Santo Antônio: uma comunidade kokama esquecida em meio à pandemia

por Greiciane dos Santos Melo
30 Julho 2021
Nota de Pesquisa


       Santo Antônio é uma comunidade indígena kokama pertencente ao município de Benjamin Constant, Amazonas, composta por 280 famílias e seus pequenos patrimônios. Dentre eles, estão a casa de reunião, para tratar de assuntos da vida comunitária; o “postinho” de saúde, construído com ajuda de missionários norte-americanos o qual, devido à carência de profissionais de saúde, passa a maior parte do tempo fechado; e a Escola Municipal Capitão Avelino Nogueira, onde as crianças estudam e aprendem a ler e escrever. Também estudei nessa escola e, por isso, sou muito agradecida e quero retribuir à minha comunidade. Há também na comunidade o templo religioso da Igreja Evangélica Assembleia de Deus, de grande importância para o nosso povo, onde muitos se reúnem para fazer seus rituais – uma forma de estarem bem com Deus. Por fim, está sendo construída, em regime de mutirão comunitário, uma pequena casa de artesanato, na qual cada morador que souber fazer algum artesanato identificado ao povo Kokama vai poder trabalhar e comercializar seus produtos para “ganhar um dinheirinho”.

        Quando nos encontramos na casa de reunião, o assunto mais tratado pelo cacique Romário – indígena kokama de 37 anos, casado com uma mulher também kokama – foi o de como o nosso povo vive sempre a depender de outros. Não temos terras demarcadas para plantar em segurança a nossa banana, a nossa mandioca, o milho e o feijão, que são nossas únicas fontes de renda, porque não tivemos o reconhecimento das autoridades e isso nos deixa mais aflitos.

        Vivemos nas proximidades do povo Tikuna de Filadélfia (pertencente à TI Tikuna de Santo Antônio), comunidade da qual somos totalmente dependentes tanto na área da saúde como da educação. Nessa comunidade, funciona o posto de saúde que atende a maioria dos indígenas kokama da comunidade a que pertenço. Porém, por sermos de outra etnia, nunca somos tratados adequadamente pelos profissionais de saúde e sempre somos os últimos a receber atendimento, pois os funcionários dizem que temos que esperar os moradores de Filadélfia serem atendidos primeiro. Isso leva a que muitos Kokama deixem de procurar atendimento. Já fizemos várias reclamações, mas no final nós é que somos prejudicados. Por sermos de outra etnia, não falarmos mais a nossa língua materna, nunca somos tratados de uma boa forma, e os profissionais de saúde alegam que não somos índios.  Infelizmente, tudo isso já acontecia antes da pandemia, mas com ela, tudo piorou e as pessoas se refugiaram nas igrejas.

Como a comunidade kokama de Santo Antônio lidou com os desafios da COVID-19?

O primeiro caso a chegar em nossa aldeia

        No início, sentíamos estar muito distantes dessa doença mortal, ouvíamos falar, mas parecia que isso não nos afetaria. O nosso maior medo era que chegasse em Manaus, pois caso isso ocorresse, nos alcançaria. Isso porque os barcos que trazem mercadorias para os municípios da região têm contato com os moradores de Benjamin Constant em geral.

        Porém, a verdade foi muito diferente do que pensávamos. Alguns dias após as primeiras notícias, ouvimos falar que havia uma senhora, de aproximadamente 45 anos, que estava muito mal e com muita febre. Logo a transferiram para o Hospital de Guarnição de Tabatinga, e lá ela foi a óbito sem que soubéssemos que estava com COVID-19. Esse foi um dos primeiros casos que ocorreram aqui na região, e foi assim que ficamos sabendo do primeiro contágio. Logo soubemos de vários outros em cidades próximas. Cada vez chegava mais perto de nós.

        Mesmo na aldeia, tínhamos que ir à cidade, comprar itens essenciais como remédios, alguns alimentos, produtos de higiene e limpeza – como açúcar, café, sabão, dentre outros. Além disso, era preciso buscar o auxílio do Programa Bolsa Família na data estipulada pelo governo federal. Contudo, no início da pandemia, a prefeitura adotou medidas que restringiam a nossa circulação: colocou barreiras no rio e os guardas municipais impediam, a todo custo, a nossa ida à cidade. Se desobedecêssemos às suas ordens, tínhamos as nossas canoas e motores apreendidos.

        Aconteceu então de as autoridades pedirem para os caciques tomarem as devidas providências. Na nossa comunidade, o povo estava com muito medo, tanto que acatou a ordem dada pelo cacique Romário e não saiu mais. Lembro que as autoridades disseram que os índios poderiam sobreviver comendo apenas banana e peixe, e isso sem dúvida foi verdade, pois conseguimos viver por vários meses assim. Mas as autoridades perderam todo o controle conforme se prolongava o tempo de pandemia. Por mais que as aldeias não permitissem a saída de seus moradores, chegavam pessoas de fora na comunidade, a exemplo das prestanistas, que vendiam suas mercadorias e tinham acesso livre para circular, realizando a cobrança dos pagamentos das dívidas dos moradores. Elas foram as que mais infectaram a população.

        Com o passar do tempo, com tantas perdas e sem saber o que fazer, as pessoas recorreram aos remédios caseiros e isso foi o que realmente ajudou. Pois, em meio a uma pandemia, com pessoas morrendo, ainda éramos humilhados quando procurávamos ajuda e atendimento.

Comidas e festas que nos faziam sorrir, de longe víamos o sorriso no rosto

        Escrevo aqui algumas lembranças dos momentos felizes da época anterior à pandemia, e uma delas eram as nossas festas culturais. A comunidade esperava por esses momentos, por exemplo, em 19 de abril, dia dos povos indígenas, aproveitávamos para pensar e refletir sobre a nossa luta e resistência. O povo Kokama se reunia para dançar, preparar e consumir comidas típicas, como peixe assado, banana madura assada, açaí, pororoca (mingau preparado a partir de banana madura, em que são necessários dois dias para o seu cozimento à lenha) e a caiçuma (bebida fermentada de macaxeira), pois esses são os nossos pratos preferidos. Também gostamos muito de jacaré assado na brasa, peixe bodó e assim vamos comendo e jogando conversa fora. Enfim, é um momento muito bom e alegre em que os moradores se divertem também com banhos no rio e diversas brincadeiras que temos.

        Com o avanço da pandemia, acabou nossa felicidade, pois não vivemos mais como antes. Não podemos mais sorrir sem sentir medo. Quando vamos à cidade, as pernas chegam a tremer com medo de infectar alguém da comunidade, da minha querida comunidade.

        Assim, fomos nos adaptando a esse novo método de vida que começou de uma hora para outra. Tivemos que mudar nossos hábitos e costumes, aprender como viver isoladamente no meio das pessoas, dos nossos parentes, os quais amamos. Já imaginou você estar acostumada a correr, brincar, a ter um sorriso no rosto e, de repente, esses sorrisos se transformarem em gotas de sangue? Porque começamos a ter perdas e mais perdas, já não sabíamos em quem confiar, pois tínhamos medo de chegar perto, medo de sair na rua, medo de tudo. O povo, que vivia feliz, agora achava que estava no fundo do poço.

Em meio ao choro, recorremos às crenças

        Nossa comunidade vive hoje um momento muito difícil. Seus moradores foram bastante infectados, principalmente os mais idosos da nossa aldeia ou aqueles que têm algum tipo de doença, ou que têm o imunológico muito baixo. Esses sofreram muito na minha aldeia, e quando a doença começou a se alastrar, vieram os óbitos, e foram vários óbitos, tanto na minha comunidade como na vizinha, Filadélfia. No início, não sabíamos o que de fato acontecia, os moradores achavam ser uma gripe normal, mas na verdade não era. Os moradores procuraram atendimento, mas os foi negado. Imagine um povo que tenta se reerguer tanto em comunidade como no meio social, em meio ao choro, ao desespero de se sentir em um beco sem saída, por que eles nos negavam atendimento? Se no momento eles eram os únicos que poderiam nos ajudar? Falar não é o suficiente para quem está sentindo a dor.

        Eram muitos os infectados, adultos e jovens, além de crianças com febre alta. Quando paro para pensar a que ponto o ser humano chega quando se encontra sem as condições necessárias... Mas não precisamos de muito, sabemos que temos o bastante: as folhas e as cascas das madeiras podem nos ajudar a cuidar de toda uma aldeia. Mas, cabe questionar: como cuidar da saúde em uma comunidade que está na luta pelo reconhecimento de suas terras e, enquanto isso não acontece, a população sofre por não ter as condições necessárias de infraestrutura? E devido à pandemia, aconteceu de muitas vidas serem ceifadas pelo difícil acesso a hospitais e postos de saúde, pela falta de leitos e de oxigênio.

        A comunidade toda estava sofrendo com a dor de enterrar seus mortos e foi nesse momento que a velha sabedoria dos remédios naturais veio como um método para poder salvar vidas. Foi nesse meio tempo que voltamos ao aprendizado das pessoas mais idosas da comunidade: as plantas medicinais. Nesse tempo de pandemia, voltamos ao nosso saber cultural, a sua preocupação de mãe e o cuidar de outros.

Uma vacina desconhecida e a população tomada pelo medo

        Os moradores já estavam controlando a situação com os remédios caseiros que tinham um grande efeito e, de repente, chegou uma vacina desconhecida, da qual a população sentiu medo. Informações veiculadas em grupos de aplicativos de mensagens e na “boca de ferro” (alto falante utilizado para transmissão de mensagens na comunidade), especialmente por pessoas ligadas às igrejas evangélicas, diziam que, se os índios se vacinassem, iriam se transformar em animais ou morrer. E isso deixou as pessoas com medo.

        No dia marcado para tomar a vacina, cadê o povo? Ninguém em suas casas, inventaram que foram para a roça ou pescar somente para não tomar a vacina. O medo estava matando todos e isso gerou uma grande polêmica. Com isso, perdemos alguns dos direitos dados no posto. Muitos profissionais chegaram a usar o seu poder para intimidar quem não tinha nenhum conhecimento. Somos esquecidos por tudo e por todos, quando queremos alguma coisa que beneficie a nossa comunidade, não sabemos a quem recorrer. Só de saber que você é um indígena, pensam que vive no meio do mato da selva amazônica. Mas quando se trata de buscar ajuda, nos sentimos amarrados, talvez por não saber a quem procurar.

* * *

        Na comunidade, esse vírus mortal, causador de problemas respiratórios graves, infectou e levou a óbito muitos indígenas. De imediato, os sintomas são bem parecidos com os de uma gripe, porém, por ser mais agressivo e mortal, eles são bem mais fortes. Entre seus sintomas estão a tosse seca, febre, falta de ar, dor de cabeça, falta de paladar e diarreia. E foi nesse histórico que os indígenas da Amazônia voltaram às suas raízes, lembraram de seus conhecimentos, que estariam na cura das ervas medicinais. Em uma região formada por povos indígenas, o saber e a cultura nesses momentos são fundamentais. Saberes que, por imposições de outras pessoas ou instituições, acabam muitas vezes sendo deixados de lado, em um esquecimento de como é importante ter o pleno conhecimento de cada árvore, de cada semente, de cada folha e de cada planta que temos aqui, que com certeza já nos ajudaram a salvar vidas e vidas. Muitas famílias entraram em desespero por achar que não teria mais jeito, afinal estamos em uma pandemia global em que a ciência ainda não conseguiu achar a cura. Mas o saber, o conhecimento indígena fez as pessoas tomarem a decisão de procurar a melhor forma de se prevenir, por isso devemos sempre considerar o nosso conhecimento das ervas medicinais como um grande saber dos índios, seja ela qual for e onde for.

Colaboradores: Flavia Melo e Rodrigo Reis

Revisada e editorada por Daniela Perutti

 

Como citar: Melo, Greiciane dos Santos. Santo Antônio: uma comunidade kokama esquecida em meio à pandemia. Plataforma de Antropologia e Respostas Indígenas à COVID-19, vol. 1, n. 6, jul. 2021. Disponível em www.pari-c.org. Acesso em dd/mm/aaaa.