Mulheres, plantas e a COVID-19

por Aline Regitano, Arthemiza Puruborá, Gicele Sucupira, Welitânia Oliveira, Sheila Apinajé, Kaianáku Kamaiurá
31 Agosto 2021
Nota de Pesquisa


       Mulheres indígenas de todo Brasil estão na linha de frente do combate à COVID-19, em luta pela vida. São elas as principais cuidadoras das crianças, casas, roças e quintais – frequentemente em aliança com os homens. Promovem e performam movimentos de luta diversos, desde vaquinhas virtuais, à participação em associações indígenas e manifestações políticas. Em nossas reuniões, no encontro entre as pesquisadoras e autoras deste texto, mulheres indígenas e não indígenas que vivem em aldeias e cidades do Mato Grosso, Rondônia, Tocantins, Distrito Federal e São Paulo, vemos que, apesar das diferenças entre os contextos territoriais e históricos de colonização, os povos indígenas adotam com frequência estratégias de luta e resistência similares. O fortalecimento e a circulação de conhecimentos e remédios tradicionais, aliados às redes de solidariedade e de cuidado mútuo, foram parte das respostas autônomas expressivas apresentadas pelas mulheres apinajé, puruborá, kuikuro e mehinako. Garrafadas, amuletos, chás, banhos, infusões, pinturas, técnicas e tecnologias locais permitem fazer corpos, prevenir e curar sintomas e doenças. Os vegetais são fundamentais, porque viram alimento e remédio que nutrem o corpo, e a intimidade com as plantas potencializa a produção de relações com seres outros-que-humanos.

Mulheres Puruborá

Arthemiza Puruborá e Gicele Sucupira

Eu fiz o tratamento contra a COVID-19 com remédios caseiros que a gente aprendeu. Aprendi com minha mãe, minha mãe aprendeu com minha avó...Usamos tudo que ensinaram para a gente. (Lidiane Puruborá, Guajará-Mirim, Rondônia, 2021)

        Os remédios caseiros produzidos com diversas plantas foram o principal meio de prevenção e tratamento contra a COVID-19 entre as mulheres puruborá. Para Joana, sem as plantas não teriam sobrevivido à doença. A sua casa em Guajará-Mirim, Rondônia, parece uma “casa das folhagens” porque há plantas por todo lado. Assim como outras mulheres puruborá, Joana, Viviane e Eline contam que não deixam faltar garrafadas na geladeira, cultivam e mantêm muitas plantas no quintal, além de uma grande diversidade de cascas e folhas para chás empregados em diversas situações. As garrafadas e as plantas não são apenas para o uso de suas famílias: sempre que recebem visitas e vão à casa de vizinhas, amigas e parentes, compartilham essas medicinas. A oferta e a troca, já comuns entre avós e mães, foram intensificadas em uma rede mais ampla desde o início da pandemia.

        A casa da mãe de Joana, ao lado da sua, virou um “mini hospital”, como costumam dizer, improvisado durante algumas semanas. Foi a sua estratégia para ajudar os familiares e não ter mais perdas. A filha, técnica de enfermagem, voltou de Goiânia, onde estuda, para auxiliar a cuidar dos seis parentes adoecidos. Joana intercalava os remédios caseiros com os da farmácia, porque um remédio “auxiliava o outro”. Fez o mesmo no hospital da cidade, quando o seu esposo e seu avô estavam internados com COVID-19:

Foi bastante remédio caseiro. O meu esposo ficou com a saturação que era para entubar. [...] E aí a gente levava remédio caseiro escondido lá no hospital. Ele estava tomando medicação de lá do hospital mesmo, com um balão de oxigênio. A gente ainda dava para eles remédios caseiros. Até hoje a gente está tomando os remédios, tanto esses remédios que a parente Ana Lúcia faz, como esses outros. A gente vai lá comprar as garrafinhas dela. (Joana, Guajará-Mirim, Rondônia, 2021)

        Ana Lúcia aprendeu a fazer xaropes, garrafadas (líquidos preparados com plantas ou cascas de árvores cozidos, macerados ou apenas imersos em água e armazenados em garrafas), lambedores (xarope viscoso à base de diferentes vegetais preparado com mel ou açúcar) e outras medicinas com a sua avó, que usava apenas as plantas para curar. Antes da pandemia, já fazia essas medicinas para doar à vizinhança e aos familiares em Guajará-Mirim e em Costa Marques, cidades do meio-oeste do estado de Rondônia. Com a pandemia, a procura por suas medicinas foi intensa, o que a motivou a comercializá-las sendo, atualmente, a principal fonte de renda da família. Para a preparação dos xaropes, Ana Lúcia, assim como outras mulheres puruborá que vivem na cidade, tenta reproduzir em seu quintal parte do que havia em seu território, principalmente plantas e pequenos animais, como já fazia Bernarda:

Lembro que desde quando fomos morar na cidade, minha avó Bernarda e minhas tias tinham muitas plantas no quintal e lá no fundo tinham um pé de cacau e suas criações de pato, tartaruga, galinha, macaco, periquito, louro, curica... (Arthemiza Puruborá, Ji-Paraná, Rondônia, 2021)

        Ana Lúcia também conta com o apoio dos seus filhos para buscar as cascas de árvores no mato. No entanto, a busca está cada vez mais distante. Em Guajará-Mirim, o fluxo de troca de plantas até a cidade envolve parentes que moram em sítios e outros indígenas, alguns também parentes, que vivem nas aldeias da região. Infelizmente, nem tudo que havia no território é possível acessar na cidade. Orlandina, que mora no município de Seringueiras e Camila, em Presidente Médici, sempre carregam para a cidade algumas plantas dos terreiros das suas mães e tias que vivem na aldeia Aperoí, situada entre Seringueiras e São Francisco do Guaporé, às margens da rodovia BR-429.

        A troca e o cultivo de plantas era uma prática comum desde as gerações de Bernarda, Emília e Júlia, já falecidas, que ensinaram às suas filhas Edite, Cecília, Norma, Hozana e Mari que, por sua vez, repassaram às filhas Ana Lúcia, Eline, Arthemiza, Delcione, Regiane, Camila e Orlandina. Os saberes e práticas de cura e cuidado com o corpo por meio das plantas são cultivados de geração em geração, principalmente entre as mulheres. Quando dão vida às suas plantas, as mulheres puruborá se vinculam às pessoas que já se foram, às que virão, aos lugares habitados, ao mato e à terra, que hoje está cada vez mais distante.


Plantar, colher e cuidar para ter. Plantação da Mari. (Foto: Mari Puruborá, 2021)


Plantação de couve, coentro e pimenta da Mari (Foto: Mari Puruborá, 2021)


Boldo no quintal de Mari (Foto: Mari Puruborá, 2021)

Mulheres kuikuro e mehinako

Aline Regitano e Kaianaku Kamaiurá

        Mulheres e plantas têm uma relação de proximidade cotidiana entre os povos do Alto Xingu. Para além do cultivo e preparo da mandioca brava, base da alimentação xinguana, as mulheres se relacionam com diversas espécies de plantas e raízes que se tornarão alimento, tintura, remédio, “sabonete”, etc. Nesse “sistema regional”, formam-se redes de rituais e casamentos, compartilham-se ideias e práticas de cuidado e corporalidade entre os povos, por mais diferentes que sejam. Para trazer dados etnográficos mais precisos, vamos falar especificamente sobre as mulheres mehinako da aldeia Utawana e as mulheres kuikuro da aldeia Paraíso. De modo geral, ainda que se possa dizer que há uma complementaridade no trabalho da roça, com homens e mulheres trabalhando juntos, a roça é o lugar das mulheres por excelência. Se os homens se dedicam à tarefa de limpar e plantar as roças, protegê-las de bichos como porcos do mato além de transportar de motocicleta as mandiocas colhidas para os quintais das casas; as mulheres assumem todos os outros processos: colher, descascar, ralar/triturar, decantar e secar o polvilho para, por fim, fazer o beiju (espécie de pão que se prepara com o polvilho da mandioca), ou o mingau. 

        Além da mandioca brava e outras mandiocas, como a doce, no entorno das aldeias há uma série de árvores frutíferas que fazem parte das dietas mehinako e kuikuro, como o pequi, e são parte essencial da paisagem e cosmologia dos povos alto-xinguanos. No “mato”, como nossas interlocutoras se referem frequentemente (em português), nas florestas que margeiam as casas, também existem muitas folhas, raízes e cascas de árvores que se transformam em “remédios tradicionais” (categoria em português também bastante mobilizada pelos dois povos) utilizados em chás, banhos, defumações e tinturas. Nas lagoas, é possível encontrar aguapés de onde se tira a matéria prima para produção do “sal do índio” (sal extraído dos aguapés) em um processo que leva horas de cozimento na fogueira, depois da decantação e secagem, conduzido do início ao fim pelas mulheres.

        Durante esses quase dois anos de pandemia da COVID-19, o lugar da relação entre mulheres kuikuro/mehinako e plantas se tornou ainda mais central. Não que homens não mantenham relações com plantas: como adiantamos, o trabalho nos campos, na mata e na roça é compartilhado. Além disso, há muitos especialistas em tratamentos com ervas e raízes que são homens. Porém, a importância da relação mulher-planta para a manutenção de certa estabilidade nas aldeias e nas cidades é notável e deve ser aqui destacada. São elas, sobretudo elas, mulheres, que cuidam das roças, das casas, dos maridos, dos filhos. Que manejam o fogo de cozinha, preparam alimentos e remédios. Que seguem firmes, fortes, e que “não param, mesmo doentes”. A relação entre mulheres e plantas é necessária para a construção da corporalidade das parentes e isso se deve, ao menos, a dois fatores: porque sangram (sangue menstrual) e porque cozinham.

        Uma hipótese que surgiu durante a pesquisa, desde a perspectiva de mulheres kuikuro, é a de que elas só aguentaram se manter em pé e cuidando de todos – mesmo quando doentes com o novo coronavírus – por tomarem, todos os meses ao sangrar, o kedite. Trata-se de um emético manipulado e ingerido nos períodos de sangramento menstrual e do parto, e que se tornou um grande aliado não só das mulheres, mas também dos homens, na prevenção e tratamento da COVID-19. Ele limpa o corpo não apenas dele retirando qualquer princípio patogênico contaminante, mas também o tornando forte e menos propenso a adoecer ou ficar muito mal, se vier a adoecer. Entre as Mehinako, vemos algo muito parecido com o uso do epenhêin, emético utilizado no período do puerpério para tirar o sangue do parto acumulado no corpo, limpar e fortalecer, sendo um dos principais remédios usados, por homens e mulheres, no combate à doença.


Pesquisadora Kaianaku Kamaiurá mostra remédio tradicional usado no tratamento da COVID-19

        As mulheres têm trabalhado incansavelmente para sobreviver a mais uma epidemia. Isso porque os povos Mehinako e Kuikuro, como outros do Alto Xingu, quase foram exterminados em epidemias passadas, como a de sarampo. Apesar de muitos conhecimentos sobre plantas, remédios e tratamentos tradicionais ficarem concentrados nas figuras das “donas de conhecimentos” (ver Regitano 2019), como os eméticos de menstruação e pós-parto, há diversos remédios que são mais disseminados, conhecidos e acessíveis ao povo de modo mais geral. Por isso, a relação que as mulheres têm com as plantas e os donos das plantas (“espíritos”, outros-que-humanos considerados donos dos vegetais), é fundamental nas respostas que esses povos apresentam na luta pela vida.

        Tendo o sangue menstrual e o do parto, substâncias altamente contaminantes e danosas, como perigos com que se relacionam cotidianamente, as mulheres têm de valer-se de seus conhecimentos e tratamentos locais (como os chás eméticos) para estarem prevenidas de adoecer e se manterem fortes. Fortes como tem de estar, para cuidar dos parentes, da casa, das roças e para nutrir, por meio do cultivar e do cozinhar. Assim, se o sangrar as coloca em uma posição potente de produção de alteridade, experimentando os limites das relações com outros-que-humanos, o nutrir permite a produção de parentesco, pois é por meio do cuidado, e assim, da comida, que se oferece condições para se viver a vida entre parentes.

As mulheres apinajé

Welitania Oliveira e Sheila Apinajé

        O povo Apinajé, assim como os povos ameríndios de maneira geral, despendem grande energia na produção e manipulação de seus corpos e dos corpos de seus parentes através das atividades cotidianas, do compartilhamento da alimentação, da ingestão de remédios e das práticas rituais. As mulheres apinajé são conhecidas e descritas pela literatura etnográfica como conhecedoras da cultura e fortes aliadas nos processos de fabricação dos corpos, por manejarem seus conhecimentos ancestrais para a realização de cuidados com a casa, seus filhos, a roça e as plantas -- estas últimas, como mostrou Giraldin (2013), são também consideradas seus filhos. Atravessadas pelos conhecimentos das anciãs e anciãos, as mulheres panhi [pessoas apinajé] cuidam, protegem e alimentam, sendo fortes protagonistas na proteção dos corpos na luta contra a COVID-19. Assim, como relata Sheila Apinajé, pesquisadora da PARI-c, além das barreiras físicas construídas nos principais acessos ao território, as mulheres ali buscaram remédios para intensificar cuidados e criar barreiras de proteção antes mesmo da COVID-19 chegar em suas aldeias.

        O uso de medicamentos tradicionais durante a pandemia foi muito importante, pois através deles, as mulheres atuaram na prevenção, logo após assistirem aos primeiros noticiários na televisão anunciando que a doença estava chegando já bem próxima à cidade de Tocantinópolis. O tempo de veiculação das notícias da chegada da COVID-19 foi usado pelas mulheres apinajé como um sinal de alerta para recorrerem aos medicamentos tradicionais, encontrados em sua maioria no bioma Cerrado.       

        A necessidade e a urgência para a construção de uma estratégia de cuidado foi o que mobilizou essas mulheres. Em suas falas, é expressiva a preocupação com seus filhos e anciãos, o que as colocou em um lugar central para a mobilização dos conhecimentos e circulação dos cuidados necessários para a proteção do corpo naquele momento. Diante disso, encontraram, principalmente no Cerrado, as raízes e as cascas que foram usadas para fazer banhos, chás e xarope. Uma das estratégias das mulheres foi:

Fazer um tipo um rosáriozinho, um crucifixo, um amuleto de um pau, pau preto que a gente chama aqui. As mães fizeram, principalmente, para as crianças de até cinco anos. Elas fazem e colocam no pescoço das crianças, faz pulseira também. Então, isso é uma forma de proteção. (Sheila Apinajé, Tocantinópolis, Tocantins, 2021)

        Todas as formas de cuidado expressas em nossas conversas e aqui descritas mostram a mobilização e participação das mulheres apinajé na proteção dos corpos. Elas confeccionaram amuletos e buscaram raízes e cascas para proteger crianças e adultos através de banhos, chás e xaropes, assim como das pinturas panhi. Sheila reforça ainda que, para realizar esses e outros cuidados, é importante pensar no manejo das plantas e das substâncias produzidas através delas, como é o caso do jenipapo. De acordo com seu depoimento:

A questão da pintura também foi uma das prevenções, principalmente de jenipapo, eles não tinham como ter o jenipapo direto, porque é por tempo, por época, aí, como a maioria das aldeias tem energia [elétrica], tirava e colocava na geladeira para ter a prevenção o ano todo. Então assim, foi muito importante o papel das mulheres. E esse cuidado que as mulheres tiveram, não foi só dos medicamentos tradicionais, mas também na forma de se alimentar. Com regras na alimentação, por exemplo. Quando percebiam que estavam só gripados, antes de entrar a COVID-19 dentro da aldeia, já tinham as regras de alimentos, não se podia comer qualquer coisa. Tinha que tomar muita água, água de coquinho do tucum que tem dentro do Cerrado. E aqueles que apresentaram a COVID-19 também tomaram muito coquinho. É um tipo de tucum rasteira que tem no Cerrado, na Chapada. (Sheila Apinajé, Tocantinópolis, Tocantins, 2021).


Pintura de Criança (Foto: Sheila Apinajé)


Tucum rasteiro (Foto: Sheila Apinajé)

Considerações finais

        A intensificação da circulação de alimentos e remédios tradicionais durante a pandemia mostrou-se, por si só, um ato de resistência e de vitória. O avanço da pandemia e o colapso sanitário e político no país levaram embora pessoas mais velhas e, com elas, conhecimentos específicos. Frente ao desamparo institucional, aos frequentes ataques aos direitos indígenas, às desinformações e fake news a respeito da doença, do tratamento e da vacina, foram as mulheres, sobretudo as mulheres, que mantiveram a casa, a fogueira, os maridos e os filhos alimentados, os remédios preparados – em garrafadas nas geladeiras ou em panelas de alumínio dentro de casa – as roças e os quintais bem cuidados.

        Entre as Apinajé, o trabalho complementar entre homens e mulheres é fundamental para manter as barreiras, seja as territoriais-sanitárias, seja as de proteção aos corpos, mas são as mulheres que produzem a comida e os remédios necessários para cuidar de todos. Muitas mulheres puruborá são chefas de família, compartilham entre parentes comidas, remédios e conhecimentos pela aldeia, pela cidade, pelas estradas, pelos rios, mas também pelas redes sociais, pelo WhatsApp. E as mulheres mehinako, bem como as kuikuro, não pararam de cuidar de suas roças e de suas casas, de colher mandioca, fazer beiju, buscar água, raiz, folha e casca do mato, além de preparar chás, banhos e inalações. Assim, a relação íntima e cotidiana dessas mulheres com as plantas, com “espíritos” outros-que-humanos, com parentes, com não indígenas nas arenas de debates compartilhadas (nas cidades, instituições, universidades, associações etc.) aponta para o lugar do território, da terra, dos conhecimentos e das mestras e mestres tradicionais para seus povos. Em momentos de crise, as respostas não vêm do Estado ou dos não indígenas, mas precisamente dos povos indígenas, de suas mulheres e ancestrais, daquilo tudo que lhes é mais caro, seus modos de ver e viver mundos. Esta nota é uma celebração da força das mulheres indígenas, mas também uma denúncia dos abandonos e dos ataques do governo federal aos povos indígenas. Aquelas e aqueles que se foram antes do tempo não serão esquecidas.

Revisada e editorada por Daniela Perutti

 

Como citar: Regitano, Aline; Puruborá, Arthemiza; Sucupira, Gicele; Oliveira, Welitânia; Apinajé, Sheila; Kamaiurá, Kaianáku. Mulheres, plantas e a COVID-19. Plataforma de Antropologia e Respostas Indígenas à COVID-19, vol. 1, n. 7, ago. 2021. Disponível em www.pari-c.org. Acesso em dd/mm/aaaa.