Saúde é alimentação e território para nós, mulheres puruborá

por Arthemiza Puruborá, Gicele Sucupira
31 Outubro 2021
Nota de Pesquisa


       O povo Puruborá foi expulso de seu território tradicional, situado às margens do rio Manoel Correia, município de Seringueiras (RO), entre os anos de 1909 e 1919, quando se intensificava a invasão dos seringueiros e os conflitos resultantes da construção da rodovia BR-429, que cruza e bordeia suas terras. Em busca de sobrevivência, muitas famílias fugiram para outras áreas de floresta ou para cidades como Guajará-Mirim. Atualmente, o povo está disperso por várias cidades do estado de Rondônia como Ariquemes, Costa Marques, Ji-Paraná, Porto Velho, São Francisco do Guaporé, São Miguel do Guaporé, Seringueiras e mesmo fora do estado. A família da senhora Emília foi a única que se manteve no território, após comprar um pedaço de terra com o apoio do seu marido não indígena, que trabalhou como seringueiro. Emília convidou irmãos e parentes para viverem na terra, e hoje o local abriga a única aldeia dos Puruborá, a Aperoi, onde vivem aproximadamente 55 pessoas. O povo ainda luta pela demarcação de seu território junto à Fundação Nacional do Índio (FUNAI).

        Apesar de as fazendas de gado e de soja no entorno da aldeia Aperoi, que contaminaram os rios, terem reduzido a floresta e, consequentemente, a quantidade de árvores para extrativismo e de animais para caça, ainda é possível ter uma alimentação próxima à tradicional, baseada em carnes de caça, peixes, castanhas e outras frutas nativas. Na cidade de Guajará-Mirim, por sua vez, onde vivem mais de 200 Puruborá, comer as receitas aprendidas com as mães e avós é praticamente inviável, por conta da distância da floresta, da falta de espaço para plantar e do custo elevado dos alimentos. Para obter tais comidas, as mulheres dependem de amigos que vivem em sítios ou nas terras indígenas, algo que se tornou ainda mais raro com o advento da pandemia de COVID-19 no ano de 2020.

        Esta nota de pesquisa foi escrita por mim, Arthemiza Puruborá, em colaboração com Gicele Sucupira e expressa, principalmente, as reflexões que fiz junto a outras mulheres puruborá sobre nosso território e nossa alimentação. Em conversas que reuniram mulheres puruborá da cidade de Guajará-Mirim e da aldeia Aperoi, pude ver como a alimentação é marcada pela questão do território. Na cidade, durante a pandemia, Joana não conseguiu dar conta das despesas e precisou cortar alguns alimentos que ela e a família comiam no dia a dia, para que assim não passassem necessidade. Joana era neta do ancião Eliezer, que faleceu de COVID-19 em 2020. Ela, como outras famílias puruborá, vivem de aluguel. A alimentação na cidade é mais difícil porque não há como plantar. Joana sente falta de alimentos tradicionais e pensa que, se tivesse território, poderia plantar, cuidar das plantações e delas se alimentar. Plantar mandioca, criar galinhas, entre muitos outros cultivos e criações não é fácil no contexto urbano porque não há espaço suficiente para isso.

Algumas famílias plantam pés de macaxeira, criam umas galinhas, têm seus canteiros. Eu mesma faço assim, mas não é fácil, porque o espaço é pequeno. Além disso, na cidade há muitas coisas no mercado, enlatados à disposição, entre outros. Alimentos que fazem mal à saúde. A nossa alimentação fica desregulada. São alimentos prejudiciais à saúde e que vêm acabando com muitos parentes indígenas e não indígenas também. (Joana, Guajará-Mirim).

        Seria muito melhor se estivéssemos numa aldeia, porque assim teríamos como plantar, colher, caçar, dividir a caça e compartilhar, lembram minhas parentas puruborá. Teríamos o corpo mais alimentado para combater doenças. Ingerir alimentos sem valor nutricional apropriado, que servem apenas para encher o estômago, torna a gente mais vulnerável. Sem alimentação, o organismo não reage e não tem como combater um vírus desses, atentou Joana, ao lembrar dos seus parentes na cidade.

A nutricionista fala um monte sobre o que pode e o que não pode, mas às vezes a gente não pode ficar comprando tudo direto, como leite desnatado e produtos integrais. Alguns de meus parentes não têm condições de se alimentar, de ter uma verdura e uma fruta na mesa. Não tem como. Eles não têm condições, é só o básico, o arroz, o feijão mais a mistura [carne, proteína] que pode ser um ovo, salsicha, ou às vezes um frango. É isso, a realidade é essa. (Joana, Guajará-Mirim)

        O território é essencial e urgente para que o povo Puruborá possa se alimentar, ter uma vida mais digna, condições de manter árvores frutíferas, plantar macaxeira e viver em comunidade sem precisar pagar aluguel, como dizem Joana e Eline, lideranças do povo Puruborá em Guajará-Mirim. A maioria não tem casa própria, vive em casas sem água encanada ou saneamento básico e isso transforma não só a alimentação, mas também as relações entre as pessoas.

Não ter território mexe num todo com a gente, mexe na alimentação, mexe na cultura, mexe nas nossas próximas gerações. Aqui a gente quase não pode visitar a pessoa para ter um momento de conversa, ter um diálogo, bater um papo, porque aqui o fulano está trabalhando, desesperado tentando conseguir um pouco de dinheiro para poder pagar a luz, o aluguel, a saúde da criança ou de alguém da família. É sempre assim. Chega a sufocar as pessoas, que estão sendo massacradas dia a dia. [...] Tudo isso porque a gente não está mais nas nossas terras, senão a gente não estaria nessa situação. A gente teria uma saúde melhor. Eu sei que muitas doenças que a gente enfrenta aqui é porque não tem uma boa alimentação. Sem alimentação adequada, aparecem sucessivas doenças de vários tipos. (Eline, Guajará-Mirim)

        Para mim, Arthemiza, o difícil de viver na cidade foi a falta que eu sentia das comidas, da caça. Eu senti isso quando, por volta do ano de 1985, me mudei para a cidade de Guajará-Mirim com a vovó Bernarda, grande conhecedora do nosso povo. Ela já havia morado na aldeia de rio Negro Ocaia, onde viviam juntas várias etnias como os Oro Win, Makurap, Kujubim entre outras, e fazia encomendas aos indígenas que lá moravam. Eles sabiam do que ela gostava, então lhe vendiam. As encomendas chegavam de barco e ela as buscava na beira do rio. Algumas vezes, os indígenas dessa aldeia deixavam os produtos na casa dela, como pedaços de capivara, cutia, paca, tatu, peixe e ovo de tartaruga. Eu comia muito ovo. Eu o quebrava cru e tacava açúcar dentro, com farinha, e comia. Já vovó o comia mais cozido. Eu lembro que minha avó também mantinha o seu canteirinho, criava muito pato, galinha e tartarugas em caixa d'água para a gente poder se alimentar. Hoje, porém, as coisas estão diferentes. Os alimentos industrializados, refrigerantes, enlatados, que só prejudicam, entraram nas aldeias. Há muitas pessoas com diabetes, hipertensão e colesterol alto. Na cidade, também se passou a comer esses alimentos e mal há espaço para plantar uma cebolinha e pimenta de cheiro.

        Lembro-me que eu e a vovó Bernarda íamos ao sítio do meu tio Nilo, seu irmão, onde pescávamos e quebrávamos coco babaçu para tirar o gongo (uma espécie de larva que se desenvolve no interior de palmeiras caídas ou derrubadas). É um alimento que tem muitas proteínas boas para o corpo. E, com minha prima Eline, comíamos as formigas tanajuras. Depois de lavá-las, tirávamos a bunda delas e a vovó as fritava para fazer uma farofa muito gostosa. Assávamos os peixes pequenos na beira do rio ou igarapé, levando apenas farinha e sal. Quando morávamos na floresta, a farinha era feita com a macaxeira (mandioca) colhida no terreiro das roças familiares. Eline disse que sente muita falta do momento em que todo mundo se reunia para fazer farinha. Era uma festa.

        Norma, neta de vovó Bernarda, também se lembra do tempo em que morava na região do rio Negro com seu pai não indígena, seringueiro, que caçava e pescava. Comiam muito “bicho do mato”, plantavam arroz, banana, abacaxi e macaxeira, sobre a qual pisavam para fazer a farinha. Pouco era comprado na cidade. Quando se mudaram da floresta para Guajará-Mirim, passaram a comprar os alimentos no mercado, sobretudo peixe e carnes. Já os ovos eram das galinhas do quintal mesmo. Viviane, filha de Norma, lamenta não ter território para plantar. Antigamente, tudo era plantado e colhido na própria casa. Hoje, a cada dia que passa, os preços dos alimentos ficam mais altos e as comidas sequer são saudáveis.

        Mulheres puruborá como Joana, Norma, Viviane e Eline, que vivem na cidade de Guajará-Mirim, lembram de como seus corpos eram mais saudáveis quando tinham um pedaço de terra para plantar e uma floresta para caçar e obter mais alimentos. Os alimentos tinham outro gosto, dizem. O que hoje é indicado como mais saudável por médicos e nutricionistas era a comida do dia a dia de antigamente. Depois de se infectar com a COVID-19, Eline retomou uma alimentação tradicional, como a consumida em sua infância, para diminuir o uso de remédios da farmácia que precisou tomar por conta das sequelas da doença. Dentre outras coisas, ela passou a substituir o arroz por cará e abóbora, mas nem tudo há na cidade.

        Já na aldeia Aperoi, todas as famílias comem bastante farinha, feita com a macaxeira, e outros alimentos plantados nas roças, nas hortas e em seus terreiros, disse Camila, que trabalha na escola da aldeia, onde mora. Sua mãe, Hozana, explicou que antes da pandemia compravam a farinha dos indígenas Migueleno, que moram próximo aos Puruborá e também lutam pela demarcação de seu território, além da comunidade Quilombola de Santo Antônio, com quem mantêm relações de amizade e parentesco. Com a COVID-19, por medo de ir a outras comunidades e, assim, levar ou pegar a doença, deixaram de comprar. Por isso, chegaram à conclusão de que deveriam fazer sua própria farinha. O apoio para a construção da casa de farinha foi solicitado ao Conselho Indigenista Missionário (CIMI), que comprou o material e o forno para torrar farinha feita com a macaxeira da roça comunitária, tendo o apoio da Comissão Pastoral da Terra (CPT).


Casa de Farinha (Camila Puruborá)


Hozana e Bilim (Camila Puruborá)


Camila, Bilim e Jardeli. (Gisele Puruborá)


Gisele, Benício (filho de Camila) e seu pai, Gilmar (Camila Puruborá).

        A farinha é feita com a mandioca dos roçados – seja os pequenos, mantidos pelas famílias, seja a roça coletiva onde trabalham homens, mulheres e crianças. As atividades no roçado e no preparo da farinha são muito importantes para a comunidade, porque unem as famílias e as diferentes gerações. Nessas ocasiões, há muita troca de afeto e conhecimento. Camila conta que as primeiras produções de farinha foram distribuídas entre todos os moradores da aldeia, e hoje a maior parte da alimentação do povo deriva das próprias roças, do rio e do pouco que ainda ficou da floresta.

A gente come muita caça ainda e muito peixe. Aqui em casa, carne bovina e carne do mercado é muito difícil da gente comer. É mais a carne de caça, que o meu pai ainda tem a prática da caçada. Ele pesca também, e isso é muito importante, e a gente também planta as hortaliças, colhe as coisas da horta. Com a mandioca a gente faz a nossa farinha. [...] São coisas que a gente plantou e a gente está cuidando, então a gente sabe o que a gente está comendo. Isso é muito importante para nós indígenas e é muito saudável. Camila, aldeia Aperoi) 

        A alimentação é central para a produção da saúde entre as mulheres da aldeia Aperoi. Valterli, agente de saúde indígena que vive na aldeia, contou que não se contaminou com COVID-19, mesmo fazendo visitas periódicas aos parentes da aldeia. Ela explicou que não usou remédios tradicionais para prevenção porque usa o açafrão em sua alimentação diária. O açafrão é cultivado em seu terreiro e, de lá, ela colhe e faz o pó.

Eu uso muito açafrão. É quase um colorau. Eu não uso colorau na minha comida. Eu uso açafrão diariamente. Direto mesmo. É na carne, no arroz, no macarrão… direto eu como tudo com meu açafrão ali. É o meu tempero. Eu faço chá quando a gente vê que está gripado, está com a garganta doendo. A gente vai lá e faz o chazinho do limão com açafrão e alho. É tiro e queda. No outro dia a gripe já foi. Ninguém nem sabe para onde a gripe foi. Eu uso a batatinha do açafrão na água fervendo, é cozido e eu uso pó. [...] Na nossa cultura mesmo o açafrão serve para muita coisa, para muito tipo de inflamação, de infecção, ele previne malária, ele é bom para anemia. A gente tem costume de usar mesmo o açafrão. (Valterli, aldeia Aperoi).

        Durante a conversa que organizamos entre mulheres puruborá que vivem na aldeia Aperoi e na cidade de Guajará-Mirim, relatadas nesta nota, Valterli fez um convite a Eline para que passasse 15 dias na aldeia Aperoi após a pandemia.

Você vai comer cacau nativo que eu tenho aqui, eu tenho um jenipapo plantado aqui, eu tenho uma canoa beirando o meu terreiro, tem a canoa aqui para a gente pescar, prima. Os bichos estão saindo no meu terreiro, a anta está lá dentro da nossa horta comendo as nossas coisas da horta, acredita? Então tem tudo isso ainda, prima, por incrível que pareça. Falta muita coisa aqui para nós, mas nós ainda temos muita coisa aqui onde eu moro. Tem um açaí, que nós tiramos e nós mesmos fazemos. Nós fazemos o patuá [fruta de palmeira da região]. Assim que passar a pandemia, vem passar uns dias aqui para nós matarmos a saudade e você também de tudo isso que você quer comer e beber. Nós que vivemos aqui na aldeia ainda comemos bichinho do mato. A gente come pouca carne de boi. A gente come mais os bichinhos do mato e do rio, o peixe. Se a gente quer um peixe, a gente vai lá no rio e come. Os peixes já não estão mais saudáveis igual antigamente por conta do veneno das plantações do entorno que escorre para os rios. Os peixes estão com muitos vermes também, mas a gente consegue tirar. Os animais do mato a gente come muito. A minha casa é dentro do mato e a gente ainda come porcão. (Vaterli, aldeia Aperoi)

        A rede de solidariedade entre as mulheres indígenas no estado de Rondônia se fortaleceu ainda mais na pandemia e, conversando, nós mulheres puruborá trocamos conhecimentos, experiências e nos aproximamos enquanto parentas. Ainda que vivamos em situações distintas, umas na cidade, outras na aldeia, continuamos na luta pelo nosso território para que possamos ter acesso a essa alimentação saudável. Durante a pandemia, não aconteceram óbitos na aldeia Aperoi. Já na cidade de Guajará-Mirim, cinco pessoas puruborá e indígenas de outras etnias faleceram. Isso me faz questionar se essas pessoas ainda poderiam estar entre nós se tivessem acesso aos seus territórios e à alimentação tradicional. O povo Puruborá quer seu território para continuar vivo, para ter uma alimentação natural, ter acesso ao que a mãe natureza nos dá sem veneno, para usar a terra e o que ela nos concede. Para fazer uso natural de plantio, temos que cuidar primeiro da natureza. Estão acabando com ela e, assim, também ficamos doentes.

Revisada e editorada por Daniela Perutti

 

Como citar: Puruborá, Arthemiza e Sucupira, Gicele. Saúde é alimentação e território para nós, mulheres puruborá. Plataforma de Antropologia e Respostas Indígenas à COVID-19, vol. 1, n. 9, out. 2021. Disponível em www.pari-c.org. Acesso em dd/mm/aaaa.