Minha mãe indígena, e a falta que ela faz

por Aline Regitano
07 Dezembro 2021
Nota de Pesquisa

        Conheci Iamony de luto. Havia perdido o marido há menos de um ano e estava prestes a participar da cerimônia do kaumaî, ou quarup, na versão aportuguesada, a celebração dos mortos ilustres alto-xinguanos. A aldeia de seu marido, da etnia Yawalapiti, foi a primeira que conheci, em 2015, a convite de sua filha mais velha. Foi lá que ela passou muitos anos de sua vida, dividida entre a maloca da aldeia e as casas nas cidades de Canarana (MT) e Brasília (DF). Sempre na companhia do marido, prestador de serviços da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) e liderança mundialmente reconhecida, e de seus quatro filhos.

        Em função do trabalho do companheiro, conheceu o Brasil e o mundo. E ficou conhecida também. De família de chefias mehinako, Iamony foi treinada para ser liderança desde cedo e tornou-se uma referência para seu povo. Ao casar-se e ir morar em outra aldeia, tornou-se uma chefa importante também para o povo yawalapiti. Nunca deixou, contudo, de ser uma liderança para as mulheres mehinako, ouvindo e representando suas vozes. Descobriu-se pajé já com filhos crescidos em decorrência de um longo processo de adoecimento. Apoiada pela família, enfrentou o medo, e mergulhou na transformação em pajé, passando a fumar e a ver o que antes não via. Foi quando deixou de cuidar de outras mulheres como parteira. Pajé e parteira são funções irreconciliáveis, o sangue do parto faz mal para o espírito auxiliar da pajé. O seu é Ahira, o beija-flor. Foi ele quem lhe chamou para o ofício, lhe deu ensinamentos, “energia” e um cigarro de tabaco. O seu primeiro. Hoje, quando vejo um beija-flor, é impossível não sentir a presença de Iamony de alguma maneira.

        Após voltar da minha primeira visita ao Alto-Xingu, a recebi em minha casa junto de sua filha mais nova e sua neta. Passamos uma semana juntas em um ciclo de eventos pelo interior paulista, duas palestras em universidades e uma oficina de cerâmica alto-xinguana. Filha de mãe do povo Wauja, conhecido por sua cerâmica singular, além de liderança, parteira, pajé, ela também foi uma grande ceramista. Gostava de fazer, falar e ensinar cerâmica. Alunas matriculadas, compramos passagens aéreas e terrestres para que ela viesse do Mato Grosso para São Paulo. Poucos dias antes do voo, ela caiu da rede e machucou suas costas e pernas. Cogitamos cancelar, mas Iamony estava animada para vir, seria a primeira viagem sem seu marido. Arranhou suas pernas com arranhadeira e passou remédio tradicional sobre a pele escarificada. Melhorou. Insistiu em vir, mesmo antes da filha, viajando de avião, sozinha, pela primeira vez. Aquele momento marcou o início de uma amizade e parceria que veio a florescer como eu não podia prever. Logo ela se tornou uma presença materna fundamental em minha vida, ensinou-me a ser forte, menos chorona, acreditou em mim e na nossa relação. Deu nomes para meu filho, que não tardou em reconhecê-la como atsí (avó).

        Ela queria me contar sua história, que me encantava. Estivemos juntas em Pallushayupiti, a “antiga aldeia mehinako” onde cresceu, pariu e enterrou a placenta da filha. Reencontrei Iamony em São Paulo, acompanhando suas idas à rua de comércio popular 25 de Março para comprar miçangas. Também visitamos as lojas de arte indígena de amigas que comercializavam suas peças. Passamos semanas juntas em sua casa em Canarana (MT), por longas horas sentadas em seu quintal, conversando enquanto ela fazia cerâmica. Depois, nos vimos na aldeia de seus irmãos, primas e primos. Uyaipiuku. Descobrimos juntas como fazer o que a gente fez. Era a primeira vez que eu me jogava em um exercício etnográfico daquela forma, e era uma das primeiras vezes em que ela estava na condição de quem fala, “ensina da cultura”, conta as histórias. O diário de campo logo teve todas as folhas preenchidas pela descrição de ideias, práticas, histórias e mitos. Ela era uma excelente professora, a melhor que eu poderia ter. Eu a chamava de mestra. Era exigente, comprometida, sempre a postos para se sentar em um tepí (banco) ou rede para começar a falar. Cobrava-me que eu tomasse notas e gravasse se preciso. Irritava-se quando percebia que eu tinha esquecido de algo que ela já havia explicado. Achava graça de algumas perguntas que eu fazia. Fazia piada de algumas das minhas respostas às suas perguntas. Ela era como uma biblioteca viva. Sabia de histórias que apenas algumas das mais velhas(os) também conheciam.

        Foi ela quem me ensinou tudo sobre corporalidade mehinako, gravidez, parto, cuidado. Sobre xamanismo e as transformações recentes de sua “cultura”. Sobre mulheres. Esses cinco anos de pesquisa no Alto-Xingu foram, de longe, anos difíceis. Um contexto de pesquisa espinhoso, marcado por um histórico de contato que provocou desconfiança e incerteza em relação às pesquisadoras(es). Mas ter conhecido Iamony fez tudo valer a pena. Ela era uma dessas pessoas que trazia valor para as coisas pequenas. Que valorizava muito os costumes de seu povo, a fogueira e a comida tradicional, mas que também adorava comer pão de queijo e strogonoff de frango. Que gostava de dormir na rede, mesmo na cidade, e de assistir televisão na cama, com os netos nela grudados.  Soube se apropriar da linguagem e ferramentas não indígenas, para luta e resistência, como poucas. Apesar do seu histórico de mal-estar, que sempre pareceu entrelaçado com sua condição de pajé, fez questão de compor encontros e manifestações nacionais junto de suas parentes. Na aldeia, era uma voz de sabedoria, força e estímulo para as mulheres. Lembro de sua chegada à aldeia dos seus irmãos, onde passei, naquela ida, cerca de um mês. Tão logo botava os pés ali, a casa se enchia. Primas, sobrinhas, cunhadas, todas queriam visitá-la. Chegavam então várias porções de comida das outras casas, geralmente beiju com peixe, mingau de pequi, nucaya (bebida à base da mandioca doce). O ambiente mudava com sua presença, se enchia de alegria, todas e todos queriam ouvi-la falar, contar suas histórias e fazer piadas. Para além de uma respeitada liderança política e pajé, sempre foi uma mãe e avó zelosa, tia e irmã carinhosa. De riso frouxo e fácil, senso de humor apurado e, ao mesmo tempo, decidida, sabia se colocar e manifestar suas ideias em situações diversas.

        Com o passar dos anos, vi Iamony atravessar o luto de seu marido e, com isso, se transformar. Apesar de não ter conhecido seu companheiro em vida, sinto que sei muito dele, pois estava bastante presente nas falas de minha interlocutora. Ela fazia questão de trazê-lo às conversas, sempre com muito carinho. Após a primeira fase do luto, ela teve a franja cortada. No Alto-Xingu, os cabelos indicam o momento em que a mulher está vivendo. A franja comprida marca as mulheres reclusas, por puberdade ou pela perda de algum parente próximo. Assim como uma menina reclusa corta a franja ao sair da reclusão, uma mulher enlutada tem a franja igualmente cortada, terminado um primeiro momento do luto (que geralmente dura alguns anos). Inversamente, os cabelos são cortados no início da reclusão e seguem crescendo por todo o processo. Ela respeitava muito sua condição de luto, todas as atividades que fazia eram previamente consultadas pela família de seu marido. Algumas delas Iamony nunca voltou a realizar (como transitar pelo centro da aldeia). Nesse último período de dois anos, ela estava animada, pois sairia do luto no ritual jawari, a ser realizado na aldeia do marido. Poderia voltar a circular livremente e iniciar uma nova fase. Ativa como era, gostava de se empenhar em diversas atividades. A cerâmica ocupava uma faceta essencial em sua vida, era uma artista primorosa. Produzia uma enorme quantidade de peças de cerâmica e as colocava em circulação de maneira impressionante. A liderança política, compromisso estampado em seu braço com o hipyulai (tatuagem alto-xinguana de mulher-chefa) também era uma parte importante de si. Desde as micro relações cotidianas com suas parentes, até a participação em encontros de mulheres indígenas, manifestações políticas regionais e nacionais. Eventos dos quais se distanciou no período de reclusão, e que ela voltaria a retomar passado o luto.

        A COVID-19 chegou ao Xingu de forma avassaladora. Vi de longe, aflita, a doença entrar nas aldeias mehinako. Iamony estava no Xingu quando soube dos primeiros vizinhos infectados. A dinâmica familiar das aldeias, em que uma casa é compartilhada por várias pessoas, e há o costume de visitas constantes não é favorável ao distanciamento social. Com medo, ela foi para sua casa, em Canarana, para evitar ser atingida pela onda de contaminação. Pensou ser tarde demais e que havia contraído a doença antes de sair da aldeia. Sentia o peito pesado, ficou mal, mas o diagnóstico de COVID-19 não foi confirmado. Já o de pneumonia, sim. Ficou doente por meses, se cuidando em sua casa, na cidade. Recorreu aos remédios e técnicas tradicionais, com a ajuda dos parentes que levavam até ela as ervas e raízes das florestas da aldeia e das matas nos arredores de Canarana. Não houve, nesse momento, necessidade de períodos longos de hospitalização. Para além de lidar com a própria enfermidade, Iamony tinha uma preocupação maior que a tomava por completo: o medo de perder a filha mais nova, que morava na aldeia Yawalapiti e adoeceu gravemente. Sua filha travou uma batalha contra a morte em um quarto improvisado no Polo Leonardo, no Território Indígena do Xingu, para resistir à COVID-19. Em nota de pesquisa publicada por mim e Maria Paula Prates na primeira edição da PARI-c, trouxemos o relato de Watatakalu Yawalapiti, filha mais velha de Iamony, sobre o processo de luta de sua irmã e sua escolha por ficar no Xingu, ao invés do hospital. Iamony finalmente reencontrou a filha mais nova após longos meses, quando esta foi para a cidade, já numa condição mais estável, para realizar tratamentos no hospital e reaprender a viver, a caminhar, a falar, a comer.

        Quando o projeto da PARI-c teve início, Iamony foi uma das primeiras pessoas a quem eu contei, como fazia com todos os acontecimentos de minha vida. Em nossas conversas, ela me disse estar muito aliviada ao ver a filha, e a ela mesma, caminhando para uma melhora na saúde. Quando finalmente ficou bem, entrou para a Equipe Brasil Meridional da PARI-c, onde traríamos um contraponto xinguano aos contextos de parto indígena analisados em um grupo majoritariamente guarani e kaingang. Foi no mesmo período em que ela tomou a primeira dose da vacina. Graças à vitória do movimento indígena no Brasil, que reivindicou a prioridade dos povos indígenas na vacinação. Ela me disse, entre risos, que queria ver se virava jacaré, se aparecia uma cauda (em referência à declaração do presidente da República, em dezembro de 2020, sobre a vacina da Pfizer: “Se você virar um jacaré, é problema seu”). Falava com muita sabedoria da situação pandêmica. Era crítica ao governo e à sua omissão aos povos indígenas. Conscientizava parentes sobre a importância de se usar máscara e ficar em casa, se possível. Estava bem-informada sobre o funcionamento da doença no corpo e a ineficácia de certos medicamentos para tratá-la, como a cloroquina. Sabia da força dos remédios do mato, dos conhecimentos de seu povo sobre as plantas. Sabia dos cantos, das rezas, e era uma conhecedora dessas medicinas. Tinha uma relação íntima com a floresta.

        Nossos encontros semanais com o grupo de pesquisa aconteciam em videochamada, via Google Meet. Conversamos bastante sobre essa ferramenta, sobre a pesquisa, sobre como tudo funcionaria. A cada conversa, ela trazia muitas informações sobre como a vida se passava na aldeia e fora dela. Sabia de todos os bebês que haviam nascido na pandemia e de como foram as experiências (geralmente, filhas e filhos de suas sobrinhas). Embora tenha passado a maior parte da pandemia na cidade, estava sempre em contato com parentes na aldeia, cuidando à distância. O que ela mais queria era poder voltar para lá, o tempo estendido na cidade era demais. Mas não queria ficar longe da filha, que ainda se recuperava na cidade, e por isso ficou. Antes da pandemia, ia à cidade apenas quando necessário, para realizar exames médicos ou ir ao banco. Quando possível, fazia coincidir as idas com o período chuvoso. Não gostava de ficar na aldeia durantes os meses de chuva, os raios lhe davam medo. O chuveiro na cidade era sempre frio. Sentia falta de comer polvilho e peixe, e tomar mingau quando esses faltavam. Em uma de nossas reuniões ela disse, animada, da rede em seu quarto na cidade e que em pouco tempo a veríamos falando pela chamada desde a aldeia. Estava na expectativa dessa volta ao Xingu.

        A grandeza de sua sabedoria era proporcional à sua humildade. Estava sempre pronta para aprender mais. Em nosso tempo dourado fazendo pesquisa na aldeia, conforme conversávamos e alguma informação a escapava, ela recorria aos avós para recobrar a memória, resgatar conhecimentos. Com os novos modos de fazer pesquisa, online ou “nas janelas”, como diriam as mulheres Guarani, não foi diferente. Ela estava muito intrigada em participar das reuniões, se colocar e ouvir as parentes pesquisadoras, muitas delas já conhecidas dos encontros de mulheres e manifestações políticas em Brasília, em tempos outros. Contava com a assistência do filho ou do neto para se conectar ao Google Meet, algo novo para ela, mas estava certa de que em pouco tempo estaria dominando a ferramenta.

        Tinha muito a falar, a ensinar, a trocar. Uma pajé como ela contraria a literatura antropológica que traz em seus escritos somente homens pajés. Uma pajé que desmaia, viaja, se comunica com seres outras e outros, vê e age em um mundo povoado e invisível aos demais humanos. Diagnostica e cura. Que, portanto, nada deve aos pajés homens. Sua perspectiva sobre a COVID-19, as crises climáticas, o fim do mundo, não pôde ser explorada. Não por falta de vontade sua de viver, falar, ensinar e aprender, tampouco por falta de vontade nossa de ouvi-la. Mas pelo cenário trágico de crise sanitária, econômica e política que assola o país. Mesmo com as duas doses de vacina, o inesperado aconteceu, e Iamony foi infectada.

        Foi tudo muito rápido. Na última reunião em que Iamony participou, estava na rede, doente. Insisti para que descansasse, mas dedicada e interessada que é, quis participar mesmo assim, em silêncio, na escuta. Ela estava se sentindo fraca e, nos dias que se seguiram, os sintomas pioraram. Nos áudios que me mandou, a voz baixa anunciava a dificuldade de respirar e os pulmões comprometidos. Teve febres altas, e então foi internada no hospital da cidade. Nos dias seguintes, teve piora, até que foi transferida para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do hospital municipal de Querência. Eu soube com dor que as condições do hospital em que estava eram precárias, não havia sequer ventilador. Sua família se organizou e, com a ajuda de médicos parceiros, levou ao hospital remédios e equipamentos para melhorar a infraestrutura de seu leito. Na UTI, ela não tinha acesso ao celular, tampouco a visitas. Passou os últimos dias na cama do hospital, sem contato com a família e amigos, consciente e em silêncio. Um dia antes de ser entubada, pôde ver o filho pela última vez através do vidro da sala do hospital. Com a saturação baixa, foi induzida a um sono do qual nunca mais acordou. Depois de uma leve melhora, houve uma tentativa da família de transferi-la para São Paulo, onde teria mais recursos para sobreviver à doença. Mas, como me contou com pesar sua filha mais velha, a condição da mãe desestabilizou e ela quase partiu para outro plano na pista de pouso do avião que a levaria. Teve que retornar às pressas ao hospital onde já estava internada.

        Na tarde do dia 25 de maio de 2021, Iamony partiu para a aldeia dos mortos, foi fazer companhia ao seu marido. Sua morte foi noticiada pelas mídias e sentida por diversas pessoas, admiradoras de sua pessoa e trajetória, no Brasil e no mundo. Uma figura ímpar se foi, e com ela muitos conhecimentos, técnicas e tecnologias que ninguém mais possuía. Deixou filhas e filhos, netas e netos.

        Mesmo sabendo que caminha agora por outro plano, onde a dor e o sofrimento não se fazem mais presentes, tendo o descanso merecido, estremeci e ainda estremeço com sua partida. Sua ausência fez um buraco em mim que é irreparável. Não pude continuar nas reuniões da Equipe do Brasil Meridional, abandonei o estudo de caso que elaborávamos juntas e tardei a conseguir falar e escrever sobre Iamony. Uma das últimas vezes em que nos vimos foi na Universidade de São Paulo. Ela me encontrou para pegar uns artesanatos que eu havia levado de Campinas, de um jovem alto-xinguano, e que ela venderia em São Paulo. Na ocasião, acontecia o Seminário do Grupo de Leituras em Etnologia Indígena (GLEE), coordenado pelas professoras Marina Vanzolini e Marta Rosa Amoroso. Pude levá-la para a sala do Centro de Estudos Ameríndios (CEstA), para um café. Ela achou curioso que tínhamos as mesmas bolachas Mabel que se costuma comer na aldeia, e conversou com minha orientadora Marina. Não ficou para a sessão de apresentações, pois não se sentia muito bem. Sua passagem pelo CEstA foi breve, mas marcante.

        Embora ela nunca tenha me adotado formalmente, justificado pela sua constante transitoriedade no Xingu e fora, sempre nos relacionávamos como mãe e filha. Quando eu a presenteava com vestidos no Dia das Mães ou me empenhava com cuidados à distância, e quando ela me dava um puxão de orelha ou me defendia com unhas e dentes, éramos como mãe e filha. Naquele dia, quando Marina, que também pesquisa na região do Alto-Xingu junto ao povo Aweti, contou ser filha de sua prima, ela respondeu: “Ah é? Aline é minha filha”. O que a fez concluir que Marina e eu éramos também primas.

        Sua atitude generosa foi típica de uma chefa ímpar como ela. Ao falar para Marina que sou sua filha, quis demonstrar que eu também tenho uma família e um lugar nas redes alto-xinguanas. Ela sabia que isso tem importância entre antropólogas, sobretudo entre xinguanólogas. Além disso, foi também uma forma carinhosa de firmar nossa relação. O olhar que me endereçou após a afirmação me mostrou isso.

        Sou grata por todos os minutos em que passei em sua companhia, sei que no fazer de corpos alto-xinguanos pelo cuidado, ela me formou mulher de muitas formas. Como pessoa adulta, como antropóloga, como mãe e como filha. Fui presenteada com dois sonhos-encontros com minha querida amiga-mãe. Um sonho de despedida, em que nos encontrávamos em uma aldeia ensolarada de poeira dourada, tínhamos nossa última conversa próxima da fogueira e eu assistia de dentro da casa ela caminhando para cada vez mais longe. Já em outro sonho eu a via, séria e muda, e chorava sua partida. Tenho a sorte de ver e sentir sua presença em suas filhas, minhas queridas amigas-irmãs. Mas sei que essa ausência será para sempre um espaço inocupado. Sentirei a partida de Iamony até que a minha também chegue. Sua vida será continuamente celebrada.


Manhã de entrevista na aldeia Uyaipiuku do povo Mehinako. Julho de 2017. Foto: André Regitano.


Fim do dia em Canarana/MT, queima das peças de cerâmica produzidas. Julho de 2017. Foto: André Regitano.


Tarde de conversa em seu quintal-ateliê, Canarana/MT. Julho, 2017. Foto: André Regitano.


Oficina de cerâmica na TEIA — Casa de Criação, em São Carlos/SP. Novembro, 2016. Foto: Renato Tamaoki

Revisada e editorada por Daniela Perutti

 

Como citar: Regitano, Aline. Minha mãe indígena, e a falta que ela faz. Plataforma de Antropologia e Respostas Indígenas à COVID-19, vol. 1, n. 10, nov. 2021. Disponível em www.pari-c.org. Acesso em dd/mm/aaaa.