Mulheres tentehar e ka’apor na proteção de seus territórios em tempos de COVID-19

por Lirian Monteiro, Taynara Caragiu Guajajara
30 Setembro 2021
Nota de Pesquisa

 
       Do início da pandemia, em 2020, até o presente, vivendo com as medidas de proteção contra a COVID-19, as mulheres indígenas caminham tecendo redes de cuidados em suas aldeias, seguindo na resistência e buscando estratégias para fortalecer o bem viver em seus territórios. Iniciaram o trabalho com a conscientização da população sobre a importância do uso das máscaras, higienização constante das mãos, a importância de ficar dentro da aldeia e manter o isolamento social. Mas não só isso. As mulheres se uniram e se articularam para pensar a segurança alimentar em suas aldeias, realizando vigilância territorial junto aos homens, participando de projetos, atuando em associações para a melhoria de suas comunidades nos aspectos da saúde, da educação e da cultura. De forma mais ampla, articularam-se às mulheres de outros territórios, para, juntas, realizarem mobilizações constantes contra os retrocessos em relação aos seus direitos constitucionais.

        A partir de suas lutas cotidianas, as mulheres indígenas têm ocupado diversos espaços, conquistados com muita dedicação. Deles, saíram grandes lideranças a nível nacional, internacional e de base, que são essenciais, o pilar para a manutenção desses movimentos e suas articulações.

        Nas Terras Indígenas Rio Pindaré, Caru, Alto Turiaçu e Alto Rio Guamá, há exemplos de mulheres atuantes e potentes na gestão e proteção dos territórios indígenas. Em 2020, essas mulheres seguiram firmes dentro de suas aldeias para a proteção das famílias, sem deixar de atuar nas pautas do movimento indígena local e nacional, principalmente, porque os invasores não pararam na pandemia. Em 2021, não viram outra saída a não ser reunirem-se para uma sequência de mobilizações contra a ameaça inconstitucional de roubo de suas terras e vidas, representado pelo Projeto de Lei n. 490 (PL 490/2007), em processo de votação na Câmara Federal desde junho do corrente ano. E assim, por meio da forte atuação dessas mulheres, a BR-316, que corta o Território Indígena Rio Pindaré, ligando o Maranhão ao Pará, vem sendo interditada a cada votação do STF, dessa forma, somando forças ao movimento indígena nacional.

        As mulheres indígenas vêm plantando esse protagonismo dentro e, agora, também fora de seus territórios, pois em meio à pandemia decidiram fazer luta, alinhavando todos os territórios indígenas através de cada uma. Juntas, seguem no mesmo propósito, que é a garantia de sobrevivência de seus territórios, de sua ancestralidade, como um lugar de direito ao pertencimento no mundo. Essas conquistas nunca foram fáceis, mas por meio dos relatos de lideranças mulheres das Terras Indígenas Rio Pindaré, Caru, Alto Turiaçu e Alto Rio Guamá, observamos que, para que essas mulheres se articulassem nas grandes mobilizações nacionais, foi necessário fazer o trabalho de formiguinha dentro de suas aldeias e territórios. Assim, com suas necessidades específicas e comuns, buscaram alianças conjuntas com mulheres de diferentes povos.

Jessica Guajajara, coordenadora do Grupo de Mulheres Wiriri Kuzà Wà (Aldeia Januária/TI Rio Pindaré)

        Nós, mulheres guajajara[1] da TI Rio Pindaré, nos reunimos com caciques e lideranças das oito aldeias de nosso território para elaborar um plano de vigilância em nossas aldeias para que cada grupo pudesse revezar. Um dia ficariam os guardiões[2], outro dia, membros da comunidade, junto com o cacique, outro grupo de mulheres. Com essa pandemia, há muito essa preocupação com os nossos parentes, principalmente os anciões e as crianças, os nossos jovens, e até então a gente não pôde impedir muita coisa, a gente teve ajuda, a gente também utilizou nossos remédios caseiros tradicionais, mas infelizmente o vírus entrou em nossa comunidade, atacando nossos jovens, nossos anciões. Pela graça e bondade de Deus, a gente se recuperou. A gente estava na luta impedindo que outras pessoas não indígenas entrassem em nossa comunidade.

        O nosso papel, como mulheres indígenas, dentro da proteção territorial, é ajudar a combater as coisas ilegais que vêm para dentro da nossa comunidade, ajudar também o cacique, ajudar os guardiões a preservar a nossa terra, fazer a vigilância também junto com eles. E é esse nosso trabalho, que também é de ajudar no reflorestamento da nossa comunidade.

Maisa Guajajara, coordenadora do grupo de Guerreiras da Floresta (aldeia Maçaranduba/ TI Caru)

        Eu sou Maísa Viana Guajajara, coordenadora do grupo Guerreiras da Floresta aqui da Terra Indígena Caru. Desde o ano passado, no auge da pandemia, a gente entrou em isolamento social. A maior dificuldade que a gente achou foi de manter os parentes dentro do território. Porque nem todos estavam acreditando no que estava acontecendo no mundo todo, como muitas pessoas morrendo. Essa foi a maior dificuldade que a gente encontrou.

        Este ano, com a chegada da vacina, eu fui a primeira a ser vacinada aqui no nosso município, aqui no Bom Jardim, e aí, depois que eu tomei, a vacina veio para a aldeia, para os territórios. No início, houve muita recusa dos parentes. Nosso trabalho foi de fazer a primeira conversa junto à equipe de saúde, que veio na aldeia para falar sobre a importância da vacina. Mesmo assim, teve muita recusa dos parentes, porque teve muita fake news. Nossa população, da aldeia Maçaranduba, é de 500 pessoas e, no primeiro momento que a vacina chegou para nossa aldeia, somente 70 pessoas quiseram vacinar.

        Mas, agora com essa segunda onda e com as vacinas chegando para a aldeia, Cacique fez uma reunião geral junto às demais lideranças, conversando com nossos parentes. Essa segunda onda que está acontecendo a nível nacional, a nível mundial, aí os parentes conscientizaram mais, e aqueles que estavam se recusando acabaram aceitando. Acho que agora só umas dez pessoas que ainda não se vacinaram, mas eu acho que a gente conseguiu mobilizar a maioria aqui dentro da comunidade.

Cícera Guajajara - Guerreira da Floresta, aldeia Maçaranduba (TI Caru)

        Sou uma das lideranças e uma das Guerreiras da Floresta, que é um grupo de 30 mulheres da aldeia Maçaranduba. As guerreiras são para lutar, defender seu território, sempre trabalhamos com os Guardiões da Floresta. Tivemos bastante preocupação este ano com a pandemia da COVID-19, que veio para afetar a todos. Foi muito tenso para todos. Essa semana as guerreiras estão se organizando para ir para a mata e se afastar da cidade. Vamos levar as crianças, os mais velhos, para ficar distantes. A gente também vai trabalhar, fazendo vigilância em nosso território, nos preocupamos também com o lixo contaminado que os invasores deixam dentro do nosso território. Então, o trabalho das guerreiras é fazer esse papel. Lutar pelo nosso território e pelo nosso direito. Fazemos isso com o maior orgulho. É a nossa casa. Temos que limpar nossa casa. Damos apoio também na alimentação para os nossos Guardiões da Floresta e também trabalhamos com palestras, conscientizando nosso povo, nossas crianças, os mais velhos, que sempre andam junto com nós, guerreiras. A gente faz acampamento dentro da mata, sempre junto. Todo mundo unido. A gente, quando se depara com os invasores a gente não chega perto, sempre ficamos de longe. A gente procura ficar distante das pessoas porque elas podem estar contaminadas. Nisso a gente tem o maior cuidado dentro da mata, principalmente agora nesse tempo da pandemia. Os guardiões sempre estão juntos, eles têm o maior cuidado e sempre estão na frente, não deixam as guerreiras chegarem perto dos invasores. A gente se depara muito com invasores dentro do nosso território, os caçadores, os pequenos madeireiros que são os tiradores de estaca, de cipó. Às vezes a gente se depara com os traficantes dentro do nosso território e sempre a gente está ali conversando, pede para a pessoa sair porque ali não é local deles, é Terra Indígena. Eles sabem que é proibido, que não podem entrar. Então esse é o nosso trabalho das Guerreiras da Floresta, fazendo vigilância dentro do território sempre junto aos Guardiões da Floresta.

Rosilene Ka’apor, TI Alto Turiaçu, coordenadora de base da Articulação das Mulheres Indígenas do Maranhão (AMIMA).

        Nós, mulheres ka’apor, que moram na aldeia, a gente ficou com muito medo quando chegou esse vírus. A gente ficou isolada. Cada uma nas suas casas, a gente não saía para lugar nenhum, ficava só dentro de casa, todos nós das nossas comunidades, as mulheres, assim falavam para os seus filhos não saírem de casa, para a gente não se contaminar pelo vírus.

        Nós também, mulheres, ajudamos os homens na proteção territorial, a gente os acompanha quando eles vão olhar os limites, a entrada dos madeireiros. A gente também vai ajudar, falando, guiando para que eles conversem numa boa com os Karaiu [brancos], para a gente não ter conflito para o lado do nosso povo. A gente também trabalha aconselhando nossos guardiões, que são os guardas florestais que a gente tem, eles também criaram uma base agora, recente. A gente também sempre acompanha eles, quando eles vão nessa base.

        Nós enfrentamos muitas dificuldades, nós mulheres ka’apor, porque a gente também não podia sair. Por um lado, foi bom para nós, porque a gente também gosta mais da mata, da floresta. A gente ficou mais dentro do mato. Mas, pelo outro lado, a gente teve dificuldade. Quando o menino da gente adoecia com diarreia a gente ficava pensando muito também, porque a gente não podia sair para a cidade. A gente enfrentou muita dificuldade, mas a gente também superou essa dificuldade. Agora que chegou a vacina, no começo tinha recusa de idoso, que não queria ser vacinado, porque disse que a vacina não ia curar. Estavam com medo de serem vacinados, mas a gente que entende, a gente conversou com eles. Aí deu tudo certo, está tudo bem agora que a gente já foi vacinado e a gente já está mais protegido desse vírus.

        Espero que vocês entendam meu áudio, porque a gente não está muito acostumada a falar em português, aí a gente fica, tem umas palavras que não dá para a gente falar, mas eu tentei o possível aí para ti Taynara, obrigada.

Valsanta Tembé, aldeia Tekohaw, região do Gurupi, município de Paragominas, Território Indígena Alto Rio Guamá

        Nesses tempos de pandemia, as mulheres tembé se articulam criando estratégias, como o grupo de Guerreiras Tembé, no qual elas assumiram um papel de orientar as famílias dentro das aldeias para evitarem a circulação na cidade, principalmente os jovens, com o intuito de zelar pela vida própria e a do próximo. A outra estratégia realizada, e pensada junto às mulheres, homens, lideranças, foi criar um portão de entrada nas aldeias com o intuito de fazer a segurança das nossas famílias dentro das aldeias. Os parentes que tiveram casos de COVID-19, por exemplo, tiveram a compreensão de não fazer visitas entre as aldeias.

        Sobre a proteção territorial, é um tema muito delicado. Nós não ficamos parados, nossos Guerreiros continuaram fazendo vigilância em torno do território, vendo de onde estavam saindo as estacas de madeiras, das caças, pesca. Então eles estiveram lá conversando para evitar as ações ilícitas que acontecem no território e também a gente tem a contribuição de nossas guerreiras, uma equipe de mulheres que se formou para fazer a vigilância em nossos rios e igarapés. Nós estamos alcançando efeito através do trabalho dessas mulheres, que estão evitando a retirada de quantidade muito grande de peixes dos rios, que os “brancos” pescam para fazer comercialização, então essas mulheres estão atuando para impedir a pesca para comercialização, desfazendo “tapagem”, que é utilizada pelos “brancos”. Então é isso, a nossa proteção territorial não parou na pandemia.

        Como Associação das Mulheres Indígenas, buscamos parcerias. Cobramos dos governantes municipal, estadual, distrital. A gente cobra também da secretaria dos órgãos responsáveis pela proteção do território, como a Secretaria do Meio Ambiente. A gente vai na nossa prefeitura, também faz reunião online com esse povo todo, e, através da associação, a gente cobra deles. Essa atuação da parte deles em prol da preservação e do cuidado do nosso território. A gente tem a FUNAI [Fundação Nacional do Índio] também e a gente os chama para mostrar o papel deles como órgão competente, que trabalha na questão dos direitos indígenas. Assim, a associação está contribuindo.

        Essa Associação é das Mulheres Indígenas Tembé, da região do Gurupi, e, através dessa associação, nós mulheres conseguimos trazer cestas básicas para apoiar nossas famílias durante a pandemia. Então, além de a Associação fazer o papel juntamente com órgãos responsáveis pela proteção territorial, também já alcançou realizar alguns projetos. Um dos projetos, que está finalizando e que surtiu efeito, foi o projeto em parceria com o World Widllife Fund (WWF). A gente fez algumas compras de materiais como motos, drones e vários outros materiais que estão contribuindo para a vigilância territorial aqui na nossa região. Então, a nossa associação está cumprindo seu papel e tem como objetivo trazer mais melhoria, alcançar mais melhoria para nossas aldeias.

        No olhar de nós, mulheres tembé, a proteção territorial é de suma importância e também é um papel nosso. Através dessa proteção territorial a gente também é cuidado por ela, pois assim a gente vive de forma mais harmoniosa dentro do nosso território. Porque cuidar da natureza é nosso papel, é cuidar da nossa própria vida. Hoje o “branco” tem o supermercado, de lá ele tira a alimentação dele, então a nossa natureza é o nosso supermercado também, ela assume esse papel. É de lá que nós tiramos nossos remédios tradicionais, é de lá que tiramos os materiais para confeccionar nossos adornos para os nossos rituais, é de lá que tiramos a caça, a pesca. Então é assim, ela nos sustenta e cabe a nós também cuidar dela, porque nós, indígenas, sobrevivemos da natureza. A nossa preocupação maior é de não a deixar vir a se acabar, porque, como eu falei, a gente depende dela, é a fonte essencial para a nossa sobrevivência, porque um povo sem floresta, sem território, não é nada. Porque, acabando nossa floresta, de onde vamos tirar nossos animais para fazer nossos rituais, de onde vamos usar especiarias que existem? Então é tudo isso, um cuidando do outro. Nós cuidando da natureza, e ela cuidando de nós. É assim que a natureza nos inspira. Ser paciente, ser cuidadosa, ser resistente como ela é, porque o ser humano explora tanto a natureza, mas ela sempre dá um jeito de se recuperar. Mas, a gente tem que zelar por ela, porque vai chegar um ponto que ela não vai dar conta de se recuperar por si só, então estamos assumindo esse papel de cuidar, de zelar pela natureza, porque ela também zela por nós, não só por nós indígenas, mas por todos.

        Sobre a importância da atuação da mulher, não posso deixar de falar de uma grande anciã que existiu, não se encontra mais em nosso meio, mas continua viva em nossas memórias. Ela foi um grande exemplo de luta, de mulher, de resistência. Ela era conhecida aqui na nossa região como Guardiã dos Saberes Culturais do Povo Tembé, que foi dona Veronica Tembé, mãe do Sérgio Muti, que hoje é liderança aqui da nossa região. Ela foi de grande importância, porque o povo Tembé, na década de 1940, quase chegou à extinção. Então, ela teve a preocupação de juntar as famílias, a pequena quantidade que existia de famílias, e viu que o povo unido jamais será vencido. A partir disso, ela teve o cuidado de repassar todo o aprendizado, tanto na parte da cultura como também o aprendizado da luta, de não desistir nunca de lutar pelo nosso território. Ela assumiu esse papel e a nossa atuação hoje dentro de qualquer estabelecimento, tanto indígena como não indígena, é de suma importância. E nós não temos que desistir e sim continuar na luta. Não só entre nós Tembé, mas também com as outras parentas. Então, essa grande Guardiã, dona Veronica Tembé, deu essa grande contribuição que foi de trazer as mulheres para a luta, para não deixar os saberes tembé. Então, ela nos ensinou e nos ensina a lutar, não deixando abaixar a cabeça, mas sim levantar e seguir a diante. Não desistir e seguir adiante. Assim, hoje é possível ver mulheres tembé dentro de uma reunião discutindo, e a nossa associação está sendo um exemplo, trazendo melhoria para o nosso povo, tanto dentro da saúde como da educação, na proteção territorial. Então, a associação está sendo hoje um instrumento principal de trazer essas mulheres para a luta.

Revisada e editorada por Daniela Perutti  e Spensy Pimentel.

 

Como citar: Monteiro, Lirian e Caragiu Guajajara, Taynara. Mulheres tentehar e ka’apor na proteção de seus territórios em tempos de COVID-19. Plataforma de Antropologia e Respostas Indígenas à COVID-19, vol. 1, n. 8, set. 2021. Disponível em www.pari-c.org. Acesso em dd/mm/aaaa.