A história por trás da foto: Nota de pesquisa sobre a conversa com Vanda Ortega Witoto

por Adriana Athila, Anderson Jamar Neves Maciel, Ivana dos Santos, Laura Carvalheiro Brizola, Cauê dos Santos de Oliveira
30 Setembro 2021
Nota de Pesquisa




"Mão no ventre, Maracá em punho". Vanda Witoto sendo a primeira vacinada do Amazonas, sob os olhos de autoridades públicas. Manaus, 18 de janeiro de 2021 (Foto: Arthur Castro/SECOM)

        “Como se fosse uma entrevista...” – foi assim que Vanda Ortega Witoto, profissional de saúde da Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas, liderança da comunidade indígena Parque das Tribos, localizada na periferia da cidade de Manaus, começa a nos contar a história por detrás da foto. Na entrevista, concedida em 12 de julho de 2021, os pesquisadores da PARI-c ouvem, aprendem e se emocionam com as histórias da mulher que, tendo saído aos 11 anos da pequena comunidade de Amaturá, entre Tefé e Tabatinga, passou de doméstica semiescravizada em domicílios da cidade de Manaus, a professora e técnica de enfermagem (acesse aqui a entrevista). Vanda é hoje universitária, protagonista de ações de saúde e porta-voz de reivindicações de atendimento e visibilidade aos povos indígenas no Brasil. Sobretudo para aqueles cerca de 36,2% da população indígena do país que, como ela, buscam alguma oportunidade de trabalho e estudo, foram privados de seus territórios e/ou de sua suficiência em nutri-los, estando em diversas cidades brasileiras.

        Vanda expressa muitas incertezas sobre a capacidade do Estado em atender às singularidades daquela comunidade, como às dos indígenas em geral. Por outro lado, o momento crítico de pandemia torna visível uma resistência comunitária admirável de construir e intensificar redes, laços e ações de cuidado coletivas. Nesse entremeado de sentidos, Vanda Witoto nos conta como se tornou a primeira vacinada contra a COVID-19 no estado com a maior concentração de indígenas do país.

        O dia era 18 de janeiro de 2021. Após uma sabatina telefônica acerca de sua trajetória como técnica de enfermagem, Vanda foi escolhida para a pantomima projetada pelo governo do estado para dar início à imunização. Segundo o monitoramento independente da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), eram então 923 indígenas vitimados pela doença no país; 216 deles no Amazonas. Até o final de agosto de 2021, esse número aumentou para 1194.

        Representando 0,4% da população brasileira, em janeiro de 2021, os indígenas eram cerca de 2,3% do expressivo número de brasileiros mortos pela doença. Uma proporção ainda maior dessa iniquidade se revelaria na comparação entre os números oficiais de mortes de não indígenas e de indígenas: até agosto de 2020, ajustados às diferentes composições etárias de suas populações, indígenas eram pelo menos 50% mais vitimados em todas as faixas etárias. Entre 0 e 9 anos de idade, morriam sete vezes mais, enquanto entre os acima de 50 anos, esse número era pelo menos duas vezes maior.

        Se, no Amazonas, indígenas em contextos urbanos não estavam incluídos na primeira fase prioritária da vacinação, o convite para ser a primeira vacinada naquele estado foi aceito. “De mãos dadas com sua ancestralidade” e conduzida pela imagem presentificada de sua avó, Vanda sobe a rampa até o palanque onde viria a ser vacinada. Por ironia ou não, no ato transformado em evento, dentre uma plateia majoritariamente composta por jornalistas e alguns funcionários de órgãos públicos, alguns gritavam: “você vai virar jacaré!”.

        Mesmo sendo profissional de saúde e sabendo da importância da vacina, Vanda relata ter tido medo do imunizante, sentimento reforçado pelo grande volume de desinformação e fake news circulante. Mas nada a deteve. Vanda considerou que o sucesso da vacinação entre outros “parentes” – como se chamam entre si os indígenas dos pelo menos 305 povos no Brasil – podia ser definido naquele momento. Isso porque não houve campanhas de informação sobre a vacina e diálogos claros e compassivos por parte do Estado, como desejavam povos indígenas em diferentes regiões do país ouvidos pelos pesquisadores da PARI-c. Seu corpo, ali, exemplificaria, a partir do dito e do feito, a segurança da vacina. Paradoxalmente, para representantes institucionais, era uma forma de sugerir a efetividade de suas intervenções e dar-lhes visibilidade.

        Além disso, Vanda, estimulada pelo pai, viu naquela ação um modo de registrar algo sobre a história dos Witoto que, assim como a de muitos outros povos indígenas brasileiros, resistiu na oralidade aos ciclos de epidemias pregressas e constantes, perseguições, medos, oclusões e violações identitárias. Essas violências  a fizeram, quando muito jovem, desconhecer o que era o documento que passou a portar: o registro administrativo de nascimento indígena (RANI), expedido pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI). Como um modo de dar continuidade e reescrever essa história, sob a perspectiva da resistência em vez do extermínio, sua ancestralidade mais uma vez se fazia presente naquela pantomima pública e, inexplicavelmente, parecia falar através do narrador que, ao chamar por ela, pronunciou: Vanda Ortega Bitoto. Como ela nos informa, apenas os seus “velhos, da comunidade” pronunciam a letra “w” com som de “b” ao falarem Witoto.

        Vanda reinveste e transforma o curso da história oficial hegemônica, projetada para estampar os jornais com a imagem de uma profissional de saúde indígena, mesmo sem haver qualquer plano de vacinar indígenas na cidade, de forma prioritária. E ela o faz trajada com sua “roupa tradicional”: o cocar, porque “em momento importante a gente tem que estar com nosso cocar”; os pés descalços, porque seus “sagrados pisam é na terra”. Em uma das mãos, erguida, exibe o seu maracá, “porque é luta”. A outra mão pousa sobre seu útero, “sagrado”, “porque gera a vida”, representando “movimento de luta também, em celebração à vida”.

        A maestria sobre seu corpo-alma, do qual seu cocar e maracá são órgãos essenciais, faz dele um “corpo político”, como ela tão apropriadamente o define. Sem um microfone ao alcance, Vanda faz sua voz ecoar: “nós [indígenas em contextos urbanos e outros locais não formalmente reconhecidos] não estamos no planejamento do estado [do Amazonas], do governo, para sermos vacinados. Porque esse Estado não reconhece a gente. Não reconhece a nossa identidade”. A voz de Vanda arrebata a plateia presente, reforçando a legitimidade de seu corpo político: “Leva o microfone para ela! Leva o microfone para ela! Ela precisa falar, deixa ela falar!”

        Ao contar a história por trás da foto, ela percorre um quadro abrangente sobre as muitas das razões da ineficiência e heterogeneidade da vacinação contra a COVID-19 entre povos indígenas pelo Estado brasileiro. Tais razões apontam que, mesmo com dados públicos limitados e pouco específicos, há uma preocupante lentidão da campanha, principalmente quando contrastada àquelas dedicadas às demais vacinas. A da influenza, por exemplo, é há tempos aplicada a um universo vacinal muito mais amplo de indígenas nos 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs) do país, alcançando, em menor tempo e até meados de agosto, 70% de cobertura. Igualmente, dão a pista sobre a heterogeneidade da cobertura vacinal de primeira e segunda doses nos DSEIs, notadamente naqueles localizados na região da Amazônia brasileira até meados de agosto de 2021[1].

        Em contraste com a atitude de subnotificar o número de indígenas mortos pela COVID-19, documentos oficiais da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) e do Ministério da Saúde enfatizam taxas brutas superestimadas de cobertura vacinal entre indígenas. Contudo, é preciso referenciá-las não apenas aos dados de vacinados por DSEIs ou por povos, mas também à completa inadequação do universo vacinal que a Secretaria usa como denominador: 406.953 indígenas. O número desconsidera tanto as características sociodemográficas e epidemiológicas de povos indígenas no país – populações com grande número de crianças e jovens de até 20 anos de idade e que apresentam taxas de mortalidade importantes, significativamente superiores às de não indígenas (ver dados aqui e aqui) – quanto exclui um grande contingente de indígenas em espaços urbanos, periurbanos e ocupações não considerados como Terras Indígenas pela SESAI.

        Quem são os indígenas do Brasil, quantos são e onde estão? Sem dados oficiais públicos detalhados, que permitam o monitoramento e o aprimoramento da atenção à saúde, o que inclui a imunização de indígenas, podemos apenas estimar. As respostas indígenas vultosas, em e entre aldeias, comunidades e coletivos regionais e panregionais são possíveis indicadores no sentido de quantificar e qualificar adequadamente aquele universo. Sua natureza múltipla desafia a fixidez da lógica espacial e identitária dos Estados nacionais, mais articulando do que contrastando a existência indígena em espaços ditos rurais, urbanos e periurbanos. Essas últimas divisões imprecisas, como se tem assumido também para a América Latina, desconsideram pelo menos os aspectos históricos, sociais, políticos e econômicos que irrompem as dinâmicas populacionais de indígenas.

        No Brasil, essas dinâmicas têm sido percebidas ou são cada vez mais marcadas pela urbanidade e ruralidade, aqui entendidas menos como delimitadores concretos de espaços e mais como idioma utilizado por indígenas para organizar e falar sobre modos de existência multisituados e que podem coexistir dentro ou entre aldeias, comunidades e cidades de forma translocal ou mesmo transnacional. Tendo em conta a insuficiência dessa definição, são notadamente os indígenas em contextos ditos urbanos e em áreas rurais não regularizadas ou formalmente reconhecidas os que têm ficado à revelia do processo de imunização.

        São sagazes as disputas narrativas e documentais entre o governo federal, a SESAI e outros agentes para discriminar indígenas por uma variedade de motivações, nessas situações, negando-lhes identidade ao mesmo tempo em que seus direitos específicos. As exceções praticadas pela SESAI para as ações em saúde, em geral – sem que possamos saber quantas são, onde e entre quais povos acontecem – chegam a integrar um sistema de dados paralelo, uma espécie de cadastro com a “marca da ADPF” (Arguição por Descumprimento de Preceito Fundamental nº 709), dado que restrito ao período da pandemia.

        Vanda nos mostra, contudo, que a desigualdade e a pouca sensibilidade das políticas públicas, especialmente aquelas de saúde, afetam todos os indígenas, estejam eles dentro ou fora de cadastros oficiais e oficiosos. Indígenas ouvidos pela PARI-c, mesmo quando em Terras Indígenas reconhecidas, também evocavam os estáticos e obsoletos “cadastros da SESAIcomo ferramentas que os impede o acesso à imunização. Brasil afora, tais cadastros não acompanham os trânsitos e dinâmicas populacionais específicos desses povos. Assim, as iniquidades atingem tanto a vida de indígenas do Parque dos Tribos, um dentre os diversos bairros indígenas de Manaus, onde resistem cerca de 700 famílias, de 35 etnias; como a de indígenas em trânsito na cidade, em tratamentos de saúde, levados pela própria SESAI.

        Com profunda angústia, Vanda nos conta sobre a violência da invisibilização – “porque nós ainda somos invisíveis para esse Estado; esse Estado não nos reconhece” – seja em vida, quando conseguem vencer a discriminação e a barreira de acesso às unidades de saúde que não os enxergam em suas especificidades; seja na morte, à medida que são marcados e enterrados como “pardos”. Como ela confidencia à mãe: “Só não deixa eu morrer como parda! Só não me enterre como parda”. Os serviços de saúde não são efetivamente acessíveis ou, do modo como se organizam, desejáveis aos indígenas na cidade ou quando na cidade.

        Enquanto a SESAI “não anda” ali no Parque das Tribos, mesmo quando intimada em Ação Civil Pública pelo Ministério Público Federal, a experiência de indígenas em contextos urbanos, com unidades de saúde insensíveis às suas especificidades, confirma aquilo que estudos epidemiológicos quantificaram como precário estado prévio de admissão hospitalar e letal trajetória de hospitalização de indígenas, especialmente quando vindos de diferentes comunidades da região Norte do país. À precariedade da atenção primária e ao acesso tardio a serviços de saúde de maior complexidade, inexistentes no interior do estado do Amazonas, soma-se o medo compreensível em irem ao hospital e não retornarem com vida.

        Para indígenas que vivem em cidades ou em Terras Indígenas não reconhecidas formalmente pelo Estado brasileiro, quando o acesso ao Sistema Único de Saúde (SUS) chega a acontecer, esse tratamento não os identifica ou “mapeia”. Quando muito, são tratados como “pardos”. Tudo se passa pela lógica da invisibilidade. Não há “geração de dados” específicos e, sem eles, como afirma Vanda, é “um grande desafio” reivindicar políticas públicas adequadas, da atenção primária aos demais níveis de complexidade.

        Como Vanda analisa, mesmo quando conseguem chegar às unidades de saúde, são atingidos pela discriminação, seja no tratamento recebido, seja nos próprios “ritos” exigidos para sua admissão, e que lhes podem ser completamente estranhos: “se um profissional não se dirigir a ele, tem gente que anoitece no hospital e não é atendido, porque eles não sabem perguntar”.

        A incompreensão e o não respeito aos seus modos de vida têm efeitos sobre a saúde dessas pessoas e, como lembra Vanda, vitimam também quem vive em Terras Indígenas reconhecidas e precisa acessar serviços de saúde em cidades maiores, referenciados pela SESAI. Retirados de suas atividades comunitárias, muitos têm sua saúde física e emocional debilitada pelo modo solitário de viver na cidade e em uma fila de espera por tratamentos médicos, que pode ser longa.

        Dentre a inação ou ações inapropriadas do poder público, a conversa com Vanda perpassa as vigorosas e multicêntricas respostas locais à COVID-19. É longa a trajetória da COVID-19 no Parque das Tribos. A fome instaurada em uma comunidade onde a venda de artesanatos era a fonte principal de renda precede e anuncia a chegada do vírus, enquanto ele se alimenta da ausência de condições sanitárias e de casas, em sua maioria, muito pequenas, do tempo em que a prefeitura não reconhecia o bairro como indígena. Como comer, lavar as mãos e manter o isolamento, em dadas condições? Não à toa, há maior contaminação de indígenas em contextos urbanos quando comparados a não indígenas pelas mais diversas configurações domiciliares, socioeconômicas e regiões do país.

        As respostas locais potencializadas pela ineficiência do Estado nessa comunidade atravessam questões sociopolíticas, econômicas e de segurança alimentar, do combate à fome aos modos efetivos de cuidado coletivo e tratamento da COVID-19. As campanhas feitas por Vanda e seus “parentes”, inicialmente com pouca adesão, possibilitariam mais tarde o adensamento de uma rede de parceiros (tais como pessoas, instituições de ensino e pesquisa, ONGs, instituições privadas etc.), viabilizando a construção de uma unidade hospitalar, comunitariamente gerenciada para atender seus doentes. De outra forma, padeceriam. Outras conquistas forjadas de “baixo para cima” foram a testagem ampla para a COVID-19, a recente conquista de uma unidade de saúde referenciada para indígenas, onde são marcados como tais no sistema de informação, e o monitoramento cuidadoso da doença, compartilhado com “parentes” e contando com a ajuda de todos que se dispusessem a ajudar.

        Como diz Vanda, ao contrastar as respostas locais e comunitárias às estatais e pouco significativas, fossem elas municipais, estaduais ou federais: aquelas ações foram feitas “para salvar vidas”, e “vocês fizeram ações para nos matar”.

        A pergunta final, depois da foto e das histórias decoloniais contadas e inscritas no e com o corpo político de Vanda Witoto e sua comunidade, acusa a renitência do poder público em enxergar e tratar, à revelia de recomendações e determinações judiciais em contrário, de indígenas nas cidades. Até o mês de julho, nenhum indígena do Parque das Tribos havia sido vacinado como parte do primeiro grupo prioritário no estado do Amazonas. É com sua fala a seus “parentes” do Parque das Tribos que concluímos esta pequena nota de pesquisa: “Vá vacinar, onde tiver lugar. Não espere ser vacinado como indígena não! Vocês não vão ser vacinados não! Esse é nosso discurso hoje, porque mesmo diante da determinação do Ministério Público Federal. O STF [Supremo Tribunal Federal] determinou a inclusão de todos os indígenas, independentemente de qualquer espaço, [para que] fossem vacinados, também não foi cumprido”.

Revisada e editorada por Daniela Perutti

 

Como citar: Athila, Adriana; Maciel, Anderson Jamar Neves; Santos, Ivana dos; Brizola, Laura Carvalheiro; Oliveira, Cauê dos Santos de. A História por trás da foto: nota de pesquisa sobre a conversa com Vanda Ortega Witoto. Plataforma de Antropologia e Respostas Indígenas à COVID-19, vol. 1, n. 8, set. 2021. Disponível em www.pari-c.org. Acesso em dd/mm/aaaa.