A pandemia de COVID-19 e a produção de alimentos. O caso da Vila Tuyuka (São Gabriel da Cachoeira)

por Norma Orjuela (Somé)*
07 Dezembro 2021
Nota de Pesquisa

Colaboradores: Dulce Meire Mendes Morais e José Miguel Nieto Olivar

        Nós, do povo Tuyuka, somos parte dos 23 povos indígenas do rio Negro. Minha família vive na Vila Tuyuka, localizada na BR-307 e próxima ao cemitério da cidade de São Gabriel da Cachoeira, noroeste amazônico. Vila dos Tuyuka é o nome dado ao local em que vivemos e desenvolvemos nossa Associação Indígena da Etnia Tuyuka Moradores de São Gabriel da Cachoeira (AIETUM-SGC) formada por um grupo de dez irmãos de etnia Tuyuka e, com o passar do tempo, os parentes de etnia Tukano começaram a fazer parte de sua composição.

        Nossa família é referência em São Gabriel da Cachoeira no que diz respeito à produção de mandioca e seus derivados (tais como beiju, farinha e tapioca). Por isso, uma nutricionista que atua nas escolas municipais da cidade solicitou nossa ajuda, em maio de 2019, com o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), para entregarmos nossos produtos agrícolas para as escolas do município. No entanto, devido a dificuldades com a negociação de valores e a documentação exigida pelo PNAE, apenas em setembro do mesmo ano que os associados conseguiram participar efetivamente do programa. Nesse contrato inicial, fizemos entregas de farinha, maçoca, tapioca, goma lavada, macaxeira e verduras nos meses de setembro, outubro e novembro. Essas entregas foram e ainda são endereçadas a todas as escolas municipais da sede urbana de São Gabriel da Cachoeira. Além disso, participamos da distribuição de produtos agrícolas para o Exército Brasileiro (sede do Comando de Fronteira Rio Negro e 5º Batalhão de Infantaria de Selva).

        Aos domingos, realizamos uma feira em nossa maloca (espaço grande e aberto, com o teto de folhas de caranã — mauritia carana, planta da América do Sul) para vendermos nossos produtos advindos da agricultura familiar e, também, comidas típicas da região como o caxiri, bebida fermentada à base de mandioca; a quinhapira, caldo de peixe apimentado, a mujeca que consiste em peixe em migalhas misturado com goma de tapioca e o caldo de carne de paca. Além da realização da feirinha, utilizamos o espaço da maloca para nos reunir, dançar e compartilhar refeições.

        Esses produtos que comercializamos são produzidos em nosso sítio localizado a 40 minutos, rio Negro abaixo, de São Gabriel da Cachoeira. Geralmente, nas terças-feiras meus pais e tios se deslocam com voadeira (canoa) e rabeta (motor) para o sítio onde cada família da Vila Tuyuka tem suas casas e roças para trabalhar com a plantação de mandioca, banana, abacaxi entre outros. Através da colheita da mandioca produzimos a farinha, a tapioca, a goma para fazer beiju e o tucupi (ingrediente importante para a quinhapira). No sábado, colhem as frutas e retornam à cidade, pelo rio Negro, com todos os produtos que prepararam durante a semana. Às vezes, meus parentes vão para o sítio de ônibus que faz o trajeto de São Gabriel da Cachoeira até Camanaus, comunidade indígena e região portuária do município.  De ônibus, são 30 minutos de São Gabriel até a beira do rio, ponto em que descemos para chegarmos ao nosso sítio. Depois, temos que caminhar por uma trilha durante 25 minutos e atravessar o rio até chegarmos ao nosso destino.

        Com o Decreto municipal nº 3 do dia 18 de março de 2020, que versou sobre a proibição da circulação de pessoas entre a cidade e as comunidades e a proibição da circulação do transporte público em razão da COVID-19, meus parentes optaram por ficar isolados no sítio na primeira semana. Estávamos com muito medo e preocupados porque, de acordo com os jornais, muitas pessoas já haviam falecido no Brasil e no mundo por conta de um vírus que ainda não tinha nenhuma possibilidade de cura. Então o desespero foi muito grande porque, apesar dos conhecimentos culturais para nos proteger das doenças, este vírus era uma novidade para todos nós. Quando o prefeito da cidade decretou a proibição de aglomerações, a reação inicial foi de preocupação, pois iria afetar a venda de nossos produtos agrícolas na feirinha e essa é a principal fonte de renda da nossa família.

        Apesar do medo da contaminação, meus parentes retornaram para a cidade e não hesitaram em fazer uso de máscaras. Depois da confirmação do primeiro caso de COVID-19 em São Gabriel, no dia 26 de abril, meu tio, que é pajé, fez os benzimentos com breu branco (queima de carvão para produzir fumaça para espantar os males) e rapé (pó da mistura de folhas de embaúba, queimado com folhas de tabaco). As pessoas inalam o pó para serem protegidas. A fumaça cercou os nossos corpos para que, caso fôssemos contaminados, não desenvolvêssemos o estágio mais avançado da doença. Ao nos proteger através dos benzimentos, o pajé faz interagir o nosso nome indígena com a nossa vivência (culturalmente, temos nossos nomes associados à natureza), para que todos os seres da natureza não estranhem as nossas almas humanas.

        Por falta de medicação e de vacina para realizarmos os tratamentos, minha mãe e minhas tias começaram a fazer chás com ervas que geralmente são utilizadas para o tratamento da gripe, como o gengibre, o mel, as folhas de boldo e o capim santo. As pessoas da cidade foram comentando qual erva fazia efeito, foi uma troca de informação e de conhecimento durante todo o período de pandemia no que diz respeito ao preparo dos chás. Como a união da família é grande, cada vez que meu tio fazia os benzimentos, nos reuníamos para inalar o rapé e cheirar a fumaça do breu branco, tomar o chá e nos proteger.

        Inclusive, quando um dos padres da cidade foi infectado, a minha tia, que trabalha como doméstica, decidiu cuidar dele, dando-lhe dos nossos chás e, com isso, ele foi melhorando aos poucos. No início de maio de 2020, apresentamos alguns dos sintomas da COVID-19, no entanto, não tinha como sabermos se estávamos de fato contaminados pelo SARS-CoV2. Alguns apresentaram sintomas bem leves, como se fosse uma gripe ou um resfriado. Na segunda semana de maio de 2020, eu apresentei um sintoma diferente, tive uma forte dor no peito que perdurou por alguns dias. Como trabalho na cidade junto com pessoas brancas da área da saúde, fui até o Hospital de Guarnição (administrado pelo Exército Brasileiro) para saber se poderia fazer o teste da COVID-19 e, assim, tomar os cuidados para proteger meus parentes da Vila. No entanto, me informaram que os únicos que poderiam ser testados eram as pessoas idosas e aquelas que apresentavam sintomas graves da doença. Falaram que os sintomas que eu apresentava não eram graves, então, apenas recomendaram cuidados como o isolamento domiciliar e o uso de máscaras.

        Apesar das recomendações e da importância do isolamento domiciliar, nós, moradores da Vila Tuyuka, temos uma convivência de muita união. Nossa Vila é constituída por aproximadamente 50 pessoas (adultos e crianças) distribuídos em oito casas e, como mencionado, nos reunimos constantemente na maloca para compartilharmos nossos alimentos. Sabendo da minha situação de saúde, minha mãe retornou do sítio para me oferecer cuidados como a ingestão de chás e benzimentos.

        Como não conseguimos fazer os testes, só acreditávamos que alguém estava com COVID-19 quando perdia o olfato ou o paladar. Imagino que tenha sido dessa forma para a grande maioria dos moradores da cidade. Esses sintomas foram aparecendo entre os moradores da Vila entre maio e novembro de 2020 e, hoje, acreditamos que todos fomos infectados. Alguns inclusive apresentaram esses sintomas mais de uma vez durante o ano de 2020. Apesar de termos perdido duas pessoas de nossa família em quase dois anos de pandemia (uma, inclusive, havia testado positivo para a doença), nenhuma foi causada pela COVID-19. Não apenas os sintomas faziam com que acreditássemos que havíamos contraído a doença: alguns dos moradores da Vila conseguiram realizar o teste no Hospital de Guarnição. Meu pai fez o teste na segunda quinzena do mês de maio; meu cunhado, que trabalha como mototaxista na cidade, foi testado em junho; minha tia em julho; já eu consegui realizar o exame apenas no mês de setembro, assim como minha sobrinha de três anos. Todos os testes foram positivos para a COVID-19.

        Por mais que na maioria de nós os sintomas não tenham sido graves, eles influenciaram a disposição e o ritmo de trabalho agrícola. Entendemos que dores de cabeça, fadiga e problemas de pressão são algumas das sequelas da COVID-19 que os moradores da Vila desenvolveram. Em junho de 2020, ao voltar ao trabalho desenvolvido na roça, muitos de meus tios que haviam sido infectados sentiam-se cansados e não conseguiam ficar trabalhando muito tempo debaixo do sol. A dinâmica de produção foi, inevitavelmente, diminuindo.

        A ameaça de contaminação pelo vírus fez com que minha família circulasse menos entre a cidade e o sítio para a produção de nossos produtos e isso interferiu na nossa organização para atuarmos na feirinha e no PNAE. Tivemos que adiar algumas entregas, previstas para março, abril e maio de 2020 para o mês de junho. Isso influenciou diretamente no nosso pagamento.

        Durante a vigência do Decreto que visava o fechamento de todos os locais que produziam aglomerações de pessoas, a nossa feirinha ficou fechada. No início de agosto, quando a situação foi melhorando, os estabelecimentos de vendas começaram a abrir e voltamos a vender nossos produtos seguindo todos os protocolos da saúde: com o uso obrigatório de máscaras tanto para os vendedores como para os clientes. Nesse período, os feirantes foram proibidos de produzir o caxiri para evitar o seu consumo que é culturalmente  realizado pelo compartilhamento de uma mesma cuia.

        Um outro tio que faz parte do Conselho Municipal de Saúde (CMS) estava bem-informado sobre as decisões protocolares de segurança que vinham sendo tomadas em relação à COVID-19. Então, ele imprimiu alguns papéis com as medidas de prevenção divulgadas pela Secretaria Municipal de Saúde e os colou em um pequeno mural na maloca para que todos que chegassem à feira também pudessem se informar.

        Quando o sistema de saúde do município entrou em colapso, no primeiro mês de pandemia na cidade, a equipe dos Médicos Sem Fronteiras chegou à região para atuar em um centro de referência da COVID-19 e, no mês de agosto, visitou a Vila. Aproveitando o momento, o meu tio os convidou para realizarem uma palestra a respeito dos cuidados preventivos e sintomas da doença, o que ocorreu na semana seguinte. Além da palestra, os médicos trouxeram kits de higiene com uma escova, um creme dental, uma barra de sabão, um sabonete e duas máscaras de pano. Além disso, doaram uma caixa de sabão e máscaras para todos os que estavam participando da palestra e, por fim, fizeram uma doação de baldes improvisados com torneiras para que pudéssemos lavar as mãos. Esses baldes são como pequenas caixas d'água e foram colocados nos três cantos de maior acesso da nossa maloca. Essa ação foi bem importante e necessária, e até hoje utilizamos esses baldes durante a venda de nossos produtos, aos domingos.

        Devido ao fechamento da feira durante três meses, tivemos dificuldades em conseguir os alimentos para o sustento da família e, por sermos indígenas, em agosto de 2020, recebemos cestas básicas do Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro (DMIRN) por meio da campanha “Rio Negro, nós cuidamos!”. As cestas foram entregues junto com a distribuição da cartilha “Violência doméstica e violência sexual em tempos de pandemia – redes de apoio e denúncias: você não está sozinha!”, elaborada pelas mulheres do DMIRN, pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública (FSP-USP), Instituto Socioambiental (ISA) e, especialmente, pela minha irmã Florinda, moradora da Vila Tuyuka.

        Outras organizações também nos ajudaram com cestas básicas, como a pastoral da criança e a Fundação Nacional do Índio (FUNAI) por meio da articulação de uma vereadora da cidade, nossa parente. Essas doações foram feitas porque sabiam da situação dos moradores da Vila Tuyuka que estava comprometida, bem como de diversos outros feirantes da cidade, por conta das medidas sanitárias para o enfrentamento à COVID-19. Essas doações no período inicial da pandemia foram fundamentais para os moradores da Vila porque sem as vendas de nossos produtos na feirinha, a nossa alimentação (feijão, arroz, leite, café, macarrão) estava comprometida.

        No início de 2021, recebemos mais um empenho do quartel da cidade, que solicitou macaxeira e farinha. A entrega dos produtos do PNAE foi temporariamente paralisada devido à renovação do projeto, mas reiniciada no mês de agosto. Recentemente, fomos procurados pelos dirigentes do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE) em parceria com o Programa de Regionalização da Merenda Escolar (PREME), que solicitaram a entrega de farinha branca, verduras, banana, abacaxi entre outros produtos agrícolas. Recentemente, fizemos a reforma da nossa maloca e voltamos a ter um ritmo de produção para garantir as vendas de nossos produtos. A feirinha voltou à normalidade, com o atendimento aos clientes e algumas pessoas mais cuidadosas continuam com o uso da máscara. No final de 2021, o nível do contágio foi amenizado e, por isso, a maioria dos cidadãos deixaram de usar máscara.

        No dia 12 de julho de 2021, os moradores da Vila Tuyuka, acima de 18 anos receberam a primeira dose da vacina AstraZeneca e para a maioria foi aplicada a segunda dose no mês de outubro. Todos os integrantes da família tomaram a vacina a não ser aqueles que estavam com malária.Isso foi possível porque meu tio do CMS articulou-se com os profissionais para que fossem até a Vila realizar a vacinação dos parentes que estavam com dificuldades de se deslocarem até a UBS por causa das atividades agrícolas e até mesmo pela falta de hábito de frequentar uma instituição de saúde.

* Norma Orjuela, do povo Tuyuka, é auxiliar de dentista e moradora de São Gabriel da Cachoeira

Esta Nota de Pesquisa também contou com o apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) através do projeto de auxílio regular: “Através do limite: diferenciação, relação e práticas de cuidado em contextos críticos na fronteira amazônica: ênfase em sexualidade, gênero, ciclos de vida e etnia” (processo n. 2019/01714-3).

Revisada e editorada por Daniela Perutti

 

Como citar: Orjuela, Norma. A pandemia de COVID-19 e seus impactos na vida dos moradores da Vila Tuyuka (São Gabriel da Cachoeira). Plataforma de Antropologia e Respostas Indígenas à COVID-19, vol. 1, n. 10, nov. 2021. Disponível em www.pari-c.org. Acesso em dd/mm/aaaa.