Tão perto, tão longe: relatos de epidemias do presente e do passado no Noroeste Amazônico

por Francineia Bitencourt Fontes
31 Outubro 2021
Nota de Pesquisa

 
       Sou pesquisadora indígena, do povo Baniwa, e doutoranda em Antropologia Social pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (MN-UFRJ), nascida na comunidade indígena Assunção do Rio Içana, no noroeste amazônico. A chegada da segunda onda de COVID-19 nas comunidades da região foi um grande desafio, em que pude acompanhar de perto.

        Apresentarei a seguir entrevistas feitas na língua indígena nheengatu com meus parentes da comunidade de Assunção, tendo sido gravadas e posteriormente traduzidas para o português. Alguns dos relatos falam de uma epidemia de sarampo que ocorreu no passado. Os parentes que trouxeram essas memórias não souberam precisar em que ano ela ocorreu, mas Dona Cleomar, que hoje tem 56 anos, disse que à época tinha cerca de 12 anos. Com isso, podemos deduzir que essa epidemia ocorreu em meados da década de 1970.

        Esta pesquisa foi muito importante para perceber a sabedoria e o cuidado que temos com a nossa tradição, bem como a potência dos relatos sobre o que meus parentes viveram em pandemias de outros tempos e nos tempos atuais da COVID-19.

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        Mãyé kua uriwa iwitú rupí (“essa doença que veio pelo vento”) dizem, em nheengatu, os conhecedores da comunidade de Assunção do Içana para se referirem à COVID-19. Essa doença chegou causando muito medo nas famílias, algumas sequer se despediram de seus parentes. Muitos me perguntam: “o que foi que nós fizemos?”. O mundo está nos testando mais uma vez pelas nossas atitudes. O nosso ambiente fala, mas nem todos sabem interpretar os sonhos ou sinais. Fui conversar com os mais velhos e as sábias da comunidade. Entre choro e consolo, buscamos entender o que estava acontecendo, como superar as perdas, e relembramos de epidemias do passado. Como bem falou um sábio, “choramos junto com o mundo, choramos com a chuva, choramos com as queimadas, choramos com o desabamento de barragens, choramos por desmatamento, choramos com os animais, aves, nascentes, rios e matas”.

        Quando pensamos na conjuntura atual em que vivemos, surgem questões sobre o que pode ter causado a COVID-19. São perguntas e questionamentos feitos pelas pessoas entrevistadas. Todos nós somos protagonistas, entretanto, as mulheres tiveram um papel fundamental nos cuidados do dia a dia, das famílias e das comunidades no rio Negro. Dona Cleomar, que vive em uma comunidade do Alto Rio Negro com acesso à televisão, disse que acompanhou a chegada da doença pelo telejornal Jornal Nacional e me contou:

No início, não fiquei muito preocupada, pois vimos que estava no outro lado do mundo, muito longe de nós. Para nós, essa doença não chegaria até aqui. Do nada, ouvimos que já tinha chegado no Brasil. Vimos no jornal que não tinha muitas mortes ainda. E depois, do nada, vimos pela televisão notícias sobre muitas mortes. Com isso, ficamos assustados. Mas imediatamente entreguei nas mãos do Ñapirikoli, pedi para benzer tabaco, breu e karãnha [seiva] para nos defumar.

Antes eu não estava muito assustada. Deu medo quando soube que já havia chegado em São Gabriel [centro urbano da cidade de São Gabriel da Cachoeira]. Quando disseram que o primo do seu tio havia contraído a doença e que o mesmo havia sido encaminhado a Manaus, passou uns dias, recebemos a notícia de sua morte. Naquele momento, o medo tomou conta de mim e de todas as pessoas da comunidade. Foi quando tivemos a ideia de fazer isolamento para os nossos sítios [locais mais para dentro da mata usados pelas famílias para pesca, caça e roça], por medo. O medo tomou conta de todas as pessoas. “Vamos”, eu disse para seu tio, “vamos fazer uma barraca para nós no nosso sítio”. E fomos embora. Recebi notícia da minha filha pedindo para fazer chás e para tomarmos, dizendo que era apenas uma gripe, mas isso não me convenceu. Se fosse apenas uma gripe, não teríamos perdido tantas pessoas mundo afora.

Eu não me conformei, pois eram tantas mortes diárias, eu só conseguia pensar numa coisa. Se chegar aqui, vamos morrer todos e não vai sobrar ninguém, vamos sumir. Vimos pela televisão hospitais cheios de pacientes, eu não conseguia mais dormir de tanta preocupação e medo. (Cleomar Olímpio, 07/08/2021)

 

        Nos relatos sobre epidemias de muitos anos atrás, meus parentes disseram que as doenças pegaram todos de surpresa, pois ainda não havia meios de comunicação, como a televisão ou a rádio. Mas, em tempos atuais, a televisão foi uma ferramenta que serviu para acompanhar as notícias sobre a COVID-19. Embora sejam situações e momentos diferentes, há muitos pontos em comum, como essa ideia de doenças que “vêm através do vento”, sobre a memória de uma epidemia de sarampo. Dona Cleomar segue nos contando sobre a chegada da COVID-19, os cuidados, os deslocamentos para os sítios na floresta em busca de proteção, as trocas entre as famílias nesse tempo e a retomada de saberes tradicionais.

E eu falava: “Ñapilikoli, olha por todos nós, nos protege, seus filhos do rio Negro”. E fomos nos curando com nossos saberes, durante meses tomamos chás de proteção, eu fazia todo dia, tomava de manhã, de tarde e de noite. Só respirei e meu coração voltou ao normal quando soube que os nossos remédios estavam fazendo efeito. Isso me acalmou bastante. Eu enxerguei uma luz.

Eu senti uns sintomas leves de dor de cabeça, um pouco de mal-estar, calafrio. Todos os meus filhos tiveram esses sintomas, mas foi bem fraquinho. Não fizemos exames, mas, para os parentes [da comunidade] que fizeram teste, deu positivo. Como não havia teste rápido para todo mundo, muitos ficaram sem fazer o teste. Mas acreditamos que contraímos a doença, pois os sintomas eram iguais aos dos parentes.

Cada família da comunidade tem seus sítios próprios, onde tem suas roças, onde é lugar de pescaria do final de semana, e cada um foi se refugiar em seus sítios, em suas “barracas”, lugar seguro. Ao redor da nossa barraca [casa com cobertura de palha], tem vários tipos de plantas que fizeram parte dos nossos dias. Enquanto estávamos no isolamento, por medo de ir para a comunidade e para a cidade, teve um momento que ficamos sem açúcar, café, leite, bolacha e outras coisas. Só não poderíamos ficar sem sabão e sem sal. Mas fomos trocando com parentes que tinham esses produtos e fomos nos ajudando, não ficamos tão preocupados, pois tínhamos alimentos nossos. Com isso, tivemos que nos adaptar a uma outra situação que era valorizar nossa alimentação orgânica e voltar ao passado não tão distante. (Cleomar Olímpio, 07/08/2021)

        Dona Cleomar, com um sorriso, complementou: “meus netos não tomavam mais mingau [farinha fervida e beijú], tomavam só leite pela manhã, e eles tiveram que esquecer o leite e começaram a valorizar a nossa alimentação. E hoje eles só querem tomar mingau de goma de tapioca e comer quinhapira [alimento à base de peixe, tucupi e pimentas]”, e deu uma gargalhada. Em epidemias passadas, aconteceram situações muito parecidas, como na época do sarampo, em que os cuidados com a alimentação e a forma de cuidar do corpo eram muito rígidos como formas de proteção da pessoa.

        Os relatos da Dona Natália Martins remeteram a uma epidemia de sarampo do passado, em que ela perdeu muitos parentes. Dona Natália comparou a COVID-19 com o sarampo, pois ambas as doenças vieram através do ar e de forma bem rápida, mas marcou uma diferença entre as duas:

O sarampo foi só um mês, todo mundo pegou. Agora, a COVID-19 veio também pelo ar, mas já vai fazer dois anos e ainda continua. Essa doença vai durar quanto tempo?

        Ela disse ainda que o sarampo causava uma febre muito forte, fatal, e que os sintomas eram assustadores. E complementou:

Minha filha, além de febre forte, tinha também bolinhas que saíam pelo corpo. Eram duas coisas que nos deixavam preocupados, e a gente já monitorava o paciente. Se as bolinhas saíssem para fora, sabíamos que o parente iria sobreviver, mas caso contrário, já sabíamos que a pessoa não iria resistir. (Natália Martins, 06/08/2021)

        Comparando com os tempos atuais, Dona Natália ressaltou o papel importante das instituições, como o Distrito Sanitário Especial Indígena do Alto Rio Negro (DSEI-ARN) e a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), que estiveram na linha de frente traduzindo e explicando como eram os sintomas da COVID-19 e o que poderia ser feito para amenizá-los. Sobre a atual pandemia, ela ainda falou:

Eu tinha medo de morrer, pois eu já tenho outra doença [diabetes]. Mas nos protegemos com nossa sabedoria indígena. Tivemos muitas perdas de parentes, quando digo que perdemos muito parentes, me refiro aos outros povos, pois cada perda é uma perda coletiva. (Natália Martins, 06/08/2021)

        Nessas conversas em que se fala sobre o medo, às vezes ficamos em silêncio, pois a perda de parentes abala o coração. E, em meio a esse tom, a minha tia Cleomar voltou ao passado e relembrou do sarampo, que exterminou muitos parentes na comunidade Assunção do Içana e na região do Alto Rio Negro em geral. Seu esposo, meu tio Ivaldo Luciano, foi coveiro na época dessa epidemia de sarampo na comunidade Assunção do Içana, e estava escutando a nossa conversa. Naquele momento, ele começou a me contar: “sarampo foi que nem COVID-19, veio através do vento, foi muito rápido, éramos três pessoas que enterrávamos os mortos, meu compadre Marino, Jorge e eu”. Ivaldo disse que, por dia, morriam entre uma e três pessoas na comunidade. “Todo dia morria gente”, disse ele com voz de tristeza.

Teve familiares que perderam todos os filhos, não sobrou ninguém. Naquela época, não havia nenhuma informação sobre a prevenção e os sintomas do sarampo. Quando digo ninguém, é porque é ninguém mesmo. Sobrava só pai e mãe, com os filhos todos mortos pela doença. (Ivaldo Luciano, 07/08/2021)

        A tia Cleomar e o tio Ivaldo fizeram questão de relembrar do passado, trazendo ao pensamento todos os que foram mortos, pois a doença era cruel, não tinha dó. Além de pais que perderam todos os filhos, relembraram de parentes que perderam seus pais, irmãos, irmãs, tias, e assim por diante. Os relatos que lembram desse passado são dolorosos. Tia Cleomar falou sobre os cuidados com a casa e com o corpo naquele tempo:

Naquela época, meu finado pai fez muita questão de nos proteger de todas as formas, pois ele já havia pegado [sarampo] há muito tempo quando trabalhava nos piaçabais. Quando o sarampo chegou em Assunção, minha irmã Clara estava com quatro meses de vida. O meu finado pai fechava todos os buracos da casa com pedaços de pano, ficávamos direto dentro de casa... todo cuidado com a casa e uma alimentação de forma muito rígida. E não podíamos tomar banho. Meu pai pegava pano e água morna e limpava o nosso corpo todo. (Cleomar Olímpio, 07/08/2021)           

        A alimentação é fundamental para os cuidados com os doentes e a proteção da pessoa. Em relação ao sarampo, não era permitido consumir comida do dia anterior, mas apenas a feita na hora, pois aquela poderia ser fatal para o paciente. No caso da COVID-19, os cuidados alimentares também vão nessa linha, a comida e os remédios são para aquele momento, nada é consumido no dia seguinte justamente para prevenir o corpo da doença.

        Cleomar contou que sua madrasta foi infectada por sarampo e ela mesma, com pouca idade, tinha que cuidar dos irmãos menores durante a epidemia. Ela via a dor que sua madrasta sentia com a febre, virando-se de um lado para outro. Só comiam beiju (espécie de pão à base de mandioca) e não podiam comer peixe e nem tomar caribé (bebida à base de beiju). “Eu já era mocinha e vi com meus olhos o cuidado rígido que meu finado pai teve com a gente”. Dos seus olhos escorrendo lágrimas, lembrou da perda de sua amiga com apenas 12 anos, de febre: “o sarampo era praticamente febre”. Cleomar falou um pouco mais dos cuidados alimentares e corporais em geral, destacando a questão da temperatura:

Com isso, meu finado pai ia para as cabeceiras de igarapé pegar camarão, o único remédio. Meu pai deixava ferver e tomávamos o caldo dele, em forma de chá. Nós não podíamos tomar banho, pois a doença não permitia, e o que matava muitos parentes era a recaída, a doença não gostava da água ou coisa fria. O meu pai esquentava água para poder nos limpar, pois tínhamos muito medo, metade das pessoas já havia morrido nessa comunidade. (Cleomar Olímpio, 07/08/2021)

        Segundo meu tio Ivaldo, “o sarampo durou apenas um mês, em um mês enterrei 27 pessoas”. “É inacreditável”, disse minha tia, “pois [pouco tempo antes das mortes] tinha visto as pessoas na festa, eles haviam dançado e, quando a gente lembra do que aconteceu, não dá para acreditar”.

        Quando ouço esses relatos dos mais velhos, olho para as pessoas que hoje estão morando na mesma comunidade, algumas das quais perderam todos os filhos, e custo a acreditar que esse extermínio aconteceu um dia. E então, vem mais uma doença, a COVID-19, e penso no desespero desses pais que já passaram por muitas perdas. Perder três, cinco filhos para o sarampo é uma dor sem fim.

        Como vimos nos relatos dos meus tios Ivaldo e Cleomar, é inevitável a comparação da COVID-19 com a epidemia de sarampo tendo em vista a forma como ambas se espalharam e chegaram nas comunidades, causando mortes, sequelas e muito medo nas pessoas. Os benzedores já haviam pressentido que essa doença chegaria na comunidade, mas que ninguém morreria, pois já haviam feito o benzimento de proteção.

Antigamente, os pajés falavam: “vai chegar uma doença muito má”.  Nós não acreditávamos. E hoje essa doença chegou, que havia sido prevista há muitos anos. Quando recebemos notícias que havia vacina para essa doença, isso fez nosso coração ficar mais tranquilo, respiramos. O que nos fez sentir medo e angústia é saber que não havia vacina para isso. (Cleomar Olímpio, 07/08/2021)

        Aliado ao remédio dos não indígenas, como a vacina que tia Cleomar destacou, o conhecimento indígena na luta contra a COVID-19 formou uma rede de saberes feita pelos relatos do que viveram meus parentes; pela prática de isolamento nos sítios na floresta, morando em barracas com cobertura de palha; pelos cuidados alimentares e com o corpo que todos mantiveram, o que possibilitou estarmos vivos hoje. Nessa rede de conhecimentos, relembrar antigas epidemias, revivê-las com a memória, não foi fácil. Mas há também uma sabedoria e uma força nessas memórias que, ao lembrar dos cuidados do passado, inspiram os do presente.

Revisada e editorada por Daniela Perutti

 

Como citar: Fontes, Francineia Bitencourt. Tão perto, tão longe: relatos de epidemias do presente e do passado no Noroeste Amazônico. Plataforma de Antropologia e Respostas Indígenas à COVID-19, vol. 1, n. 9, out. 2021. Disponível em www.pari-c.org. Acesso em dd/mm/aaaa.