A história por trás da foto: conversa com Vanda Ortega Witoto

por Vanda Ortega Witoto, Adriana Athila, Anderson Maciel
30 Setembro 2021
Nota de Pesquisa

 
      A conversa entre Vanda Ortega Witoto, Adriana Athila e Anderson Maciel, todos pesquisadores da PARI-c, aconteceu de forma remota no dia 12 de julho de 2021, ela estando no Parque das Tribos, na cidade de Manaus, estado brasileiro do Amazonas. O que se segue é uma versão editada da nossa conversa, que durou cerca de uma hora e meia. Para maiores informações sobre Vanda, remeto o leitor à Nota de Pesquisa inspirada em suas perspectivas valiosas sobre povos indígenas, vacinação, atenção diferenciada à saúde e as respostas e silêncios do Estado brasileiro diante da COVID-19.

 

Adriana: Eu tenho muita curiosidade de saber a história por trás da sua foto, sendo a primeira pessoa vacinada em Manaus. Essa foto rodou o mundo, está em eventos... Como é que você chegou a ser selecionada? 

Vanda: A história, o convite, na verdade, foi uma grande surpresa para mim. Eu fui convidada uma hora antes do evento. Uma hora da tarde, do dia 18 de janeiro, a assessoria do governador do estado do Amazonas tinha me ligado para saber um pouco mais da minha história. Como se fosse uma entrevista mesmo. Então, o primeiro contato da assessoria de comunicação do estado foi querendo saber um pouco mais da minha história. Eles queriam saber também um pouco mais do meu trabalho enquanto técnica de enfermagem. E aí, quando foi cinco horas da tarde, eu recebi a ligação, falando que o meu nome era o mais cotado para ser a primeira amazonense a ser vacinada. E a minha primeira pergunta, bem ... porque a gente já sabia que nós estávamos fora do planejamento do governo dessa prioridade da vacina. Então, nós já estávamos há meses em reuniões, enviando documentos para o Ministério Público Federal, para tentar ser contemplado com a vacina nesse primeiro momento. E aí eu faço a pergunta: “Eu vou tomar a vacina como indígena ou como profissional da saúde?” Em seguida, eu perguntei: “Vai ter fala, eu vou ter fala nesse evento? Porque eu quero.” Mana, meu corpo é político, então eu não posso estar em um lugar desses sabendo que meu povo não vai ser vacinado, sem poder ter uma fala. Então, eu disse: “Mana, eu não tenho como ficar em silêncio nesse evento!”

        Como o meu pai disse: “Minha filha, vai, vá! Esse é um momento importante para o nosso povo Witoto. O nosso povo não tem história registrada. Você é a primeira Witoto aqui no estado do Amazonas a ser vacinada.”

        Fiquei em choque. Primeiro porque a gente estava com as notícias da vacina muito negativas, aquelas fake news. Eu estava morrendo de medo; mesmo não me colocando, porque eu sou uma profissional da saúde e sei o quanto a vacina é importante. Diante de tanta notícia ruim produzida quanto à vacina, eu ser a primeira indígena vacinada, se acontece alguma coisa comigo, nenhum dos meus parentes [como indígenas de diferentes povos no Brasil se referem uns aos outros] vai tomar a vacina. E se der certo, eu vou ser uma referência. Porque os nossos parentes já estavam com medo; já estavam dizendo que não iam se vacinar, por conta das notícias.

        Foi uma coisa muito emocionante. E aí eu fiquei pensando ... “Com que roupa eu vou?” É um evento, essas coisas. “Não! Eu vou com minha roupa tradicional. Eu não posso estar nesse lugar sem ela. Eu sou uma profissional de saúde, mas a minha luta é indígena!” É um momento muito importante para a gente e, em momento importante, a gente tem que estar com nosso cocar! É luta, a gente tem que estar com o nosso maracá! E aí coloquei toda a minha roupa: “Mas eu vou de salto, porque quero estar na altura!” [risos]

        Quando a gente foi para lá, mana, um nervoso... minha carne tremia toda por dentro! Que era o medo, era a emoção, era um monte de coisa ao mesmo tempo. Fui pensando na minha avó. Eu falei, “Vó, se você me trouxe até aqui, é você quem vai estar me conduzindo para esse lugar. Então, é o nosso povo Witoto que está aqui, é o nosso sagrado.” E aí eu fui me acalmando. Quando chegou lá, eu comecei a me incomodar com o sapato no pé. Não! A vó está incomodando com esse sapato aqui. Não é para eu entrar de salto não! Eu vou é descalça mesmo, porque os meus sagrados pisam é na terra!

        E fomos. Nossa, quando a gente desceu, mana, parece que eu não enxergava ninguém assim. Eu estava muito mentalizada com a minha avó. E aí as pessoas, talvez por ironia, começaram a gritar: “Você vai virar jacaré; você vai não sei o quê!”.

        Quando começou a fala do governador, eu falei: “Depois dele talvez eles me chamem para a vacina. E é minha oportunidade de falar". Terminou a fala do governador, tiraram o microfone. E eu já fiquei atenta àquilo. Eu disse: “Eu não vou falar, eles não vão permitir que eu fale”.

        A coisa mais linda foi chamarem o meu nome. Fiquei muito emocionada. Porque só quem fala “Bitoto”, como o comunicador falou, são os nossos velhos. E o cara falou exatamente assim, como se fosse um “vô” falando, sabe? “Vanda Ortega Bitoto!” Me arrepiou todinha. Foi muito emocionante a chamada para a minha caminhada até lá. Então, eu subi descalça aquela rampinha, pisando. Não conseguia enxergar ninguém...

        E aí eu sou vacinada e ergo o meu maracá. Essa colocação da mão no útero é uma coisa muito sagrada também. Quando a minha mão é colocada aqui, é o ventre dessa mulher, que é o sagrado, que é o que gera a vida. Esse movimento é um movimento de luta também, em celebração à vida. E aí eu faço essa colocação de mão e ergo o meu maracá.

        Como eu percebi que tiraram o microfone, eu comecei a falar. Comecei a falar, sem o microfone, ali, com o meu maracá erguido. Primeiro eu falei: “Viva os povos indígenas! Viva aos povos indígenas!”. E aí eu comecei a falar. Falando que nosso povo estava em luta, que não era prioridade da vacina e que a gente precisava de vacina para todo mundo, para todos os povos indígenas. E aí começou um reboliço.

        O pessoal da cerimônia conseguiu levar o microfone para mim. Muito nervosa, eu falei: “Nossa, vó, permita que eu consiga falar diante desse nervosismo”. E consegui, eu acho, dar o recado para o governador. Antes de entrar, eu tive cinco minutos com ele. E eu fiz reivindicações. Tinha iniciado a segunda onda, então o Parque das Tribos continuava sem nenhum atendimento.

        A gente estava em campanha para a construção do hospital. Que a gente queria alguma coisa com oxigênio, para que os nossos parentes não fossem para o hospital lá fora. Eu disse: “Olha, nós estamos construindo um hospital campanha na nossa comunidade, porque o poder público não está lá. Então, todos os esforços estão partindo da nossa comunidade, das pessoas que têm algum conhecimento. E a gente está se mobilizando e eu gostaria muito da sua presença lá. Porque nós ainda somos invisíveis para este estado”, eu falei. “Este estado não nos reconhece. Vocês governam o estado com a maior população indígena e vocês não olham para a gente”.

        E isso eu falei lá no microfone. Inclusive, eu falei também: “E que seja garantida a vacina para todos os indígenas na cidade!”. Porque nós não estamos no planejamento do estado, do governo, para sermos vacinados. Porque esse estado não reconhece a gente. Não reconhece a nossa identidade.

        Eu consegui ter essa fala, e aí me retiraram. O governador me parabenizou pelo trabalho, assim como todos lá. Mas poucas palavras. Não senti nenhum compromisso dele com a gente. Inclusive, como eu sou servidora do estado, eu fiz uma reivindicação dele. Porque a minha presença no Parque das Tribos era muito importante e eu já estava trabalhando. Eu não conseguia mais ficar na comunidade por conta do trabalho lá. Eu fiz um pedido particular a ele, se ele conseguisse que pelo menos por um período da pandemia, me deixasse lotada aqui. E aí a assessoria dele disse: “Não, isso já está sendo resolvido!” Nunca entraram em contato para dar uma resposta. Inclusive, a gente entrou no Ministério Público Federal para fazer essa reinvindicação, da minha permanência no Parque das Tribos.

        Porque as ações todas eram organizadas por mim. O atendimento, tudo era organizado por mim. E a pandemia inteira a gente fez esse movimento, de tentar me deixar na comunidade, e não foi possível. Então eu estava no hospital e estava aqui. Foi um ano muito cansativo para mim. Fisicamente, mentalmente. Eu adoeci, na verdade, ano passado. Porque a gente não conseguia comer direito, era um corre muito louco. Depois que a gente foi se organizando, foi direcionando outras mulheres para cuidar da arrecadação de alimento. Era eu que fazia as campanhas na internet. Era eu que cuidava dos parentes na comunidade. Esse ano, na segunda onda, é que a gente conseguiu montar uma equipe. A gente teve muito apoio nesse segundo momento. E foi um pouco disso o que aconteceu naquele dia, para chegar até a vacina. Foi muito por conta do meu trabalho, como técnica de enfermagem. Não foi como indígena. Tinha a importância de ser indígena, no estado que tem a maior população indígena, mas eu fui vacinada como um profissional da linha de frente da COVID-19. E como a minha imagem se tornou meio que um símbolo de esperança aqui para a nossa região, também foi importante.

Anderson: Vanda, eu gostaria de saber como foi essa organização de vocês, para ter um suporte durante a pandemia e, principalmente, relacionado à vacina?

Vanda: Olha, no início da pandemia, o nosso grande desafio foi ter alguma organização indígena à frente de alguma ação. A gente não sabia de nada, as pessoas pediram para se isolarem. E as organizações aqui no estado meio que se isolaram mesmo. Porque era março, abril, maio e não tinha nenhuma ação dessas organizações voltadas para os nossos povos. Porque parou o sistema econômico, de venda, aquelas coisas que não são prioridade, como estar vendendo artesanato por aí, que é a subsistência da maioria das nossas famílias na cidade. Essas famílias foram extremamente impactadas, sem renda nenhuma, que já é um desafio do nosso dia a dia. Porque as pessoas estavam orientando a usar a lavagem das mãos, essas coisas. Então, eu disse: “Olha, nossa campanha vai ser voltada para a alimentação e produtos de higiene, que a gente não tem aqui”. E aí a gente começou a mobilizar nas redes sociais, essa questão da alimentação. Mas não chegou nada naquele primeiro momento, nada mesmo! E aí a gente teve uma primeira doação, foi da Márcia Novo. Ela já estava fazendo uma campanha para a aldeia Inhaã-Bé. Até maio, quando a gente se mobilizou aqui para reivindicar o hospital, quando o Ministro Teich esteve aqui, só foram três mulheres. Eu chamei várias lideranças dos grupos, das nossas coordenações daqui. Nenhuma liderança se mobilizou. E aí, eu chamei só as parentas que estavam aqui. Fui eu, a Luciana Munduruku e a Natalina Baré. Mana, vamos embora pintar nossa cara mesmo! A gente escreveu umas dez cartolinas com tinta de urucum, que a gente não tinha nem um pincel! Aí fomos embora para o Delphina [Hospital de Referência Delphina Aziz, em Manaus]. E quem me avisou – na verdade a gente nem sabia da visita desse homem aqui –, quem me avisou foi o fotógrafo Bruno Kelly, porque ele fez o primeiro acompanhamento do nosso trabalho. Ele divulgou na Reuters internacional. Então, começou a ganhar muita visibilidade a luta aqui, a partir de maio. A primeira reportagem de grande repercussão foi em abril, com a CNN Internacional, que divulgou a luta da gente aqui. E ali que começou a melhorar a questão das doações para o Parque das Tribos.

Adriana: E nessa altura, nada nem de Secretaria Especial de Atenção à Saúde Indígena (SESAI), nem de Secretaria Estadual ou Municipal de Saúde?

Vanda: A SESAI não anda aqui. SESAI não anda aqui!

Adriana: Não tem nenhum diálogo, Vanda?

Vanda: Não tem! Não tem. A gente até tentou construir, porque eles foram convocados pelo Ministério Público Federal, mas eles se retiraram de todas as ações, porque, dizem, não compete a eles o cuidado dos indígenas na cidade. Então, é um crime. Um crime mesmo! Porque contribui muito para a morte de muitos parentes nas cidades, que morreram sem assistência. Já tinham sete mortos, se eu não me engano, naquele período, aqui na cidade. Morreram sem serem reconhecidos como indígenas, sem atendimento, enterrados como “pardos”, atendidos pela rede como “pardos” e não foram mapeadas as mortes desses parentes. Isso era a coisa que mais me angustiou de toda a tragédia que a gente vivenciou, de toda a luta.

Adriana: Mas e a vacinação? Chegou, não chegou?

Vanda: Não chegou até hoje.

Adriana: Mas Manaus está sendo amplamente vacinada!

Vanda: Não! A gente está orientando isso! Vá vacinar, onde tiver lugar. Não espere ser vacinado como indígena não! Vocês não vão ser vacinados não! Porque mesmo diante da determinação do Ministério Público Federal. O STF [Supremo Tribunal Federal] determinou a inclusão de todos os indígenas, independentemente de qualquer espaço, fossem vacinados, e também não foi cumprido. Porque vários estados estão com o mesmo problema daqui. E aqui o estado tem essa determinação do Ministério Público Federal do estado, e mesmo assim ainda não foi cumprida.

Adriana: Como é o acesso ao SUS [Sistema Único de Saúde] para vocês? Vocês sentem discriminação, ou não tem unidade de saúde?

Vanda: É um grande desafio. Porque assim, o que é a saúde diferenciada para o indígena? É que tenha alguém que entenda sua língua primeiro, porque muitos que chegam nesse lugar, falam somente suas línguas maternas e não se estabelece uma comunicação para dizer: “Olha, dói aqui, eu sinto isso”. A SESAI não atende todos os indígenas. Na verdade, ela atende uma minoria dos indígenas, que estão nas aldeias. E aí, as unidades, nem a coisa básica fazem, de se questionar, pelo menos mapear a identidade dessas pessoas. O sistema não faz esse mapeamento de saber se é indígena, se não é, se a pessoa se identifica como indígena. O que aconteceu do ano passado para cá? Diante da minha fala com o secretário Robson Santos, que é o secretário da SESAI – porque não levaram a gente para falar com o ministro, nós não tivemos a “dignidade” de sentar com ele para falar –, mas eu falei para ele da necessidade do estado do Amazonas ter, por exemplo, uma UPA [Unidade de Pronto Atendimento] de referência para o atendimento indígena. E aí, um hospital também de referência, que a gente saiba para onde ir. Uma unidade básica de saúde, que a gente possa levar os idosos indígenas. Para que tenha esse mapeamento, a geração de dados. Porque você procura no SUS, o SUS não atende nenhum indígena! E isso para a gente, para reivindicar políticas públicas, é um grande desafio, porque não tem dados.

Adriana: A SESAI tem a obrigação de promover essa articulação, da melhor maneira possível.

Vanda: Está lá, nas suas diretrizes. E não se cumpre. Aí eles usam somente a lei onde é interessante, de dizer que só atende “índios aldeados”. Eu disse: “Não adianta eu ficar aqui falando com o senhor, porque é perda de tempo, se lá na lei está escrito que é só índio aldeado”.

E eu sempre falo, que essa própria palavra é colonizadora. Porque a gente nunca viveu aldeado! E eu falo com nossas lideranças mesmo. Vocês não podem reforçar esse termo “aldeado”, porque quem colocou vocês no aldeamento foram os militares, no período da ditadura, no período da colonização. Então, eu bato de frente com as nossas lideranças nesse sentido, de tentar desconstruir esse termo, que é extremamente ruim para a gente. Que vai negando a existência desses parentes que estão na cidade. Vai negando direitos e tudo mais.

Adriana: Invisibilidade. Na vida e na morte!

Vanda: O que me angustiava, eu falava com a mamãe: “Se eu morrer, mamãe, só não deixa eu morrer como parda! Só não me enterre como parda. Digam que eu sou Witoto.”

Revisada e editorada por Daniela Perutti

 

Como citar: Witoto, Vanda Ortega; Athila, Adriana; Maciel, Anderson Jamar Neves. A História por trás da foto: conversa com Vanda Ortega Witoto. Plataforma de Antropologia e Respostas Indígenas à COVID-19, vol. 1, n. 8, set. 2021. Disponível em www.pari-c.org. Acesso em dd/mm/aaaa.