A linguagem da natureza e os conhecimentos indígenas: questionamentos do cacique kaingang Dorvalino Refej Cardoso no contexto da pandemia de COVID-19

por Pedro Paulo Valerio Vaz, Sergio Baptista da Silva e Dorvalino Refej Cardoso
07 Dezembro 2021
Nota de Pesquisa

        O depoimento de Dorvalino Refej Cardoso exposto a seguir foi gravado em 28 de outubro e 3 de novembro de 2021. Na primeira ocasião, o doutorando em antropologia social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Pedro Paulo Valerio Vaz, e a liderança kaingang realizaram uma conversa pela internet. Já na segunda ocasião, Sergio Baptista da Silva, professor de antropologia da UFRGS, também estava presente. Os comentários entre as falas da liderança kaingang foram redigidos por Sergio e Pedro, de modo a expor os eixos por onde as palavras de Dorvalino se deslocam e tramam, como ele mesmo diz, uma “grande teia de aranha”. Além disso, a ideia é de somar informações acumuladas em um encontro realizado anteriormente, no dia 11 de setembro de 2021, onde estavam presentes Pedro, Sergio e Ana Letícia Meira Schweig, também pesquisadora da PARI-c.     

        Dorvalino é liderança, professor e mestre em Educação pela UFRGS. Mora na emã (Terra Indígena) Por Fi Ga, em São Leopoldo, Rio Grande do Sul, onde atualmente é cacique. Ele está presente em inúmeras frentes do movimento indígena, principalmente na luta pelo direito a uma educação própria, comunitária, baseada nos princípios do jykre (pensamento, filosofia, cultura kaingang) e pela autonomia de suas escolas.

        Suas lutas, que no momento também envolvem a demanda por políticas que levem em consideração as concepções kaingang de saúde, doença e processos de cura, estão centradas na defesa do respeito às lógicas cosmológicas e ontológicas de seu povo, que conectam, nesta “grande teia de aranha”, os seres e eventos do cosmos kaingang.

        Depoimento de Dorvalino Refej Cardoso:

Pedro:  Por Fi Ga é a aldeia? É o nome?

Dorvalino: Sim, é Por Fi Ga, e tem uma história por trás!  “Por Fi’ é a Tovaquinha [espécie de ave] do mato, e “Ga”, daí seria terra. Traduzindo, é: “Terra da Tovaquinha”. Isso porque, quando os índios moravam na beira do rio dos Sinos, sempre tinha esse bichinho ao redor, junto com a comunidade, e quando fazia a farinha no pilão, com milho torrado, o pixé que eles dizem. Aí, quando caía fora do pilão, esse bichinho vivia juntando os farelinhos do milho que caem fora do pilão, quando está socando com a mão de pilão. E esse animalzinho, na época da colonização, quando eles viviam abrindo a mata para botar os trilhos aqui em São Leopoldo, esse animalzinho, quando estava aproximando pessoas estranhas, vamos dizer, os brancos, aí esse bichinho vinha avisar a comunidade que estava vindo gente estranha, aí eles já sabiam. Era assim, um animalzinho que avisava a comunidade quando era uma pessoa estranha que estava se aproximando.

Pedro: Avisavam como?

Dorvalino: Eles sabiam a linguagem dos animais, sabe? É que nem o cachorro! O cachorro late quando está vindo um estranho para o dono, para estar avisando o dono que está chegando gente. E aí ele late para o dono, é essa linguagem. Tipo do cachorro, é isso que esses animais faziam. É que os índios, também eles eram donos do mato, então tudo que vivia no mato, eles sabiam a linguagem, dessas coisas da floresta. Todos os tipos dos animais, das árvores, então eu escrevi na minha dissertação: linguagem da natureza!

        A natureza sempre ocupa um espaço prioritário na abordagem do professor kaingang. No caso, o próprio nome da aldeia é relacionado à comunicação entre o pássaro Tovaquinha, de nome científico Dichrozona cincta, e os Kaingang. É assim também que Dorvalino explica seu nome kaingang: “Refej é a flor da macega. Ela seca e nunca cai, nunca quebra, está sempre de pé”, diz ele, enfatizando a durabilidade que as potências desse ser trazem para seu corpo e pessoa. Mas ela também é uma “planta cortadeira. Ninguém bota a mão nela”, referindo-se às suas folhas compridas que cortam dos dois lados e que remetem à incorporação, através do nome, das propriedades de proteção presentes na flor da macega (Cortadeira selloana). O professor kaingang continua:

Eu sempre falei que o aprendizado do ser humano vem da natureza! Por isso que eu sempre falei, a gente tem muito plágio, a gente quer se “adonar” [ser dono] do conhecimento da natureza, e isso é pecado. Ou seja, a gente quer se “adonar” da sabedoria de Deus e da natureza, então eu sempre bato muito forte em cima disso, porque eu sempre falei que o meu conhecimento não vem de mim, alguma coisa, sim, vem de mim! Esses conhecimentos, tu és o autor desses conhecimentos, mas quando tu estás transmitindo um conhecimento, tu não és dono daquele conhecimento!

Então muitas vezes a universidade não se dá conta disso, e aí as pessoas se “adonam” do conhecimento, dizendo que esse conhecimento é deles, mas não é deles! E eu dei aquele exemplo, de que eu também pesquisei a Lurdes, a Nïpre [moradora da terra indígena em São Leopoldo]. Daí a minha orientadora disse: “Mas tu tens que colocar o nome dela, como referência”, como ela passou esse conhecimento para mim. Daí eu falei para minha orientadora: “Sim professora, mas esse conhecimento também não é dela, vem dos antepassados, e os antepassados pegaram esse conhecimento com a natureza”.

Então onde é que está a origem do conhecimento? Eu sempre falei que, eu sou só um transmissor do conhecimento do meu povo, mas não que o conhecimento é meu.

        Como Dorvalino explica, a questão da “linguagem da natureza” é um obstáculo para a ideia de propriedade intelectual estabelecida pela academia, pois o modo de transmissão de conhecimento dos Kaingang está alicerçado em uma produção que parte da relação com diversos seres que existem no cosmos, tanto humanos, quanto para além dos humanos, extra-humanos. Em suma, para os Kaingang, o processo de produção do conhecimento envolve múltiplas relações entre uma miríade de seres.

Dorvalino: Antes que eu me esqueça, a gente estava mês passado fazendo... fazendo não, estava pronto! O regimento da SESAI [Secretaria Especial de Saúde Indígena]. Mas você acredita que não tem uma vírgula garantindo que tem que haver atividade cultural nesse documento? Eu fiquei muito surpreso.

Pedro: Como assim? Não entendi.

Dorvalino: Não tem nem um parágrafo dizendo que tipo de cultura vai prevalecer. Eu não vi nem um parágrafo sobre isso dentro do documento da SESAI. Daí eu disse, eu comigo: mas o que adianta pensar em cultura, pensar nos kiki, pensar nos encontros nos kujà, pensar no trabalho da p?j? Não tem nenhum parágrafo falando isso!

Então, quem está discutindo hoje a saúde indígena são as pessoas leigas. Olha, eu não conheço um funcionário da SESAI que saiba me dizer: a saúde indígena é assim! Eu não consigo encontrar, essas pessoas têm que passar por uma formação. Como dizia o Pedro Garcia (xamã kaingang): o professor bom tem que ter passado por nós, porque nós somos os professores! Ele está coberto de razão, esses professores que te formam para você trabalhar na saúde indígena, para trabalhar com educação indígena, tu não vais encontrar na universidade. Não tem lá! Então os professores, os médicos indígenas, estão pelas aldeias, só que a política ignora essas pessoas, e isso me deixa muito triste.

Nem sequer lembrar do SUS [Sistema Único de Saúde] específico. Bom, quando você fala de saúde específica, o SUS também tem que ser específico! Para você não precisar entrar na fila para fazer um transplante. Para fazer isso, para fazer aquilo, entendeu? É um SUS público, sim! Mas quando ele fica público, tu tens que entrar na fila de espera para fazer um atendimento, e você sabe que para a ONU [Organização das Nações Unidas], está bem certo, está bem claro, que o índio ele é prioridade, o índio tem que ser atendido prioritário! Mas enquanto não tiver um SUS específico, tu não consegues isso. A turma [da] SESAI, eles não enxergam isso, mas o problema é que a política sobre saúde indígena, ela cai de paraquedas dentro da comunidade.

A política da saúde indígena, ela é pensada pelos brancos, pelos políticos, e daí tu deves estar engolindo, eu não consigo engolir isso! Mas a maioria [dos] que estão na SESAI, que são funcionários, eles engolem tudo isso, e sempre vão estar em confronto. Eu disse para o outro gestor passado, vocês podem discutir 200 anos a saúde indígena, sempre vai ter problema.

Porque nós não temos pernas para estar discutindo saúde indígena, quem tem perna para discutir são os pajés, são os kujà (xamã), são as parteiras, são os anciões. São os raizeiros. Sabe, eu me sinto criança diante dessas pessoas que tem cem, cento e poucos anos, que eles devem discutir saúde indígena. Eu me sinto uma criança. Onde é que está o respeito com essas pessoas? Não se tem nenhum respeito!

É isso que eu estou vivendo, que eu estou enxergando dia a dia, e me deixa muito incomodado. Por que, na nossa cultura, eu já falei, na nossa cultura quem tem voz ativa é quem tem mais de 60 anos. Quem tem menos de 60 anos, se ele achar que é sabido, ele está desrespeitando as pessoas de 80, 90, 100 anos.

Então, por isso que as coisas não dão certo, a política indígena nunca vai dar certo por isso! Por que a gente começa a engolir a política que é criada pelos políticos, e nós temos a lei 231 [artigo 231 da Constituição Federal Brasileira] que deixa bem claro: você tem que ser respeitado do seu modo de viver, e o seu jeito de se organizar. Isso está claro para a ONU! Só que os meus índios, meus colegas, meus parentes, eles não se dão de conta das coisas, e eu enxergo muito isso.

Eu, Pedro, eu critico as coisas, isso o Sergio Baptista sabe. Eu critico as coisas, critico, mas eu dou a solução. O crítico tem que ser assim, o crítico tem que criticar, mas também tem que dar a solução, não é só criticar e ficar de braços cruzados.

Então não me adianta falar, de dizer que precisa ter um hospital indígena hoje no Brasil, porque em outros países tem! Sabe? Por que isso? Vamos aproveitar as ervas medicinais, porque o que está na farmácia, ela está na natureza. É só você ir buscar e ir fazer. Eu falei, na reunião da SESAI, eu disse: olha, a educação indígena avançou muito, mas tem muito o que avançar. E quem ajudou a fazer essa mudança foi eu, eu estou tentando agora fazer essa mudança também na saúde, mas está difícil, tem gente muito crua nesse assunto. Porque para você mudar uma coisa você tem que dominar aquela política. Se não você não consegue fazer nada, aí você só critica e deixa sem solução.

        O cenário exposto por Dorvalino aponta para o problema de uma política de saúde voltada para os Kaingang que é planejada sobretudo por pessoas não indígenas, em que os “professores” indígenas têm pouca, ou mesmo nenhuma, influência, sejam os kujà, que são os xamãs (humanos que possuem relações estreitas com alteridades extremas, que são seus guias espirituais) ou os p?j (pessoas com nomes provenientes das duas metades cosmológicas, Kamé e Kainru, e que possuem força e poder de proteção para atuar principalmente nos ritos funerários). Kamé e Kainru são heróis civilizadores que deram origem aos coletivos kaingang e que designam as metades da aldeia de mesmo nome. Essas metades têm uma envergadura cósmica entre os Kaingang, dividindo todos os seres nele existentes, humanos e extra-humanos, e regulando todas as relações que nele acontecem.

        E na mesma reunião de setembro, a liderança indígena expôs sua solução para o problema da exclusão do conhecimento kaingang nas políticas públicas de saúde indígena, que é a criação de um hospital indígena. Dorvalino reivindica a criação de um hospital onde sejam os “médicos indígenas” que trabalhem, e onde os médicos brancos possam aprender com os “professores” kaingang. Um hospital onde existam os remédios dos indígenas e os remédios dos brancos, lado a lado, e onde os conhecimentos indígenas possam ser desenvolvidos. Quanto ao modo de utilizar os remédios indígenas, Dorvalino comenta sobre a importância de se respeitar o modo kaingang de produzir remédios.

Dorvalino: [O remédio] não pode ser patenteado, é o que tem acontecido muito. Por que não adianta patentear? Por que não adianta você fazer um remédio e levar para a farmácia? E outra, por que tu não tens que plantar remédio para colher, para curar os enfermos? Porque se tu fizeres tudo isso, perde o valor. Tu tiras uma planta lá do mato e bota no teu quintal, ela perde o valor.

Então, o horto medicinal, fazer horto medicinal, ele não tem o valor de cura, mas sim para um estudo das ciências. Porque se tu vais colher a erva para curar um enfermo, tu tens que ter uma comunicação com a erva. os antigos conversavam com a erva. Eu tenho um filme feito, que o Pedro Garcia (xamã kaingang), ele até falava com a água que ele ia cozinhar, que era para a água ajudar o remédio, e o remédio ajudar a água. Uma coisa complementando a outra para curar um enfermo.

Então é assim que funciona. A gente não vai colher a erva em qualquer hora. A gente vai colher a erva porque a erva tem vida. Você tem que conversar com ela! Isso a ciência não leva em consideração, mas quando a gente leva em consideração o espírito, a gente tem que se comunicar. Porque a terra tem espírito, as árvores, os rios, a lua, o sol, tudo que Deus criou tem espírito. É isso que a ciência não leva em consideração, e nós levamos. Porque então, se não existisse espírito, nós não viveríamos.  

Pedro - Os médicos por exemplo, os brancos, pelo que você sabe, eles respeitam, eles reconhecem os cientistas indígenas?

Dorvalino - Eu acho que nem o branco, nem o médico e nem a ciência chegou a se dar conta que existe isso. Porque, o pajé, ele faz uma cura espiritual, porque quando eu falo de doenças indígenas e doenças dos brancos, eu estou querendo que cada um assuma o seu papel. Porque tem a doença branca, que é do médico branco, e tem a doença indígena, que é do indígena. E a cura a essas doenças dos indígenas, e pode ser até do branco, ela é descoberta [de forma] muito oral. Quando eu falo da oralidade, ali é a doença espiritual, falei na última vez, que todas as coisas têm um espírito, das coisas boas, e tem os espíritos das coisas malignas. Tudo isso tem os seus espíritos, eu não sei se a ciência entende que existe espírito.

Revisada e editorada por Daniela Perutti

 

Como citar: Valerio Vaz, Pedro Paulo; Cardoso, Dorvalino Refej; Baptista da Silva, Sergio. A linguagem da natureza e os conhecimentos indígenas: questionamentos do cacique kaingang Dorvalino Refej Cardoso no contexto da pandemia de COVID-19. Plataforma de Antropologia e Respostas Indígenas à COVID-19, vol. 1, n. 10, nov. 2021. Disponível em www.pari-c.org. Acesso em dd/mm/aaaa.