A persistência rionegrina: vivências e as gerações que virão

por Elizângela da Silva Costa
07 Dezembro 2021
Nota de Pesquisa

Colaboradores: Dulce Meire Mendes Morais e José Miguel Nieto Olivar

        Como as corredeiras rionegrinas, as nascentes dos rios, igarapés e lagos, nós, povos do rio Negro, seguimos como uma plantinha que resiste para viver, crescer, florescer e nos tornarmos frutos que alimentam os seres vivos desse planeta.

        A pandemia de COVID-19 veio para dizimar. Hoje, podemos visualizar as suas consequências nas políticas públicas, que encontram-se infectadas e desorganizadas. Ela vem causando descontrole e destruição na humanidade, deixando marcas além da morte. Como sempre, as famílias de baixa renda são as mais prejudicadas, e os povos originários tornam-se os mais vulneráveis. O custo de vida pós-pandemia-com-a-pandemia (porque ainda estamos vivemos a pandemia) cresce de forma descontrolada, ampliando a fome e o desemprego, com preços abusivos de produtos em distintas regiões do país. Para nós, no rio Negro, o alto preço da gasolina é um exemplo, pois o acesso ao nosso território, realizado por via fluvial, as nossas atividades políticas e de trabalho dependem de muita gasolina para fazermos o translado entre as comunidades, territórios indígenas e a cidade.

        Vivemos um tempo cheio de escuridão, medo, desespero e preocupação, não sabemos como serão as nossas vidas depois de passarmos os momentos mais agudos da pandemia. Vimos que ela continua destruindo as nossas vivências, que há séculos foram se consolidando por meio de interculturalidades que foram impostas a nós, povos originários. Há 521 anos, passamos por processos de colonização que nos impõem a interculturalidade, deixando-nos cada vez mais próximos de uma sociedade cheia de malícias e desafios, por exemplo, o trabalho de proteger a natureza da destruição, poluição e invasões dos territórios. E essa pandemia atualiza a civilização — processo em que nós, povos rionegrinos, sofremos muitas mudanças em nossas culturas, línguas, mitos, formas de organização social. Percorremos diversos momentos nos quais fomos obrigados a aprender a cultura dos colonizadores. Principalmente para nós, mulheres indígenas, que ficamos com o dever de repassar tudo o que aprendemos para as gerações mais jovens, não foi fácil falar o português, escrever, conviver com novas formas de existência humana colonizadoras. Mas nós, mulheres indígenas, persistirmos há décadas em nossos conhecimentos, não deixamos de repassar o que a nossa ancestralidade nos deixou, criamos estratégias de resguardo e de luta, para que a nossa geração não se esqueça de nossa identidade cultural, para que as nossas raízes não desapareçam.  Tudo o que temos hoje é resultado de muitas lutas, resistências e estratégias de resguardo das nossas práticas, como mitos, culturas, conhecimentos ancestrais, lendas, artesanatos.

        Nós não estamos de braços cruzados; aos poucos estamos retomando as nossas lutas, criando estratégias de vida para além da COVID-19. Mais uma vez, mostramos que nós, mulheres indígenas, não ficamos olhando a maldade da morte chegar em nossas casas, em nossos territórios, em nossas famílias, sem reagir. As nossas vivências foram utilizadas para a proteção da vida, como os nossos Cestos de Conhecimentos, que se manifestaram durante o aparecimento da COVID-19, se fortalecendo até essa data. 

        Vemos que hoje a solução é nos adaptarmos a um conjunto de cuidados como o uso da máscara, o distanciamento social, o uso dos chás tradicionais (nós, povos indígenas, só tomamos os chás quando estamos doentes, mas com a pandemia passamos a ingeri-los antes mesmo de contrair a doença).  Precisamos tomar esses cuidados em nosso favor, compartilhar os conhecimentos indígenas nas mídias, contar histórias, falar nas línguas indígenas, fortalecer a educação escolar indígena, a saúde indígena e os empreendedorismos indígenas, conforme os Planos de Gestão Territorial Ambiental das Terras Indígenas (PGTAs) e os protocolos de consulta de cada povo. Porque não devemos apenas dizer sim para as mudanças advindas com a pandemia, mas também implementar criativamente os conhecimentos indígenas em favor do bem viver, para que possamos superar os seus impactos.  

        Os povos do território do rio Negro criaram estratégias de retomadas para poder existir. Tivemos que nos adaptar às pequenas e grandes mudanças causadas pela pandemia, tais como o uso de máscaras, os processos de autocuidado com uso do álcool em gel e a lavagem das mãos, que foram os métodos “oficiais” mais utilizados por nós. Já no âmbito da educação, aqui no município de São Gabriel da Cachoeira, passaram a ocorrer aulas online nas comunidades. Além disso, o funcionamento de estabelecimentos como bancos, hospitais, casas lotéricas e setores públicos, foram alterados pela pandemia.

        As nossas ancestralidades indígenas são como vasos sanguíneos que correm em nossas veias, por isso, resistimos para além da COVID-19. Nós, mulheres rionegrinas, procuramos atuar com respeito e com a finalidade de transmitir nossas culturas e ensinamentos por meio da oralidade e em momentos rituais como o Kariamã. Os ensinamentos do bem viver indígena — que inclui ter um território onde possamos construir as nossas vidas conforme a nossa organização social — não são encontrados em livros, jornais, escolas e universidades porque são transmitidos por pessoas mais velhas de um determinado território.

        Por isso, hoje falamos que nós mulheres estamos compostas por interculturalidades, cheias de conhecimentos, porque vimos que durante a COVID-19 podemos aprender umas com as outras. Principalmente o compartilhamento das plantas medicinais, os chás, os banhos, que foram de suma importância para o nosso pós-pandemia-com-a-pandemia.

        Tivemos momentos de lágrimas que se transformaram em brotos de flores para muitas mulheres, porque elas passaram a cuidar de si mesmas, de seus territórios e comunidades. Muitas vezes os homens não mostravam interesse por esses cuidados, apenas se assustavam quando alguém falecia. 

        Muitas pessoas no rio Negro se recuperaram da COVID-19 porque fizeram o preparo e o uso de plantas medicinais. A recuperação dos parentes nos deixa alegres e também mostra que nossos cuidados tiveram efeitos positivos em nossos territórios. Foi por meio de nossos conhecimentos que buscamos a proteção e o resguardo de nossas famílias.

        Saber de inúmeras mortes de pessoas que viviam em grandes cidades, com plano de saúde individual, acesso aos melhores hospitais, com uma renda acima de um salário mínimo (com uma vida bem diferente da nossa) nos causou medo e desânimo. Muitos dos programas de governo não atendem as nossas necessidades, sobretudo nas áreas de saúde e educação. Logo vimos que somos a classe mais vulnerável, os primeiros a serem dizimados pela COVID-19. Porém, isso não aconteceu, pois durante a pandemia o desânimo se transformou em recomeço.   

        Isso porque nossos sentimentos se ampliaram e dissemos sim à vida e não à morte; os nossos corações de mulheres ampliaram cada vez mais para acolher, compartilhando os ensinamentos e as palavras de conforto que surgiram em meio aos desesperos e silêncios de agonia. Aos poucos, o desespero se transforma em alegria que contagia as vidas que estão enfrentando a doença, até o momento em que se diz: “eu consegui vencer a COVID-19”, principalmente quando se combateu o vírus com os conhecimentos indígenas. A pandemia não nos paralisou, pelo contrário: ela fez com que pudéssemos lutar pela vida. O desejo de viver foi mais forte do que o vírus. 

        Nós, mulheres indígenas de várias etnias, nunca deixamos de orientar e repassar os ensinamentos ancestrais para os mais jovens. As nossas vidas indígenas têm uma ligação forte com o território; por isso tivemos forças para combater a COVID-19. Essa atuação e experiência bem-sucedida no rio Negro teve a participação da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), cujo departamento de comunicação, através de carro de som e radiofonia, realizou uma mobilização para divulgar informações sobre a pandemia para os moradores da cidade e das comunidades indígenas. As notícias e informações foram transmitidas em português e em algumas das línguas indígenas da região (baniwa, nheengatu, tukano). Confeccionamos banners, cartilhas e áudios para ajudar na conscientização da população da cidade e das Terras Indígenas. Tudo isso foi feito pensando em salvar vidas.

        Os nossos líderes da FOIRN, aqui conhecidos como “diretores de referência”, foram de suma importância ao ajudarem na distribuição de cestas básicas, juntamente com os setores de mulheres e jovens da Federação. Tudo isso pensando no bem-estar das famílias nos territórios indígenas para que elas não descessem à cidade, evitando a proliferação do vírus. Durante as viagens aos territórios para a distribuição de alimentos, pudemos perceber o forte uso dos conhecimentos indígenas, como as plantas medicinais retiradas da floresta, as folhas para defumação e os banhos. A vontade de chegar nos territórios indígenas era tão grande que nem pensamos em corredeiras, cachoeiras, chuvas e pequenas estradas para carregar as cesta básicas, materiais de higiene, máscaras, cartilhas e banners para nossos parentes. O desejo de cuidar foi maior que o medo e a aflição que sentimos por causa do vírus.

        Todas essas ações fazem parte da campanha “Rio Negro, nós cuidamos”, criada pelo Departamento de Mulheres Indígenas da FOIRN, que tem como objetivo atuar em favor do coletivo, garantido a segurança alimentar, o direito à informação e a promoção da saúde aos 23 povos indígenas do rio Negro. Através de organizações parceiras (Instituto Socioambiental, Greenpeace, Amazônia Viva, Fundação Estadual do Índio, entre outras) pudemos melhorar a infraestrutura da saúde nas Terras Indígenas e fortalecer as comunidades no enfrentamento à pandemia com cestas básicas, profissionais de saúde e equipamentos de proteção individual.

        Para as mulheres indígenas, foi um recomeço de viver a sua interculturalidade. O aparecimento da COVID-19 entre os povos originários reacendeu laços de fortalecimento da cultura, trocando ideias, sementes e saberes de revoluções indígenas. As trocas de conhecimentos foram inúmeras, tivemos que pensar no bem do coletivo sem nenhuma distinção. 

        A parceria com essas instituições e também com universidades como a Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP), a Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), a Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e a Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) foram fundamentais para a divulgação de nossos trabalhos e, com isso, tivemos grandes doações de alimentos e de dinheiro. Esses recursos adquiridos pela campanha foram distribuídos para as Terras Indígenas Yanomami, Cue-Cue Marabitanas, Alto Rio Negro, Balaio, Médio Rio Negro I, Médio Rio Negro II, Uneuixi e Jurubaxi-Teá. Além disso, a parceria com o Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) foi fundamental, porque tivemos profissionais de saúde que atuaram no território indígena de sua origem, tendo contato com as famílias na própria língua, para que a conscientização de prevenção à COVID-19 pudesse ser melhor entendida.

        A persistência rionegrina requer a retomada das políticas públicas que foram infectadas pela COVID-19, reacendendo as chamas, revivendo e se readequando aos setores que foram paralisados pela pandemia. Precisamos continuar abordando temas relevantes às mulheres, falando da experiência vivida com a COVID-19, para que possamos enfrentar outras situações similares a dessa pandemia. Não podemos deixar que outros vírus nos machuque tirando as nossas vidas, precisamos encontrar novas formas de resistir.

        Esse novo tempo requer novas maneiras de compreender que tudo está em movimento, em transformação. Que possamos nos adequar às mudanças sem que as gerações futuras percam a linhagem de nossas ancestralidades, para que as nossas histórias possam ser contadas de geração para geração. O vírus trouxe esse outro lado para nós: onde não existe amor, que leve o amor; onde existe discórdia, que leve a união; onde há medo, que leve a alegria (referência à oração para São Francisco de Assis). Que saibamos que, se estamos vivos, é porque tivemos participação nisso para podermos contar nossas histórias.

        Aos poucos, estamos voltando com nossas atividades, que foram paralisadas: as rodas de conversas, oficinas, formações e capacitações em prol de nossos territórios indígenas e de nossas casas. Os Planos de Gestão Territorial são as ferramentas que temos hoje para ajudar na reestruturação de nossos territórios. Dentro desse plano, uma das reivindicações é a ”geração de renda” ou ”empreendedorismo indígena”. Hoje, pós-pandemia-com-a-pandemia, é de suma importância para a nossa vivência conhecer os nossos direitos, porque temos muitos problemas sociais, como violência contra a mulher e invasão de Terras Indígenas. Esses problemas são anteriores à pandemia e persistem até hoje, trazendo insegurança e preocupações para os povos rionegrinos. Para isso, precisamos retomar as ações que foram adormecidas com o aparecimento da pandemia de COVID-19.

        Isso requer estratégias, mobilizações, fortalecimentos e intercâmbios do viver para o bem viver. Não podemos ficar apenas na teoria, precisamos colocar em prática tudo o que lemos, escrevemos, pensamos, sentimos, olhamos, ampliando as nossas buscas por uma vida digna perante os desafios mais cruéis da humanidade.

        Hoje, vivemos um cenário político racista onde a crueldade fala mais alto. Hoje, a política do governo federal de não demarcação de Terras Indígenas é perversa para nós. A PL 490/07, junto com a tese do Marco Temporal, entre outras que transitam no Congresso Nacional, são uma ameaça à nossa existência. Na educação, existe corte de verbas, na saúde falta de organização dos governos no combate à COVID-19 e demais doenças. Eu sei disso porque fui criada numa sociedade na qual a lei é feita para poucos. Nós, as populações indígenas, os negros, os afrodescendentes, os que vivem nas periferias e favelas, precisamos estar sempre nos manifestando e mobilizando para sermos ouvidos e para que as leis funcionem para nós.  O capitalista é o controlador dessa sociedade, os governos não são a voz do povo; quem manda hoje no governo é quem tem dinheiro, não os eleitores. Não há, portanto, democracia justa e igualitária. 

        Assim, seguimos procurando o nosso bem-estar. E o bem-estar significa o bem viver indígena, a busca de novas ideias que fortaleçam as nossas caminhadas, sem distinguir as pessoas que habitam esse planeta. Novas ideias, gerações que virão. As nossas crianças, adolescentes e jovens, que estão passando por essa pandemia, que buscam sobreviver à contaminação do vírus, são as raízes que contarão nossas histórias de resistência, nossos modos de organizar e preparar as barreiras sagradas com o uso das plantas, sementes, folhas e raízes. As gerações que virão são os resguardos das sabedorias indígenas contidos no interior das matas, rios, igarapés, montanhas e lagos sagrados, os berços das nossas origens. Essas são as gerações que virão, que contarão essa história e que a perpassarão de geração em geração.

Revisada e editorada por Daniela Perutti

 

Como citar: Costa, Elizângela da Silva. A persistência rionegrina: vivências e as gerações que virão. Plataforma de Antropologia e Respostas Indígenas à COVID-19, vol. 1, n. 10, nov. 2021. Disponível em www.pari-c.org. Acesso em dd/mm/aaaa.