A chegada de crianças e a chegada da pandemia: experiências de uma mãe e de uma parteira guarani mbya

por Suzana Macena Ywa Mirim, Paula da Silva Kerexu Poty, Ataíde Vilharve Vherá Mirim, Valéria Macedo, Camila Padilha
31 Agosto 2021
Nota de Pesquisa


       Nesta nota de pesquisa, relativa ao estudo de caso sobre partos na pandemia – o qual vem sendo desenvolvido pela rede de pesquisadores indígenas e não indígenas do módulo Brasil Meridional da PARI-c –, reunimos dois depoimentos de mulheres do povo Guarani Mbya que viveram a experiência da chegada de uma criança no atual contexto em diferentes comunidades e perspectivas. O primeiro é o de uma jovem mãe, Ywa Mirim (Suzana Macena), que pretendia parir seu segundo filho na Terra Indígena (TI) Ribeirão Silveira (no litoral de São Paulo) tendo sua mãe como parteira, mas precisou recorrer ao hospital, onde foi informada da chegada da COVID-19 ao Brasil e da presença de uma pessoa contaminada. O segundo é o de uma senhora parteira, Kerexu Poty (Paula da Silva), que trouxe ao mundo sua neta na TI Takuari (na região paulista do Vale do Ribeira), pois a filha preferiu fazer o parto na aldeia.

        Parte do depoimento dessa jovem mãe à Valéria Macedo foi feito em mensagem de áudio em guarani, e outra parte, em português, em conversa posterior pelo dispositivo audiovisual do celular. Vherá Mirim Ataíde Vilharve fez a transcrição e tradução do depoimento em guarani e Camila Padilha transcreveu a conversa em português. Já o depoimento da parteira Kerexu Poty foi registrado em conversa presencial com Ataíde na TI Takuari. Kerexu Poty é irmã do cacique dessa comunidade, Timoteo Vera Popygua, o qual é também o sogro de Ataíde. Ela e sua filha viviam em uma comunidade no Rio Grande do Sul e se mudaram para a Takuari no período inicial da pandemia. A edição do material na forma de dois depoimentos escritos foi feita por Valéria. Ao final dos textos em português, anexamos as transcrições das partes faladas em guarani, feitas por Ataíde.

Cuidados e palavras de Suzana Macena Ywa Mirim

        Eu tive minha primeira filha quando era bem nova, chegando aos 16 anos, por isso tinha medo. Vinha sempre na minha cabeça: “como eu poderia criar essa criança?”. Minha mãe, sempre firme, me falava como fazer. O primeiro filhinho da minha irmã foi aos 12 anos e minha mãe ensinava a ela também. Meu pai também sempre estava com a gente, orientando na opy. No meu segundo filho, eu já tinha experiência, mas algumas vezes também chegavam aqueles medos que a gente tem quando está grávida.

        As mulheres sabem que vão engravidar por uma conexão espiritual. Não só pela lua que sabemos, mas também pelos sonhos, se pegamos filhote de animais ou de pássaros. As mais velhas, nossas mães e avós, falam que se tiver sonhos assim é porque um ser vai estar a caminho para trazer alegria para a família. Eu sonhei que peguei filhote de cutia fêmea e engravidei de uma menina. Quando estava para engravidar do meu menino, sonhei que peguei um filhote macho de cutia.

        Eu planejava ter meu segundo filho em casa. Minha mãe ia fazer o parto. Ela fez o parto dos filhos do meu irmão e disse que isso foi muito importante para ela se fortalecer. Ela estava me acompanhando na gestação, mas quando chegou no final, tive uma complicação, porque o neném não queria descer. Estava demorando muito, então ela ficou preocupada e decidiu que eu fosse ao hospital.

        Nossa comunidade fica perto das cidades de Bertioga e de São Sebastião. Fui ao hospital de São Sebastião, que é mais perto da gente e a ambulância chega rápido. O hospital de Bertioga é um pouco complicado porque alguns médicos não aceitam muito bem os indígenas. Por isso, a maioria vai para o de São Sebastião ou de Boiçucanga [bairro do município de São Sebastião].

        Quando eu ganhei meu filho no hospital, passou um dia e a enfermeira entrou falando que tinha chegado uma doença que era contagiosa, que era para a gente se prevenir. Por conta disso ela proibia visita, tanto é que meu marido foi ao hospital, mas as enfermeiras não deixaram que ele entrasse. Mas eu não fiquei sozinha porque outra moça da aldeia ganhou quase junto comigo, um dia depois de mim. Eu tive no dia 17 de março e ela no dia 18. Então a gente ficou junta lá uns três dias, no mesmo quarto. Ela me disse que tinha um pouquinho de medo de ter neném na aldeia, então quando ela sentiu a contração decidiu ir para o hospital. Ela já perdeu um bebezinho antes, mas foi mesmo no hospital.

        A gente já escutava dessa doença que estava se espalhando na China, mas nós nem estávamos nos preocupando, porque a gente nem imaginava que ia chegar aqui. Mas quando passou um dia, acho que era umas 11 horas da manhã, a enfermeira chegou falando que tinha uma mulher contaminada no hospital, então eu fiquei com medo. Mas me liberaram rápido para vir para a aldeia, então esse medo diminuiu. Aqui [na aldeia] é mais tranquilo, a gente não sai muito. Eu não sei sobre outras pessoas, mas eu não saio muito. Só teve um caso aqui de contaminação, de um rapaz que sempre vai fazer hemodiálise em São Paulo. Aí ele pegou e tiveram que colocar ele fechado na escola. Ele ficou uns quinze dias lá junto com a esposa, que também pegou.

        Agora os mais velhos estão falando mais sobre essa doença porque ela está se espalhando mais. Eles sempre aconselham os jovens a se cuidarem, a não saírem muito para a cidade. Mas a maioria dos adolescentes não escuta, eles ficam mais no celular mesmo, no jogo. Mas os mais velhos continuam na Casa de Reza (opy) porque eles acreditam muito em Nhanderu [divindade]. Eu acho que a tecnologia está afastando cada vez mais os jovens da opy, isso é preocupante. Se a pessoa só focar na tecnologia, vai se perder no caminho, como a gente fala na opy. Não é só a tecnologia que importa, tem a vida espiritual também. Mesmo não entrando todo dia, tem que entrar na opy para se comunicar com Nhanderu. Mas o lado bom é que, se a gente souber usar, celular também é coisa boa… Os xeramõi [os mais velhos] não proíbem nada, só querem que faça o equilíbrio. Mas os mais novos não entendem isso.

        Eu fiz o pré-natal na aldeia, como todas as mulheres fazem desde que contrataram um médico no posto de saúde [Polo-Base da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), localizado na TI Ribeirão Silveira]. Mas algumas vezes a pessoa sofre de alguma coisa e não pode ir ao posto. Minha irmã está grávida e sofre de varizes, então a perna dela fica dolorida, não pode andar. Então não custava nada pegar os materiais e examinar as grávidas na casa delas. A gente não gosta de ir ao posto.

        A gente também não gosta de ir ao hospital, mas o de São Sebastião é mais legal. Eu tive minha primeira filha lá em Angra [Angra dos Reis, município do Rio de Janeiro] e o hospital de lá é bem diferente, bem pior. Em São Sebastião eles já sabem o costume dos indígenas porque o cacique vai e fala para os enfermeiros que nosso costume é aquilo, que a gente não pode comer aquilo… Então é satisfatório para a gente. Mas algumas vezes enfermeiras “chatas”, como a gente diz, incentivam a comer aquilo que a gente não pode.

        A gente sempre enterra a placenta, não pode deixar lá no hospital. No meu caso eles foram educados, perguntaram se eu queria levar, eu disse que sim e eles disseram que iam colocar dentro de um freezer e quando dessem alta iriam me dar. 

        Depois de ganhar criança, já na aldeia, em casa, enterramos a placenta e eu tive que seguir orientações da minha mãe. Tem ervas da medicina tradicional que nós mulheres usamos depois do parto. Nossas mães ou nossas avós que preparam essas ervas para a gente tomar. Tem também outras ervas que retardam a gravidez, mas nem sempre as mais velhas contam por que dão chás para a gente tomar.

        Depois que cheguei em casa, minha mãe não me deixou mais levantar e fazer as coisas. Nem nossos maridos podem se aproximar, tem que respeitar o tempo, não mexer com a mulher logo. Só depois de três meses o homem pode voltar a dormir com a esposa. É uma questão de resguardo. Minha família é bem tradicional e seguimos essas orientações. Quando ganhamos bebê, também não podemos usar perfumes e outros cheiros fortes, como hidratante e desodorante dos jurua [não indígenas]. Esses produtos podem fazer mal para o bebê, deixando a garganta inflamada.

        Também não pode comer açúcar e sal. Isso faz mal não só para as mães, mas para as crianças recém-nascidas, que acabam consumindo também pela amamentação. Criancinhas tomam somente leite do peito. Frutas como laranja, uva, melancia... não podemos consumir. Frutas muito doces fazem com que a menstruação desça mais cedo, antes do tempo, após o nascimento da criança.

        Carne de vaca também é muito perigoso para mulheres depois do parto. Maridos também não podem comer carne de vaca, nem de porco ou peixe. Carne de caça também é proibida, como tatu e cutia. Só paca podemos comer porque não faz mal, já que ela era mãe de Nhanderu. Minha mãe ensina muitas coisas, porque ela cresceu no modo tradicional.

        Os mais velhos nos ensinam muito de como devemos viver e se cuidar. Mas hoje em dia está difícil os jovens ouvirem esses conselhos e por isso muitos têm doença mental [inhakanhy]. Esses problemas também acontecem quando se ganha neném, se não tiver o cuidado necessário. Se comemos de tudo, a mentalidade fica afetada, com dores de cabeça e tontura. Um dos remédios para isso é chifre do veado, mas é muito difícil de conseguir.

        Sobre essa doença [COVID-19] e outras que estão aparecendo hoje, é difícil saber como cuidar. A gente não sabe muito sobre elas e na vacinação, não vou mentir... tive um pouco de medo. Não só eu, a minha família inteira. Mas no final todo mundo tomou. A gente entendeu que se colocar Nhanderu em primeiro lugar não faria mal para a gente.

Palavras e cuidados de Kerexu Poty Paula da Silva


Kerexu Poty com a netinha Nadila, de quem fez o parto. Foto: Ataíde Vilharve, 2021.

        Essa criança no meu colo nasceu aqui na aldeia. Eu fiz o parto dela sozinha. Eu me chamo em português Paula da Silva, em Guarani Kerexu Poty. A minha filha veio comigo do Rio Grande do Sul grávida aqui para Takuari. Ela mesma não quis ir para hospital, então, se ela não quis ir, eu também não deixei. Ela teve gravidez sem risco, então a gestação ia ser normal, como médico afirmou. E assim, quando começou a contração, ela não quis ir. Ela disse “quero que você mesma [faça] o parto”. E eu respondi: “Se não for, tem que obedecer a minhas orientações”. “Farei o que você mandar”, ela disse, e assim realizei o parto aqui na casa dela, e a criança já está grandinha.

        Já sou uma parteira experiente, realizei vários partos. Quando começa a contração, fico observando. E quando a contração fica mais frequente, dou um pouco de chá de ervas, e não demora para nascer. Eu realizo partos das crianças com chás, existem ervas para isso.

        Como dizia a minha finada avó, depois de dar à luz, a mãe não pode consumir sal e até um mês não pode tomar água gelada, somente água morna. O pai e a mãe também não devem consumir carne vermelha até um ou dois meses. Nesse tempo, pode consumir frango, mas carne de boi e de porco não pode consumir, porque são carnes pesadas. Também não pode ir ao rio por um mês, muito menos tocar em água fria. Se não se resguardar e tocar em água fria, pode doer constantemente o pulso, principalmente das mulheres.

        Para que as crianças não adoeçam ou enfraqueçam o espírito, os pais fazem algumas coisinhas para distrair, brincam com elas, mesmo que a criança seja pequena. Assim ensinei o meu genro, e ele fez cestinha e disse para a filhinha: “brinque com este que é seu”. Ou então se faz takuapu [bastão de taquara], que é um instrumento usado nas casas de reza pelas mulheres. “Usa e não me acompanha por onde eu for”, o pai tem que falar, e o espírito da filha entende. Se não fizer isso, as crianças adoecem espiritualmente, o espírito se afasta delas.

        Eu educo minhas filhas desse jeito. Depois de dar à luz, eu dou banho com cinzas da fogueira. Os pais devem tomar banho com cinzas, já no dia do nascimento. Eu oriento minha filha desse jeito, e o meu genro também. A placenta deve ser enterrada no centro de casa, perto do pilar principal, tem que cavar bem fundo e jogar cinzas, em seguida colocar a placenta e novamente cinzas em cima, e então cobrir com terra. É assim que se faz com a placenta.

        Quando as crianças nascem nos hospitais, os brancos jogam fora a placenta, mas se for indígenas Guarani, a placenta deve ser trazida para aldeia, para a família. Assim que que eu via lá em Santa Maria, quando morava no Rio Grande do Sul. Uma vez realizei um parto e outra moça foi levada para o hospital, mas a placenta era trazida de volta para a aldeia. Lá tem crianças de quem eu fiz o parto quando a mãe não quis ir para o hospital, porque às vezes querem ir e às vezes não querem, é assim mesmo. Aqui, minha filha não quis ir, mas não foi por causa do covid. “Eu não quero ir para hospital”, ela dizia. Em outras vezes que ela foi para pré-natal, ela via mulher branca sofrendo. Ela disse que é melhor dar à luz em casa mesmo, e é por isso que ela não foi. Minha filha se chama Samira em português e em Guarani é Jaxuka Rete. A filhinha é Nadila em português, e nome guarani ainda não tem.

        Partos de primeiro filho, já realizei duas vezes, e um deles é minha filha. E nos outros já eram mães experientes. Eu tenho 57 anos, e aos 35 anos realizei o primeiro parto, foi quando morava em Lomba do Pinheiro, em Rio Grande do Sul. Era uma moça que sofria, porque naqueles tempos não havia acesso a hospitais, nem a meios de transportes, e eu era a mais velha, então fui procurada para realizar o parto. E a minha filha mais velha também disse que, quando for na hora dela ganhar criança, não iria para hospital, “você que fará o parto”, ela disse para mim.

Depoimento de Para Mirim na língua guarani

        Ha’egui petein henda py ma oin avi mba’eixa pa roguereko’i tama vy roikuaa. Ha’etein jaxy re hanhoe’yn haetu roikuaa roguereko’i tama vy. Ha’etein xara’upy ma roikuaa avi, roexa ra’uapy mba’emo ra’y rojopy merami ha’erã. Ha’erami vy py amongue orejaryi kuery, orexy kuery voi ijayvu ha’eramingua mãje jaexa ra’u já reko jutama vy. Jajopy’i mitã’in va’e ramo, mba'emo ra’y re ajexara’u he’i aramo aendu anhete aetu. Xee ma mokõingue ma ha’erami aexa ra’u ajupy ramo mitã areko va’e ramo ete. Xee ma ajexara’u akuxi ra’y’i kunha’i merami ajopy ha’etein kunha’in va’e karamboae. Amboaerã ma ha’erami ae avi aexara’u akuxi ra’y’i ava’i merami ajopy ayn ava’i. Va’e areko va’erã ramo.

        Aymã xeyvuta mboapy’i rupi rei. Xee ma areko karamboae kyringue mõkõi jurua retãre. Ijypy’igua ma areko tetãre ha’e tein, xekyrin ve rei ete javepy areko karamboae ijypy’igua. Ha’evypy, peixa akyje reia guive aendu vypy ijypy’iguare re aa tetãre.  Ha’egui, amboae ma, amboae kyrin va’e, ayn kyrin ve va’e areko va’e ava’i va’e ma. Tetãre avi ae areko, va’eri peixa mba’eaxy, kõ’erã ta ma mba’eaxy õvãen juruá kuery retãre jave areko karamboae. Juruá retãre aa javepy petein juruá (enfermeira) oikevy apo he’i, mba’eaxy õvãen ramo penetãrã kuery nda’evei ou hanguã penderexa hanguã. Ha’evy xeme oo karamboae va’eri ndoejai oguypy oike hanguã, rãmo ojevy riveju ha’evoi.

        Ha'egui xeayvu ta mboapy’i rive avi, mba’eixa pa tekoapy aju juma jave. Tekoapy ma, mitã’in areko pa rire ma tekoapy aju juma vyma, amboae rupi ma xerereko xexy. Õinpy mõã ka’aguy regua, ha’e ramingua ma mitã’in roguerekopa vy ro’u va’e. Orexy kuery, orejaryi kuery ma mõã ojapo ro’u hanguã. Ha’etein peixa orememby voi hanguã he’yn guive ma ta’vy ojapo, ha’egui nomombe’ui avi aetu mba’eixagua pa, mba’e rã pa ome’en. Roikuaa ve’i va’e ma ore rekore ndoroiko voi hanguã ha’egui amboae kyrin va’e ndoroguerekoi voi he’yn hanguã. Xee mitã’in areko ma rire ma xexy mõã ome’en, ha’egui nimbe py rive ma oremoin avi, ndoipotai ropu’ã pu’ã, orememby pytã ma rire ma ndoipotai ae ropu’ã. Nim oreme kuery ma ndoipotai, nda’evei onhemboja hanguã oreree, mbya reko aema ha’e va’e. Avakue nda’evei oreree onhemboja ma voi hanguã, opena ma voi hanguã kunhangue mitã’in oguereko rire. Xexy kuery ma ymã guare rivy poreima ha’e rami ae oremongueta, xee ha’egui xekypy’y kuery voi.

        Nda’evei ho’u hanguã he’en va’e nim juky pyguare ma nome’ein. Ha’egui tembi’u regua pyma, anhete ae, ore mitã’in oguereko rire ma nda’evei he’en ha’e juky va’e. Ha’e ramingua py oreapo vai, orevy pe anho he’yn, kyryngue pe voi ha’etein mba’emo ro’u va’ekue py kamby rupi ju oo. Mitangue’ipy mba’eve teri ndo’ui, mba’emo he’en va’e’yn, kamby rive’i teri rangue ho’u. Ha’erã petei jaxy rire ma ha’eve ma ro’u hanguã he’en va’e ha’etein mitãpy tuvixa ve’ima ha’eve ma’rã mitã’in voi ho’u hanguã kamby rupi. Nda’evei avi xo’o, vaka ha’e ramingua ma kunhangue pe ivaikue rai ete aema. Tuu kuery voi nda’evei avi ho’u hangua peixa vaka ha’e kure ro’o ha’e, pira. Ha’egui peixa xo’o ka’aguy xinguyre akuxi. Jaixa mãje ha’eve, xexy ha’e xejaryi ma ijayvu petein’in rive manje ha’eve ro’u hanguã. Jaixa rive mãje ha’eve ro’u hangua ha’etein haja va’e’yn he’ima. Xee aendu xexy gui ha’e xejaryi kuery ha’e tein Jaixa pyje nhanderu xy’i va’ekue. Ho’o hekoaxy va’e’yn ha’evy jaixa rive’i mãje ha’eve ro’u hanguã. Ha’etein haja va’e’yn ramo ha’e amboae ae mãje haja va’e meme. Ha’egui xee ma peixa ayvu aendu rai karamboae peixa xexy xejaryi kuery gui. Xexy ma ijayvu ete va’ekue avi ymanguare rupi oiko va’ekue vy.

        Vyma ha’ekuery ijayvu rai ete ae karamboae peixa mba’eixa pa roiko rã. Orememby pytã’in vy roiko rã. Orenhengue pavy mba’eixa roiko rã. Kunha reko rami mba’eixa orekuai, kunha reko rupi roiko porã’in hanguã. Ha’e tein kunhangue ayngui ikuai va’epy ayvu noendu vei ete ma guive. Ha’etein amongue’i va’e ete’ima peixa ixy, ijaryi kuery ijayvu. Va’eri amongue ma ikuai ae ijayvu va’e, peixa mba’eixa rãpa kunumingue’i ikuai. Ayma haxy nhaendu hanguã peixa nhandejaryi kuery ijayvu. Va’eri nhande jaryi kuery, kunumingue’i kuery ae ndoekai ayvu. Noenduxei rã ha’etein pavi aema ayvu nanhaenduxei tujakueve ayvu. Kunumingue kuery ndoekavei ma tujakue hayvu ha’evy haepy ayn amongue jaexa. Jaexa inhakanhy, he’o’ã va’e guive ha’etein noenduvei tuu kuery ayvu, ojaryi kuery ayvu. He’o’ã va’e regua rei minhã omemby pytã’in hapy avi haema ha’eramingua omboypy Rã. Ha’etein ro’upa reima tema rive vypy orere o’ã oirã orevy pe. Ha’egui peixa oreakã raxy ha’egui oreakanhy rei merami ha’etein tembi’u ha’eve va’e’yn py ro’u. Ha’egui te’o’ã ma ivaikue rai ma, ha’etein poã ma oiko ae va’eri haxy rai jajou hanguã. Guaxu rakua kue’ima te’o’ã poã, ha’erami há oikua vyaema nhande jaryi kuery Ijayvu. Oremby pytã’in hapy ro’upa rei he’y hangua ha’etein haxy rai ma poã ojou hanguã.

        Petein enda py ma oin avi orememby pytã’in hapy nda’evei havi peixa heakuã raxa va’e oguypy oin. Ha’etein amongue mbya kuery py oiporu havi jurua kuery mba’e heakuã va’e. Peixa hetere oikyty va’e ha’egui hi’a regua heakuã raxy raxy rai va’e. Ha’e ramingua ma nda’evei avi oguyrupi oin ramo ha’eramingua ma ojapovai avi kyringue pe. Ha’etein peixa heakuã raxy va’egui py kyringue ijuku’a rã merami ha'e ijarua rai rã ha’e ramingua ma oin havi. Aje’ima xeayvu kuri tembi’u reguare, tembi’u regua ma vaka ro’o ha’e kure ro’o ramingua nda’evei ete ro’u hanguã. Ha’egui peixa oin avi jurua kuery yvyra’a narã, uva, xajau, ha’e ramingua ma nda’evei avi ro’u hanguã. Ha’etein he’en ramo havi, nda’evei peixa ome’en orevy pe ha’etein ha’e ramingua ro’u ramo orereko oguejy voi veju. Ha’erami py ndaxyi veju roguereko voi veju kyringue hanguã. Xeayvu juta havi mba’ere avakue oke ma voi oreyvy’i ry hangua nda’evei ha’e tein peixa ramo kunhangue oguereko voi’rã. Ha’erami ramo ju avakue nda’evei okevoi hangua petein jaxy rire ma ha’eve.

        Ha’e va’e rive amombe’u mboapy’i rupi rive aikuaa’i harupi ha’evete

Depoimento de Kerexu Poty na língua guarani:

        Apy oopy apy tekoapy oiko va'e kue’i ma kova’e, xeae’i petei’in aexa’i karamboae kova’e mitã’in, va’e kue’i oiko. Xee ma xerery juruápy ma Paula da Silva mbyapy ma Kerexu Poty. Xee ma mitã’in ambojau va'eae aiko, aexa ema jepi, heta’i kyringue aexa va’e kue, ambojau’i va’e kue. Ha’evy ma xememby apy ipuru’a’i reve ou karamboae, roju karamboae ipuru’a’i reve. Ha’evy ha’e voiae ndooxei hospitalpy ramo, xee namondoukai karamboae. Ha'egui ndoguereko axyi reiae guive karamboae vy, oguereko porã reiae juruá kuery oexa ramo, mba’eve rei, normal rei oguereko ramo. Ha’evy ha’e, haxy ma oinyn ma ramo ndooxei, xee ndaa reguai mamãe hospitalpy, ndeae’i rãema rexa he'i ramo. Mba'e ha'ea rami rein va'erãvy ma rã ndereoi ha’e. Ha’e rami rãema he'i, ha'e ramo ma xee aexa karamboae, apyae amboajau'i, hoopy ae’i ambojau karamboae mitã’in, va'ekue’i ma tuvixa'i ma oikovy.

        Va’eri xee teko aexa va’eae ma vi mitã, heta’i ma vi aexa. Ka’aru rei haxy oinyn ramo xee apenavy, apena’in jepi rive. Ha’egui ma oapura pura ve’i jave ma poã ha’uka, ha’uka’i põa ramo ja ha'e va'egui oiko vy rei ma. Xee ma poã’in reveae aexa’i va’e kyringue, poã voi ikuai'i ae. Ha’evy imemby pytã'in ma oinyn vy ndo'uirã juky re'en, xee ma xememby pe ma name'ein juky re'en nin yy ro'yxã, petein jaxy peve name’in yy ro’yxã, yy aku'ipy tema nhamboy'u va’e. Ha’egui tuu kuery ma ndo'ui voi nho avi rã xo'o, ha’e ramingua ma ndaja’ui va’e, petein jaxy py maenho ja’u va’e uru aema manje ja’u voi’i va’e. Vaka ha’egui kure ramingua manje ja’u voi va’e’yn, nhandegui tuvixave va’e ramo manje. Ja’u voi va’e’yn he’ipa va’ekue xejaryi ranguerã’in, ha’e ramo xee xememby pe ha'e rami. Ha'egui yyre guive ndopokoi voi rã petein jaxy peve avi, yyre ndopokoi rã, yy ro’yxãre. Ha’e ramingua e’yn manje ipoapy raxy voi voi’i va’e, yy ro’yxãre opoko voi’i va’ekue. 

            Tuu kuery ma, pono harua raxa kyringue, harua raxa he'yn aguã, ojapo’i rã omõinyn mba’emo'in imba’e rã’in. Kova’ere ke enhevãnga eikovy he’i va’e manje. Ha'e rami rã xee ha’e rami ambo’e karamboae xemembyme pe rã ojapo ajaka'i, kova’e ma ndeajakarã hinyn he’i. Ha’e rami e’yn vy ma itakuapu rã’in, takuapu’i rã omõin omõinyn, omonhenduvy ma kova’ere enhevãnga eikovy he’irã, aa aarã tereo eme he’irã. Ha’e rami e’yn rãpy kyringue’i harua raxa va’e. Yakã rupi guiverã ve ndojau voi avi tuu kuery tein. Xee ma há’e rami ju areko xememby kuery.

        Imemby pytã’in rire ma, nhamopu’ã ta, xee amopu’ã tama vy ma xee ambojau tanimbury py.  Ha'e tuu kuery teinke, oiko'i va'e ara voi teinke ojau ma tanhimbury py, tuu kuery. Xee ma ha’e rami areko xememby, ha'e xemembyme ha'e rami ae avi. Ha’egui hendague'i ma oyta yvypy’ipy rã jajo’o, jajo’o puku porã’in ha’e rire ma tanimbu ju nhamõin rã, tanimbu nhamõin va’ekue ary ma nhamõin mondovy hendague’i, ha’egui hi’ary nhamõin ju rã tanimbu, ha’evy ma ema ja jajatyma rã, ha’e rami aetu hendague’i voi jajapo va’e. Hospitalpy oguereko ramo py, juruá kuery omombo rive va’e ae, va'eri nhande mbya rãpy nda’evei ae omombo aguã, teinke ogueru. Ha’e rami aetu kiikaty xee aexa pe, Santa Maria py ain apy ma xee aexa avi kyrin’in va’e petein, rire hospital py ogueraa rire ma, hendague’i ogueru aeju karamboae. Ndoxei va’e ndooi ramo ha’epy minhã aexa va’ekue’i ikuai avi, xee ambojau va’ekue’i, amongue ma oo amongue ndooi, ha’e rami ae.

        Anyin, xememby ma mba’eaxy (covid) gui e’yn ae ndoxei, mba’ere poreima ndoxei raka’e. Xee ndaxei aetu hospitalpy he’i mavoi ae. Oovy py je oexa raka’e, xenhora ojexavai oupy ramo rire manje ndooi he’ika. Oopy ae ma ha’eve ve ra’e jareko aguã he’i katu, ha’evy rive tu ha’e ndooi karamboae. Emombe’u ma reo aguã, emombe’u ma togueraa ha’e ra’ga rãtu onombe’ui, ha’evy aema ndooi karã. Xememby ko Samira ma juruápy, mbya pyma jaxuka rete. Imemby'i ma Nadila juruápy, mbya pyma ndaeryi teri. Imemby va’ety e’yn’in hete’i ma ambojau mokõia ma xememby reve vy. Ha’egui ma imemby va'ety ety ae aexa, ha’e rami. Mokõi tu imemby va'ety ete’i aexa, va’eri oiko porã’in meme rikatu. Xe ayn areko 57 anos, kyringue’i ryru haxy va'e aexa karamboae 35 anos arekopy primerogua’i ambojau karamboae. Petein ojexavai oinyn, ha’e jave rupi py hospital py ndoa memein avi karamboae nin nda’ipoi peixa jogueraa va’e guive nda’ipoiapy ramo, xeanho’in aema guãimin ve va’e ain rã, xerenõin rã aa, ambojau’i karamboae. Ha’e va’e ma Lomba do Pinheiropy karamboae, ha’epy xerekoa ainyn jave Rio Grandepy. Ha’egui tyke aipo he’i, xee xemembya ora ma nin ndaai avi rã hospitalpy, ndee avi rãko rexa he’ika, ndoxei avi tyke voi. Imemby ramo guarã ha’e ja odecidi ma voi ju.

Revisada e editorada por Daniela Perutti

 

Como citar: Ywa Mirim; Suzana Macena; Kerexu Poty, Paula da Silva; Vherá Mirim, Ataíde Vilharve; Macedo, Valéria; Padilha, Camila. A chegada de crianças e a chegada da pandemia: experiências de uma mãe e de uma parteira guarani mbya. Plataforma de Antropologia e Respostas Indígenas à COVID-19, vol. 1, n. 7, ago. 2021. Disponível em www.pari-c.org. Acesso em dd/mm/aaaa.