Mulheres do rio Negro e os impactos da pandemia de COVID-19

por Elizângela da Silva Costa
30 Setembro 2021
Nota de Pesquisa


       O bem-estar dos povos originários foi diretamente afetado com a chegada da pandemia em nossos territórios, na região do rio Negro. Esses impactos, em especial nos campos da educação escolar indígena e do acesso à saúde, mudaram nossas dinâmicas de vida, principalmente as das mulheres indígenas.  Com as aulas remotas e o difícil acesso que temos às tecnologias digitais e à internet, as mães passaram a se atentar ainda mais para a formação educacional de seus filhos, porque tiveram que acompanhá-los nas tarefas e atividades remotas que aconteciam em casa. Além disso, houve ainda mais dificuldades para a realização de exames médicos (ultrassonografia e o exame preventivo de colo de útero).

        A pandemia causou grandes mudanças nas vidas indígenas do rio Negro, provocando aflição e medo de extermínio do nosso povo. Esse vírus chegou como uma tempestade de chuva trazendo a coisa mais preocupante: a morte. Muitos parentes que viviam nas cidades, preocupados, refugiaram-se nas comunidades indígenas onde, atualmente, vive uma grande quantidade de famílias. Antes mesmo que os primeiros casos de COVID-19 fossem confirmados na cidade, algumas famílias já haviam se refugiado para dentro da floresta, para os lagos, os igarapés e os sítios.

        As famílias indígenas que vivem nas comunidades, situadas nas Terras Indígenas (TIs), seguiam uma rotina de vida intercultural, acompanhando o calendário escolar, o da igreja, o da saúde, o das políticas partidárias bem como o calendário do movimento indígena. Com a ameaça do vírus, houve uma quebra dessa rotina: as pessoas não podiam mais esperar pelo padre para realizar a santa ceia e nem a equipe de saúde chegar à comunidade, não podiam mais ir para a escola e nem para o centro comunitário.

        Para os que habitam o território indígena, a reflexão é de que o vírus causou o retorno dos que estavam nas cidades para dentro das florestas, assim como era antigamente. A família retorna, mas desacompanhada dos serviços básicos de Estado, como os escolares e de saúde. De acordo com os mais antigos, retornar aos seus territórios durante o período de pandemia possibilitou que o espírito das florestas ganhasse vida, bem como o dos lagos e dos igarapés que reviveram porque, nesse momento, as famílias indígenas se apegaram aos seus ensinamentos e conhecimentos, fortalecendo suas culturas, praticando a caça, a pesca, a fabricação de canoas e remos, o uso das plantas medicinais e colhendo as frutas oferecidas pela natureza, revivendo acontecimentos que há anos existiam somente nas lembranças.

        Nesse momento, quero ressaltar que nós, povos indígenas, vivíamos em constante mudança de território e, com a chegada da civilização, fomos arrancados dos lugares em que vivíamos. Muitas famílias rionegrinas viviam em trânsito, ocupavam vários lugares propícios para a realização da caça e da pesca que, em língua y?gatu, chamamos de mitasá. O mitasá fica na margem de igarapés, bem longe das comunidades, e é um local em que as pessoas fazem a farinha e cuidam de suas roças. Isso porque procurávamos lugares propícios para conseguirmos os produtos de nossa alimentação. No entanto, com a chegada dos colonizadores, fomos obrigados a viver em um único lugar porque nossos filhos deveriam frequentar os internatos e as escolas. As comunidades foram se formando durante esse período, com a implementação da igreja e de escolas. Desse modo, cada calha de rio recebeu esse novo formato de organização que chamamos de comunidades.

        Outro lugar onde habitávamos e produzíamos alimentos eram as barracas (yapuna ruka, – “casa de roça”), localizadas para dentro dos igarapés, onde as famílias rionegrinas construíam as suas roças para fabricar farinha, beiju, massoca, tapioca, tucupi (derivados da mandioca) etc. “Retornei para minha capoeira, onde os meus pais, meus avós me criaram” – diziam as mulheres, conforme pude ouvir e presenciar em alguns momentos. As famílias que nunca saíram de seu território não aceitam mais os seus sobrinhos, netos, que regressam das cidades aos seus locais de origem. Com a negação do retorno de familiares, criam-se conflitos internos, pois há o discurso de que o parente só está retornando por conta da doença, e a família tinha medo de que já estivessem contaminados.

        Em relação à educação escolar indígena, as condições precárias são anteriores à pandemia. A região do Alto Rio Negro é muito extensa, abarcando mais de 800 comunidades indígenas, e muitas delas ficam distantes da sede do município. Geralmente, os professores ensinam em igrejas ou centros comunitários nas próprias comunidades. Além disso, a merenda escolar (feijão, arroz, macarrão, leite, achocolatado, óleo, sardinha, aveia, bolacha, almôndega) chega nesses locais uma única vez no primeiro semestre do ano e outra no segundo semestre. Alguns dos produtos que compõem a merenda escolar advêm de produtores agrícolas de São Gabriel da Cachoeira, que participam do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), administrado pela Secretaria Municipal de Educação do município. Quando os alimentos chegam nas comunidades, os moradores guardam a merenda em um local específico durante todo o semestre letivo. A merenda é distribuída pelo professor indígena ou alguma mulher da liderança.

        Com a pandemia, essas condições ficaram mais precárias devido às restrições sanitárias de circulação entre a cidade e as comunidades nas TIs. O ensino remoto nas escolas só funcionou para quem estava na cidade, onde há internet, celulares e computadores. Para os que estão dentro das Terras Indígenas, essa ação não foi suficiente, portanto, as aulas foram paralisadas. Por falta de recursos financeiros, muitas famílias não conseguiram comprar celulares, computadores e realizar a instalação de internet em casa, o que complicou a educação formal de nossos filhos. Já no que diz respeito à educação informal, temos sido resistência e procuramos fortalecer nossas culturas, mitos, domínio sobre nós mesmos e sobre os nossos territórios.

        Os meus filhos, por exemplo, estão com aulas remotas desde o ano passado, com muita dificuldade em acompanhá-las. A internet na cidade de São Gabriel, onde vivemos, é precária e tem sido um desafio aos alunos seguirem com esse formato de ensino. Não apenas por conta do difícil acesso à rede de internet, mas também porque foram desafiados a manejar as técnicas digitais.  Os meus filhos, de 18, 16 e 14 anos de idade, estudam na cidade (no 3º ano do Ensino Médio, 8º e 7º anos do Ensino Fundamental, respectivamente), mas até hoje não tenho internet em casa. Com muita dificuldade, estamos alimentando o crédito de celular para eles poderem acompanhar as aulas remotas. Meu filho mais velho voltou às aulas presenciais no começo de 2021 e os dois mais jovens estão tendo aulas presenciais durante uma semana e, na outra, ficam sem aulas. Assim estão seguindo.

        No âmbito da saúde, a situação é mais delicada. Temos apenas um hospital na cidade, que é administrado pelo Exército Brasileiro e o governo do estado do Amazonas. Quando chegou a pandemia, esse hospital não dispunha de Unidade de Tratamento Intensivo (UTI). Foi o momento mais doloroso para todos nós, tanto para as pessoas que residem na cidade, quanto nas comunidades, porque todos nós utilizamos os serviços desse hospital quando há casos de picada de cobra, acidentes com queda de árvores, ou quando, por exemplo, uma mulher encontra dificuldades na hora do parto. Antes da pandemia de COVID-19, o hospital já se encontrava em condições precárias, e os diversos tratamentos e acompanhamentos de doenças mais graves eram direcionados à capital do estado, Manaus.

        Na minha visão como mulher indígena do povo Baré, este é um vírus que está retirando não somente a vida humana, mas também afetando uma luta de resistência dos povos originários, ocupando vários lugares nessa sociedade e, nesse momento, estamos sendo paralisadas, passando por um processo que eu chamo de “vivos-mortos”. Isso porque os filhos da sociedade capitalista continuam em universidades, enquanto nós, mulheres indígenas e os nossos filhos, estamos lutando pela existência, para que nossas histórias, mitos, lendas, florestas, rios, igarapés possam continuar com vidas que são essenciais para a existência no e do planeta. Aqui em São Gabriel, no mês de março, recordo-me da manifestação das feirantes no centro da cidade. Havia uma quantidade significativa de pessoas, a maioria mulher, com cartazes reivindicando algum tipo de auxílio financeiro às autoridades públicas, já que não poderiam mais vender seus alimentos por conta do fechamento da feirinha. Um dos cartazes dizia, especialmente, sobre o sustento de seus filhos que estavam em universidades situadas em outras cidades e estados do país.

        Nós, povos originários, estamos sofrendo com a invasão desse vírus. O que o nosso povo tem é bastante, mas não o suficiente para combatê-lo. Com isso, a guerra acontece incontrolavelmente, e as mais afetadas somos nós, mulheres. Isso porque a mulher é como o esteio que sustenta uma casa, ela já desenvolvia anteriormente diversas atividades e, com a pandemia, os afazeres aumentaram. As responsabilidades passaram a afetar cada vez mais as mulheres, ampliando os cuidados com os familiares, o que requer novos ensinamentos de proteção. Essas atividades já eram realizadas no nosso cotidiano, mas com o vírus, nós, mulheres, tivemos que nos adequar conforme as exigências do momento. Foi necessário que adquiríssemos rapidamente hábitos que não faziam parte de nossas vidas, que ensinássemos os métodos de resguardo e de proteção de um vírus que destrói vidas.

        Os conhecimentos indígenas são complexos, e não há receita ou estudo científico que comprove a sua utilidade. Complexos porque nossos conhecimentos são como as árvores que acobertam a terra, compostos pela diversidade de 23 povos indígenas espalhados em nove Terras Indígenas no rio Negro, em uma multiplicidade de ensinamentos conforme as nossas ancestralidades, os nossos laboratórios diversificados. Para os conhecimentos não há apenas uma receita ou uma fórmula. Por exemplo, a planta medicinal saracura, cada povo tem a sua forma de uso. Uns dizem que é para a cura da diarreia e feridas inflamáveis, outros dizem que é para a cura de inflamação urinária, outros ainda dizem que é para não ter mais filhos, e assim por diante. E essa planta foi a mais utilizada pelos povos durante a pandemia. 

        Nós, mulheres indígenas, seguimos os ensinamentos, somos conhecedoras da nossa cultura, acreditamos que esse conhecimento é o pedaço mais importante da nossa existência humana. A floresta é a farmácia e o nosso “shopping”, pois nela podemos encontrar tudo o que vem da nossa ancestralidade, as pinturas, as gravuras, os cantos e as “árvores da cura”. As árvores, as sementes, as resinas, as ervas, as folhas, as cascas de árvores foram para nós como as enfermeiras de um hospital. Os pajés, benzedores, curandeiros, como se fossem médicos. Caminhavam juntos para poderem fazer o resguardo da nossa vida. Isso porque os pajés, benzedores, curandeiros prepararam o uso dessas resinas e das plantas medicinais para que os espíritos pudessem nos acompanhar através de defumação, fazendo o resguardo das vidas indígenas, pedindo a proteção do Napirikuri (Deus criador dos povos Baré), conforme a sua proteção da humanidade.

        Podemos observar que as atividades das mulheres foram redobradas. A nossa responsabilidade como mãe aumentou. Orientamos nossos filhos sobre como usar a máscara, como fazer o uso dos chás, ensinamos quais os cuidados que eles devem ter ao sair e entrar em casa. A mulher é quem cuida e quem protege com a preparação de banhos (com folhas, sementes, cascas de árvores) que devem acontecer pela manhã, ao meio-dia e no período da tarde. O consumo do chá deve ser realizado três vezes ao dia e as defumações devem ser feitas no período da manhã e da tarde. Nem todos os membros da família querem fazer isso constantemente, assim como nem todos dentro de uma casa querem utilizar a máscara. Eu tenho observado que quando nós, mulheres, preparávamos um “banho de proteção” ou chás, tanto os homens como nossos filhos diziam: “depois eu vou banhar”, “depois eu vou tomar”, sempre deixando para depois e, muitas vezes, não faziam.

        Gostaria ainda de apontar outros impactos causados na dinâmica de vida das mulheres indígenas que residem tanto no centro urbano de São Gabriel da Cachoeira como nas comunidades. As mulheres indígenas que residem no centro urbano foram profundamente impactadas, o que afetou o seu cotidiano.  Por causa da pandemia, muitas delas tiveram suas atividades profissionais e acadêmicas paralisadas e foram obrigadas a retornar aos seus territórios. As que atuam como professoras encontraram dificuldades em organizar as aulas remotas e em lidar com a falta de internet em suas residências. Além disso, na pandemia, a grande procura pela instalação residencial de internet fez com que os equipamentos ficassem em falta em São Gabriel da Cachoeira, e são ferramentas essenciais para a execução das atividades docentes.

        Já as mulheres indígenas que vivem nas comunidades, muitas são agricultoras, artesãs, aposentadas ou beneficiarias de algum programa social. Nem todas tiveram acesso ao auxílio emergencial oferecido pelo governo federal, porque o programa não condiz com a nossa realidade. Não temos internet, nem celulares para acessar esse tipo de benefício cujo cadastro e administração são oferecidos exclusivamente online. Essas mulheres tiveram sua geração de renda impactada, principalmente na produção do sistema agrícola – mandioca e seus derivados como farinha, maçoca, tucupí, beiju e tapioca. Em relação às artesãs, a venda de sua produção ficou paralisada devido ao fechamento das feiras presencias na sede do município, entre abril de 2020 a março de 2021. Então, os impactos foram imensos entre as mulheres agricultoras e artesãs, comprometendo o sustento de seus filhos nas universidades e nas escolas, como mencionado.

        Viver em comunidade para nós indígenas é compartilhar o nosso dia a dia com todos os que compõem o local sem excluir ninguém. Nossas moradias são separadas, mas nos centros comunitários repartimos as nossas refeições, envolvendo todos. O trabalho comunitário é compartilhado entre os afazeres dos homens e das mulheres: os nossos ajurí (momento de trabalho coletivo de aspecto festivo, tal como uma comemoração de aniversário onde se convidam parentes e amigos para prestigiar), que nos sustentam para podermos realizar as aberturas e quedas dos roçados. Muitas vezes as mulheres fazem ajurí de plantação para que outras mulheres possam trazer as suas manivas (haste da mandioca), trocar plantas, sementes entre outras coisas que possuem. O coletivo fornece o bem-viver e ajuda no aprendizado da diversidade de conhecimentos que se têm em uma determinada comunidade. Promove o fortalecimento da cultura e de novos conhecimentos, favorável ao surgimento de estratégias de resistência. O conhecimento é dominar a vivência no seu território conforme a necessidade de sua existência, de sua ancestralidade e de acordo com o seu povo.

        A pandemia tem mostrado a força da mulher indígena. É durante esse período que evidenciamos que nós somos detentoras de conhecimentos, somos como as árvores que liberam o oxigênio para a existência humana. Durante a pandemia, nosso papel foi o de salvar vidas, famílias, todo o coletivo. Esse cuidado foi uma estratégia de existência que as mulheres indígenas acharam para fazer a prevenção à COVID-19 de sua família. Como somos povos diversos, os chás, os banhos e as defumações foram realizados conforme a sua ancestralidade. Esse tipo de cuidado não foi o único: muitas vezes, nós mulheres, realizamos trocas de plantas, sementes, conhecimentos, receitas de chás para nos protegermos da doença. Nós, mulheres, somos cuidadosas, protetoras e guerreiras.  Esse vírus faz com que lutemos de mãos dadas, como uma corrente invisível acendendo o Cesto de Conhecimento entre as mulheres indígenas do rio Negro.

Colaboradores: Dulce Meire Mendes Morais, José Miguel Nieto Olivar.

Revisada e editorada por Daniela Perutti

 

Como citar: Costa, Elizângela da Silva. Mulheres do rio Negro e os impactos da pandemia de COVID-19. Plataforma de Antropologia e Respostas Indígenas à COVID-19, vol. 1, n. 8, set. 2021. Disponível em www.pari-c.org. Acesso em dd/mm/aaaa.