O Sopro dos Velhos: o mato pataxó e as vacinas

por Japira Pataxó. Organização: Victor André Martins de Miranda
30 Setembro 2021
Nota de Pesquisa

 
       Os anciãos pataxó sempre tiveram a sabedoria das ervas. Tinham os matos para cuidar da catapora, sarampo, caxumba, coqueluche, tuberculose e outras doenças, mas foi somente quando chegaram as vacinas que conseguimos frear de vez as mortes das crianças. O velho Tururim, cacique de Barra Velha [Porto Seguro, Bahia], e meu pai Alfredo Braz, vice-cacique, junto com outras lideranças como os finados Palmiro e Luís Ferreira e as velhas Jenerana e Josefa, lutaram para que nós Pataxó tivéssemos atenção médica. Lutaram por muito tempo, mas foi só na década de 1980 que conseguimos que viesse uma equipe de saúde com médico e enfermeira uma vez por mês. Foi a época que abrimos um campo na Aldeia Pataxó de Barra Velha para o teco-teco pousar. Essa chegada dos médicos é uma conquista nossa, mas também veio com seus desafios. Os médicos quando chegaram pensavam que nós não sabíamos de nada, como se fôssemos bicho. Chegavam colocando só remédio deles, não se sentavam para conversar com os nossos velhos.

        Quando essa covid chegou, nossas lideranças entenderam que era uma doença perigosa, silenciosa e que passava fácil de uma pessoa para outra.  Os caciques reuniram com as comunidades e fecharam as aldeias. Na nossa aldeia mãe, Barra Velha, no início só entrava quem era da comunidade, e a aldeia se abria só dia de quinta-feira. Nosso cacique Roberto fez a mesma coisa aqui na Aldeia Novos Guerreiros, ficou fechada para quem não era da comunidade. Uma doença braba, eu não tinha as ervas para ela e nem os brancos as vacinas.

        Aos poucos, comecei a buscar as ervas. Como nesse início não sabia como tratar a doença, usava os banhos de proteção para afastar ela. Banho de raiz e cipó, fortes, que nós temos muito respeito. Ao longo do primeiro ano, essa doença foi aos poucos chegando na comunidade. Minha filha que veio de Salvador teve covid, assim como outros parentes da aldeia. Quando fui vendo as pessoas e tendo que cuidar delas, minha visão foi abrindo para saber as ervas. O pajé tem essa força. Passa uma coisa em mim que sopra os saberes das ervas. Essa força quem passa são os espíritos dos velhos que me mostram os matos. Os nossos conhecimentos também estão crescendo, nós pajés temos essa força para buscar a proteção nos matos. Fui vendo como cuidar da covid. Queria cuidar para que a pessoa melhorasse e não tivesse que chegar a ir para o hospital. Comecei a ter as ervas. Fazia banho, chá e xarope com folhas, cascas e galhos.  A covid, tem que cuidar da febre, da dor de cabeça e do corpo. Cada pessoa leva um cuidado diferente a depender de como está, o mais importante era usar as ervas que limpavam o catarro quando ele aumentava, para não deixar a doença ir para o pulmão. O povo vinha me pedindo para cuidar, eu via a situação e ensinava o que fazer.

        No fim do ano tivemos notícia das vacinas, mas demorou muito para nos alcançar. Bolsonaro não queria a vacina e deixou o povo à sorte da morte. Quando a vacina chegou, muita mentira foi espalhada. Tinha gente dizendo que iríamos virar cobra, jacaré, todo tipo de bicho. Nós indígenas somos cismados com os brancos, já passamos por muita tragédia. Os pastores passavam áudios para nós dizendo que a vacina era coisa da besta-fera, a médica dizia que a vacina ainda estava sendo experimentada. Vendo essa situação, nossas lideranças começaram a se mover, entenderam que o povo estava sem vacinar e com medo. Lembrei a luta dos velhos no passado para conseguir as vacinas e como elas foram importantes para o nosso povo. Essa mesma força dos velhos, que me ajudava a colher as ervas, me ajudava a entender nossa situação. Com isso perdi o medo da vacina. Assim como outras lideranças, falei para o povo vacinar.

        Minhas ervas são fortes e conseguem cuidar da covid, mas isso não significa que eu ache que a medicina branca não serve, que as vacinas não servem. Hoje mesmo já consigo ver como a covid tem vindo fraca em quem já tomou a vacina e acabou pegando, minhas ervas nesses casos são mais para ajudar a dar bem-estar para o corpo. Essas medicinas estão para poder trabalhar juntas, mas isso não quer dizer que não haja conflitos entre elas. A medicina branca pensa que a nossa não é verdadeira. Eu penso que, na medicina branca, falta amor. Eu não duvido da verdade e força da medicina branca, mas os médicos, muitos deles, não cuidam com amor, principalmente de nós que somos índios, eles não gostam. Quando eu cuido de alguém, eu sempre tenho que ter amor nisso que eu faço, isso faz parte do cuidado e também é importante para a força das ervas.

        A força dos antepassados e dos espíritos da mata nos ajuda a sair dessas situações. Colher um mato, lutar pela nossa terra, tudo isso vai nos aproximando desses espíritos. Para sair desse momento difícil, é preciso ter essa sabedoria: olhar para trás e sentir nossos velhos, só assim podemos ter o conhecimento do que fazer.

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        Este texto surge de conversas com mestra Japira, que foram transcritas e novamente oralizadas, retornando várias vezes aos escrutínios da mestra. O trabalho é fruto de uma colaboração que se iniciou no ano de 2017. Nesse ano, conjuntamente com a também pesquisadora Ana Boross Queiroga Belizário, iniciamos, a partir de um convite de mestra Japira, a secundar o trabalho de construção de seu livro sobre os saberes medicinais pataxó. O livro da mestra, Saberes do Mato Pataxó, em finalização, apresenta os saberes medicinais e ecológicos de seu povo imersos em uma biografia de vida. O trabalho de organização de seu livro integrou o projeto de pesquisa “Biografias das Mestras e Mestras das Artes Ameríndias - Livros e Filmes” (apoiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq), coordenado pela professora e etnomusicóloga Rosangela Pereira de Tugny. Nesse projeto, além do livro, realizamos o filme Japira – Saberes das Terras Pataxó, também em finalização. Essa instância de colaboração, a escrita do livro, parte ainda de outra, a Rede Medicinal Pataxó: Educação e Saúde Integral Indígena, projeto colaborativo em parceria com Diana Bonfim, Cátia Souza, Edenildo Lopes, Ajuru e China, professores pataxó da Escola Indígena Pataxó de Coroa Vermelha. A Rede Medicinal Pataxó surge no escopo do Projeto de Extensão “Arte, história e língua maxakali-pataxó: educação pública intercultural e integral na região Sul da Bahia (2016-2018)", coordenado conjuntamente pelos professores da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) Rosangela Pereira de Tugny e Spensy K. Pimentel.  A Rede Medicinal Pataxó tinha como objetivo a promoção de oficinas pedagógicas com mestres pataxó sobre seus saberes históricos, poéticos e curativos. Sobre esse projeto da Rede Medicinal Pataxó e o início da escrita do livro, ver o artigo “Caminhos pluriepistêmicos para educação e prática em saúde”, de Victor André Martins de Miranda e Ana Boross Queiroga Belizario, capítulo do livro Universidade Popular e Encontro de Saberes, organizado por Rosangela Pereira de Tugny e Gustavo Gonçalves

Japira Pataxó/ Antonia Braz Santana

        Antônia Braz Santana, conhecida como Dona Japira, Dona Antonia e também como Tonia, é uma importante educadora, zeladora dos saberes tradicionais e liderança pataxó. Japira é pajé da Aldeia Novos Guerreiros, localizada entre Porto Seguro e Santa Cruz Cabrália (Bahia), e exerce uma singular função junto à sua comunidade e seu povo: é conhecedora e educadora das histórias, tradições e tecnologias do povo pataxó, dos rituais, da cura, das rezas e dos cuidados. Participou como professora convidada duas vezes na Universidade Federal do Sul da Bahia. Em 2014, na primeira realização do Projeto Encontro de Saberes nessa instituição, ministrou o curso "A medicina social e ecológica dos povos Pataxó do Sul da Bahia", voltado para discentes das licenciaturas interdisciplinares. De 2017 a 2018, foi professora convidada a ministrar aulas aos alunos da Escola Indígena Pataxó de Coroa Vermelha, onde desempenhou importante papel, transmitindo suas sabedorias aos jovens pataxó. Em 2018, retorna à UFSB para ministrar o Ateliê em Encontro de Saberes direcionado aos alunos dos cursos de artes. Japira se dedica desde 2017 à escrita de seu livro sobre os saberes medicinais pataxó, intitulado Saberes do Mato Pataxó, em finalização. O livro transmite seus conhecimentos medicinais imersos em sua biografia de vida, nos saberes cosmológicos e poéticos pataxó.

Victor André Martins de Miranda

        Bacharel Interdisciplinar em Saúde (UFSB), Especialista em Saúde Coletiva (UFSB), graduando da Escuela Superior de Medicina (UNMdP/Argentina), integrante do Grupo de Pesquisa Poéticas Ameríndias e membro do Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania - BH/MG.

Revisada e editorada por Daniela Perutti  e Spensy Pimentel.

 

Como citar: Pataxó, Japira; Miranda, Victor André Martins de. O sopro dos velhos: o mato pataxó e as vacinas. Plataforma de Antropologia e Respostas Indígenas à COVID-19, vol. 1, n. 8, set. 2021. Disponível em www.pari-c.org. Acesso em dd/mm/aaaa.