A presença e o cuidado dos parentes no tratamento contra a COVID-19

por Elivar Karitiana, Amanda Horta
30 Julho 2021
Nota de Pesquisa

Um depoimento de Elivar Karitiana.

        No dia 19 de junho de 2021, o estado de Rondônia registrou uma taxa de 3.320 mortes por COVID-19 por milhão de habitantes desde o início da pandemia. Isso implica que, se Rondônia fosse um país, ocuparia o segundo lugar no ranking de mortes por COVID-19 por milhão , atrás apenas do Peru. A média brasileira, por sua vez, é expressivamente mais baixa, com 2.347 mortes por milhão.

        A situação dos povos indígenas em Rondônia é crítica. Até 31 de maio de 2021, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) registrava 2.717 casos confirmados de COVID-19 entre 23 etnias indígenas do estado. A complexidade da situação é tal que, por um lado, são muitos os casos de indígenas, e mesmo de aldeias inteiras, que recusam os tratamentos não indígenas contra o novo coronavírus, sobretudo aqueles que requerem a internação do paciente. Por outro, parte importante da população indígena do estado não possui seus territórios demarcados e/ou habita centros urbanos vivendo, assim, as consequências da ausência de um modelo diferenciado de atenção à saúde preparado para acolher aqueles que não vivem em Terras Indígenas (Tis) demarcadas. Em Rondônia, muitos indígenas que vivem nas zonas urbanas lutam pela vacinação prioritária contra a COVID-19 desde janeiro de 2020 e, até julho de 2021, a grande maioria ainda não conseguiu ser vacinada.

        Nessa nota de pesquisa, apresentamos um depoimento de Elivar Karitiana, vice-presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena (CONDISI) de Porto Velho (RO) e pesquisador PARI-c, sobre suas experiências recentes com a COVID-19. No mês de junho de 2021, Elivar e sua esposa se infectaram, viveram os sintomas da doença e foram tratados pelos seus parentes em casa, na cidade de Porto Velho. Como funcionário do CONDISI, Elivar foi vacinado de forma prioritária, o que não ocorreu com sua esposa, por viverem fora da aldeia.

        As palavras de Elivar trazem elementos importantes para pensarmos a recusa, por parte de tantos indígenas, dos tratamentos hospitalares e sua conexão com as formas pelas quais os povos indígenas, aldeados ou não, têm acesso à saúde pública no Brasil.

Palavras de Elivar Karitiana (depoimento de 14 de junho de 2021)

Então, meus amigos. Não é fácil. Eu vou contar um pouco o que eu passei quando peguei a COVID-19, de que forma os meus parentes me trataram e de que maneiras eles me conduziram quando eu estava na pior situação.

O que eu quero dizer para vocês, meus amigos, é que eu não peguei a COVID-19 assim, andando à toa. Eu peguei a COVID-19 tentando ajudar meu povo. Porque eu sei que eu fui infectado na Aldeia Central Karitiana, quando eu fui realizar uma ação como vice-presidente do CONDISI. Levamos os testes para os parentes e diagnosticamos 65 casos de COVID-19 assintomáticos. Não eram sintomas avançados. Havia idosos, jovens e crianças assintomáticos na aldeia. Alguns parentes falam que os profissionais estavam mentindo, pois eles não sentiam nada. É preocupante. A gente informa para eles que eles estão sendo distribuidores do vírus, porque eles são assintomáticos. Eles não precisam sentir, mas eles estão doentes. É isso que estava acontecendo.

Quando eu cheguei na aldeia, eu senti medo. Se eu não sentisse medo, eu não ia pegar. Eu me arrepiei e fiquei com calafrio. Naquele dia lá na Aldeia Central Karitiana, quando me falaram que eram 65 casos positivados eu fiquei preocupado com meu povo. E quando cheguei aqui na minha casa em Porto Velho, eu falei com minha esposa: “Mary, eu não estou bem.” Eu senti na hora.

Eu estou lá, direto com meus parentes, vendo meus parentes sofrendo. Agora a COVID-19 está acontecendo comigo. Eu não queria ter essa doença, tinha medo. E continuo com medo, porque a luta contra a COVID-19 não vai parar. Quem trouxe a doença aqui, para dentro de casa, fui eu! Fui eu quem trouxe. Minha esposa fala para mim: “Eu não saio de casa, eu fico em casa, foi você quem trouxe essa doença para mim”.

A ligação que a população indígena tem com seus parentes é muito forte. A minha mãe estava aqui em casa, na cidade, quando eu senti os primeiros sintomas. Parecia que eu estava ficando melhor, então eu falei com minha mãe que ela podia ir embora e voltar para a aldeia. Assim que minha mãe foi embora eu piorei, fiquei com falta de ar, senti muitas dores. A doença expandiu. A primeira coisa que os meus parentes, todos eles, até os Gavião, falaram foi: “Não vá para a Unidade de Saúde. Se você for para a Unidade de Saúde, você não vai voltar para a sua casa”. Todos eles falaram uma língua só.

Quando minha mãe foi para a aldeia, eu piorei. A Mary, minha esposa, parecia que estava bem. Quando minha mãe chegou outra vez na minha casa, a Mary desabou. Minha esposa. Até agora ela está ruim. Ela não consegue nem falar, nem se levantar. Ela fica cansada. Então ela está de repouso, agorinha nós demos um pedacinho de peixe para ela, ela está comendo aos poucos, ela está quase melhor.

Quando mamãe chegou outra vez na minha casa, com meu pai, eles trouxeram vários tipos de ervas. Meu pai é chamado de doutor Cipó, porque ele trabalha com remédios tradicionais, caseiros. Eu não sei o nome de todas as ervas que eles trouxeram. Uma delas é syryjpok tap, uma planta arbustiva de muito amargor. Os nomes são todos na língua karitiana. Vários tipos de ervas! Também trouxeram um xarope feito das folhas borojahhyyp e e paraka’ep, duas árvores de grande porte. Eles trouxeram o xarope quando eu estava tossindo muito.

Quando eu estava ruim, o meu sogro veio até mim com aquele “remédio do banho” [um tratamento tradicional no qual o doente é banhado com uma infusão já morna de ervas e cipós]. Eu falei para ele não vir em minha casa, mas com teimosia ele veio. Eu fiquei muito preocupado com ele, eu estava infectado e não queria que ele se contaminasse também. Ele falou: “Eu não vou pegar a doença”. É um elo de ligação que os parentes fazem durante o tratamento. Eu participei disso de perto. Quando souberam que eu e minha esposa estávamos ruins, parentes de diferentes aldeias mandaram plantas, ervas e cipós para nós. Quando a gente não tinha condição de fazer o remédio aqui dentro de casa, eles mandaram o remédio pronto para a gente tomar. Eles mandaram. À noite, meu sogro chegou com o banho. Esse banho alivia o corpo. Alivia a febre, alivia o mal-estar, mas tem que passar repetidamente. É tão impressionante... A minha tia veio aqui também, eles colocaram a folha de syryjpok tap dentro de um álcool. É um remédio tradicional que eles produziram junto do álcool. A gente passa o remédio e alivia a dor. A dor não passa totalmente, mas a gente fica aliviado. Ele controla as dores e a febre. Controla realmente!

Uma coisa importante da cultura que meu pai falou comigo quando eu estava doente é que a pessoa doente não pode ficar sozinha. Se a pessoa doente ficar só, ali na sala, no quarto ou na rede, tem que ter uma pessoa, ou três, ou quatro pessoas da família, junto com a pessoa doente. Se a pessoa doente ficar só, vai chegar espírito ruim para fazer mal ao paciente. É por isso que não pode deixar o paciente sozinho. A pessoa doente não pode ficar sozinha. O meu pai falou! O meu sogro falou a mesma coisa! A minha mãe falou a mesma coisa! A minha mãe foi fazer uma comida para mim na sala e meu pai foi ajudar a minha mãe. Aí eu entrei na sala para me deitar no sofá. A minha mãe me falou: “Vai ficar com a sua esposa. A sua esposa não pode ficar sozinha, porque vai chegar um espírito ruim para fazer mal para ela, então você tem que ficar lá”.

Então, o tratamento que os Karitiana fazem é VIP. Eles não largam o paciente. Até agora os meus pais estão aqui em casa. Eu falei para eles não virem. Eu fiz uma videochamada com eles, eu me fiz de forte, mas eles perceberam que eu estava ruim. Eles perceberam. Eles estão até agora aqui comigo, eu estou me recuperando bem, eu tenho certeza que não vou ter sequela nenhuma e que a Mary não vai ter sequela nenhuma também. Eu estou preocupado com ela. Ela sente falta de ar e eu fico preocupado com ela.

Eu estava analisando as conversas das vítimas que estavam internadas nas unidades de saúde. O que elas falam para os parentes? Antônio José Karitiana foi para a Unidade de Saúde e ficou na UTI. Graças a Deus, ele não foi entubado. Ele participou de perto de que forma o paciente com COVID-19 é tratado na Unidade de Saúde. É total abandono! Ninguém dá banho na gente, ninguém dá comida para a gente, ninguém dá água para tomar. A gente fica sozinho! Por isso que o pessoal está morrendo na Unidade de Saúde! Por isso que as pessoas morrem. Eles falam isso! Ele falou isso! O pessoal não indígena está morrendo porque eles não têm para onde correr. Porque eles não conhecem o remédio. Em casa, a gente passa mal, a gente sente dor, a gente grita de dor, mas nós temos os parentes por perto para dar banho, para dar remédio para a gente, para dar de comer para nós. O Antônio Karitiana disse: “Eu fiquei abandonado por 17 dias! Eu fiquei abandonado! Se eu tivesse forças para levantar e sair da Unidade de Saúde eu ia sair correndo. Mas as minhas pernas ficaram adormecidas. Eu esperei meus parentes me tirarem lá de dentro”. Ele falou desse jeito: “É por isso que os parentes brancos estão morrendo. Pelo abandono”.

Eu estou fazendo parte aqui com vocês de uma coisa tão bonita... Os Karitiana não passavam mais o remédio tradicional. A COVID-19 trouxe o remédio tradicional de volta. O tratamento tem vários remédios caseiros. Vários tipos de remédios caseiros. O que usam mais é syryjpok tap. Syryjpok tap no xarope, syryjpok tap no vik gel, syryjpok tap dentro do banho. Tudo é syryjpok tap. A única diferença que eu vi no tratamento que fizeram comigo foi o xarope de e paraka’ep com borojahyyp. E também o banho que minha mãe trouxe. É misturado entre quina-quina, syrypok tap e o’man. Minha mãe ferve a mistura por 50 minutos, eu acho. Depois ela joga dentro de uma bacia com água e você toma banho com folha e tudo. Tem que estar morno. É uma coisa que alivia! Você sua e dá resultado. Tem um cheiro assim…, de natureza! Não tem outro cheiro: é de natureza mesmo, de mata. Então esse foi o tratamento que fizeram comigo. E teve outros parentes que trouxeram remédios, a minha tia trouxe um gel que passou em mim.

Outra coisa importante é que os Karitiana respeitam muito o seu remédio. Meu sogro chegou com a esposa dele aqui em casa, para passar remédio em mim. Ele falou assim: “Olha aqui, eu estou puro”. Eu não entendi... Por que ele estava puro? “Eu estou limpo que nem algodão”, ele falou. Perguntei: “Por quê?”. “Eu estou aqui para passar remédio para você. Eu fiquei sem namorar, em abstinência sexual, para passar remédio para você. Não pode passar esse remédio após relação sexual. Tem que passar remédio em abstinência. Você que passou o remédio, você vai ficar cinco dias em abstinência”. É uma coisa rara para nós! É uma coisa interessante, um respeito que os indígenas têm. O meu pai que está aqui em casa, não pode namorar. Nem pensar! Ele está aqui para fazer um tratamento para mim, que sou seu paciente.

Quando a gente faz o tratamento tradicional, a gente não pode misturar o tratamento com a Unidade de Saúde. Papai não deixa a gente ir para a Unidade de Saúde, porque a gente está fazendo tratamento tradicional em casa. Por isso ele não deixa. Quem sabe, futuramente, terminando esse tratamento tradicional, a gente vai fazer tomografia, ultrassom, para ver se teve alguma sequela com a gente. Essa é uma recomendação da equipe de saúde que eu recebi.

Parece que, participando de tudo isso, eu agora sou uma peça fundamental para falar o que nossas populações indígenas e não indígenas sentiram diante dessa COVID-19. Agradeço a oportunidade de passar essas informações para vocês.

Revisada e editorada por Daniela Perutti

 

Como citar: Karitiana, Elivar; Horta, Amanda. A presença e o cuidado dos parentes no tratamento contra a COVID-19: um depoimento de Elivar Karitiana. Plataforma de Antropologia e Respostas Indígenas à COVID-19, vol. 1, n. 6, jul. 2021. Disponível em www.pari-c.org. Acesso em dd/mm/aaaa.