Artista gráfico, Xadalu Tupã Jekupé fala das imagens que ilustram a PARI-c

por Cristiano Navarro
30 Abril 2021
Entrevista

Convidado para representar em imagens a Plataforma de Antropologia e Respostas Indígenas à COVID-19, o artista visual autoidentificado como mestiço e pesquisador da PARI-c Xadalu Tupã Jekupé se utiliza da serigrafia, pintura, fotografia e objetos para expor tensionamentos entre as culturas indígenas e a sociedade envolvente.

Em diálogo com as aldeias, a obra de Xadalu, frequentemente exposta em galerias de grandes centros urbanos, é resultado das vivências nas aldeias e das conversas com sábios em volta da fogueira. Essas pontes produzidas pelo artista podem ser compreendidas como potentes recursos contra o apagamento das culturas indígenas no Rio Grande do Sul.

As imagens criadas e selecionadas para essa plataforma de pesquisa remetem ao universo simbólico mbya e buscam uma relação com o tempo de pandemia. Nesta entrevista, Xadalu nos conta um pouco sobre essas obras e suas expectativas com a realização da pesquisa para a PARI-c.

 

Cristiano Navarro: Eu gostaria que você falasse das obras que estão na plataforma. Como foi a pesquisa para realizá-las? E o que significam?

Xadalu Tupá Jekupé: A criação das artes vem muito ao encontro do trabalho que eu tinha feito em conjunto com cacique Cirilo (Mburuvixá Tenondé Cirilo Karai). A principal delas é uma escultura em 3d que depois transformei para pintura digital . Então ela fala muito sobre isto que a gente está passando hoje, que é uma lenda do Apyka, e como o Papa Tenondé criou o mundo a partir da sua primeira vinda para a Terra. Então, ali a gente consegue ver que dentro da pintura ela tem as terras, que são as aldeias indígenas que funcionam como ilhas, e a transformação das terras que caem do céu e flutuam sobre a água no primeiro momento, antes da chegada do Papa Tenondé. E uma das coisas mais poéticas, além das aldeias, é que ali flutua numa relação da terra com o espírito Apyka, que é o banco do pensamento. Esse banco é onde o Deus Supremo, Papa Tenondé,  veio até a Terra pra construir a primeira morada celestial. E esse banco, que representa muita coisa, foi feito junto com o Ariel Ortega (cineasta, artesão e pesquisador guarani PARI-c) e existe na forma física no meu ateliê. Então, esse é um banco de duas cabeças, onde uma cabeça aponta para o passado e a outra para o futuro e no meio, onde se senta para pensar, é o presente. Então, ele liga o passado, futuro e o presente.  E esse globo que seria a Terra, que tem embaixo do banco, é o nosso momento atual. Ele está concentrado no meio, e a gente vê que os grandes refúgios, a grande salvação, são as comunidades que estão ali espalhadas. Aqueles desenhos existem como pedaços de territórios que desenhei a partir de uma pesquisa que fiz.

Cristiano Navarro: Você poderia falar da logo marca da PARI-c?

Xadalu Tupá Jekupé: Para a logomarca da PARI-c, eu me baseio no conceito de termos muitas pessoas que formam uma unidade para criar algo, para pensar e para refletir. E eu usei uma tipografia sem serifa, mas feita à mão, que é algo bem orgânico, bem solto. Dessa maneira que vejo o projeto sendo feito por diversas mãos. Há também uma casa que, se a gente for olhar de maneira contemplativa, a gente vê que é uma casa do saber vista de cima. A casa do saber é onde as pessoas se encontram pra poder discutir coisas e refere-se muito aos encontros das comunidades, um lugar do intercâmbio onde se troca muito pra apreender algo e evoluir as ideias. Dentro do telhado da casa a gente vai ver que tem quatro anéis mais grossos que são a forma de sustentação da casa. Estes anéis são nossos grupos que realizam os estudos de caso. Então a logo é a casa do saber com o telhado e toda essa sustentação do conhecimento pra deixar a casa em pé e pra fazer as coisas fluírem.

Cristiano Navarro: Como e em que a pandemia afeta sua arte?

Xadalu Tupá Jekupé: O que posso falar de mim é que acho que a pandemia afetou muito mais o lado espiritual. Porque semanalmente estava na aldeia, e a aldeia estava aqui na minha casa. Então a gente tem uma relação muito próxima, de parentes mesmo. E dialogando com o cacique Cirilo, acho que o tempo parou para podermos ver quais são as pessoas que conseguem respeitá-lo. Foi um momento em que tudo parou, e a gente teve que respeitar o espaço de tempo pra continuar vivo e também não prejudicar as outras pessoas. E a minha imersão no ateliê vinha acontecendo antes da pandemia, então desse mau momento eu consegui tirar uma coisa boa que é mergulhar cada vez mais naquilo que eu faço e aumentar a qualidade e profundidade do trabalho e trabalhar outras camadas. Então, nesse período, de alguma maneira, consegui desenvolver com mais profundidade o meu trabalho, enxergando de um ponto de vista diferente que é o de respeitar ainda mais o espaço de tempo.

Cristiano Navarro: Em que medida você acredita que a PARI-c pode colaborar com artistas indígenas e suas interpretações sobre a realidade em que eles estão inseridos?

Xadalu Tupá Jekupé: Parto do princípio de que o projeto da PARI-c é uma grande mistura de etnias, de culturas, procurando um lugar de pensamento. E nesse lugar as ideias vão ser expostas não só para indígenas, mas também para brancos e pessoas de outros lugares. Então essa interlocução de intercâmbio cultural de conhecimento, acho que ela é uma grande receita pra o resultado ser muito bom. E à medida que a gente se insere em num modo de integração, não de inclusão. Integração onde todo mundo participa, eu acho que isso já é um bom sinal de que as coisas vão ser diferentes. Vão sair de uma maneira que as outras pessoas vão poder apreciar esse trabalho. É um trabalho feito a muitas mãos. Muitos pesquisadores, muitos artistas, porque a arte faz parte da vida do indígena. Então acho que tem tudo pra poder ter bons resultados e a gente mostrar o trabalho pra o mundo, ainda mais neste momento.