram o ritual depois de benzer e pedir ao danhimité. Para isso, conta Paulo Dumhiwe, é preciso ter a força e a crença de antes dos waradzu (não indígenas) chegarem, quando os A’uwe já faziam esse ritual. Ele não é como o remédio de laboratório. Desse modo, o danhimité escuta, para não haver qualquer problema com a doença.

      Para mais informações sobre este ritual, realizado em contexto anterior à pandemia, conheçam a pesquisa de Fábio Abdzu Ubre’a.

Revisada e editorada por Daniela Perutti

 

Como citar: Dumhiwe, Paulo; Monteiro, Eduardo; Horta, Amanda e Taquiguthi, Maíra. Notícias de um ritual a’uwe: a iniciação dos wapté na TI Sangradouro. Plataforma de Antropologia e Respostas Indígenas à COVID-19, vol. 1, n. 5, jun. 2021. Disponível em www.pari-c.org. Acesso em dd/mm/aaaa.