O novo coronavírus no sonho de um Hoohodene

por Afonso Fontes
07 Dezembro 2021
Nota de Pesquisa

Desenho artístico: Joelmara Cardoso Fontes
Colaboradores: Ilda da Silva Cardoso, João Vianna e Bruno Marques

        Eu me chamo Afonso Fontes, sou do povo Baniwa, com nome Kamida, pertencente ao clã Hoohodene (conferir ao final do texto nota sobre esse clã). Sou formado em Sociologia, o que me fez despertar para a sabedoria do meu povo. Sou filho do senhor João Fontes, com nome em Hoohodene Tterewa, um mestre nas danças tradicionais wanaapani, kottiroapani e um grande iñapakaita (benzedor). Ele era um grande conhecedor, com ele aprendi muitos saberes tradicionais, principalmente o ritual do meu povo, na comunidade.

        Meu primeiro conhecimento foi saber ouvir e, depois, pôr em prática. Assim, desempenhei vários trabalhos práticos, sem teorias. Primeiro de tudo, por meio de oralidades, ouvi dos meus mestres as mais belas yanhekhetti (sabedorias) do meu povo, que descrevo a seguir:

  • Ñapirikoli: pai das sabedorias e dos conhecimentos tradicionais, das artes, artesanatos, pinturas, plantas medicinais, plantas comestíveis, plantas cosméticas, é a origem do conhecimento de cura. Nasceu e se criou dentro do osso (por isso seu nome é Ñapirikoli), sem ninguém perceber que ele existia. Ele cresceu com sabedoria e inteligência, pronto para enfrentar os seus inimigos.

Dzooli: dono do benzimento, da terra, das plantas, da água e o senhor do tabaco. Foi irmão de Ñapirikoli, juntos eles cresceram com sabedoria e inteligência.

  • Amaronai: são quatro mulheres tias de Ñapirikoli e Dzooli. Elas foram perseguidas até a morte por Ñapirikoli por terem roubado seus instrumentos sagrados. Foram também donas de conhecimentos tradicionais como petroglifos, artesanatos, plantas medicinais, cerimônias, rituais e benzimentos. São quatro mulheres que são tias de Ñapirikoli e Dzooli. Elas foram perseguidas até a morte por Ñapirikoli por terem roubado seus instrumentos sagrados.
  • Kowai: foi uma pessoa como nós, humanos, filho de Ñapirikoli com Amaro. Dono dos conhecimentos tradicionais para fazer o bem e o mal, a vida e a morte. Ele traz a vingança para a humanidade e ao mesmo tempo a protege, ensinando a vencer e a fazer a derrota. Após sua morte, Kowai deixou as partes de seu corpo como matéria-prima (animal, vegetal e mineral), instrumentos sagrados (japurutu, cariçu, maracá, surubim, ambaúba etc.), instrumentos musicais dos não indígenas (de percussão, sopro e cordas) e equipamentos feitos nas fábricas (televisão, eletrodomésticos, armamentos, máquinas etc.). Tudo isso faz parte do corpo de Kowai e existe até hoje. Quando Amaro pariu Kowai, ele começou a chorar de modo diferente dos bebês de hoje em dia. Ñapirikoli percebeu que Kowai era diferente e estranho, por isso resolveu mandá-lo morar em outro espaço, no outro mundo.

***

        Vejo as realidades que acontecem e que até hoje carregamos conosco. Esses conhecimentos e ensinamentos são nossos valores, fatos reais e sociais, com eles os povos vivem em harmonia para o seu bem viver. Temos o conhecimento como dádiva de Ñapirikoli, Dzooli, Amaro e Kowai.

        Em março de 2020, o Jornal Nacional (telejornal exibido à noite no Brasil pela TV Globo, com grande audiência em território nacional) noticiou o surgimento de uma doença, a COVID-19, que se originou na China e veio matando muitas pessoas no mundo. Sem que nós percebêssemos a sua chegada, aconteceu o primeiro óbito de um professor da cidade de São Gabriel da Cachoeira. Então, ficamos isolados tanto no centro urbano do município como no interior (comunidades nas Terras Indígenas). Àquela altura, o vírus já devia ter se espalhado em cada bairro da cidade e nos sítios na floresta. Eu não estava preparado. Com o primeiro caso em São Gabriel da Cachoeira, a cidade ficou em silêncio. Logo depois, quando percebi, comecei a sentir uma dor horrível, causando mal-estar e dor de cabeça. Fiquei sem vontade de comer, com nariz entupido e uma dor apertando meu tórax, febre forte, diarreia, falta de ar, dores musculares e tosse constante.

        Passou uma semana, eu já estava bem fraco, com muitas dores e dormi durante o dia, de dia mesmo. Em meu sonho, apareceu o senhor Dzooli, o dono do benzimento. Sua voz me avisava que, se eu não tomasse cuidado, naquele dia eu iria morrer, e me mandou olhar aos dois lados: direito e esquerdo. Quando olhei, notei duas bolas no ar se aproximando de mim, mas não eram bolas normais, pareciam frutas biribá, bolas marrons com pontas de lança afiadas em sua superfície.


Fruta biribá-sonho

        Ao despertar nesse mundo, eu ainda estava me queixando, muito fraco, com dor apertando o peito, falta de ar forte e com o meu coração se agitando. Eu não tinha mais forças, voltei a dormir, e o Senhor Dzooli apareceu novamente no meu sonho, dizendo:

        – Corte estas dores com o Dzooli imaipere.

        Isto é, ele disse para cortar com seu terçado (facão), indicando, no meu sonho, uma sacola pendurada na parede. Parecia uma sacola pendurada com o terçado dentro, mas, na verdade, o Dzooli queria falar do benzimento de cura (dos cortes que o benzedor faz através das palavras no benzimento contra a doença).

        E disse ainda:

        – Lembre-se da história que foi falada. Lembre-se do Kowai, teste o seu conhecimento. Agora é a sua vez de se curar. Lembre-se do Kowai, lembre-se do Kowai, lembre-se do Kowai.

        Ao mesmo tempo, essa era a voz do finado meu pai, João Fontes, pois, muitas vezes, foi com ele que eu ouvi histórias antigas e reais, histórias do Kowai e das vinganças dele para a humanidade de hoje, além de aprender muitos benzimentos de cura.


Desenho com o corpo de Kowai tal como apareceu no sonho de Afonso

        Ao despertar para esse mundo, comecei a meditar sobre o sonho, sobre o que eu ouvi. Eu estava fazendo um quebra-cabeça, em busca das “palavras-chave” e das “palavras geradoras”, possibilitando a produção de um novo benzimento que pudesse proteger dessa doença até então desconhecida, a COVID-19. Eu pesquisei nas histórias antigas, que também foram pesquisadas pelos antropólogos que passaram nas mãos dos mais antigos e nas mãos dos pajés, e realmente encontrei esse formato de desenho: o corpo do Kowai. Cada parte do seu corpo mostra as doenças que ele deixou, para a vingança contra a humanidade. Aqui vou representar, em forma de desenho, elementos invisíveis que são partes do corpo de Kowai e que estão dentro da pessoa doente, provocando os sintomas.

  1. A primeira é haikoita, uma lança de madeira que vem espetando o tórax da pessoa, provocando sintomas de falta de ar e dores horríveis no peitoral.


Madeira normal


Madeira cortada com terçado de Dzooli

  1. A segunda lança é yopinai, que são insetos como o cupim grande de três cores (vermelho, preto e branco), cupins pequenos de três cores (vermelhos, pretos e brancos), aranha, formiga, formiga de fogo, tocandeira, escorpião etc. Esses insetos são os piolhos de Kowai, e os olhos das pessoas comuns não podem vê-los. Só os conhecedores, os benzedores e os pajés percebem quando eles estão devorando o organismo das pessoas com a COVID-19, provocando sintomas de falta de ar, dores musculares, dor de cabeça, canseira, garganta entupida e tosse constante. Os yopinai também são causadores de doenças como reumatismo, paralisia etc.


Yopinai - insetos/ piolhos de Kowai


Yopinai cortado com o terçado de Dzooli

  1. A terceira lança é iraidalemi, que significa hemorragia, provocando sintomas de diarreia, dores no abdômen, fraqueza e diarreia com sangue. São cipós que eram a saliva do Kowai.


Iraidalemi


Iraidalemi cortada com terçado de Dzooli

  1. A quarta lança é walama, que são as talas com pontas afiadas, que provocam sintomas de falta de ar, canseira constante, dor de cabeça, paralisia, cegueira e ataque cardíaco.


Walama


Walama cortada com terçado de Dzooli

        Todos esses elementos são invisíveis, as pessoas comuns não conseguem enxergá-los, no entanto, eles são graves causadores da doença do novo coronavírus e, por isso, o benzedor precisa destruí-los com o benzimento. Para tanto, ele utiliza o terçado do senhor Dzooli. Esse terçado é uma palavra mágica do benzimento para tirar do corpo do paciente todos os sintomas. Através do benzimento, lembramos sempre do terçado de Dzooli.  Devemos cortar esses piolhos, flechas do Kowai, com o terçado de Dzooli, começando pela cabeça, saliva, garras, dentes, flechas e língua das parasitas.

        Depois, é preciso trazer a alma do paciente para esse mundo, pois ela está perdida, resgatando a pessoa doente, que está muito fraca e debilitada, da beira da morte. Assim, ele volta a respirar e a viver nesse mundo, o mundo dos Medzeniakonai-Walimanai (os nascidos, a nova geração). Todo benzimento tem sua origem. No caso, o benzimento vem de Kowai. Quando alguém que está doente procura o benzedor, este começa a indagá-lo sobre o que está sentindo. Através disso, o benzedor invoca os demiurgos Kowai, Ñapirikoli e Amaro. Eles, por sua vez, virão para atender ao pedido do benzedor pensando no paciente.

        Para fechar o benzimento, é preciso esfriar o corpo da pessoa doente com orvalho de arú (dokomeanai), orvalho da estrela (hiwirhi), orvalho da estrela horizonte (waliw).  E o benzedor utiliza também as doçuras das frutas, o caldo de cana-de-açúcar e o mel de abelhas. Para fazer esse tipo de cura, algumas bebidas são essenciais para o benzimento da alma, para aliviar a garganta, matando o vírus que causa a tosse constante, e para acalmar as dores do corpo do paciente: líquido doce de mel de abelha, suco de frutas naturais e chá caseiro ou xibé (farinha de mandioca com água). Esses líquidos matam o vírus da garganta que causa a tosse constante.

        Nas falas dos benzedores durante o benzimento, são importantes as frutas doces para curar os doentes, frutas de tamanhos grandes e pequenos, como a laranja, o caju, a karrapaa, o umiri, o abiu, a cucura etc. Nas falas, há também flores como as da árvore de jawakana, bem doces. Além disso, há nos benzimentos a doçura do mel de vários tipos de abelhas, grandes e pequenas, de cores marrom, preta e azul, até chegarmos, no benzimento, à cidade das abelhas. Depois vem o tabaco, que é o principal pilar do humano: sempre está junto de todo o benzimento.  Por meio de benzimento, entregamos as bebidas invisíveis para o paciente se fortalecer e para resgatar a sua alma. E então continuamos levando a alma do paciente, chegando ao lugar onde ocorre a finalização do benzimento, chamado edainai na língua baniwa (“banquinho”, em português). Ali, juntamos todo o suco de frutas e o oferecemos para beber. Com a fumaça do tabaco, tiramos a tristeza, os pensamentos pesados, as dores, a agonia. E, assim, o paciente volta consciente e recuperado. Podemos usar também gel massageador para tirar as dores do corpo, do tórax, diminuir o cansaço e a dor de cabeça.

        No benzimento, quando resgatamos o paciente grave, vamos levando seu corpo ou alma para o banco que Ñapirikoli se sentou. Nesse banco mágico, toma-se o doce do mel e das frutas. O benzedor invoca em nome de Dzooli, de Ñapirikoli e de Amaro. Quando o benzedor termina de narrar sobre o doce das frutas e do mel, o banco estará magicamente doce. O paciente chegará ao banco e o benzedor o deixará sentar, e, assim, ele imediatamente estará curado, esquecendo todo o sofrimento que passou.  O tabaco é fundamental para a proteção da alma, a fumaça de seu cigarro cerca e protege o corpo do paciente contra as enfermidades malignas. E assim, os benzedores podem deixar os pacientes sentados nesse banco mágico para aliviar as dores.


O cigarro

        Depois de utilizar essas palavras mágicas e o terçado mágico para cortar, o paciente volta a respirar e recuperar a saúde. Esse é um benzimento básico para matar os sintomas causados pelo novo coronavírus, curando o paciente, e que pode demorar uma semana. Por fim, digo ainda que, para as pessoas que estiveram comigo em tratamento no período da pandemia, o resultado foi positivo.

        Os donos de benzimento (Ñapirikoli, Dzooli e Amaro) exigem do paciente uma gratificação para invocar seus nomes espirituais para fazer a cura. Quanto maior for a gratificação, melhor e mais rapidamente o paciente é curado. Se não tiver nada, também não há resultado. É assim na vida dos Medzeniakonai-Heriene (Filhos do Sol).

* * *

Sobre os Hoohodene

        Segundo a mitologia dos Medzeniakonai (os que nasceram junto com o conhecimento), o clã Hoohodene surgiu por causa de um pássaro chamado hóholi (inambu), que foi a cabeça do clã. Ele, na saída do Barco dos Nascidos (Hico Itaninaa), cantou uma canção cuja letra era: hohodeni... hohodeni... hohodeni... Atrás dele vieram saindo os humanos. Ñapirikoli, ouvindo essa melodia, chamou-os de Hoohodene no dia em que saíram do Barco em Hipana, na cachoeira de Uapuí. Na nossa mitologia, todos os clãs receberam dois nomes de Ñapirikoli quando saíram do Barco de Nascimento. O meu clã recebeu o nome de Hoohodene, devido à melodia do Instrumento Sagrado (há uma flauta ritual com o nome de Inambu) e Heriene, pois avistamos a direção do sol no momento da saída do Barco. Por isso, posso dizer que sou Hoohodene Heriene.

Nota de João Vianna

        Afonso Fontes, Kamida, 57 anos, é um homem baniwa do clã Hoohodene, professor de sociologia licenciado pela Universidade Federal do Amazonas e iñapakaita, benzedor. Nasceu na comunidade de Seringa-Rupitá, às margens do igarapé Waranã, afluente do rio Aiari, na bacia do rio Içana, situado na região do Alto Rio Negro, noroeste amazônico brasileiro. 

        Afonso ainda jovem saiu de sua comunidade para estudar nos internatos missionários salesianos, em uma trajetória comum a muitos indígenas da região do Alto Rio Negro que buscavam a educação escolar. Quando ele se casou com sua esposa Ilda Cardoso e nasceram suas filhas, sentiu a necessidade de cuidar de sua família com os saberes tradicionais baniwa, do qual seu pai era um grande conhecedor. Por essa razão, começou a “estudar” os benzimentos, lembrando das histórias que sempre ouviu desde criança e procurando a interlocução mais estrita sobre o assunto com seu pai, ainda vivo na época, e outros benzedores do povo Baniwa.

        Benzimento é uma “encantação” ou “cântico”, como se denomina na literatura antropológica, ou então, uma “oração” ou “reza”, como também são designados em português na região do Alto Rio Negro. Cada benzimento possui um conjunto de versos poéticos, ou fórmulas xamânicas, que são entoadas pelos pajés e benzedores. Esses especialistas xamânicos não improvisam as fórmulas de uma encantação, não se trata de entoações espontâneas, de modo que cada um deles possui um repertório próprio de benzimentos que reúnem durante toda a vida a partir da aprendizagem com os seus parentes mais velhos. Em determinado momento, tais saberes são repassados aos mais jovens. Nesse repertório xamânico dos benzedores, há idealmente um benzimento específico para cada tipo de doença que se pretende curar, bem como para as mais diferentes situações, por exemplo, a preparação para um ritual, a proteção antes de uma viagem longa, a proteção antes de abrir uma nova roça ou para evitar fenômenos climáticos adversos, como uma chuva torrencial. Os benzimentos podem ser muito curtos, com quatro versos entoados rapidamente, mas também muito longos, exigindo do benzedor uma dezena de horas para a sua entoação completa, como no caso daqueles que preparam os jovens para os rituais de iniciação.

        O benzimento de que nos fala Afonso não constava anteriormente no seu repertório ou no de seu pai e nem no de nenhum outro benzedor, justamente porque a COVID-19 é uma doença nova. Isso fez com que ele buscasse por um benzimento apropriado. Assim, por meio deste relato que nos foi oferecido generosamente por Afonso, podemos saber que os benzedores, além de herdarem repertórios de seus parentes mais velhos, podem aprender “novos” benzimentos partir do contato onírico com os demiurgos e com os ancestrais. Afonso contou-nos como aprendeu o benzimento contra o novo coronavírus a partir de um sonho que teve quando acometido por essa doença, na comunicação com o demiurgo Dzooli e com seu pai já falecido.

        É a partir disso que acompanhamos Afonso apresentar-nos o benzimento contra a COVID-19. O leitor deve ter notado que as “falas dos benzedores”, como Afonso nomeia a poética dos versos que compõem os benzimentos, não é evidente nem para as pessoas baniwa que não são xamãs, e menos ainda para os não indígenas. Isso ocorre porque, em grande medida, o benzimento pressupõe mundos invisíveis não ordinários que são um testemunho de que os xamãs observam aquilo que os olhos comuns não enxergam. Assim, consideramos que esse texto é parte do esforço de Afonso para revelar aspectos invisíveis da COVID-19, provocando em nós, ialanawinai (não indígenas), uma nova percepção e sensibilidade a respeito do cosmos, pela revelação da sobrenatureza da pandemia.

Revisada e editorada por Daniela Perutti

 

Como citar: Fontes, Afonso. O novo coronavírus no sonho de um Hoohodene. Plataforma de Antropologia e Respostas Indígenas à COVID-19, vol. 1, n. 10, nov. 2021. Disponível em www.pari-c.org. Acesso em dd/mm/aaaa.