“A terra é mãe”: as retomadas de terra kaingang e xokleng na pandemia

por Ana Letícia Meira Schweig, Angélica Ninhpryg Domingos Kaingang, Geórgia de Macedo Garcia, Iracema Gãh Té Nascimento
30 Julho 2021
Nota de Pesquisa

 
       No Sul do país, em meio à pandemia de COVID-19, famílias kaingang e xokleng ocupam áreas que hoje são duas unidades de conservação ambiental. São as retomadas Kónhun Mág, incidente na Floresta Nacional (FLONA) de Canela, do povo Kaingang, e Konglui, do povo Xokleng, na FLONA de São Francisco de Paula (ambas no Rio Grande do Sul). Os indígenas passaram a acampar nesses territórios que eram moradas de seus ancestrais e agora reencontram seus parentes. Medidas governamentais vêm ameaçando seu direito ao território, reivindicado como potência de vida e continuidade das florestas e de seus povos. Assim, nesse texto abordaremos como as retomadas de terra exigindo a sua demarcação são também movimentos de acesso à saúde e medidas urgentes de contenção da pandemia entre os indígenas.

“Nossa retomada é sopro de vida”

        Em fevereiro de 2020, no mesmo mês em que houve o primeiro caso de COVID-19 no Brasil, o Cacique Maurício Salvador decidiu dar continuidade à luta de seu pai, Zílio Jagtyg. Após aguardarem por mais de dois anos o cumprimento de acordos, os Kaingang retomaram, pela quarta vez, a FLONA de Canela. Em dezembro do mesmo ano, no dia que completou dois anos do falecimento de Veitcha Teié, a cacique Kullung, filha de Veitchá, retomou a luta de seu pai. Junto a outras famílias xokleng, retornou ao local em que o pai nasceu, a FLONA de São Francisco de Paula. As duas áreas são reivindicadas como território indígena, com um histórico de esbulho, invasões e ação de bugreiros. É histórica a presença dos grupos Jê Meridionais na região Sul do país, como os Xokleng nos Campos de Cima da Serra, região onde o município de São Francisco de Paula está localizado, além da existência de vestígios arqueológicos e casas subterrâneas kaingang em Canela.

        "Nossa retomada é sopro de vida", dizia a nota publicada pelo Conselho de Missão entre Povos Indígenas (COMIN) e escrita pelos guerreiros xokleng de Konglui diante da decisão da Justiça Federal de conceder reintegração de posse da área que as famílias ocupavam. No mesmo mês em que o espaço foi retomado, a Justiça Federal, com uma celeridade que raramente é vista em decisões em prol dos povos indígenas, determinou a reintegração de posse do local. A Polícia Federal emitiu ofício comunicando que, frente à pandemia, o ideal seria adiar esse ato, o que não foi acatado. Com isso, as famílias xokleng passaram a acampar na beira da estrada. Foi apenas uma batalha dessa luta que continua e que acontece pela vida, como diz Kullung: "não estamos aqui porque queremos, mas estamos atendendo a um chamado dos espíritos".

        O retorno a esses territórios é realizado junto aos ancestrais, parentes e apoiadores. Konhún Mág (Erva Grande), referente à presença de ervais na região, é o nome do território reivindicado pelos Kaingang. A FLONA de Canela foi criada em 1946, com o objetivo de preservar as araucárias, já ameaçadas de extinção pela intensa exploração de madeiras. Foram os tataranetos do cacique Nicué, conhecido como João Grande, que retornaram para a região.

        Ao escrever essa nota, observamos as tantas similaridades dessas duas lutas. Se por um lado, o governo federal parece proteger essas florestas, uma vez que ambas são áreas de proteção ambiental, por outro, também promovem a sua privatização. Ao mesmo tempo em que se alega que, por se tratar de Unidade de Conservação (UC), não seria compatível com a presença dos indígenas, negociam sua exploração econômica junto a empresas. Essas áreas se assemelham na luta pela continuidade da força daqueles que já partiram e da vida daqueles que aqui estão. É nesse sentido que, em pedido de apoio, os Xokleng escrevem:

Estamos aqui porque nossos ancestrais estiveram, e queremos que nossos filhos continuem vivos, e vivos com vida, e para nós vida é território. Para que possamos ter nossa cultura, nossos modos de ser e viver. Se você defende a vida, a dignidade humana, nos apoie, pois quando você nos apoia e nos defende está também defendendo a mata, os rios e todas as formas de vida presentes, às quais você também depende.

        Quando falamos em “retomada” e “luta”, essas palavras possuem um entendimento muito profundo. Evanice Kutá, professora de Kaingang, nos auxilia em possíveis traduções: Êg tu pê vyn mãn “pegar de volta o que é nosso”, ou Jagnê mré vãsãn êg ga tu “nossas lutas pela terra é coletivo”, pois lutar pela mãe terra envolve um pensamento coletivo e não individual. Iracema explica em Kaingang que “retomar é voltar para nossa casa”, e “lutar” também se relaciona com a terra:

Vamos de volta para nossa casa. As pessoas que já se foram para o encantado e moram nesta terra. Nós sonhamos com eles [encantados] e eles nos falam que é lá nossa casa. Os pensamentos dos encantados que deixaram a gente nesse lugar. Então, eles falam para a gente, nos nossos sonhos, que temos que voltar.
[...]
Lutar, nosso, é falar a voz da natureza. Cavam, exploram, botam venenos. A luta é deixar a natureza viver. Nós somos a voz dela, ela nos deixa brincar, cantar e dançar no colo dela. Luta é saber o que a mãe terra quer dizer. Os encantados que mostram para a gente seguir [a luta]. Alguns filhos da terra estão perdidos no escuro, e a gente tem que mostrar a luz, por isso é luta.

"Eles mesmos que escrevem as leis, mas não entendem"

        Durante a pandemia de COVID-19, em que os povos indígenas são apontados como os mais vulneráveis, os não indígenas poderiam considerar arriscado o movimento de viver em acampamentos, enfrentando o frio, as chuvas e a pandemia. No entanto, o reencontro com o território ancestral, a possibilidade de ouvir os encantados que estavam na terra, estar junto dos rios, araucárias, comer as comidas tradicionais, usar os “remédios do mato” e estar junto com os parentes constitui um movimento em prol da saúde dos Kaingang e dos Xokleng.

        Estar junto dos parentes para reivindicar territórios, saúde e vida é o que ocorreu no Levante pela Terra, um acampamento que reuniu centenas de indígenas de diversos povos,  em frente ao Congresso Nacional (Brasília), por mais de 20 dias. A mobilização buscava barrar uma série de medidas que colocam em risco os direitos indígenas, principalmente territoriais, como o julgamento da legalidade da Terra Indígena (TI) Ibirama La-Klãnõ/Xokleng pelo Supremo Tribunal Federal e o Projeto de Lei 490/2007, que fragiliza a demarcação de terras indígenas, aprovado na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara dos Deputados (CCJ).

        “Eles mesmos escrevem as leis, mas não entendem”, diz Iracema. Não entendem que a terra é vida. Não entendem que adoecem porque agridem essa vida. Se por um lado a destruição parece avançar, por outro, as retomadas também prosseguem gerando e recuperando a vida.

        Vida e morte estão entrelaçadas em união, como nos narra o escritor indígena Ailton Krenak em A Serpente e a Canoa. A imagem da serpente que come o próprio rabo nos mostra o eterno ciclo de nascimento, morte e renascimento. A narrativa de chegada de uma serpente cósmica que trouxe a vida que compartilhamos para a terra está presente em muitos mitos de origem de diversas culturas. A narrativa de Krenak mostra o DNA como duas serpentes entrelaçadas. A bactéria, o peixe, o tiranossauro, a onça, o gato, a formiga, a rosa, o jacaré, a capivara, a erva mate, a araucária, os Kaingang, os Xokleng, os não indígenas: todos têm o DNA formado pelas mesmas quatro letras, mas com textos diferentes. Assim, incontáveis serpentes duplas estão dentro de cada ser vivo. Somos todos vida e morte. Somos todos um ciclo. Somos todos terra, pássaro, árvore. Somos todos os nossos ancestrais. O movimento das retomadas nos ensina sobre esse tema da vida entrelaçada, mas se os não indígenas não conseguem sequer entender e respeitar as suas próprias leis, como entenderiam este alerta? Iracema apresenta ainda mais questionamentos:

Nós temos que pensar bem na terra. A gente protege ela de um lado e do outro querem desmatar ela. Cada conversa que escuto nas reuniões, passeatas, eu me pergunto: o povo quer ficar num deserto? Só querem botar veneno na terra... e quando ela não der mais alimento? Tem uns que tem jeito de ir buscar em outro país, mas e os outros que não têm? Não pensam.

Saúde no colo da mãe terra

        Como mencionado, as duas terras reivindicadas pelos Kaingang e Xokleng ficam em áreas de FLONA, Unidade de Conservação Ambiental de Uso Sustentável conforme classificação do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC). Os planos de manejo de ambas as reservas não incluem a possibilidade de ocupação e manejo indígena. O plano de manejo da FLONA de Canela admite a histórica presença indígena na região em vista dos artefatos arqueológicos ali existentes, no entanto, ela é tratada como algo do passado. Já o plano da FLONA de São Francisco de Paula não faz nenhuma menção aos povos originários, de reconhecida presença histórica no local, cujos descendentes possuem interesse em ocupar e preservar a área.

        Em entrevista, o cacique Saci, importante liderança do Sul do país, afirma que a preservação ambiental está diretamente ligada às demarcações de Terra Indígena (TI): “As matas estão sendo destruídas e envenenadas com agrotóxicos. [...] Nós somos contra o envenenamento da terra porque nela tem vida”. O relatório publicado pela Organização das Nações Unidas (ONU), em março de 2021, reafirma o que os povos indígenas falam há séculos: as taxas de desmatamento em TIs demarcadas são menores, sendo os povos indígenas os melhores guardiões das florestas da América Latina e do Caribe.

        No dia 19 de abril de 2021, dia dos povos indígenas, o Conselho do Programa de Parcerias de Investimentos (CPPI) aprovou a concessão à iniciativa privada das FLONAS de Canela e São Francisco de Paula mesmo sabendo se tratar de áreas com presença indígena. No Atlas Socioeconômico do governo do estado do Rio Grande do Sul de 2020, constam duas TIs Xokleng em estudo no município de São Francisco de Paula, e uma TI Kaingang em estudo em Canela. As lideranças das retomadas se perguntam quais são os interesses de apressar a concessão das florestas, ignorando os anos de luta e reivindicações.

        Em nota técnica preliminar envolvendo aspectos etnohistóricos e socioambientais da retomada indígena xokleng Konglui na Floresta Nacional São Francisco de Paula/RS, a liderança Woie, filho de Kullung, fala sobre como a terra é uma mãe para o povo Xokleng, e portanto não deveria ser tratada dessa forma: “mãe não se vende, mãe não se troca, mãe não se privatiza!”. É também mãe para os Kaingang, como nos ensinou Iracema: "A terra é nossa mãe. A gente tem que cuidar dela. Fazer carinho nela. E ela vai cuidar da gente".

Iracema Gãh Té, filha de Peni, luta pela recuperação e cuidado com o território desde a infância. Leva consigo as lutas e sonhos de seu pai, liderança que, junto a Ângelo Kretã e Nelson Xangrê, expulsavam posseiros e madeireiros de áreas indígenas do Paraná, na década de 1970, retomando territórios em plena ditadura militar. Hoje, Iracema Gãh Té é kujá (liderança espiritual/xamã), kofá (anciã), parteira, liderança e pesquisadora da PARI-c, que segue aconselhando e cuidando de seus parentes nos territórios:

No livro [em referência à Constituição Federal e à Bíblia] que eles escreveram: na terra que existe todas as coisas, os bichos... nela que é para conviver junto. Está escrito isso. É para cuidar, está escrito isso. Daí me pergunto por que para nós é fácil de entender a terra? É porque ela traz a vida. Alimenta a vida. Por que eu digo isso? Porque o que tu plantas nela, ela dá, e com isso tu se alimenta, fica forte, tu cresces. E através disso é considerada a mãe.

Quando a mãe carrega um filho na barriga, alimenta. Quando ela ganha ele, ela alimenta ele, ela dá o seio para mamar, cuida dele até quando ele cai e se machuca, ela cuida dele. E tudo isso a terra oferece para nós. O seio dela é a água. As medicinas que existem nela, quando a gente se machuca, ela dá para tratar. As frutas que têm nela, a gente come, as saladas, a carne. Não precisava nem plantar, já tem tudo ali! Me pergunto: por que esse pensamento é fácil da gente entender a natureza? Outros povos estão tentando entender, mas está tão difícil. [...]

Essas retomadas têm ainda um pouco de mato, têm o chão que tu podes pisar, têm os rios que correm nela que ainda tu podes se jogar sem medo. Então, por isso essa retomada, não é por acaso que aconteceu. As retomadas como Canela e São Francisco, nós já estávamos lá dentro. Quando se pisa nele sem calçado, tu se sentes assim [em] contato com a natureza, com a terra. É muito bom. Por isso nossos kofá duravam cento e poucos anos, antes da poluição, de acontecer os desmatamentos. Hoje a gente com 80 anos já pega doença porque enfraquecemos nossa alimentação e o espiritual. Na aldeia, quando tinha mato intacto nós tínhamos folhas, saladas, tínhamos todos os remédios que deixavam no rio para as crianças passarem quando acordam de manhã no rosto, nas pernas… e isso nós não temos mais por falta de mato, que nos foi tirado. Esse mato que estamos retomando, é para esticar isso, é para mostrar para as crianças que estão nascendo, que estão crescendo.

A luta de retornar para o nosso umbigo”

        O umbigo de Vetchá, pai de Kullung, está enterrado na área retomada. Alguns povos indígenas têm a prática de enterrar o umbigo na terra como uma forma de vincular sua existência ao território. Vetchá teve que deixar sua casa para sobreviver por causa da perseguição de bugreiros, mas sua filha e netos retornaram. Mulheres Kaingang também enterram os umbigos de seus filhos na terra. São nesses locais que devem retornar ao final da vida. São nas terras de seus avós, bisavós e tataravós que tanto lutaram para a sobrevivência de seus descendentes, que as lideranças desejam que seus filhos e netos cresçam. É nesse encontro que a vida é garantida. Não só a vida dos indígenas, mas também a dos não indígenas. “Quando nasce uma criança na aldeia, a gente faz festa, é uma vida que nasce. Todos os parentes se reuniam naquele divertimento”, diz Iracema. Se não fosse a COVID-19, muitos parentes se reuniriam para festejar durante dias.  Falar de retomadas dos territórios é ter a oportunidade de as crianças viverem saudáveis e felizes, do mesmo modo que seus kofá e ancestrais.

        A terra é vida. Todos os seres: nós humanos, as árvores, a água, os cachorros, os gatos, a grama, são compostos pelas mesmas células de DNA. As mesmas quatro letras, combinadas de formas diferentes. O que nos diferencia deles? Porque não cuidar da terra, como cuidamos dos nossos filhos? Dos nossos parentes? Cientistas indígenas gritam junto à terra, buscando alertar aos não indígenas que esses cuidados são uma questão de vida e continuidade.

        "Se o Brasil tivesse o mato que tinha, nós não íamos pegar essa doença [COVID-19]", pontua Iracema em reunião dos pesquisadores da PARI-c. As retomadas são vários pontos espalhados pelo território brasileiro, onde indígenas em movimento se mobilizam para cuidar de um pedaço da nossa grande mãe. Para essas famílias indígenas do Sul do país, o maior risco à saúde é ficar sem acesso à sua mãe terra, portanto, uma medida urgente num contexto pandêmico. Lutar pelo território é a resposta dos Kaingang e Xokleng para a continuidade da vida. É com a terra demarcada que se acessa o território, e através do território que se faz saúde e vida.

Fotos de Lucas Icó da retomada Konhún Mág. Dezembro de 2020
Fotos de Lucas Icó da retomada Konhún Mág. Dezembro de 2020
Fotos de Lucas Icó da retomada Konhún Mág. Dezembro de 2020
Fotos de Lucas Icó da retomada Konhún Mág. Dezembro de 2020
Fotos de Lucas Icó da retomada Konhún Mág. Dezembro de 2020
Fotos de Lucas Icó da retomada Konhún Mág. Dezembro de 2020
Fotos de Lucas Icó da retomada Konhún Mág. Dezembro de 2020
Fotos de Lucas Icó da retomada Konhún Mág. Dezembro de 2020.
Fotos de Lucas Icó da retomada Konhún Mág. Dezembro de 2020
Fotos de Lucas Icó da retomada Konhún Mág. Dezembro de 2020
Fotos de Lucas Icó da retomada Konhún Mág. Dezembro de 2020



 

 

 

 

 


Uri Keve / Tenonde Verã Ma Ay / O Futuro É Agora - Projeto de pesquisa e desenho da pandemia da COVID-19 para os povos Kaingang e Guarani Mbyá no Sul do Brasil, por Lucas Icó.

Revisada e editorada por Daniela Perutti

 

Como citar: Schweig, Ana Letícia Meira; Ninhpryg, Angélica; Kaingang, Domingos; Garcia, Geórgia de Macedo; Nascimento, Iracema Gãh Té.A terra é mãe”: as retomadas de terra kaingang e xokleng na pandemia. Plataforma de Antropologia e Respostas Indígenas à COVID-19, vol. 1, n. 6, jul. 2021. Disponível em www.pari-c.org. Acesso em dd/mm/aaaa.