Memórias de isolamento: a luta pela vida dos(as) indígenas na cidade

por Vanda Witoto
31 Agosto 2021
Nota de Pesquisa


      Iniciamos o ano de 2020 dentro de uma normalidade aparente, apesar das notícias de que havia um vírus muito cruel em terras distantes de nós. No Amazonas, talvez por estarmos em um lugar considerado longínquo do resto do mundo, a notícia ainda não nos "assustava" tanto, nem mesmo as nossas autoridades que, até então, não adotaram nenhuma medida para evitar a entrada do vírus. As nossas fronteiras e aeroportos continuavam abertos, o carnaval trouxe pessoas do mundo inteiro e todos seguiam seu fluxo.

        Percebemos que algo estava acontecendo quando, no Amazonas, ocorreu o primeiro caso da doença. Foi em uma sexta-feira, 13 de março de 2020. A paciente era uma mulher de 39 anos que havia chegado recentemente de Londres. O vírus a acompanhou nessa viagem, querendo novos ares, novo sol, novos coloridos da Amazônia, ambiente ideal para a mutação de um vírus que, meses depois, causaria uma grande tragédia em nosso estado. Após essa confirmação, no dia 16 de março do mesmo ano, tivemos o primeiro decreto do governo do estado do Amazonas suspendendo as atividades não essenciais. Fecharam as escolas e as universidades; a circulação foi restringida; iniciava-se o isolamento para as pessoas privilegiadas e a luta por sobrevivência na rua daquelas abandonadas socialmente. 

        Sou técnica em enfermagem do povo Witoto e vivo na comunidade indígena Parque das Tribos, localizada às margens do rio Tarumã-Açu, distante 20 quilômetros do centro da cidade de Manaus, Amazonas. Aqui vivem 700 famílias de 30 etnias, mas temos famílias não indígenas que buscaram moradia em nossa comunidade e foram acolhidas. Um lugar onde as ruas são de terra batida, os urues (crianças, na língua witoto) correm o dia inteiro brincando e sendo crianças. Aqui estamos cercados pela mata verde da floresta que ainda resiste e somos abraçados pelo rio Negro, que corre atrás de nossas casas pelo braço do rio Tarumã-Açu. As casas são em sua maioria feitas de compensado, medindo quatro metros quadrados em um terreno de 10 por 20 metros. Sonhamos em ter um lugar digno para vivenciar nossa cultura.  Nossa energia elétrica não é regularizada, na maior parte da comunidade temos o famoso “gato” e por isso sofremos constantemente com a falta de eletricidade. Passamos o primeiro ano da pandemia sem água potável, que só chegou às nossas torneiras em janeiro de 2021.

        Em nosso território, não foi o vírus que chegou primeiro. Com a suspensão das atividades não essenciais, nossas famílias foram afetadas primeiro pela fome. E a fome, para os povos indígenas que vivem nas cidades, é algo muito presente e doloroso, pois aqui não temos território suficiente para que possamos fazer roças, não conseguimos pescar para garantir o alimento do dia. O sistema é capitalista, tudo precisa de dinheiro e muitos não conseguem ser absorvidos pelo mercado de trabalho por não terem estudo. A maioria das nossas famílias são lideradas por mulheres, que cuidam de seus filhos e provêm alimento para suas famílias através do artesanato que produzem e vendem nas feiras locais e universidades onde seus filhos estudam. Outra forma de renda das mulheres é o trabalho doméstico.

        Diante de tais dificuldades, iniciamos uma campanha nas redes sociais para garantir a alimentação das nossas famílias. À medida que passavam os dias, mais famílias necessitavam de alimentos e a nossa campanha se intensificou. Mobilizamos as universidades locais, os amigos e a sociedade de uma forma geral para que pudessem trazer algo para saciar a nossa fome.

        Conforme se intensificaram as notícias na televisão de que o vírus avançava em nossa cidade e o número de internações aumentava a cada dia, tomei a iniciativa de gravar pequenos vídeos com orientações sobre distanciamento social e uso de máscara conforme as recomendações das organizações de saúde. Minha grande preocupação era em relação à orientação de isolamento social, pois nossas casas são muito pequenas e abrigam muitas pessoas. Assim, tal orientação não era adequada, não fazia sentido para nós pois, além do aspecto físico imposto pelas nossas moradias, o aspecto cultural dos nossos povos também dificultava esse isolamento. Nossas famílias costumam viver em ambientes coletivos onde se come junto no chão das salas, onde se dorme em redes em quartos pequenos com cinco, seis e sete redes. Há famílias com onze membros em uma única casa. Como orientar o isolamento?

        A partir do entendimento de que não era possível realizar esse isolamento, o nosso foco foi na orientação sobre o uso das máscaras. Então, quando estivessem juntos, que todos pudessem usar máscaras e assim que alguém tivesse sintomas, por mais leves que fossem, que entrassem em contato comigo. Começamos a relatar os sintomas que estavam sendo divulgados nos noticiários como febre, dor de cabeça, coriza e tosse. Além dessas orientações, começamos a fazer os chás das nossas medicinas tradicionais. Sugeri que tomássemos os chás antes de apresentar os sintomas e, quando os sintomas aparecessem, intensificarmos o seu uso.

        No final de março de 2020, pessoas da nossa comunidade começaram a apresentar os primeiros sintomas e me ligaram pedindo remédio para febre. Nesse momento, tem início uma experiência que nunca pensei em viver; precisei de coragem para enfrentar o medo da doença que até então desconhecia, sem nenhuma orientação de cura. Naquele momento, o grande desafio era ter equipamentos de proteção individual que pudessem garantir a minha segurança. Os parentes não tinham condições de comprar máscaras. Diante disso, sugeri à minha mãe iniciar a produção de máscaras para doar aos parentes que estavam tossindo. Comprei 6 metros de tecido TNT e minha mãe começou a costurar com outras duas costureiras, uma Munduruku e outra Baré. Em seguida, orientamos aos parentes que estivessem tossindo que buscassem um par de máscaras para uso individual. Aquelas máscaras de TNT foram inicialmente usadas por mim, pois eram as únicas que tínhamos à mão. Usava chinelo, calça comprida e um avental de tecido que eu tenho da minha área de enfermagem. Quando alguém me ligava para visitar os parentes, eu tinha apenas um termômetro e um aferidor de pressão arterial. Com o aumento da demanda, pedi doações nas redes sociais para que as pessoas pudessem me ajudar com equipamentos de proteção adequados. Graças à solidariedade de muitos, recebi capote descartável, máscaras N95, protetor facial e oxímetro.

        Inicialmente, comecei a cuidar de cinco pessoas com COVID-19. Já em abril, estávamos com 40 indígenas sintomáticos. Até então, por terem apresentado sintomas leves, como se fosse uma gripe, não nos assustamos muito. Porém, em 16 de abril de 2020 recebi uma ligação às 7 horas da noite de um parente do povo Tuyuka relatando que sua mãe se encontrava com tosse, febre e muitas dores no peito, não conseguindo respirar direito. Após chegar do ambulatório onde trabalho e tomar um banho, coloquei uma máscara, um avental, uma luva, peguei meus equipamentos de temperatura, oxímetro e o aferidor de pressão arterial e me dirigi à sua casa. As ruas escuras dificultavam a caminhada à noite, mas consegui chegar.

        Em sua casa, encontrei a parente deitada na rede tossindo bastante, com a respiração ofegante. Toquei em seu braço e percebi que sua temperatura estava muito elevada. Aferi sua temperatura, que estava 40 graus, coloquei o esfigmomanômetro em seu braço e sua pressão arterial estava elevadíssima, medindo 17 por 11. Tentei fazer algumas perguntas para saber o que ela estava sentindo além do que eu estava vendo, mas ela não conseguia me responder pois, a cada tentativa de fala, a tosse aumentava significativamente. Coloquei o oxímetro em seu dedo e a sua saturação média era de 87%, fora dos padrões normais.

        Senti-me desorientada do que fazer, pois os seus parâmetros estavam todos alterados e temi que aquela fosse uma situação real de COVID-19. Não a retirei da rede e, como ela apresentava dificuldade respiratória, saí do local e fui tentar, da minha residência, chamar a ambulância para que a pudessem transportar em segurança. Meus familiares não permitiram que eu a levasse em meu carro pelo risco de ser contaminada. Meu pai falava: “minha filha, não vá, você precisa estar bem para cuidar das outras pessoas”.

        Diante de sua fala, liguei para o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), fiz a identificação da paciente como indígena e a comunidade da qual estávamos falando, que era o Parque das Tribos. Quando me referi à “paciente indígena”, a atendente me pediu para contactar a Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), pois “é ela que cuida de índio”. Precisei respirar fundo e explicar-lhe que nós somos indígenas em contexto de cidade e que por conta disso a SESAI não nos atenderia, pois não nos reconhece como indígenas fora dos nossos territórios. Ela insistia em dizer que nós teríamos um hospital específico para sermos atendidos, mas na verdade não havia nenhum, apenas a promessa não cumprida da ministra do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, de construir um hospital para atender nossos parentes.

        Frente à minha insistência de que precisava de uma ambulância para levar a minha parente, a atendente pediu dois pontos de referência para liberar a ambulância, porém, nossa comunidade fica distante do centro da cidade, o que nos cerca é a Floresta Amazônica e o rio Tarumã-Açu. Temos um balneário em frente à comunidade, mas isso não aparecia no seu mapa. Por falta de pontos de referência identificáveis pela atendente, não foi possível liberar a ambulância. Desliguei o telefone e, contrariando a minha família, coloquei duas máscaras no rosto, peguei o meu carro e fui buscar nossa parenta com muito medo de ser infectada e de que ela tivesse uma parada cardíaca no caminho. Eu e o seu filho a colocamos no carro e às 8 horas da noite fomos para a Unidade de Pronto Atendimento Campos Sales, onde ela foi atendida em emergência. Ao colocarem nela uma pulseira rosa, usada para identificar os pacientes com COVID-19, percebi que estava mesmo com o vírus. Após a sua entrada na unidade, passaram-se horas para termos retorno de que ela estava bem. Ficamos até às 3 horas da manhã, de pé, aguardando por notícias. De tanta insistência, uma atendente buscou informação e nos disse que ela ficaria internada e que poderíamos voltar para casa.

        Esse foi um exemplo das nossas piores experiências vivenciadas diante da negligência do poder público com os povos indígenas em contexto de cidade. Durante toda a pandemia, nossas comunidades ficaram desassistidas. Todas as ações de cuidado e orientação na comunidade partiram do conhecimento ancestral dos nossos povos com nossas medicinas tradicionais, nossos benzimentos, nossa defumação, e graças à mobilização da sociedade manauara e de outros lugares, garantimos remédios, alimentos e proteção para nossas comunidades, pois sem eles não poderíamos fazer nada.

        À medida que a doença avançava, mais angústia e, no dia 13 de maio de 2020, tivemos o primeiro óbito por COVID-19 da nossa comunidade. A nossa liderança maior, o cacique Messias Kokama, de 53 anos, veio a óbito pela doença. Foi um momento de muita tristeza por não termos conseguido salvar sua vida diante de todo o esforço que tivemos. A cidade estava um caos, não havia leitos suficientes para as pessoas e o medo de não retornar mais fez com que ele não buscasse o hospital. Messias dizia que era índio forte da beira do rio Solimões e que esse vírus não o pegaria. O vírus é muito cruel e arrancou uma das raízes fortes da nossa comunidade.

        Todo o ano de 2020 se deu por longas caminhadas em nossa comunidade, buscando ajudar os parentes. Já no início de 2021, com a segunda onda da COVID-19, nossa comunidade foi novamente afetada. O vírus foi muito mais forte e contaminou muito mais gente, o que me impediu de dar atenção a cada pessoa. Então, nossa comunidade se organizou para a construção de uma cobertura que pudesse atender os nossos parentes, onde colocamos redes. Mais uma vez, pedimos ajuda através das redes sociais para que pudéssemos nos estruturar com oxigênio, suporte de soro e remédios, dando um atendimento digno aos nossos parentes diante do caos que se instalou novamente na nossa capital. Muitas pessoas morreram por falta de oxigênio e na nossa comunidade, graças ao apoio da sociedade, tivemos oxigênio e um suporte que, mesmo precário, garantiu a vida dos nossos parentes.

        Sou muito grata aos nossos espíritos sagrados por nos ter dado sabedoria para conduzir o enfrentamento da COVID-19. Todo o nosso conhecimento ancestral, das nossas medicinas tradicionais garantiram a sobrevivência da maioria dos nossos parentes até o momento. No cenário caótico que nossa cidade vivenciou, tivemos apenas dois óbitos e ficamos gratos por não ter sido pior. Lamentamos pelas duas mortes, mas lembramos da vida dos que continuam de pé. Passei por muitos dias de cansaço, não comia direito, mas entendia que aquela luta tinha sido direcionada para mim, pois eu tinha tido a oportunidade de me formar como técnica de enfermagem e, naquele momento, todo o conhecimento adquirido foi fundamental para a garantia da vida dos nossos parentes. Celebro a vida do meu pai, da minha mãe e da minha família, por estarem ao meu lado contribuindo da melhor forma possível. Eles me deram muita força para não desistir, pois o fardo foi muito pesado.

Revisada e editorada por Daniela Perutti

 

Como citar: Witoto, Vanda. Memórias de isolamento: a luta pela vida dos(as) indígenas na cidade. Plataforma de Antropologia e Respostas Indígenas à COVID-19, vol. 1, n. 7, ago. 2021. Disponível em www.pari-c.org. Acesso em dd/mm/aaaa.