O grande pajé que conheceu o futuro. Reflexões de Tuiat Kaiabi sobre a COVID-19 e as mudanças climáticas

por Tuiaraiup Kaiabi, Kujãesage Kaiabi, Rodrigo Brusco
30 Julho 2021
Nota de Pesquisa

 
       Tuiaraiup Kaiabi, mais conhecido como Tuiat, é uma importante liderança do povo Kawaiwete. Anteriormente conhecidos como Kaiabi, os Kawaiwete vivem hoje, em sua maioria, no Território Indígena do Xingu (TIX), no estado do Mato Grosso. Ao lado de Mairawe Kaiabi, Tuiat é um dos "grandes caciques" (wyriararete) de todo o povo Kawaiwete. Depois de ser muito afetado pelo espírito de um peixe durante toda a juventude, Tuiat teve de virar pajé para evitar sua morte prematura. Foi ensinado na arte da pajelança por seu pai, Prepori.

        Como grande pensador, Tuiat apresenta diversas especulações xamânicas sobre a “origem” das mudanças climáticas, dos terremotos e de outros cataclismos. Em suas viagens em sonhos, é capaz de ver o surgimento desses fenômenos, bem como conversar diretamente com os espíritos responsáveis por engendrá-los por meio de ações variadas. Neste relato, Tuiat associa a COVID-19 às mudanças climáticas, atribuindo seu conhecimento sobre o assunto aos ensinamentos de seu pai, Prepori, falecido no ano 2000, mas que até hoje ajuda o filho em seus trabalhos como pajé, atuando como seu companheiro ou espírito auxiliar.

        O depoimento oral de Tuiat foi gravado na língua kawaiwete em maio de 2021. A tradução foi realizada por Kujãesage Kaiabi e revisada por Rodrigo Brusco, ambos pesquisadores PARI-c. Os comentários ao depoimento ao longo do texto decorrem de conversas entre Kujãesage, Rodrigo e Tuiat e visam a esclarecer o leitor sobre alguns pontos cruciais do relato.

Reflexões de Tuiat Kaiabi

Pois bem, desde o começo da pandemia no mundo, nós chamamos de asirara o animal que o espírito feiticeiro fez como coronavírus. O cheiro dele está se espalhando no mundo. Não era para chegar onde moramos, mas as pessoas estão viajando para fora do Brasil. Até mesmo a gente! Por isso essa doença foi trazida até o Brasil, e hoje estamos sofrendo com essa gripe mortal. As pessoas que trabalham com os povos indígenas, as organizações como FUNAI [Fundação Nacional do Índio], SESAI [Secretaria Especial de Saúde Indígena], Associação Terra Indígena do Xingu (ATIX) e Instituto Socioambiental (ISA), essas instituições estão fazendo documentos para que os povos indígenas não saiam para a morada dos brancos. “É para permanecer na sua aldeia!” Mas nós não obedecemos, por isso o vírus entrou no Território Indígena do Xingu. O vírus está matando os caciques, matando nossas mulheres. Então essas coisas que eu estou vendo são muito ruins para mim. Bom, somos muitos aqui no Xingu, os pajés poderiam se juntar, se reunir para falar sobre isso, falar das nossas medicinas, fazer tratamento contra a COVID-19. Assim, com nosso tratamento, nada disso iria acontecer. Com nosso tratamento todos nós ficaríamos bem. Mas não estamos fazendo isso, nós estamos deixando a COVID-19 levar a vida das pessoas.

        Na primeira parte do depoimento, Tuiat conta sobre a origem da COVID-19, usualmente chamada em língua kawaiwete de jera'u tyweruu (literalmente "doença ruim/feia"). A COVID-19 tem origem no fétido cheiro de animais monstruosos, conhecidos na língua kawaiwete como asirara. Esses animais aparecem como pequenas criaturas voadoras que se assemelham a cigarras ou serpentes – são descritas como moia owewe ma’e (cobra voadora). Essas criaturas outrora existiram no Xingu, mas hoje dificilmente são ali encontradas. Um espírito feiticeiro (mama’e muangiat), que se chama Takapeyrupyat e que vive na direção do nascer do sol, utilizou-se do cheiro desses asirara para fazer a COVID-19 e espalhá-la pelo mundo. O desmatamento do local onde vive esse espírito deu origem à sua decisão de espalhar o fedor dos animais, contaminando assim os seres humanos. Segundo Tuiat, a doença poderia ser facilmente enfrentada se todos os pajés do Xingu agissem conjuntamente contra esse espírito. Porém, não é isso que ocorre.

Então é assim que eu vejo a doença, eu a vejo com o conhecimento do meu pai, pois penso por qual motivo essa doença está nos matando, tirando a vida de jovens. Penso em tudo isso. Eu falo que não poderia ser assim! Os conhecedores não poderiam fazer essa doença para nós, fico dizendo isso para mim mesmo. Estamos sofrendo as consequências, essa doença me deixa muito triste. Quando chega na nossa aldeia, penso nos nossos filhos, penso nos nossos anciãos que estão morrendo, nossas anciãs que estão nos deixando. Aqueles que ainda estavam com vida, hoje estão sendo vítimas da COVID-19. Para nós aqui, eu digo para meus filhos para tomarem banho com folha cheirosa, tomar algumas ervas do mato. “Assim tentamos nos proteger da pandemia”, digo isso para meus filhos, desde que começou a pandemia de coronavírus estamos conversando sobre isso. Até agora. Quando o homem branco fala que essa pandemia não tem tratamento, eu digo para meus filhos que talvez exista tratamento para a COVID-19 no conhecimento do nosso povo. Todo dia nos reunimos para falar sobre isso.

        Ao sublinhar que a COVID-19 tem tratamento, Tuiat manifesta opinião comum a muitos Kawaiwete: os banhos com ka’akasing, literalmente “mato cheiroso”, atuam para proteger os corpos e deixá-los mais fortes contra o fedor que causa a doença. A ingestão de remédios amargos do mato também ajuda na prevenção e na cura da COVID-19.

Hoje eu vejo as coisas assim. Quando meus filhos me perguntam se as coisas também eram assim no passado, como está acontecendo agora, digo: “Avô de vocês era o grande pajé Jywaita, esse avô de vocês foi assim, como ele era pajé, meu pai, então ele falava para nós: ‘enquanto eu estiver vivo, as mudanças climáticas, como a quentura de Sol, serão poucas. Porém, quando eu não viver mais entre vocês, aí as coisas vão se complicar, vocês verão isso acontecer e irão lembrar que eu falava a verdade’”. Assim ele contava, por isso hoje eu fico lembrando de tudo que meu pai dizia, sobre cada coisa que está acontecendo em nossa vida e no mundo. Com todo esse sofrimento, eu fico lembrando que meu pai já dizia que isso iria mesmo acontecer, porque ele foi grande pajé, ele já tinha a visão sobre essa doença e hoje estou lembrando de tudo o que ele falou. Ele falava que tudo aquilo que está acontecendo iria de fato acontecer. E que iríamos nos lembrar dele quando isso acontecesse. “Vocês vão se lembrar de tudo isso quando sofrerem com isso”, foi dito por ele.

        Tuiat se refere a seu pai pelo nome de Jywaita, "braço de pedra". Contudo, ele foi mais conhecido pelo nome de Prepori, que lhe foi dado por não indígenas a partir da adaptação ao português de outro nome pessoal que portava. Prepori foi reconhecidamente um dos maiores pajés do TIX, tendo também desempenhado um papel fundamental nas lutas políticas que permitiram a demarcação do território.

“Você vai me ver como pajé, aí se lembrará de que falei isso para você. Com as mudanças climáticas vocês vão falar isso e lembrar de tudo o que falei”. Com os ensinamentos do meu pai, fomos praticando esse conhecimento, olhando para essas coisas, vendo essas coisas acontecendo com a gente. Vendo isso, quando há casos de gripe leve por aqui, nós banhamos nossos filhos com erva do mato. Além disso, peço para minhas noras e minhas filhas banharem seus filhos com erva. Está claro que meu pai sempre pediu para eu seguir esses cuidados com a família, olhando para todas essas coisas. Por isso sigo esses cuidados conforme meu pai me pediu, cuidando sozinho dos meus filhos, igual a como ele cuidou de nós. Hoje me lembro de tudo que meu pai falava, lembrando de cada coisa e cada coisa acontecendo com a gente.

Atualmente, vocês percebem as mudanças climáticas, a quentura de Sol [Kwat, que entre os Kawaiwete aparece como um espírito]. “Ora, assim vai acontecer futuramente, os não indígenas vão entrar no território de vocês, vão invadir a terra. Os não indígenas virão com maior produção de lavoura, então destruirão as matas. Se eles fizerem isso, eles próprios sofrerão com as consequências da quentura de Sol, isso vai aparecer no futuro para vocês”. Era dessa forma que meu pai falava sobre essas coisas, então tudo isso está acontecendo do jeito que meu pai contava, e ele pediu para não nos esquecermos de tudo o que ele falou para nós. Meu pai contava isso porque ele era grande pajé e ele conheceu o futuro. Por isso, hoje fico vendo isso, tudo que meu pai falava. “’Se o céu não cair, talvez vocês sofram com as mudanças climáticas, com a quentura de Sol; se a quentura de Sol não deixar vocês sofrerem, vai secar a água’, é isso que os donos dessas coisas estão dizendo”. Foi assim que meu pai contou a nós: “Se forem destruídos todos esses matos, Sol vai ficar mais quente. Se as mudanças climáticas começarem, pode ser que não haja mais noite, pois Sol vai ficar no meio do céu, vai parecer que é meio-dia. Só que Sol não vai mais andar, vai estar como foi no passado, aí vocês sofrerão com isso”.

        Após discutir a importância dos ensinamentos de cuidado deixados por seu pai, Tuiat cita diálogos dele com Sol e com o espírito-dono da chuva. Prepori associa o fim do mundo às ações dos não indígenas, relação frequentemente traçada por Tuiat quando apresenta suas próprias especulações xamânicas. Tuiat ainda menciona o início dos tempos, quando o Sol ficava o tempo todo no centro do céu, demonstrando que o fim deste mundo está intimamente associado ao seu início. A tradução por “mudanças climáticas” de três expressões em Kawaiwete – takuway, ararakup e arat japyru – é uma opção do próprio Tuiat. Takuway refere-se à “grande quentura”, já ararakup quer dizer “dia/clima quente”, enquanto arat japyru diz respeito ao “dia virado”, “clima mudado”. 

Vendo isso, fico lembrando que o tempo vai voltar a ser como foi antes, o tempo está fazendo sofrer. Está vendo a chuva? O tempo da chuva também mudou, cada coisa que está acontecendo já foi falada pelo grande pajé. Por isso não está chovendo no tempo certo. Com essa época errada da chuva nós estamos sofrendo, a chuva demora para chover, chove em época errada, mas não chove normal. Isso está acontecendo conforme o pajé contava, e hoje eu estou contando ao público. Eu falo. Então é verdade que os pajés conheciam essas coisas, e eu fico sofrendo com isso. As coisas estão assim. Tudo que o pajé falou do futuro, nós estamos presenciando: a quentura, a chuva que não chove no tempo certo. Para pajé parece um sonho, então pajé tem que ver bem as coisas que vão acontecer no sonho. Por fim, pajé não pode contar as coisas de qualquer jeito. Eu estou contando tudo isso, pois assim deixarei tudo registrado para meus netos.

Se os não indígenas pensassem, eles iriam pensar em plantar árvores nas cabeceiras dos rios, ou em qualquer lugar, assim nós nos protegeríamos da quentura de Sol. Eu sempre falava isso só para mim mesmo, mas agora eu estou falando isso para todos. É isso que eu tenho para falar sobre o assunto, deixo registrado e quero que minha fala seja traduzida para o português para todos entenderem.

Revisada e editorada por Daniela Perutti

 

Como citar: Kaiabi, Tuiaraiup; Kaiabi, Kujãesage e Brusco, Rodrigo. O grande pajé que conheceu o futuro: reflexões de Tuiat Kaiabi sobre a COVID-19 e as mudanças climáticas. Plataforma de Antropologia e Respostas Indígenas à COVID-19, vol. 1, n. 6, jul. 2021. Disponível em www.pari-c.org. Acesso em dd/mm/aaaa.